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5 A EXPERIÊNCIA DO INECV

5.3 A COOPERAÇÃO TÉCNICA ENTRE O IBGE E O INECV

5.3.7 Desenvolvimento de questionário eletrônico

No que se refere ao desenvolvimento de aplicativos, houve duas aplicações para questionários. Na fase do pré-censo, como mencionado em seção anterior, foi desenvolvido o questionário em CSPro para o PDA, em associação com os programas utilizados para o georreferenciamento. No entanto, para a coleta principal de dados do RGPH, o desenvolvimento do aplicativo foi feito em outra plataforma.

Do ponto de vista do pessoal da informática do INECV, a equipe já tinha algum conhecimento do software CSPro, mas não propriamente para sua utilização em dispositivos móveis. O INECV já estava acostumado a usar o software para os questionários das suas pesquisas no formato analógico. Com auxílio de alguns técnicos do IBGE que já haviam trabalhado com aquela ferramenta para questionário eletrônico no PDA, o software foi aproveitado para a aplicação no pré-censo. Posteriormente, com a entrada de outra equipe do IBGE para auxiliar no desenvolvimento do questionário de coleta do RGPH, a orientação mudou.

Os desenvolvedores do questionário do Censo 2010 do Brasil se dividiram entre o desenvolvimento no Brasil e tarefa correspondente na cooperação técnica com Cabo Verde. Em uma primeira visita a Cabo Verde, em maio de 2009, quando estava sendo finalizado o pré-censo, o desenvolvedor principal do IBGE apresentou a experiência brasileira de programação para questionário eletrônico, e mostrou o que estava sendo projetado para o censo brasileiro. Neste contato, a equipe de Cabo Verde pediu, então, que o desenvolvimento do questionário do RGPH fosse migrado da plataforma CSPro para a nova plataforma apresentada pelo IBGE.

Naquele período, o INECV estava iniciando o conhecimento sobre desenvolvimento de questionário eletrônico, e começou com o CSPro, que já era considerado uma ferramenta antiga, com algumas limitações. O IBGE, por outro lado, tinha um software pronto, nativo, que foi utilizado nos questionários da PNAD 2007, 2008 e 2009, e que vinha sendo usado na elaboração do questionário do Censo de 2010 (Superwaba, descrito no capítulo 4). Sendo assim, o INECV mostrou interesse em partilhar do modelo brasileiro para a fase principal da coleta (MORAES, 2019).

Como tudo era muito novo para a equipe local, os trabalhos conjuntos IBGE e INECV foram intensos, debruçados sobre o questionário de Cabo Verde usando a plataforma Superwaba. No entanto, como a forma do questionário de Cabo Verde é bem diferente da do Brasil, o software em si teve que ser adaptado e passou por grandes mudanças.

Há de se abrir um parêntese, aqui, para um detalhamento técnico, mas necessário para entender a natureza das adaptações processadas. Antes de abrir o questionário do censo, há um passo anterior – somente após a identificação e localização do domicílio, o questionário associado àquele endereço específico é aberto.

O modelo no formato Brasil tem especificidades como o Cadastro de Endereços, com uma estrutura de quadra, face e endereços, nas áreas urbanas, que não se aplicavam à realidade de Cabo Verde. Neste país, como visto na seção de cartografia censitária, eles trabalharam com pontos e geocódigos para identificar os domicílios. Além disso, as nomenclaturas da divisão territorial são diferentes. Enquanto no Brasil utilizamos UF, estado, município, distrito, subdistrito até chegar no setor censitário, em Cabo Verde, utiliza-se ilha, concelho, freguesia e distrito de recenseamento. Uma outra diferença é que o censo de Cabo Verde é feito em módulos, iniciando por edifício, alojamento, agregado e indivíduo, bem diferente da estrutura do censo do Brasil.

Pela inexperiência da equipe de desenvolvedores do INECV, a dinâmica da cooperação aconteceu com várias missões de trabalho do IBGE e com assistência a distância, envolvendo alguns revezamentos da equipe de desenvolvedores do instituto em missões a Cabo Verde. Segundo Moraes (2019):

A gente fez várias visitas, e mostrou pra eles como construía o questionário, o arquivo que montava o questionário, cada módulo de edifício, alojamento, agregado, indivíduo. Compartilhou isso com eles. Houve muita troca de informação, planos de crítica que a gente recebia deles, a gente entregava versões do questionário para eles testarem. Eles fizeram muitos testes, a gente aqui também fez vários, e esse processo durou alguns meses de desenvolvimento, até se chegar na versão final do aplicativo, rodando o questionário direitinho (MORAES, 2019).

A estrutura diferenciada das unidades estatísticas do país – o edifício, o alojamento, o agregado familiar e o indivíduo – exigiu a elaboração de vários tipos de questionários para a coleta de informações, bem como questionários específicos para os alojamentos familiares, os coletivos e os sem abrigos. Outras diferenças de estrutura do questionário, como forma de codificar e arquivos próprios de críticas, foram objeto de troca de conhecimentos:

Eles tinham uma equipe de desenvolvedores e a gente procurou fazer um intercâmbio de códigos, de experiências. Eles atuaram muito na questão do questionário em si, que tinha uma forma própria de codificar e um arquivo próprio com todas as críticas, mas a parte do código fonte do programa, a gente também compartilhou com eles. Ao final, inclusive, demos o código fonte do sistema todo. Então, eles tinham condições de desenvolver também (MORAES, 2019).

O desenvolvimento dos programas de coleta de dados foi uma etapa chave de aperfeiçoamento em vários aspectos para o pessoal do INECV. Além da apreensão de novos conhecimentos em termos de programação em novos dispositivos, destaca-se um certo pioneirismo no trabalho conjunto das equipes de informática e técnica, em diversos momentos. A equipe de metodologia do INECV participou da definição dos controles de coerências durante o desenvolvimento do aplicativo de coleta.

No censo piloto, por exemplo, a parte de programação das especificações de controle de coerência para a coleta de dados foi particularmente desafiadora para a equipe de informática do INE, que teve que se aplicar a fundo em algo totalmente novo, para poder garantir que o recenseamento piloto fosse realizado na data prevista e com qualidade. Depois do censo piloto, as alterações propostas pela área de metodologia nos questionários e controles de coerência para ajustar e se chegar à versão final do aplicação, normais no curso do planejamento, impactaram em muito os trabalhos da informática, pois só na véspera da coleta de dados puderam contar com a assistência técnica do IBGE (INECV, 2012).

Do ponto de vista da equipe brasileira, esta etapa de desenvolvimento do questionário de coleta do RGPH fluiu bem, sem muitas diferenças que interferissem no trabalho, e tudo foi assimilado com rapidez. Moraes (2019) menciona que, talvez, a maior dificuldade tenha sido o tempo dos brasileiros, pois tinham que se dividir entre o questionário do censo no Brasil e o de Cabo Verde. O do Brasil com muito mais detalhes de implementação que o de Cabo Verde. Por outro lado, a estrutura de coleta de Cabo Verde é bem mais simples que a do Brasil e, portanto, a forma de estruturar os questionários, também. Nesse sentido, as três ou quatro pessoas da reduzida equipe de informática do INECV mantinham contato direto com a equipe brasileira, e se mostravam aptas para entender o código fonte e como tudo funcionava.

A dinâmica do trabalho evoluía a partir do trabalho conjunto dos técnicos do IBGE no INECV, e depois a equipe local continuava o desenvolvimento, mantendo comunicação a distância com os brasileiros. Havia ainda a interação da informática com o pessoal da área de metodologia, que assessorava, definia as críticas do questionário, fazia correções e testava para ver se tudo estava de acordo com o que eles tinham especificado.

Outras avaliações do INECV apontam que os técnicos tiveram problemas para transpor certas dificuldades no decorrer do desenvolvimento dos aplicativos. Algumas atividades que teriam que ser conduzidas como uma assistência técnica a distância, pelo IBGE, nem sempre funcionaram como planejado, acarretando uma série de dificuldades,

como problemas para serem discutidos e analisados, que restaram como questões pendentes que só puderam ser resolvidas parcialmente.

A resistência inicialmente sentida pela equipe da cartografia do IBGE, da cartografia, não foi percebida pelos desenvolvedores do IBGE na etapa seguinte. O prazo curto e as poucas opções de sistemas para desenvolver questionário eletrônico, na época, convergiram para que a solução que estava sendo elaborada para o Brasil fosse apresentada e modificada para atender Cabo Verde, de modo que tenha se adequado bem ao cenário do país e à metodologia de coleta de dados. Segundo Moraes (2019) “a gente se mostrou, desde o princípio, aberto a querer compartilhar que aquilo ali ficasse pra eles também, que eles mesmos pudessem desenvolver aquilo ali em outras pesquisas”.

É interessante notar que toda uma formação técnica já consolidada em relação às pesquisas estatísticas em si teve que ser adaptada ao formato do questionário digital, fazendo com que equipes distantes passassem a ter um trabalho conjunto. Além disso, a participação da equipe de informática nos treinamentos, no acompanhamento em campo, tanto no censo piloto, como no pré-censo, para resolução de problemas em relação aos dispositivos de coleta foram fundamentais e passaram a compor uma atividade inteiramente nova para a equipe.