2. REVISÃO DE LITERATURA: OS DETERMINANTES DO IDE E A RELAÇÃO
2.1. O IDE e seus possíveis determinantes
2.1.3. Determinantes econômicos e institucionais do IDE
O Paradigma Eclético, baseado nas três condições OLI para que o investimento direto ocorra, é considerado a base fundamental da teoria das empresas multinacionais. Assim, o Paradigma foi estendido para explicar as motivações, ou os determinantes, que levam as firmas a produzirem no mercado internacional (DUNNING, 1993; BREWER, 1993). Esse aspecto se associa às vantagens locacionais de uma economia para atrair o IDE, considerando como tais vantagens também interagem com as vantagens de propriedade e internalização.
Essas motivações estão ligadas, principalmente, à estrutura econômica e políticas governamentais e podem ser divididas em quatro grupos básicos, de acordo com o tipo de atividade que será realizado pela firma: busca por recursos (resource seeking); busca por mercados (market seeking), busca por eficiência (efficiency seeking) e busca por ativos estratégicos (strategic asset seeking). Essa categorização foi construída com base na motivação principal das firmas que optam pelo IDE, mas a multinacional pode, ao longo de sua existência, estar em diferentes categorias. No geral, os investimentos de novas firmas que se instalam no país estão ligados aos dois primeiros grupos, enquanto os dois últimos são associados a investimentos subsequentes realizados por firmas já estabelecidas no país.
O tipo de IDE chamado de resource seeking visa à aquisição de recursos específicos, como os recursos naturais, mão de obra barata e, mais recentemente, capacidade tecnológica e competências de gestão, marketing e organização. No geral, esses recursos são obtidos a baixo custo para a produção de bens, que serão vendidos no mercado externo, principalmente nos países desenvolvidos. Normalmente, esse tipo de IDE gera baixos vínculos com a economia receptora e contribui mais para os fluxos de exportação.
No caso do investimento market seeking, a intenção das empresas é ofertar bens ou serviços para o mercado doméstico do país receptor e, ocasionalmente, para mercados regionais. Assim, os aspectos mais valorizados pela multinacional estão ligados à dimensão do mercado e à sua taxa de crescimento, já que grandes mercados podem acolher mais firmas e permitem a diversificação e as economias de escala. Para Dunning (2006), as firmas que adotam a estratégia market seeking consideram a hipótese de IDE em mercados anteriormente servidos através da exportação pelas próprias firmas investidoras. Ainda, dentro dessa estratégia, as políticas governamentais
para a atração de IDE e a proximidade de fornecedores e clientes são outras razões que levam a firma a produzir no exterior.
Na categoria de investimento efficiency seeking, busca-se racionalizar a estrutura dos investimentos estabelecidos, de forma que a empresa investidora consiga ganhar com a administração comum de atividades geograficamente dispersas. Nesse tipo de IDE, a intenção é beneficiar da posse de diferentes recursos, culturas, arranjos institucionais, sistemas econômicos, políticos e estruturas de mercado, concentrando a produção em um número reduzido de locais para atender a vários mercados. Tais benefícios surgem das economias de escopo e de escala e da gestão do risco.
Para as empresas que buscam eficiência, a posse de vantagens como a diferença de disponibilidades e o custo de fatores, como o trabalho, é essencial. No entanto, a estrutura competitiva, a qualidade dos fornecedores, as políticas governamentais em nível macro e as microeconômicas costumam ter papel mais importante do que a dotação de fatores tradicionais da economia.
Na última categoria strategic asset seeking, também chamada de capability seeking, a aquisição de recursos e ativos estratégicos é o objetivo principal para as empresas que buscam fortalecer sua posição competitiva ou aumentar suas competências nos mercados regionais e globais. As formas tradicionais desse tipo de investimento estão ligadas à fusão, aquisição e joint-ventures. A empresa estrangeira está interessada em adquirir empresas no mercado de um país para promoção dos seus objetivos estratégicos de longo prazo, como adquirir posição competitiva em um ambiente que não lhe é familiar.
Tais motivações locacionais são comumente relacionadas aos determinantes econômicos do investimento direto. São expressos em diversos fatores que influenciam o desempenho econômico, assim como os riscos e as oportunidades associadas aos empreendimentos da empresa transnacional. Entre esses fatores, Dunning (1988) destaca: a dotação e distribuição de recursos naturais; o preço dos insumos; a qualidade e produtividade da mão de obra, o transporte internacional e os custos de comunicação; o controle das importações (barreiras ao comércio); o tamanho do mercado consumidor, a aquisição de ativos; as provisões de infraestrutura; e o sistema econômico como um todo. Esses fatores ligados ao desempenho econômico podem favorecer a habilidade da empresa multinacional em gerar e sustentar suas vantagens de propriedade, fortalecendo sua posição competitiva diante das concorrentes locais.
Nesse ponto, é importante ressaltar que a intervenção pública na alocação de recursos influencia tais fatores e pode encorajar empreendimentos multinacionais (DUNNING, 1988). Muitas vezes, justificados como objetivos macroeconômicos, os instrumentos políticos podem criar distorções na alocação de recursos, os quais a multinacional procura explorar ou proteger. Então, há interação entre sistema econômico e políticas governamentais, interpretadas como vantagens locacionais, que podem favorecer o empreendimento estrangeiro.
Nessa perspectiva, as vantagens locacionais para a atração do IDE são comumente associadas aos condicionantes macroeconômicos (PIB, taxa de câmbio, abertura comercial, estabilidade, entre outros), sendo a dimensão institucional dos países muitas vezes negligenciada ou posta em segundo plano como determinantes do investimento direto (AMAL; SEABRA, 2007; BEVAN et al., 2004). No entanto, com o crescente interesse dos empreendimentos multinacionais pela “criação de ativos”, como o conhecimento e infraestrutura, os ambientes institucionais passaram a ser vistos como facilitadores do desempenho competitivo e consecução dos objetivos dessas firmas (NARULA; DUNNING, 2000; BEVAN et al., 2004).
No sentido mais amplo, as instituições são entendidas como “restrições concebidas humanamente que estruturam as interações políticas, econômicas e sociais. São constituídas de restrições informais (sanções, costumes, tradições e códigos de conduta) e regras formais (constituições, leis e direitos de propriedade)” (NORTH, 1991, p. 97 – Tradução livre). Na visão de North (1991), aliada às instituições, a efetividade das sanções determina os custos de transação, que também são fatores críticos para o desenvolvimento econômico.
Tanto o investimento doméstico quanto o estrangeiro podem ser impactados pela qualidade das instituições, especialmente de duas formas (DAUDE; STEIN, 2007): instituições ruins podem aumentar os custos de negociação; e contratos com sanções pouco eficientes podem aumentar a incerteza ao se pensar nos retornos futuros e, assim, ambos afetarem o nível de investimento.
Por possibilitarem a redução dos custos de transação, de informação e de produção, as instituições favorecem os ganhos provenientes do comércio e reduzem as incertezas do ambiente concorrencial. Assim, tanto as instituições políticas quanto as econômicas são partes fundamentais de uma matriz institucional, que pode influenciar estratégias corporativas e o desempenho competitivo das firmas (NORTH, 1991; OLIVER, 1997; BEVAN et al., 2004).
Ao representarem os “principais fatores imóveis” no mercado globalizado, as instituições passaram a ser vistas como vantagem locacional importante na estrutura dos negócios internacionais (MUDAMBI; NAVARRA, 2002). Considerados como fatores imóveis internacionalmente, o sistema legal, político e administrativo remete a custos que determinam a atratividade de uma localidade em termos de investimento. De certa forma, “as instituições afetam a capacidade das empresas de interagir, seus custos relativos de transação e de coordenação da produção e da inovação” (MUDAMBI; NAVARRA, 2002, p. 636).
As características específicas das instituições e sua qualidade modelam os incentivos aos investimentos privados e extensivamente ao IDE. Nessa direção, as instituições políticas que podem influenciar o IDE estão ligadas ao regime político de um país, ao sistema legislativo e judicial, à estrutura de tomada de decisão e à intervenção governamental (AMAL; SEABRA, 2007). As instituições econômicas, por sua vez, vinculam-se à estrutura dos mercados nacionais e internacionais de fatores, aos direitos de propriedade e ao ambiente de negócios e, também, são afetadas pelas intervenções governamentais (AMAL; SEABRA, 2007; UNCTAD, 2003). Mudambi e Navara (2002) ainda ressaltaram que fatores socioculturais como costumes, normas informais e religião fazem parte do ambiente institucional e, consequentemente, podem influenciar o IDE.
Ao considerar o aspecto institucional dos países receptores e as vantagens locacionais deles advindas, as empresas multinacionais têm buscado localidades que favoreçam o desempenho global de suas atividades. Assim, não estão apenas interessadas em explorar recursos naturais e mercados, mas também fortalecer suas capacidades próprias, interagindo com o ambiente local. Tal fato cria novos desafios tanto para a multinacional quanto para os governos (RUGMAN; VERBECKE, 2002).
Nesta seção, nota-se que tanto fatores econômicos quanto institucionais de um país ou região fazem parte das chamadas vantagens locacionais que são determinantes do IDE. Porém, é importante ressaltar que a estrutura econômica e a institucional se influenciam mutuamente, gerando ambiente propício ou não para o desempenho das atividades multinacionais, ou seja, não são apenas fatores isolados que determinam a atratividade do IDE.
Seguindo essa orientação, não se podem especificar ao certo quais fatores econômicos e, ou, institucionais atrairiam o IDE para determinado país. Como mencionado anteriormente, isso depende tanto do interesse da empresa multinacional
quanto da conjuntura interna dos países receptores e, também, da conjuntura externa. É nesse último ponto que se pretende estabelecer uma relação das crises internacionais com o investimento direto estrangeiro em países emergentes.