Inicialmente convém mencionar que, em um diálogo com filósofos holandeses recolhido em De Deus que vem à idéia, Lévinas (2002a, p. 134) admitiu que o tema do futuro nunca fora desenvolvido suficientemente, embora tivesse evocado o do messianismo em
Totalidade e Infinito. Daí que, a nosso ver, algumas questões permanecem abertas no que se
refere à reflexão levinasiana sobre o tempo enquanto futuro.
Lévinas pensa o tempo como relação com o Infinito sob o modo do “a-Deus” ou “para-Deus”. Para tal, utiliza metáforas e termos que visam exprimir o movimento do tempo ao Infinito, de modo a significar a sua eternidade ou duração: “o tempo como o a-Deus da teologia” (LÉVINAS, 2005, p. 223), tempo como “espera paciente de Deus”, tempo como “paciência do des-mesurado”, tempo como “Desejo”, “Procura” ou “Questão”. O tempo é sempre “a-Deus” ou “espera de Deus”. Mas trata-se de uma “espera sem esperado”, espera de algo que não pode ser termo ou fim pois está para além do movimento que o procura, excedendo-o infinitamente, isto é, abrindo-o sempre mais, aumentando sua fome ao infinito.
“Espera sem esperado” na medida em que o movimento de busca ou espera é redirecionado ao outro homem (LÉVINAS, 2002a, p. 134). Nesta espera sem esperado, a intencionalidade transmuta-se em responsabilidade por outrem (LÉVINAS, 2003a, p. 156). Nos termos do próprio Lévinas (2002a, p. 118), “o tempo, na sua paciência e duração, na sua espera, não é ‘intencionalidade’ nem finalidade (finalidade do Infinito – que derisão!), mas é ao Infinito e significa a dia-cronia na responsabilidade por outrem”. Em outras palavras, trata-se de uma espera não-teleológica, pois não alcança aquilo que busca ou, apelando-se para um abuso de linguagem, “como o imemorial no lugar da origem, é o Infinito que é a teleologia do tempo” (LÉVINAS, 2003a, p. 126). Nisto consiste o sempre da duração, a própria eternidade do tempo (LÉVINAS, 2002a, p. 134). Eternidade não como um incessante retorno ao presente, mas como abertura ao infinito do tempo. Daí que as modalidades supracitadas das quais Lévinas se serve para descrever o tempo no futuro não signifiquem apenas carência ou insuficiência de identidade, mas o próprio excesso – eternidade e duração – do tempo em sua relação com o pensamento e com o ser.
O tempo e todos os fenômenos temporais (procura, questão, desejo, etc.) são sempre analisados por defeito. Será que, em tais fenômenos, não se poderá pensar o seu vazio, o seu inacabamento, como um passo para-além do conteúdo, como um modo de relação com o não-contível, com o infinito que não se pode dizer termo? [...] O infinito não exclui, no entanto, a investigação, o que quer dizer que a sua ausência não é pura ausência. A procura não seria a não-relação com o diferente, mas relação com o singular, relação de diferença na não-indiferença, excluindo toda a medida comum, nem que fosse a última, a comunidade, a co-presença. Uma relação permaneceria no entanto, e isso seria a própria diacronia. Haveria que pensar o tempo como a própria relação com o Infinito. A procura ou a questão não seria deficiência de uma qualquer possessão, mas imediatamente relação com o para-além da possessão, com o inapreensível no qual o pensamento se despedaçaria. [...] O sempre do tempo seria engendrado por esta desproporção entre o desejo e o que é desejado – e um tal desejo seria ele mesmo ruptura da consciência intencional na sua igualdade noético-noemática. (LÉVINAS, 2003a, p. 125).
Pensado essencialmente como futuro, o tempo é dia-cronia, pois não pode ser conhecido pela consciência, ou seja, não pode ser pensado a partir do presente: “o porvir é de um só golpe bloqueado e desconhecido e, conseqüentemente, em relação a ele o tempo é sempre diacronia” (LÉVINAS, 2002a, p. 136). Em outros termos, o fato de o porvir do futuro ser inacessível à consciência revela a dia-cronia do tempo. Em sua inadequação ao presente, em sua diacronia irreversível, isto é, enquanto futuro, o tempo é relação com um “além”, com algo que não é contemporâneo ao pensamento, mas que o excede, ou seja, que está para além
dele: “[...] na sua paciência, o tempo refere-se ou defere-se ao Infinito” (LÉVINAS, 2003a, p. 156). Essa excedência constitui a própria transcendência ou diferença do Infinito; diferença como não-indiferença ao homem.
Tempo como relação ou – no sentido etimológico do termo – como de- ferência ao “que” não pode ser re-presentado (e que, por esta razão, falando com propriedade, nem se pode dizer “que”) – mas que na sua diferença não me pode ser in-diferente. Ou tempo como questão. Não in-diferença, uma modalidade de ser in-quietado pela diferença sem que cesse a diferença – passividade ou paciência sem assunção, pois de-ferência ao que supera minha capacidade – questão! Por aí, infinitamente mais que a re- presentação, a posse, o contato e a resposta – mais que toda esta positividade do mundo, da identidade, do ser, que ousa desqualificar o sujeito, a busca, a questão e a inquietude [...] (LÉVINAS, 2002a, p. 135, grifo do autor).
Lévinas (2005, p. 203, grifo do autor) pensa o futuro a partir da inspiração profética: “é-se inspirado além daquilo que, na obediência, se representa e se apresenta”. Esse excesso de sentido descrito pelo vocábulo “além” corresponde ao que Lévinas, em termos temporais, descreve através de expressões como “a-Deus”, “ao infinito”, referindo-se à própria eternidade ou duração do tempo. Ser inspirado além do que se apresenta na obediência é ser inspirado a possibilidades ainda insuspeitadas. Abre-se a dimensão do futuro como possibilidades ainda imprevistas pelo Eu em ser-para-o-outro. É como se o que se apresenta na responsabilidade ou na obediência não fosse senão o que já deveria ter sido feito, como se o Eu estivesse em atraso e, por isso, já lançado para além do que é interpelado a fazer. Aumento do Desejo na medida em que se tenta saciá-lo. Infinitude da responsabilidade, que me chega de um passado e me remete sempre ao que ainda não fiz, ao porvir do tempo até então insuspeitado.
Em outros termos, Lévinas pensa o futuro não a partir do Eu e do que lhe ocorre, mas a partir do Outro, na medida em que questiona o Eu. O futuro é compreendido a partir do momento dia-crônico em que escuto o mandamento significado como vestígio ou passagem do Infinito na proximidade do Rosto no instante mesmo em que eu respondo “eis-me aqui”. Na obediência anterior à escuta da ordem de ser-para-outrem, na responsabilidade ilimitada pelo outro já demasiadamente em atraso, abre-se a eternidade ou o “a-Deus” do tempo. Lévinas (2005, p. 223) refere-se à “queda de Deus sob o sentido”, que se dá na proximidade do próximo ou frente a frente sob a forma de um mandamento ético, como a própria “futurição do futuro”, ou seja, o porvir do futuro como descida de Deus à idéia e sua inserção na linguagem. Ora, do rosto me vem uma obrigação para além de minha morte, isto é, após e
apesar da minha morte, uma ordem significativa que se estende ao sem-fim, ao infinito, ou
seja, a Deus. Trata-se de uma “obrigação que a morte não desfaz” (LÉVINAS, 2005, p. 222) e que, por isso mesmo, abre a dimensão do futuro. Para Lévinas (2005, p. 224), “não se terá ido até o fim do pensamento e do significativo (sensé) pelo fato de morrer. O significativo (sensé) continua além da morte”. Ou seja, a ordem solicita além da morte. Esta obrigação que me obriga para além de minha morte é o sentido original do futuro. O futuro possui uma significação imperativa: ele me concerne como não-indiferença ao outro homem. “Esta maneira de ser votado – ou esta devoção – é tempo. Permanece relação ao outro, enquanto outro, e não redução do outro ao mesmo. É transcendência” (LÉVINAS, 2005, p. 223). Neste devotamento ao outro, nesta eleição, o eu é lançado ao infinito, isto é, a Deus.
Esta seção procura abordar a re-significação ética que Lévinas empreende na questão da relação com Deus. Trata-se de demonstrar a intriga ética que se desenvolve entre o Eu, o Outro e a Eleidade, quer seja de Deus, quer seja do terceiro homem no fundo do Tu. Analisa- se o sentido de Deus a partir da subjetividade entendida como relação com o Outro e, concomitantemente, em relação com o próximo do Outro, isto é, com o terceiro e, por esse viés, como relação com Deus ou “a Deus”.