2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-EMPÍRICA
2.1 GESTÃO INTERCULTURAL EM EMPRESAS
2.1.1 Origem e conceitos de empresas multinacionais
O estudo sobre EMNs tem se concentrado em grandes corporações. Porém, os baixos custos da tecnologia e transportes têm impulsionado o processo de internacionalização de empreendimentos com limitados recursos, indo na contramão da história (OVIATT; MCDOUGALL, 2005).
O modelo multinacional é um fenômeno relativamente recente, sendo que a maioria das EMNs se expandiu após a segunda guerra mundial (BARTLETT et al., 2004).
Nesta época, as EMNs passaram a se multiplicar e ter um peso expressivo nos negócios internacionais (MARIOTTO, 2007). Embora as empresas internacionais já existam há séculos, o cenário atual demonstra o início de uma nova era na economia global em que as atividades de produção e distribuição mundiais são
impulsionadas pelo “grande número de joint ventures internacionais, fusões e aquisições multinacionais e alianças estratégicas globais.” (ADLER, 2008, p. 8, tradução nossa).
Os estudos sobre EMNs eram praticamente inexistentes até 1960, a partir dos anos 1970 os pesquisadores da área organizacional passaram a se interessar pelo tema e as pesquisas multidisciplinares se tornaram relevantes (MARIOTTO, 2007). No entanto, a recente inovação tecnológica e a presença de um número crescente de pessoas com experiência em negócios internacionais estabeleceram novas bases para as empresas multinacionais (OVIATT; MCDOUGALL, 2005).
A literatura aponta para algumas distinções entre os tipos de organizações internacionalizadas (BUENO, 2010). Bartlett e Ghoshal (1992) apresentam sua distinção entre os tipos de organizações internacionalizadas com base em suas capacidades estratégicas-chave, diferenciando-as em organizações multinacionais, globais e internacionais, conforme QUADRO 1.
QUADRO 1 – CAPACIDADES ESTRATÉGICAS CHAVE: COMPANHIAS MULTINACIONAIS,GLOBAIS E INTERNACIONAIS FONTE: BARTLETT; GHOSHAL (1992, p. 22).
Bueno (2010), compilou as diferenças apontadas por Bartlett e Ghoshal (1992), no que tange à centralização ou descentralização de poder, conforme apresentado no QUADRO 2.
QUADRO 2 – DEFINIÇÃO DE ORGANIZAÇÕES EM PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO uma dependência total na relação entre subsidiárias e matriz.
Organização Global
Implica em um grau de integração funcional entre as atividades econômicas dispersas. Ela consiste em um eixo central que controla a maioria dos ativos e das decisões e onde se buscam as economias de escala obtidas pela integração e padronização mundiais.
QUADRO 2 – DEFINIÇÃO DE ORGANIZAÇÕES EM PROCESSO DE
É um conjunto descentralizado de ativos e responsabilidades que proporciona respostas às diferenças locais, ao contrário da organização global.
Organização Transnacional
Junção do que funciona no tipo global e no multinacional. É aquela que congrega a capacidade de resposta local em uma estratégica global.
FONTE: BARTLETT; GHOSHAL (1992).
Borini e Fleury (2010) adotam em seu estudo o tipo de organização multinacional, apontada por Bartlett e Ghoshal (1992) e Bueno (2010), e desenvolvem as distinções deste tipo de organização internacionalizada. A primeira distinção apontada refere-se à origem da matriz, sendo ela: multinacionais tradicionais, que são as multinacionais com internacionalização mais antiga, caracterizadas em geral pelas multinacionais oriundas de países desenvolvidos dos continentes norte-americanos e europeus, além das provenientes do Japão; e as multinacionais emergentes, que são as multinacionais de recente internacionalização, em especial as multinacionais originárias da Indonésia, Turquia, África do Sul, México e as do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).
Outra distinção, apontada por Borini e Fleury (2010) é baseada nos modelos gerenciais das multinacionais. Segundo os autores, o modelo gerencial adotado pela equipe multicultural tem impacto direto no desenvolvimento ou transferência de competências, na autonomia, integração e iniciativa entre matriz e subsidiárias, conforme QUADRO 3.
QUADRO 3 – MODELOS GERENCIAIS DE MULTINACIONAIS
(continua) Fatores do
modelo Multidoméstica Global Transnacional Metanacional
Integração
QUADRO 3 – MODELOS GERENCIAIS DE MULTINACIONAIS
(conclusão) Fatores do
modelo Multidoméstica Global Transnacional Metanacional
Orientação FONTE: BORINI; FLEURY (2010, p. 581).
Oliveira Jr e Borini (2012) ampliam o debate, apresentando três perpectivas, apontadas pela literatura, para explicar o papel desempenhado pelas subsidiárias das EMNs, sendo elas: (a) a perspectiva do determinismo ambiental, na qual a EMN opera em diferentes ambientes estratégicos e, de acordo com as características locais, cada subsidiária executa estratégias diferentes; (b) relação entre empresa-mãe e suas subsidiárias, na qual a importância da subsidiária é determinada por decisões da matriz no que tange sua estrutura, controle, comunicações e economia;
e (c) as estratégias das subsidiárias, na qual o papel da subsidiária é determinado por sua própria estratégia, sendo a subsidiária capaz de compreender a complexidade e as oportunidades do local em que opera.
Os autores argumentam, ainda, que a importância estratégica das subsidiárias varia na medida em que esses três macro fatores influenciam a sua capacidade e a da organização de criar inovações e vantagens competitivas globais.
Sumariamente, Bartlett e Ghoshal (1992) apontam 3 tipos de organizações baseados em suas estratégias chave (QUADRO 1), e distinguem as organizações segundo seus critérios de centralização na tomada de decisões e integração funcional, adicionando um quarto tipo de organização, sendo elas: internacional, global, multinacional e transnacional (QUADRO 2). Borini e Fleury (2010) aprofundam, na sequência, a análise acerca da organização multinacional, sendo a primeira delas no tocante a origem da matriz, sendo elas: multinacionais tradicionais e multinacionais emergentes, e em seguida distinguindo as multinacionais (independente se tradicionais ou emergentes) em relação a sua integração, orientação empreendedora, iniciativa, contexto competitivo e redes externas, conforme QUADRO 3. Por fim, Oliveira Jr e Borini (2012) apontam para as distinções entre as estratégias das EMNs no tocante ao papel de suas subsidiárias.
O foco deste estudo será voltado para as organizações multinacionais, conforme QUADRO 1 e QUADRO 2, uma vez que uma de suas características é a preocupação com as diferenças locais, as quais englobam as diferenças culturais entre os países envolvidos e sua estratégia chave baseia-se em oportunizar o entendimento e compreensão das diferenças nacionais para garantir uma forte presença local (BARTLETT; GHOSHAL, 1992).
Com base na opção pelo foco do estudo em organizações multinacionais (ou empresas multinacionais - EMNs), e considerando as diferenças até aqui citadas, entende-se como relevante o aprofundamento dos conceitos acerca das EMNs, provenientes da literatura.
Existem diversas definições envolvendo EMNs. A definição mais básica foca na sua principal característica, a de trabalhar com investimentos estrangeiros diretos (IED), ou seja, adquirir ativos em países diversos daquele do país da matriz (MARIOTTO, 2007). Ainda, segundo o autor, para ser considerado como IED, o investimento deve conferir à matriz o controle sobre a sua filial, ou seja, investimento direto é o estabelecimento de uma subsidiária ou divisão no exterior, ou aquisição de uma firma estrangeira.
Ainda considerando o IED, Dunning e Lundan (2008, p. 3, tradução nossa) definem EMN como “uma empresa que se dedica ao investimento direto estrangeiro
e é proprietária ou, de algum modo controla, as atividades de valor agregado em mais de um país.”.
Refinando este conceito, Mariotto (2007, p. 43) argumenta que “uma empresa multinacional pode ser definida como uma empresa que controla e administra estabelecimentos de produção localizados pelo menos em dois países”
Convergindo com esta definição, Caves (1996, p. 1, tradução nossa) descreve EMN como “uma empresa que controla e gerencia estabelecimentos de produção – plantas – localizados em no mínimo dois países.”. Os dois autores baseiam sua definição na produção, propriamente dita, desconsiderando as EMNs de serviços.
Ampliando o foco da definição de EMN, Hennart (2011) caracteriza a EMN como uma instituição privada planejada para organizar, por meio de contratos empregatícios, interdependências entre indivíduos localizados em mais de um país, abordando a definição sob uma ótica de recursos humanos. Já Gilpin (1976), utiliza em sua definição outros recursos, defendendo que a corporação multinacional é caracterizada por uma firma matriz e um grupo de subsidiárias em vários países com um conjunto comum de recursos administrativos, financeiros e tecnológicos. Já Andreff (2003) utiliza uma ótica econômica e define EMN como um empreendimento cujo capital é adquirido no processo de acumulação internacional.
A definição mais aceita pela comunidade internacional é apresentada pela Organização das Nações Unidas (ONU), na qual as EMNs são “empresas, quer sejam de propriedade pública, mista ou privada, que possuem ou controlam a produção, distribuição, serviços ou outras instalações fora do país em que se encontram sediadas.” (OIT4, 2012, p. 2), sendo ela adotada neste trabalho.
Bueno (2010, p. 26) aponta alguns elementos presentes nas EMNs, sendo eles:
[...] as estratégias de internacionalização; as abordagens e estilos de gestão; a cultura global e as diretrizes organizacionais; o papel desempenhado por cada subsidiária; a transmissão de tecnologia e a disseminação de conhecimento. A integração e a interação entre estes elementos formam cada ambiente organizacional de modo único e podem servir como categorias de análise do cotidiano vivenciado por seus profissionais.
4 A Organização Internacional do Trabalho (OIT, originalmente ILO – International Labour Organization) é uma agência especializada das Organizações das Nações Unidas dedicada à promoção da justiça social e direitos humanos e trabalhistas reconhecidos internacionalmente.
Adler (2008) afirma que existem duas diferenças fundamentais entre as empresas domésticas e as multinacionais: a dispersão geográfica e o multiculturalismo. A dispersão geográfica, segundo a autora, tem impacto nas organizações devido às diferenças entre os países em relação às políticas de risco, flutuações nas taxas de câmbio, custos substanciais com transporte e comunicação, estruturas reguladoras diversas, entre outros.
A segunda diferença diz respeito a uma dimensão fundamental das EMNs, o multiculturalismo, no qual as pessoas de muitos países e culturas interagem regularmente. “O multiculturalismo aumenta a complexidade das organizações mundiais, aumentando o número de perspectivas, abordagens e métodos de negócio representados dentro da organização.” (ADLER, 2008, p. 17, tradução nossa).
Portanto, as exigências do mundo globalizado demandam conhecimentos multiculturais a fim de facilitar transações sociais, políticas e econômicas (BERNARD; FERNANDEZ, 2012). O encontro intercultural, em todas as suas formas, está se tornando uma experiência comum entre a matriz e ambientes de trabalho em um número cada vez maior de países e regiões (MORLEY; CERDIN, 2010), impulsionando os estudos envolvendo a gestão intercultural dentro das organizações, estudos estes, calcados na estratégia global das EMC e o papel da cultura neste processo.