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3 APORTES PARA A RENOVAÇÃO DA LEGISLAÇÃO MIGRATÓRIA E

3.2 O DESENVOLVIMENTO HUMANO: PRECEITO FUNDAMENTAL QUE

3.2.2 Desenvolvimento humano: as capacidades dos imigrantes

A compreensão do direito ao desenvolvimento humano passa pela perspectiva de que as pessoas devem ter, de antemão, o direito a serem livres. Isto é,de terem a oportunidade para desenvolver suas capacidades humanas e escolher os caminhos que querem trilhar na vida. O mínimo para isso deve ser, se não garantido, pelo menos não limitado por políticas públicas.244

O entendimento que se tem neste trabalho sobre desenvolvimento humano provém, em essência, dos escritos e conceitos do economista e pensador indiano Amartya Sen. Ele compreende o desenvolvimento como expansão de liberdades substantivas do ser humano e que, por isso, "requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática, negligenciados serviços públicos e intolerância ou interferência excessiva dos Estados repressivos."245

Nesse sentido, a concepção de desenvolvimento não pode se basear somente nas ideias tradicionais de acumulação de riquezas em busca do crescimento econômico de uma associação política que é o Estado. O autor compreende o desenvolvimento com um fim precípuo que é a pessoa humana, apesar de sua multidimensionalidade. "O fim último do desenvolvimento, o bem das pessoas, é associado à liberdade, isto é, à potência pessoal de conseguir a vida que se deseja racionalmente."246 Dessa maneira,

244 Clèmerson Clève lembra que direitos fundamentais clássicos prescindem da atuação do poder público, mas ―o Estado não pode deixar, igualmente, de atuar para proteger os direitos fundamentais, inclusive normativamente (dever de proteção), e de implantar políticas públicas voltadas à afirmação dos direitos que, em sua configuração mais singela, não exigem mais do que a iniciativa do seu titular‖. (CLÈVE, Clèmerson Merlin. Para uma dogmática constitucional emancipatória. Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 16).

245 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 17-18.

246 PINHEIRO, Maurício Mota Saboya. As liberdades humanas com bases no desenvolvimento: uma análise conceitual da abordagem das capacidades humanas de Amartya Sen. Texto para discussão 1794. Brasília-DF: Rio de Janeiro: IPEA, nov. 2012. p. 09 e 12.

O enfoque nas liberdades humanas contrasta com visões mais restritas de desenvolvimento, como as que identificam desenvolvimento com crescimento do Produto Nacional Bruto (PNB), aumento de rendas pessoais, industrialização, avanço tecnológico ou modernização social. O crescimento do PNB ou das rendas individuais obviamente pode ser muito importante como um meio de expandir as liberdades desfrutadas pelos membros da sociedade. Mas as liberdades dependem também de outros determinantes, como as disposições sociais e econômicas (por exemplo, os serviços de educação e saúde) e os direitos civis (por exemplo, a liberdade de participar de discussões e averiguações públicas).247

Assim, segundo o economista, ―[o] desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente‖.248 Por conseguinte, para se realizar o desenvolvimento humano é imprescindível a ―livre condição de agente das pessoas‖.249 Ser agente é produzir resultados que considera valiosos para si, e a sua "liberdade de decidir o que valorizar e a forma de buscá-lo" é um meio que interessa muito mais à comunidade do que propriamente a interesses e necessidades individuais, porque essa liberdade deve ser sustentável, como preconiza a ideia inscrita no Relatório Brundtland, de 1987, de não comprometimento da capacidade das gerações futuras.250

De modo que as liberdades têm característica dupla de oportunidades e processos, pois

A liberdade é valiosa por pelo menos duas razões diferentes. Em primeiro lugar, mais liberdade nos dá mais oportunidade de buscar nossos objetivos - tudo aquilo que valorizamos. (...) Em segundo lugar, podemos atribuir importância ao próprio processo de escolha. Podemos, por exemplo, ter certeza de que não estamos Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 17.

250 SEN, Amartya. A ideia de justiça. Parte III - Os materiais da justiça. Desenvolvimento sustentável e meio ambiente. [Versão eletrônica para Kindle]. Trad. Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

251 SEN, Amartya. A ideia de justiça. Parte III - Os materiais da justiça. Liberdade:

oportunidades e processos. [Versão eletrônica para Kindle]. Trad. Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Isso significar dizer que tanto os processos quanto as oportunidades reais que as pessoas detêm integram esse entendimento de liberdade. No mesmo sentido, Melina Fachin ressalta, ao se basear no Relatório de 2010 sobre o Desenvolvimento dos Direitos Humanos, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 252 que o

"desenvolvimento é um processo sobre as necessidades humanas, para a expansão das liberdades humanas e realizado pelas próprias pessoas. Para que o processo assuma esse caráter emancipatório deve começar onde as pessoas vivem suas vidas."253

Compreende-se que, para os imigrantes no Brasil, há uma restrição de suas liberdades substantivas e instrumentais a partir de processos inadequados que são perpetrados pela avaliação errada da política imigratória veiculada pelo Estatuto do Estrangeiro. Esse instituto legal reproduz a visão geral de que o Brasil se deve fechar à entrada de imigrantes para a proteção do trabalhador nacional. Essa perspectiva é auxiliada por instrumentos de Segurança Nacional decorrentes do regime civil-militar, como vem se sustentando.254

Por conseguinte, se, para Amartya Sen, "a posição de uma pessoa num ordenamento social pode ser julgada por duas perspectivas diferentes, que são (1) a realização de fato conseguida, e (2) a liberdade para realizar", o imigrante que tem garantida sua situação de igualdade com o cidadão brasileiro, a partir da proteção regulamentadora que a legislação direciona à política imigratória, tem a chance de realizar sua liberdade por meio da isonomia.255

252 UNDP. Human rights development report 2010. The real wealth of nations: the pathways to human development. New York: Palgrave Macmillan, 2010.

253 FACHIN, Melina Girardi. Direitos humanos e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Renovar, 2015. p. 312.

254 Sobre isso, Amartya Sen escreve que "processos inadequados" são, por exemplo, a violação do direito ao voto ou de outros direitos políticos ou civis. (SEN, Amartya.

Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 31).

255 SEN, Amartya. Desigualdade reexaminada. Trad. Ricardo Doninelli Mendes. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2012. p. 69. "A realização liga-se ao que conseguimos fazer ou alcançar, e a liberdade à oportunidade real que temos para fazer ou alcançar aquilo que valorizamos.

As duas não necessitam ser congruentes. A desigualdade pode ser vista em termos de realizações e liberdades, e elas não necessitam coincidir." (SEN, Amartya. Desigualdade reexaminada. Trad. Ricardo Doninelli Mendes. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2012. p. 69).

A ampliação das liberdades dos indivíduos incrementa e respeita suas condições de agentes racionais que buscam realizar seus próprios fins. Em um país onde há restrição de direitos fundamentais na política migratória a partir do protecionismo de mercado de trabalho e de uma ideia ultrapassada de segurança nacional, garantir uma dimensão jusfundamental de liberdade, sem limites normativos excessivos e promovendo a autonomia privada, auxilia no desenvolvimento humano do imigrante.

Efetivada a segurança jurídica por meio de uma renovada política imigratória, fundada na perspectiva do human rights-based approach, onde o cerne legislativo acompanha o giro paradigmático em busca do desenvolvimento humano, sentirá o imigrante apto a agir e a se expressar como cidadão nato. Ele tem a oportunidade de escolher e realizar sua participação na economia local; agir no do âmbito político e nas discussões públicas, no que a Constituição Federal lhe permitir;256 usufruir dos serviços públicos, sem uma desigualdade institucionalque limite seu acesso a direitos sociais garantidos pelo bloco de constitucionalidade. Tudo sem a sensação do ―mal-estar‖257 presente na instabilidade jurídico-institucional proporcionada por antiga policy dissonante da realidade brasileira do século XXI.

Amartya Sen nota que, no âmbito da argumentação pública,

há claramente fortes razões para não deixarmos de fora as perspectivas e os argumentos apresentados por toda pessoa cuja avaliação seja relevante, quer porque seus interesses estejam envolvidos, quer porque suas opiniões sobre essas questões lançam luz sobre juízos específicos – uma luz que poderia ser perdida caso não se desse a essas perspectivas uma oportunidade para se manifestarem.258

256 Tratou-se da discussão sobre a restrição dos direitos políticos dos imigrantes no Brasil em outros lugares (KENICKE, Pedro Henrique Gallotti. Os direitos políticos do migrante internacional no constitucionalismo sul-americano. In: Revista de Direito Constitucional e Internacional, v. 92, a. 23, Revista dos Tribunais, 2015. p. 105-127; KENICKE, Pedro Henrique Gallotti. Estatuto do estrangeiro: diretriz da política pública migratória no Brasil. In:

Revista Jurídica Luso Brasileira, ano 1, n. 6, Universidade de Lisboa, 2015; e KLEIN, Érico Prado; KENICKE, Pedro Henrique Gallotti. Restrições às liberdades do imigrante e a injustiça institucional. [No prelo]). Uma saída com o objetivo de participação política dos imigrantes seria permiti-los, por meio de Emenda Constitucional, votarem e se candidatarem para as eleições locais, guardadas as exceções quanto a municípios estratégicos de fronteira a serem definidos por lei regulamentadora.

257Mal-estar encontrado na sensação de que não há segurança na proteção institucional do Estado, sendo este a causa do fenômeno a partir de sua omissão legal.

258 SEN, Amartya. A ideia de justiça. Parte I - As partes da justiça. Adam Smith e o espectador imparcial. [Versão eletrônica para Kindle]. Trad. Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 74.

É preciso, portanto, que a compreensão expressada por Sen sobre desenvolvimento, uma extensão ―de forma radical [d]a noção tradicional da expressão 'liberdade'‖, seja considerada para uma renovada lei das migrações que induzirá a política imigratória. Nessa perspectiva, expandir a liberdade é, ao mesmo tempo, ser o "fim primordial" e o "principal meio" do desenvolvimento como um todo. Todas as outras múltiplas dimensões do direito ao desenvolvimento são decorrentes dessa abordagem.259

Assim sendo, Melina Girardi Fachin ressalta que quando se expandem as liberdades dos indivíduos, e se retiram as privações que lhe limitavam, os sujeitos "renovam sua intervenção cidadã visto que com condições materiais ganham as rédeas da participação, contribuição e fruição dos processos de desenvolvimento" dos direitos humanos. Há um "novo significado ao seu desenvolvimento - individual e comunitário - a partir da mudança de visão de mundo operada".260

Quando há cidadãos de nacionalidade estrangeira participando da vida pública, se impulsionado pelo Estado seu processo de escolha social, cresce-se a força das demandas da sociedade por efetivação dos direitos sociais, por eficiência nas políticas públicas e qualidade compatível ao dever assumido pelo cidadão para a prestação de serviço público.

Dessa maneira, concretizar o desenvolvimento humano do imigrante que no Brasil se estabelece, pela condição de agente que todo ser humano possui, é incrementar qualitativamente o desenvolvimento nacional, isto é, o desenvolvimento social e econômico do próprio país e da nacionalidade brasileira. A influência decorrente desse progresso perante o mundo é a projeção de um poder brando, um poder que não se confunde com a violência institucionalizada do Estado representado por conflitos externos.

Tratar-se-á disso mais adiante.

Agora é preciso entender como o direito ao desenvolvimento foi concebido na Constituição Federal de 1988 e porque tem ele forte viés voltado à pessoa humana, como se sustenta na noção do desenvolvimento

259 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 52.

260 FACHIN, Melina Girardi. Direitos humanos e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Renovar, 2015. p. 290.

humano. Esse percurso tem como fim demonstrar porque ainda temos uma legislação que rege a condição jurídica dos imigrantes em dissonância com a Constituição e os tratados promulgados pelo Estado brasileiro, e porque ela merece ser revogada ou não-recebida em eventual ADPF submetida ao STF.