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Deus e o presente

No documento fabianovictordeoliveiracampos (páginas 113-115)

O presente é entendido por Lévinas (1987, p. 55, tradução nossa) como “a essência que começa e que termina, começo e fim unidos e em conjunção, conceituável, [...] o finito em correlação com uma liberdade”. Trata-se do tempo próprio da consciência enquanto arché, ou seja, enquanto origem, princípio ou, nas palavras de Descartes, do cogito como fundamento do real. Diz Lévinas (1987, p. 137, tradução nossa): “na filosofia ocidental, o sujeito é origem, iniciativa, liberdade, presente. Mover-se um mesmo ou ter consciência de si é, com efeito, referir-se a si mesmo, ser origem”. Para Lévinas, enquanto compreensão do ser, a filosofia ocidental tende a conceber a realidade numa totalidade, num conjunto ou sistema, como se fosse um “eterno presente”. O presente é, temporalmente falando, o modo próprio da totalidade: “no presente – no presente acabado – na representação da idéia – tudo se deixa pensar num conjunto” (LÉVINAS, 2002a, p. 238). Para o pensamento ocidental enquanto filosofia do ser, tudo é presente ou de algum modo a ele se refere. Tendo em vista esse pensamento característico da filosofia ocidental, Lévinas interroga se o início como ato de consciência já não é precedido por algo que não pode ser sincronizado, isto é, por “um antes”

que não pode se tornar presente, pelo irrepresentável ou an-árquico, ou seja, pelo próprio Infinito, pelo Outro. Relativiza, portanto, o presente e acentua o tempo como passado, e também como futuro. Compreende o tempo não a partir da ótica helênica, mas a partir da tradição hebraica: não a partir do conhecimento enquanto desvelamento, assimilação, domínio e satisfação, mas colocando-se “à escuta do Outro”. Nunes corrobora essa afirmação, dizendo:

Seguindo a linha de pensamento hebraico, Lévinas propõe-nos uma concepção do tempo como essencialmente passado e futuro, e onde o presente não é mais do que um ponto de passagem, em contraposição a certas teorias que consideram a temporização como um “eterno presente” ou como um eterno separado do tempo. (NUNES, 1993, p. 101)60.

Para Lévinas, a forma ou categoria da presença, própria da consciência intencional, não serve para pensar o Infinito. A presença não é a inteligibilidade original de Deus. Isto porque, no presente da consciência ou na consciência enquanto re-presentação do ser – ato ou acontecimento de ser, essência (essance) do ser –, a ambigüidade incontornável de Deus, a sua alteridade absoluta e inabarcável, é traída, sincronizada num Dito. Lévinas (2005, p. 89- 90) assevera que “o infinito é alteridade inassimilável, diferença absoluta com relação a tudo o que se mostra, se sinaliza, se simboliza, se anuncia e se relembra – com relação a tudo o que se apresenta e se representa e por aí se ‘contemporiza’ com o finito e o Mesmo. Ele é Ele, Eleidade”. Em Lévinas, Deus é, pois, arrancado à simultaneidade da presença, isto é, do tempo sincronizável da representação, e remetido a um passado imemorial onde significa como Eleidade, de modo que a sua transcendência é resguardada.

Na representação o Infinito se desmentiria sem ambigüidade como se fosse um objeto “infinito” que a subjetividade intenta abordar como algo ausente. A intriga do Infinito não se tece conforme o cenário do ser e da consciência. [...] O rechaço que o Infinito opõe ao agrupamento próprio da reminiscência não se produz a modo de velamento e não esgota seu sentido em termos de consciência, em termos de claridade e obscuridade, de distinção ou confusão, de conhecido ou desconhecido. [...] A transcendência do Infinito

60 Nunes ancora sua reflexão sobre a temporalidade em Lévinas principalmente em dois comentários de

intérpretes do pensamento levinasiano nos quais os autores sublinham a compreensão hebraica do tempo e que aqui reproduzimos: “Em hebraico, o verbo ser jamais se conjuga no presente, as ações não se reportam a nenhum outro tempo que ao passado e ao futuro. Passado e futuro não são modificações da presença, os hebreus consideram o presente como um ponto, é o fim do passado e o início do futuro” (CHALIER, 1982, p. 144 apud NUNES, 1993, p. 101, nota 90, tradução nossa). O outro comentário diz o seguinte: “Na concepção hebraica, ‘A’ não é o início, mas sim o ‘anterior’. E ‘Z’ não é o fim, mas a abertura. [...] a grande afirmação hebraica é que ômega não é o fim nem o centro, nem a viragem decisiva. A última letra do alfabeto hebraico é o Tau, sinal do futuro da segunda pessoa, envolvimento do homem interpelado num futuro infinitamente aberto” (CACCIAVILLANI, 1984, p. 25 apud NUNES, 1993, p. 101).

é uma separação irreversível com relação ao presente, como a de um passado que nunca foi presente. (LÉVINAS, 1987, p. 232, tradução nossa).

Essa ambigüidade do Infinito, refratária ao conhecimento enquanto desvelamento, à representação ou ao ser em seu ato de ser – isto é, em sua essência ou “mostração”–, constitui a própria alteridade ou diferença absoluta do Infinito em relação ao finito ou ao pensamento que se perfaz como re-presentação, como “presentificação” de toda exterioridade. Dito de outro modo, a transcendência do Infinito é sua santidade ou separação absoluta em relação ao presente. Seu recalcitrar à presença, seu modo de significar aquém e além do presente, sua não-presença mesma – que não é pura ausência, mas relação em que perdura a diferença, a diacronia – constitui a sua altura, a sua própria infinição. Nas palavras de Lévinas (1982b, p. 100): “não há Infinito atual, diziam os filósofos. O que poderia considerar-se um ‘defeito’ do Infinito é, pelo contrário, uma característica positiva do Infinito – a sua própria infinidade”.

O Infinito não é contemporâneo ao pensamento que o pensa, mas o precede e o excede temporalmente. Em um abuso de linguagem, pode-se dizer que ele adentra o presente e, nessa entrada mesma, dele já se retira. Trata-se de uma “passagem” do Infinito, de modo que sua retirada significa uma perturbação da ordem do ser, descrita pelos termos inspiração, animação, afecção ou traumatismo. Perturbação que abre o “outramente que ser ou além da essência”, a intriga do Bem.

O absoluto retira-se do sítio iluminado – da ‘clareira’ do presente – onde se revela o ser [...]. Mas o absoluto que se retira perturbou-a: o sítio iluminado do ser não é mais do que a passagem de Deus. Não uma tumba onde se desenharia a sua forma, pois o sítio do Mesmo, desertado pelo absolutamente Outro, nunca pôde conter o infinito da alteridade. Aquele que passou mais além nunca foi presença. Ele precedia toda a presença e excedia toda a contemporaneidade num tempo que não é duração humana, nem projeção falseada, nem extrapolação da duração, que não é esboroamento e desaparecimento de seres finitos, mas a anterioridade original de Deus em relação a um mundo que não pode exprimir-se em categorias do Ser e da estrutura, mas o Uno – que toda a filosofia queria exprimir – do para além do ser. (LÉVINAS, 1967, p. 263).

No documento fabianovictordeoliveiracampos (páginas 113-115)