3. A DEFESA DO MEIO AMBIENTE E SUAS DIMENSÕES ECONÔMICA E SOCIAL
3.3. Sustentabilidade como paradigma de desenvolvimento
3.3.2. Desenvolvimento sustentável e suas perspectivas
O âmago desse desenvolvimento resulta numa tríade que “combina eficiência econômica com justiça social e prudência ecológica” (JACOBI, 1999, p. 178). A complexidade do desenvolvimento sustentável desafia a compreensão através de três dimensões básicas: ambiental, social e econômica.
De que modo é possível a conciliação entre o desenvolvimento econômico-social e a proteção do meio ambiente? Modelos de desenvolvimento meramente econômicos que privilegiam determinadas formas de produção em detrimento de outras, geram desequilíbrios ambientais e sociais. Até onde deve prevalecer um ou outro interesse? Qual o interesse que costuma prevalecer quando ocorrem aspectos inconciliáveis?
A sustentabilidade ambiental refere-se a questão da capacidade de suporte do meio ambiente.31 Significa a quantidade máxima de utilização de recursos ambientais por uma dada população sem esgotá-los ou destruí-los. O uso de bens renováveis não pode ser superior a sua regeneração, o que contraria a lógica do lucro, pois, a natureza tem a sua própria capacidade de regeneração, em geral num ritmo bem mais lento. Nem tampouco, a quantidade de resíduos pode exceder a capacidade de absorção pelo meio ambiente. E, finalmente, o uso dos bens não renováveis não deve ultrapassar a quantidade dos recursos substitutos. Este limite permite que as atividades econômicas não esgotem o meio ambiente, sendo este protegido para as presentes e futuras gerações.
Já a sustentabilidade social relaciona-se com a qualidade de vida e de desenvolvimento humano Como avaliar o desenvolvimento? Quais os indicadores que devem ser utilizados? Inicialmente, o grau de desenvolvimento de um dado país era avaliado pelo Produto Interno Bruto – PIB, ou seja, pelo nível de produção e do consumo de bens e serviços, questões de natureza meramente econômica. Acontece que o PIB oculta as reais condições de vida e do meio ambiente32, além de mascarar um realidade que não é contabilizada, como as rendas
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Jacobi (1999, p. 181) revela que “a preocupação com o tema do desenvolvimento sustentável introduz não apenas a sempre polêmica questão da capacidade de suporte, mas também os alcances e limites das ações destinadas a reduzir o impacto dos agravos no cotidiano urbano e as respostas pautadas por rupturas no modus
operandi da omissão e conivência com as práticas autofágicas predominantes”.
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Como demonstra Barbieri (1997, p. 28) o PIB “é uma boa medida do desempenho econômico de um país e reflete muito bem o seu crescimento econômico globalmente considerado. No entanto, ele apresenta-se deficiente
provenientes de economia familiar e do trabalho doméstico não remunerado. Por isso, foi criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em 1990, o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, que leva em consideração outras variáveis, como educação, longevidade, saúde etc. A elevação da renda per capita não se traduz, necessariamente, em qualidade de vida. Para a sua aferição, indicadores financeiros ou econômicos devem ser analisados conjuntamente com indicadores humanos e, até mesmo com os recentes indicadores ambientais.
E, finalmente, a sustentabilidade econômica deve ser identificada como um desenvolvimento em bases não predatórias. Podendo propiciar tanto a riqueza quanto à erradicação da pobreza, uma vez que esta última é uma das fortes causas da degradação ambiental, além de afetar a própria dignidade humana. Visa, também, à utilização de tecnologias mais apropriadas para reduzir os custos da produção sem agredir o meio ambiente.
A adoção de práticas sustentáveis por empresas não é algo indissociável da auferição de lucros. Este pode ser atingido mesmo com práticas que visam a diminuição de impactos no meio ambiente no processo de produção ou através da responsabilidade pelo produto durante toda a sua vida. Isso pode ocorrer pela reciclagem e redução do lixo, pois, “as empresas cada vez mais consideram poluição e lixo como prova de ineficiências no processo produtivo, e não como subprodutos inevitáveis da produção” (GARDNER, 2000, p. 216). Os reflexos dessas ações também podem ser sentidos na melhoria da imagem das empresas.
A adjetivação do termo sustentável tem sido utilizada para os mais diversos substantivos, como cidade, consumo, energia, transporte, turismo etc., no sentido de qualificar algo que esteja de acordo com a idéia de desenvolvimento sustentável. A identificação do termo sustentável com essas diversas expressões tem colocado-o como sendo mais um modismo do que uma prática efetiva. Muitas vezes, são termos vazios de conteúdo nos quais só é possível extrair-se um significado a posteriori.
O conceito de desenvolvimento sustentável vai mais além do que a propalada harmonização entre as dimensões ambientais, sociais e econômicas. No cerne do seu conteúdo está inserido o debate ético, relacionado, inclusive, com valores como a solidariedade.
para indicar a qualidade de vida da população e os danos ambientais. Por exemplo, o aumento dos gastos governamentais e privados para ampliar a segurança da população face ao crescimento da violência, do narcotráfico etc. aumenta o PIB. O mesmo ocorre em relação aos gastos para descontaminar o ar, a água e o solo, bem como para remediar as doenças causadas pela poluição”.
Além das discussões teóricas, será possível fixar critérios ou estratégias concretas de sustentabilidade? Levando-se em consideração a proteção do meio ambiente natural, para manter a sua sustentabilidade os recursos renováveis deveriam ser utilizados apenas no ritmo da sua renovação; enquanto que para os não-renováveis, o seu não uso pelas gerações presentes não significaria atender a equidade intergeracional, pois, inviabilizaria a utilização pelo presente. A busca por fonte alternativas, o uso racional, com a moderação do consumo e práticas como reciclagem e reutilização prolongariam a permanência desses recursos.
A preocupação com a produção e consumo sustentáveis é importantíssima para a manutenção do acesso aos bens para as futuras gerações. È necessário guiar a produção para o que realmente se consome, ou se deve consumir, evitar o desperdício e não criar necessidades artificiais de consumo. No caso dos automóveis, imagine o caos que seria se todos tivessem condições financeiras de possuir um automóvel individual. O Princípio 8 da Declaração do Rio refere-se que “para atingir o desenvolvimento sustentável e a mais alta qualidade de vida para todos, os Estados devem reduzir e eliminar padrões insustentáveis de produção e consumo (...)” (ONU, 1993b, p. 259).
Binswanger (1997, p. 41-2), para mostrar que a sustentabilidade é uma alternativa ao crescimento econômico na sua percepção comum (crescimento quantitativo), indica o seguinte argumento, em três fases: 1) a natureza vislumbrada como fator de produção, servindo de base a atividade econômica e como fator de qualidade de vida; 2) a supressão dos antagonismos inerentes ao conceito de sustentabilidade, pois, uma das questões contraditórias é como o uso de recursos não-renováveis pode ser gerenciado de modo a atender essa idéia, mesmo que a ciência e a tecnologia encontrem substitutivos renováveis, isso por si só não a assegura já que o ponto principal não é a substituição e, sim a redução do consumo de matéria e energia em geral; e, 3) a partir do conceito de desenvolvimento sustentável a reorientação da ordem econômica através de uma política ampla e, não setorizada, envolvendo a definição e a distribuição dos direitos de propriedade, o sistema de impostos e a política monetária, de crédito e bancária.
Alguns autores falam em desenvolvimento autêntico como sendo o verdadeiro desenvolvimento. Mas o que isso significa? Não é um desenvolvimento de qualquer tipo ou a qualquer custo. Goulet (1997, p. 78) aponta como desenvolvimento autêntico àquele em que uma sociedade fornece o nível ótimo de sustentação da vida, de estima e liberdade para todos
os membros. A sustentabilidade pode atingir esse nível, o que a torna muito difícil de ser implementada, pois, o desenvolvimento autêntico “não pode existir quando necessidades de primeira ordem de muitos são sacrificadas em favor das necessidades de luxo de poucos, ou quando as necessidades de melhoria de muitos não são satisfeitas” (GOULET, 1997, p. 77).
Segundo a “lógica das necessidades básicas” (VIEIRA, 1995, p. 13), a preocupação por indicadores agregados de crescimento econômico constituiria uma condição sem dúvida necessária, mas claramente insuficiente para uma avaliação multidimencional da eficácia do processo modernizador. Isso na medida em que o fomento deste processo carrega em si uma dimensão ética e qualitativa que se exprime em opções por projetos alternativos de sociedade. Esta dimensão estaria ausente, ou excessivamente difusa, da lista de indicadores macroeconômicos usuais – especialmente daqueles que medem o volume e as taxas de crescimento do PNB.
Vários discursos entram em disputas teóricas e políticas sobre a noção que se pretende ser mais legítima, o que revela não haver hegemonia entre eles. Por isso, deve-se tomar o conceito de desenvolvimento sustentável como um processo em construção e não como uma idéia completa e acabada. A sustentabilidade é vista como algo desejável. Segundo Acselrad (2001, p. 29):
Para se afirmar, porém, que algo – uma coisa ou uma prática social – é sustentável, será preciso recorrer a uma comparação de atributos entre dois momentos situados no tempo: entre passado e presente, entre presente e futuro. Como a comparação passado-presente, no horizonte do atual modelo de desenvolvimento, é expressiva do que se pretende insustentável, parte-se para a comparação presente-futuro. Dir-se-ão, então, sustentáveis as práticas que se pretendam compatíveis com a qualidade futura postulada como desejável.
Contudo, não é nada fácil conhecer os impactos reais que medidas adotadas no presente possam ter no futuro. Mas, por exemplo, em casos como o da energia nuclear, na qual não existe nenhum tratamento seguro para os seus resíduos, poderá afetar as futuras gerações, sendo, portanto, insustentável (KRÄMER, 1999, p. 82). Da mesma forma como afirma o autor, é impossível determinar com precisão se e quando as gerações futuras serão ou não capazes de satisfazer as suas necessidades.
Nesta seara, existem mais questionamentos do que respostas. Mas são justamente eles que tem impulsionado o debate. Por isso, indaga-se: Será que o desenvolvimento sustentável é algo imprescindível para a preservação do meio ambiente? Quais são as suas limitações? Sabe-se que são muitas as exigências para alcançá-lo. Mas apesar das críticas e das dificuldades de implementação do desenvolvimento sustentável, este representa um avanço no modo de pensar e agir do homem em relação ao meio ambiente.