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4. Diagnóstico do Problema

4.1. Monitoramento da cobertura vegetal

Um dos meios mais aceitos para se quantificar a dimensão do problema do desmatamento provém da análise de imagens de satélite. Com metodologia e periodicidade adequadas, o monitora-mento da cobertura vegetal sistemático é capaz de indicar o avanço das ativida-des humanas sobre o meio natural.

A partir da cooperação entre MMA, Ibama, Agência Brasileira de Cooperação – ABC e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, iniciou--se em 2008 o Projeto de Monitoramento do Desmatamento dos Biomas Brasileiros por Satélite, coordenado pelo MMA e executado pelo Centro de Sensoriamento Remoto – CSR do Ibama e voltado aos biomas Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Mata Atlântica.

Em março de 2010, o Ibama divul-gou os valores do desmatamento no

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36 Tabela 7. Dados do monitoramento da

Caatinga referentes a 2002 e 2008. Bioma Caatinga 2002 2008 km² % km² % Área desmatada 358.540 43,38 375.108 45,39 Área rema-nescente 460.063 55,67 443.121 53,62 Corpos d´água 7.851 0,95 8.182 0,99 Fonte: IBAMA (2010).

A Tabela 8, por sua vez, apresenta dados levantados pelo Projeto, mostran-do que os estamostran-dos que mais desmataram entre 2002 e 2008 foram Bahia e Ceará. Em termos absolutos, o que afeta os es-tados de maior dimensão, a análise dos números mostra que os quatro estados que mais desmataram entre 2002 e 2008 são os mesmos que mais desmataram em toda a história, na mesma ordem, e são também os que possuem maior ex-tensão de Caatinga. Por outro lado, em termos relativos, observa-se que Alagoas e Sergipe são os líderes em desmatamen-to acumulado, já tendo convertido, res-pectivamente, 82% e 68% de suas áreas de Caatinga.

A Figura 7 retrata o desmatamento

acumulado3 até 2008, enquanto que a Figura 8 realça as áreas que foram desma-tadas entre 2002 e 2008. Nota-se que o desmatamento mais recente tem aspec-to pulverizado e não aparenta avançar em frentes de expansão agropecuária, como tipicamente ocorre na Amazônia e no Cerrado. Essa configuração reforça o diagnóstico de que o principal vetor do desmatamento na Caatinga é o consumo de lenha e carvão vegetal.

O monitoramento permitiu ainda relacionar os 20 municípios que mais des-mataram, em termos absolutos, entre 2002 e 2008, estando oito deles locali-zados no noroeste e centro da Bahia e seis situados na região central do Ceará, conforme indicam a Tabela 9 e a Figura 9. O desmatamento entre 2002 e 2008 nesses 20 municípios totalizou uma área de 2.371 km², o que representa 14,3% do desmatamento no período monitorado, comprovando a pulverização da prática de supressão da vegetação.

3 A análise e detecção dos desmatamentos tiveram como área útil de trabalho o Mapa de Cobertura Vegetal dos Biomas Brasileiros, escala 1:250.000, ano base 2002 (MMA, 2007a) elaborado no âmbito do Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira – Probio, considerando-se como “mapa de tempo zero” para início do monitoramento feito pelo Ibama em 2008. Esse monitoramento não distingue desmatamento legal e ilegal, nem avalia áreas sob regeneração natural.

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Tabela 8. Desmatamento no Bioma Caatinga por Estado.

Estado Área de Caatinga Original (km2) Desmatamento acumulado até 2002 (km2) Desmatamento entre 2002 e 2008 (km2) Desmatamento entre 2002 e 2008 (% da Caatinga total) Desmatamento acumulado até 2008 (km2) Desmatamento acumulado até 2008 (% da Caatinga no Estado) Bahia 300.967 149.619 4.527 0,55% 154.146 51,22% Ceará 147.675 54.735 4.132 0,50% 58.867 39,86% Piauí 157.985 45.754 2.586 0,31% 48.340 30,60% Pernambuco 81.141 41.159 2.204 0,27% 43.363 53,44% Rio Grande do Norte 49.402 21.418 1.142 0,14% 22.560 45,67% Paraíba 51.357 22.342 1.013 0,12% 23.355 45,48% Minas Gerais 11.100 5.371 359 0,04% 5.730 51,62% Alagoas 13.000 10.320 353 0,04% 10.673 82,10% Sergipe 10.027 6.683 157 0,02% 6.840 68,22% Maranhão 3.753 1.134 97 0,01% 1.231 32,80% TOTAL 826.411 358.540 16.576 2,00% 375.105

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38 Tabela 9. Municípios da Caatinga (20) com maior área desmatada no período de 2002 a 2008.

Ordem Município UF de Caatinga no Área Original município (km²) Área desmata-da 2002-2008 (km²) Área desmatada 2002-2008 (%) 1 Acopiara CE 2.264 183 8,0 2 Tauá CE 4.020 173 4,3

3 Bom Jesus da Lapa BA 2.648 158 5,9 4 Campo Formoso BA 6.806 137 2,0 5 Boa Viagem CE 2.840 135 4,7 6 Tucano BA 2.802 130 4,6 7 Mucugê BA 2.483 127 5,1 8 Serra Talhada PE 2.981 122 4,1 9 Crateús CE 2.985 121 4,0

10 São José do Belmonte PE 1.481 115 7,7 11 Morro do Chapéu BA 5.531 112 2,0 12 Casa Nova BA 9.658 110 1,1 13 Santa Quitéria CE 4.260 99 2,3 14 Petrolina PE 4.558 99 2,1 15 Barro CE 710 98 13,9 16 Mossoró RN 2.110 95 4,5 17 Saboeiro CE 1.383 91 6,5 18 Touros RN 603 90 14,9 19 Euclides da Cunha BA 2.331 85 3,6 20 Pedra PE 802 84 10,5 Total 63.266 2.371 Fonte: IBAMA (2010).

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42 O desmatamento causa impactos

negativos à conservação dos recursos hí-dricos. A Tabela 10 apresenta o desmata-mento por região hidrográfica e mostra que as áreas mais suprimidas estão nas regiões hidrográficas do São Francisco e do Atlântico Nordeste Oriental.

A Tabela 11 traça um quadro com-parativo entre as taxas de desmata-mento dos biomas brasileiros. Embora a Caatinga não figure entre os biomas sendo mais desmatados atualmente, a sua fragilidade ecológica, edáfica, climá-tica e social requer atenção especial, seja porque o Semiárido é uma das regi-ões que mais preocupam no tocante aos impactos negativos das mudanças do

cli-ma, seja porque a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais dessa região é condição sine qua non de inclu-são social e geração de renda para a sua população.

O Projeto de Monitoramento do Desmatamento nos Biomas Brasileiros por Satélite analisou o desmatamento em 77 Unidades de Conservação – UCs do bioma Caatinga, incluindo 48 UCs es-taduais, 26 UCs federais e 3 UCs munici-pais, e verificando um desmatamento to-tal de 864,1 km2 no período entre 2002 e 2008. A Tabela 12 sintetiza a distribuição da supressão vegetal pelas diversas cate-gorias de UC.

Tabela 10. Situação do desmatamento da Caatinga por Região Hidrográfica.

Região Caatinga Área de Original (km²)

Área desmatada

até 2002 (km²) Área desmatada 2002-2008 (km²) Área desmatada 2002-2008 (%)

Atlântico Leste 152.493 89.921 3.062 2,01 Atlântico Nordeste Oriental 245.999 101.569 6.335 2,58 Parnaíba 176.506 52.955 2.984 1,69 São Francisco 251.357 114.241 4.193 1,67

Total 358.697 16.576 2,0

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Tabela 11. Desmatamento nos biomas Cerrado, Caatinga, Pantanal, Amazônia e Pampa entre 2002 e 2008.

Bioma Área total (km²)4 tre 2002 e 2008 (km²)Área desmatada en- Taxa anual de desma-tamento (km²/ano) Taxa anual de desma-tamento (%)

Cerrado 2.047.146 85.074 14.179 0,69 Caatinga 826.411 16.576 2.763 0,33 Pantanal 151.313 4.279 713 0,47 Amazônia 4.196.943 110.068 18.344 0,42

Pampa 177.767 2.183 364 0,20

Fonte: MMA e Ibama (2010).

A primeira coisa que se depreen-de da Tabela 12 é o acelerado processo de degradação nas Áreas de Proteção Ambiental – APAs, dentro das quais se en-contram mais de 5% de todo o desmata-mento na Caatinga, o que corresponde a mais de 97% do desmatamento total nas UCs do Bioma. Nessas áreas, o desmata-mento ocorre à revelia do fato de se tratar de uma Unidade de Conservação. Na prá-tica, as APAs não estão cumprindo seu pa-pel de conservação, devido à intensa ocu-pação humana sem um controle efetivo, baseado em um Plano de Manejo capaz de definir regras e garantir a conservação e o uso sustentável da unidade.

4 Extensões dos biomas segundo o Projeto de Monitoramento dos Biomas Brasileiros (CSR/Ibama).

Note-se também que 82,4% de todo o desmatamento nas UCs situam--se em três grandes APAs: APA Lago do Sobradinho (estadual), APA da Chapada do Araripe e APA Serra da Ibiapaba (fe-derais). Esse valor corresponde a 4,3% do desmatamento na Caatinga entre 2002 e 2008. Na Chapada do Araripe, a vegeta-ção nativa tem sido suprimida predato-riamente para fornecer lenha para a pro-dução de gesso. A região é muito rica em gipsita, de modo que o Polo Gesseiro do Araripe chega a abastecer quase a totali-dade do mercado nacional de gesso.

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44 Tabela 12. Desmatamento nas Unidades de Conservação da Caatinga entre 2002 e 2008.

Categoria desmatada Área (km²)

% em relação ao desma-tamento total de 864,1 km² nas UCs da Caatinga

% em relação ao desmata-mento total de 16.576 km²

no bioma Caatinga

APA Lago do Sobradinho 1 105,6 12,2 0,64 Demais APAs Estaduais 25 99,9 11,6 0,60 APA da Chapada do

Araripe 1 289,7 33,5 1,75

APA Serra da Ibiapaba 1 316,9 36,7 1,91 Demais APAs Federais 2 23,4 2,7 0,14 APAs Municipais 1 4,6 0,5 0,03

Total APAs 31 840,0 97,2 5,07

Demais UCs de Uso

Sustentável5 13 6,6 0,8 0,04

Total UCs de Uso

Sustentável 44 846,7 98,0 5,11

Parque Nacional 8 9,2 1,1 0,06 Parque Estadual 10 3,3 0,4 0,02 Estação Ecológica Federal 4 2,6 0,3 0,02 Demais UCs de Proteção

Integral 11 2,4 0,3 0,01

Total UCs de Proteção

Integral 33 17,4 2,0 0,10

Total 77 864,1 100 5,21

Fonte: MMA

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Nas Terras Indígenas, o desmata-mento foi de 60,91 km² entre 2002 e 2008, configurando uma perda de vegetação nativa em torno de 3% dos 2.040 km² de Terras Indígenas do bioma Caatinga.

Histórico do monitoramento da Caatinga

Em 1984, a cobertura vegetal na-tiva do bioma Caatinga foi estimada em cerca de 68%, sendo 32% de áreas an-tropizadas, ou seja, espaços ocupados por agricultura ou alterados pela ação humana (CNRBC, 2004). Em 1990, com base nos trabalhos do Projeto Radam Brasil, foram atualizadas as informações existentes na Sudene e no Ibama, confir-mando uma redução da cobertura flores-tal remanescente de 65%, em 1984, para 47%, em 1990.

Na sequência dos estudos realiza-dos, cabe ainda destacar os levantamen-tos realizados pelo Projeto PNUD/FAO/ IBDF/087-007 em 1990. Esses estudos limitaram-se à avaliação da cobertura florestal do Bioma nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Ceará. Embora restritos aos quatro estados, o estudo provê elementos que ajudam na percepção da evolução da

co-bertura florestal e da ocupação de uma importante porção do Bioma. Estimou-se para o conjunto desses estados uma co-bertura florestal remanescente de 41,5% (MMA, 2007c).

Em 2004, o mapeamento da Caatinga foi retomado por meio do Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira – Probio, no âmbito do qual foi publicado, em 2007, o Mapeamento de Cobertura Vegetal dos Biomas Brasileiros (MMA, 2007c). Colaboraram na exe-cução do mapeamento da Caatinga a Universidade de Feira de Santana e a Associação Plantas do Nordeste (APNE), entre outras instituições.

Os levantamentos do Probio veri-ficaram as áreas de remanescentes de fitofisionomias típicas da Caatinga, os encraves mapeáveis de fitofisionomias de Cerrado e Mata Atlântica, bem como as áreas de tensão ecológica (florestas de transição ou ecótonos e encraves não mapeáveis). Foram incluídas entre as áreas remanescentes aquelas com sinais de atividade antrópica, mas que apresen-tam chances de regeneração ou possibi-lidade de convivência com intervenções

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46 de baixo impacto. As análises do Probio

utilizaram imagens de satélite Landsat de 2002 na escala de 1:250.000 e foram realizados sobre uma área de 825.750km² (MMA, 2007c), um pouco menor que a definida pelo IBGE (844.453 km²), que utilizou escala de 1:5.000.000, gerando diferença de 2%.

Os resultados do Probio revelaram uma área de vegetação remanescente de 62,69% da área total do Bioma em 2002, contra 55,67% calculados no âm-bito do Projeto de Monitoramento do Desmatamento nos Biomas Brasileiros por Satélite – PMDBBS sobre uma área total quase igual (826.411 km²). Os da-dos diferem-se em razão da diferença entre as escalas de trabalho. Enquanto o Probio mapeou os polígonos do desma-tamento em uma escala de 1:250.000, o PMDBBS trabalhou com uma escala de 1:50.000, com maior detalhamento, o que permitiu detectar pequenos polígo-nos não diferenciáveis na escala anterior de monitoramento.

4.2. O Modelo Lógico