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2. FATOS, DIREITO, PROCESSO E PROVA

3.4 Destinatários da prova

Considerando-se que a prova tem por finalidade convencer o juiz da veracidade dos fatos controversos e relevantes para o julgamento do litígio,150 é intuitiva a afirmação de

que destinatário da prova é o juiz. Sem dúvida, sendo responsável pela solução do litígio e pela definição dos direitos e obrigações das partes, o juiz é o destinatário primeiro da prova.151

O juiz não é, contudo, o único destinatário da prova. As partes também são destinatárias da prova, na medida em que têm direito a uma decisão fundada na prova constante dos autos.

Observa Eugênio Florian que a afirmação de que a prova tem por destinatário o juiz “foi ditada para o processo inquisitório e era exata na órbita deste, no qual o juiz reunia todas as funções”, mas indaga:

149 MIRANDA, Pontes de. Comentários ao código de processo civil, t. IV, p. 282.

150 Francesco Carnelutti assinala que “o conflito se converte em litígio entre as duas partes com respeito a um

bem precisamente por causa da pretensão” (CARNELUTTI, Sistema de direito processual civil, v. I, p. 42). Contudo, o litígio concreto a ser julgado recebe o seu contorno definitivo no processo, por meio das alegações e pedidos das partes. As partes ao apresentarem e fundamentarem suas pretensões definem os termos em que o conflito de interesses será resolvido, fixando, destarte, o litígio a ser julgado. Litígio, ou lide, portanto, é o conflito de interesses transportado ao processo pelas alegações das partes. A propósito, assevera José Marcos Rodrigues Vieira que “a ‘res in iudicio deducta’ não é o exato conflito de interesses, assim como se estabeleceu antes do processo. A lide, fenômeno pré-processual, por isso mesmo, que justifica que se vá a juízo, será sempre, no processo, intra-autos, lide parcial, no que cabe a crítica a Carnelutti (cuja concepção interessa, todavia, ao instituto da coisa julgada). O juiz, quando aprecia a espécie, aprecia-a tal como está nos autos” (VIEIRA, Da

ação civil, p. 61).

151 Não se trata do juiz que primeiro conhecerá da demanda. “Juiz”, como destinatário da prova, é todo julgador

que for chamado a examinar a demanda. Este fato faz com que não se tenha por definitiva a valoração da prova realizada pelo juiz de primeira instância. É certo que o contato do juiz de primeira instância com as fontes da prova lhe atribui um papel de destaque na valoração dos elementos de convicção delas extraídas, mas isto não exclui a possibilidade de esta valoração ser questionada pelas partes e, eventualmente, substituída por outra que venha a ser adotada em segunda instância. O princípio da imediação não pode ser levado ao extremo de impedir nova valoração da prova ou o controle da decisão judicial pelas instâncias superiores. Nesta linha, Jordi Ferrer Beltrán, em nome do que denomina concepção racionalista da prova, defende a adoção de uma “versão fraca ou limitada do princípio da imediação” e “um sistema de recursos que ofereça um campo amplo para o controle da decisão e sua revisão em instâncias superiores” (BELTRÁN, La valoración racional de la prueba, p. 64-65).

as provas indicadas e produzidas pelo juiz, a quem estariam dirigidas? Acaso o juiz trata de convencer-se a si mesmo, com um ato puramente interno? Certamente que não, pois os conhecimentos probatórios adquiridos pelo juiz devem ser postos em comum, devem consignar-se no processo e devem ser acessível às partes. Ademais, na maioria das vezes estes conhecimentos probatórios são ou devem ser adquiridos em concurso com as partes ou com a assistência delas.152

As provas têm entre os seus destinatários, ainda, a própria sociedade. É que no controle da atividade estatal, inclusive jurisdicional, a sociedade tem o direito de conhecer os motivos (provas, inclusive) pelos quais em seu nome foi proferida determinada decisão (no Estado Democrático de Direito, todo poder é exercido em nome do povo).153 A prova,

portanto, tem função endoprocessual (em relação ao juiz e às partes) e extraprocessual (em relação à sociedade).

A prova é uma garantia para o juiz, as partes e a sociedade da decisão o mais próximo possível da realidade.

Abre-se um parêntese para esclarecer que quando se fala nas partes como destinatários da prova não se pode perder de vista que, conforme adverte Santiago Sentis Melendo, “a prova não pode ser de uma parte nem para uma parte; nem tampouco para o julgador. A prova é para o processo. Aqui também estamos ante o conceito de disposição: poderá uma parte dispor de uma prova; mas no momento em que produziu esta prova, o processo a terá adquirido; não existe prova de uma parte e de outra [...]. O princípio da aquisição quer dizer precisamente que as provas são adquiridas para o processo”.154 Este ponto

de vista deve ser considerado à luz da perspectiva sob a qual o autor define o destinatário da prova: a possibilidade das partes e mesmo do juiz dispor da prova produzida. Sem dúvida, produzida a prova por uma parte, esta mesma parte não pode, porque por ela prejudicada, dela dispor, no sentido de dispensar o juiz de levá-la em conta na sua decisão. Da mesma forma, o juiz não pode desconsiderar a prova que a parte produziu contra os seus próprios interesses. É neste sentido que se pode falar que a prova é produzida para o processo.

152 FLORIAN, De las pruebas penales, t. I, p. 61-62.

153 Nos termos do parágrafo único do art. 1º da Constituição da República, todo o poder emana do povo, que o

exerce por meio de representantes eleitos (democracia representativa) ou diretamente (democracia participativa).

154 MELENDO, La prueba, p. 20. O juiz deve julgar com base na prova constante dos autos, tenha ela sido

produzida ou não pela parte que tinha o ônus de sua produção. Assim, a prova produzida por uma parte aproveita à outra.