4. Diagnóstico do Problema
4.4. Consequências do desmatamento
4.4.2. Desertificação
A Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação concei-tuou a desertificação como o processo de degradação das terras das regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de diferentes fatores, entre eles as variações climáticas e as ativida-des humanas. No Brasil, as regiões de clima árido e semiárido do Nordeste, densamente povoadas, constituem os ambientes mais susceptíveis ao processo de desertificação (GEOBRASIL, 2002), o qual já se evidencia em variados graus de intensidade em diversas áreas da região. Em vista da expansão das áreas degrada-das, o bioma Caatinga vem despertando cada vez mais o interesse geral, sobre-tudo de pesquisadores e cientistas que trabalham com áreas em processo de desertificação.
O desmatamento propicia a ero-são do solo, dando início ao processo de desertificação. Além do desmatamen-to e dos processos erosivos, as práticas agropecuárias inadequadas, por meio da
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compactação10 e da salinização do solo infértil, destacam-se entre os fatores que aceleram a degradação ambiental e o processo de desertificação.
O Zoneamento Agroecológico do Nordeste – Zane, elaborado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, indica que aproximadamente um terço da região semiárida (cerca de 353.870 km²) constitui-se de terras com oferta ambiental entre muito baixa e bai-xa (solos rasos, pedregosos e/ou salinos em clima árido). Atualmente, essas ter-ras estão sendo utilizadas com pecuária em regime extensivo, agricultura de sub-sistência e algodão em manchas de solos de menor limitação (GEOBRASIL, 2002). A conjugação dessa exploração, com domínio de pequenas e médias proprie-dades e a ocorrência comum de densida-de da ordensida-dem densida-de 15 a 20 habitantes/km², exerce pressão antrópica sobre os solos e sobre a vegetação.
10 Segundo Sampaio et al. (2005), a compactação e o encrostamento têm sido sugeridos como indicadores de desertificação ou de propensão a ela. Todavia a indisponibilidade de dados sobre o Nordeste dos impactos dessa origem limita bastante os trabalhos de pesquisa de várias instituições, principalmente para apurar-se a intensidade deles.
Como resultado, algumas áreas já se encontram em processo avançado de desertificação. Os indicadores utilizados para a caracterização do processo de desertificação incluem a precipitação, o relevo, a sensibilidade à erosão, a fertili-dade dos solos, a evolução da cobertura vegetal, os índices de produtividade, as variações da cobertura vegetal (desma-tamento), a biodiversidade, o grau de erosão, o sobrepastoreio, etc.
No Brasil, as áreas susceptíveis à desertificação – ASD compreendem 1.338.076 km2, incluindo 1.482 municí-pios de todos os nove estados da região Nordeste, além de municípios do nor-te de Minas Gerais e do Espírito Santo, como mostra a Tabela 16. Esses municí-pios fazem parte da área de atuação do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca – PAN-Brasil (MMA, 2005).
Ministério do Meio Ambiente
64 Tabela 16. Relação do número de município, por Estado, nas áreas susceptíveis à
desertificação.
Estado
Número de municípios das Áreas Suscetíveis à Desertificação Áreas
Semiáridas
Áreas Subúmidas
Secas Áreas de Entorno Total
Maranhão - 1 26 27
Piauí 96 48 71 215
Ceará 105 41 38 184
Rio Grande do Norte 143 12 3 158
Paraíba 150 47 11 208 Pernambuco 90 39 6 135 Alagoas 33 13 7 53 Sergipe 6 28 14 48 Bahia 159 107 23 289 Minas Gerais 22 61 59 142 Espírito Santo - - 23 23 Total 804 397 281 1.482 Fonte: MMA, 2005.
Ademais, o Atlas das Áreas Susceptíveis à Desertificação do Brasil (MMA, 2007b) identificou quatro áreas como sendo de alto risco de desertifi-cação, as quais denominou núcleos de desertificação e que abrangem os mu-nicípios de Gilbués (PI), Irauçuba (CE),
Seridó (RN/PB) e Cabrobó (PE). Dentre as causas da aceleração dos processos de desertificação nos quatro núcleos, o desmatamento destaca-se como a mais importante. A Tabela 17 cita característi-cas dos núcleos, bem como as causas da desertificação nessas áreas.
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Tabela 17. Características principais dos núcleos de desertificação.
Núcleo (km²)Área População Precipitação (mm) Causas da desertificação
Seridó (RN) 2.861 91.673 500 Supressão vegetal, sobrepastoreio, agricultu-ra e mineração Irauçuba
(CE) 4.045 192.324 700 Supressão vegetal, sobrepastoreio e agricultura Gilbués (PI) 5.739 20.459 1100 Mineração, sobrepastoreio, agricultura e su-pressão vegetal
Cabrobó (PE) 7.133 71.678 480 Supressão vegetal, sobrepastoreio, agricultu-ra e salinização
Total 17.778 376.134
Fonte: Adaptado de CNBRC, 2004.
No que tange às áreas já afetadas pela desertificação, observa-se que elas representam 32,36% de toda a região Nordeste, com a exceção do Maranhão, sendo que aproximadamente 15% delas já está afetada de forma grave e muito grave (MI/MMA/UNESCO, 2006).
Paralelamente ao desmatamento, a salinização dos solos está entre os fato-res da desertificação e é fato-responsável por danos graves ao meio ambiente. Ela é oriunda de processos naturais ou do uso agrícola e ocorre em cerca de 2 % do ter-ritório nacional, área estimada de 85.931 km² (PEREIRA & COBRE, 1990). De uma
maneira geral, a salinização está relacio-nada à ocorrência de solos situados em regiões de baixa precipitação, altos défi-cits hídricos e com deficiências naturais de drenagem (BATISTA et al., 2002). Ou seja, o Semiárido está muito susceptível à salinização, pois em vista das condi-ções naturais (escassez de chuvas e as características dos solos da Caatinga), as práticas agrícolas são inadequadas e ace-leram esse processo, causando impactos para além do desmatamento.
A prática da agricultura irrigada é uma das principais causadoras de salini-zação dos solos em áreas de
drenabilida-Ministério do Meio Ambiente
66 de deficiente ou nula, sobretudo nas
re-giões de clima semiárido. Nessas condi-ções, caso não sejam drenados artificial-mente, os solos tendem a se tornar sa-linos, o que vem ocorrendo em algumas áreas da região Nordeste. Os sistemas de irrigação, portanto, podem provocar in-clusive a inviabilização da produção agrí-cola, a partir do manejo inadequado do sistema de irrigação, do uso indiscrimina-do da água e da drenagem insuficiente.
Na região Nordeste, a bacia do rio São Francisco é a mais importante para a irrigação. Ao longo de quase todo o rio (Médio, Submédio e parte do Baixo São Francisco), os solos apresentam alto risco de salinização. Já no Alto São
Francisco, localizado no Cerrado, a ocor-rência de solos mais profundos e bem drenados, bem como a maior precipita-ção, determinam um risco de salinização baixo ou nulo (GEOBRASIL, 2002).
Segundo estimativas da Agência Nacional de Águas – ANA, dos 3 milhões de hectares irrigados no Brasil, 19% estão no Nordeste, totalizando uma área de 570.000 ha irrigados nessa região (ANA, 2004). A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba – Codevasf11 afirma que aproximadamen-te 30% das áreas irrigadas dos projetos públicos do Nordeste apresentam pro-blemas de salinização, sendo que algu-mas dessas áreas já não produzem mais.
11 Disponível no endereço eletrônico: http://www.codevasf. gov.br/programas_acoes/irrigacao/salinizacao-do-solo. Acessado em 29 de setembro de 2010.
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5. Instrumentos de Prevenção e Controle do Desmatamento
preservação da cultura dos povos indíge-nas com a proteção ambiental.
Entretanto, este capítulo enfatiza as unidades de conservação – UCs, áre-as criadáre-as por ato do poder público, náre-as quais a conservação da biodiversidade é prioridade. Existem várias categorias de UCs, que se enquadram em dois grandes grupos: UC de Proteção Integral e UC de Uso Sustentável. Como a própria de-nominação sugere, nas UCs do primeiro grupo é proibida a exploração direta dos seus recursos naturais, permitindo-se vi-sitação e pesquisa, enquanto que nas do segundo grupo a exploração é permiti-da, desde que de forma sustentável, con-ciliada com a conservação e prevista no seu plano de gestão, chamado “plano de manejo”12 da unidade.
De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – Snuc, Lei
12 O plano de manejo de uma unidade de conservação é uma espécie de plano diretor e não deve ser confundido com o plano de manejo florestal, que é o projeto de uma atividade econômica de exploração sustentável de recursos da floresta (madeireiros e/ou não madeireiros) em área que pode estar localizada em terra privada, em assentamento da reforma agrária, em floresta pública ou mesmo em UC de uso sustentável.
Há várias formas de garantir a pro-teção, a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais. Alguns instrumen-tos merecem destaque para a consecu-ção desse objetivo, como as áreas legal-mente protegidas (unidades de conser-vação, terras indígenas, áreas de preser-vação permanente e áreas de reserva le-gal), a gestão florestal (monitoramento e controle), a gestão territorial, o manejo florestal sustentável, a assistência técni-ca e extensão rural – Ater e a técni-capacitação para a organização e o associativismo.