2 A TEIA CONCEITUAL
2.4 DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE
Trazemos, inicialmente, a definição de Carlos Marcelo Garcia (2009), ao descrever o seu entendimento sobre o desenvolvimento docente como:
Um processo, que pode ser individual ou coletivo, mas que se deve contextualizar no local de trabalho do docente – a escola – e que contribui para o desenvolvimento das suas competências profissionais através de experiências de diferente índole, tanto formais como informais (2009, p. 10).
Traduzimos “escola” em um sentido mais amplo de instituição formativa, onde podemos agregar a Universidade. Marcelo Garcia (2009) também descreve que o processo formativo docente vem sendo modificado ao longo da última década, alicerçado em um novo entendimento de como ocorre o processo de aprender e ensinar, descrevendo, a partir de suas pesquisas, as seguintes características que identificam o desenvolvimento profissional docente (MARCELO GARCIA, 2009, p. 10-11):
a) Baseia-se no construtivismo;
b) Entende-se como sendo um processo a longo prazo que reconhece que os professores aprendem ao longo do tempo;
c) Assume-se como um processo que tem lugar em contextos concretos;
d) O desenvolvimento profissional docente está diretamente relacionado com os processos de reforma da escola, na medida em que este é entendido como um processo que tende a reconstruir a cultura escolar;
e) O professor é visto como um prático reflexivo;
f) O desenvolvimento profissional é concebido como um processo colaborativo; g) O desenvolvimento profissional pode adotar diferentes formas em diferentes
contextos.
Ainda conforme Marcelo Garcia (2009, p. 11), o processo de desenvolvimento profissional do professor “[...] se vai construindo à medida que os docentes ganham experiência, sabedoria e consciência profissional”. Isaia e Bolzan (2008) complementam afirmando que o desenvolvimento profissional docente está intimamente ligado à trajetória profissional dos professores.
Na mesma direção, Maciel; Isaia e Bolzan, (2012) entendem o desenvolvimento profissional docente como aprendizagem contínua, uma vez que os professores estão sempre ensinando/aprendendo por meio das suas experiências diárias, ou seja, nunca termina; o desenvolvimento profissional de um professor sempre se renova no amanhã.
Permanecemos nesta linha de pensamento com Rudduck (1991, p. 129) que descreve desenvolvimento profissional como “a capacidade do professor em manter a curiosidade acerca de sua turma; identificar interesses significativos nos processos de ensino e aprendizagem; valorizar e procurar o diálogo com colegas experientes como apoio na análise de situações”. Na mesma direção, Marcelo Garcia (2009) considera o desenvolvimento docente como atitude indagativa permanente de questionamentos e de procura de soluções.
Essas ideias fortalecem a compreensão de Marcelo Garcia (2009) quanto à complementariedade entre o processo de desenvolvimento profissional e o processo de mudanças, uma vez que são estas que provocam o desenvolvimento profissional e vice-versa, tendo como consequência o crescimento pessoal e profissional do professor. O autor ainda
coloca em discussão o papel das crenças trazidas pelos docentes durante o início do processo de formação. Marcelo Garcia (2009) apresenta três dimensões dessas crenças que são:
Experiências pessoais: onde estão alicerçadas a visão de mundo, as crenças em relação a si próprio e aos outros, as ideias sobre a escola e a sociedade, as questões culturais e familiares;
Experiência baseada em conhecimento formal: aspectos que envolvem as matérias e os conteúdos das disciplinas;
Experiência escolar e de sala de aula: são as experiências vividas como estudantes, as quais tendem a fazer parte do processo formativo docente.
Em relação às crenças apresentadas, o autor supracitado afirma que estas afetam diretamente o processo de formação do profissional docente, pois estabelecem pré-conceitos sobre a interpretação e valorização do que é ser professor, distorcendo a percepção quanto à identidade do mesmo. Ainda conforme esse autor, o posicionamento dos professores em formação tem explicado em grande monta a falta de resultados concretos e reais das diferentes ações de desenvolvimento profissional colocadas em práticas. Complementa (Idem, p. 15-16): “portanto, se se quer facilitar o desenvolvimento profissional dos docentes, devemos compreender o processo mediante o qual os professores crescem profissionalmente, bem como as condições que ajudam e promovem esse crescimento”.
Na Figura 3, adiante, reproduzimos o diagrama apresentado por Marcelo Garcia (2009), possibilitando melhor compreensão do processo de desenvolvimento profissional docente. O autor explica que este modelo é o esquema utilizado pela grande maioria dos cursos e programas que se propõem a trabalhar o desenvolvimento profissional docente. Descrevendo o modelo, o processo de desenvolvimento gera uma inquietação nos professores; por sua vez, este estado de espírito potencialmente os leva ao rompimento com as crenças pré-estabelecidas e, por consequência, ao processo de mudança. Esta mudança deve ser sentida e visualizada no trato deste professor na sala de aula, ao relacionar-se com os alunos. Todo o movimento gerado por este processo tem como resultado esperado uma mudança na aprendizagem dos alunos.
Figura 3 − Modelo implícito no desenvolvimento profissional docente
Fonte: Marcelo Garcia (2009, p. 16).
Por meio do modelo apresentado, chegamos a um ponto importante sobre os conceitos e etapas do processo descrito. Para Bolzan; Isaia e Maciel (2013), o desenvolvimento profissional docente é complexo, cercado de tensões e aprendizagens, envolto em um contexto escuro e exigindo do profissional a sabedoria para reconhecer-se um profissional inacabado e que, necessariamente, está em constante desenvolvimento e busca por identidade profissional. Os estudos de Maciel (2009c; 2011-2013); Isaia (2003; 2004; 2007) e Bolzan (2002; 2004; 2006a; 2012) reafirmam a formação de professores como ininterrupta, a qual vai ocorrendo ao longo da carreira do professor. Da mesma forma o desenvolvimento profissional docente será um processo contínuo que vai agregando saberes/fazeres na trajetória docente.
Na Enciclopédia de Pedagogia Universitária, localizamos o conceito de desenvolvimento profissional docente:
Processo contínuo, sistemático, organizado e auto-reflexivo que envolve os percursos trilhados pelos professores, abarcando desde a formação inicial até o exercício continuado da docência (MARCELO GARCIA, 1999; ZABALZA, 2004). Compreende, para tanto, os esforços dos professores na dimensão pessoal e na interpessoal, bem como as condições oferecidas por suas instituições no intuito de criarem condições para que esse processo se efetive. Envolve a construção, por parte dos professores, de um repertório de conhecimentos, saberes e fazeres voltados para o exercício da docência que é influenciado pela cultura acadêmica e pelos contextos sociocultural e institucional nos quais os docentes transitam. Notas: desenvolvimento profissional e formação entrelaçam-se em um intricado processo, a partir do qual o docente vai se construindo pouco a pouco. O saber e o saber-como da profissão não são dados a priori, mas arduamente conquistados ao longo da carreira docente (ISAIA, 2006a, p. 375).
Por fim, compreendemos o desenvolvimento profissional docente como algo complexo, alicerçado nas características da trajetória formativa e de vida dos docentes, um campo amplo de estudo que contempla diversas formas de pensar e de construir a identidade profissional.
A seguir, fixaremos outro fio compreensivo em nossa Teia Conceitual ao explorarmos o conceito de saberes na/da docência.
Mudanças nos resultados de aprendizagem dos alunos Mudanças nas condutas das turmas Mudanças no conhecimento e crenças Formação de Professores