Apresento aqui uma série de pequenos textos que escrevi durante o mestrado, quando procurava compreender qual o meu objeto de estudo, como gerir as minhas inquietações e perceber de que forma trabalhar os temas que queria desenvolver.
Reflexo do meu percurso pessoal e académico, leio nas entrelinhas os meus quinze anos de ballet clássico e a minha perspetiva sobre o corpo; leio a minha ligação com a disciplina de arquitetura; leio a influência que o espaço teatral teve e tem nas minhas escolhas e na minha perspetiva sobre as artes; leio a (minha) perspetiva sobre mim mesma, como um caminho que se desenha um espaço:
“Imagino as janelas-cinema na arquitetura de Le Corbusier: (1) um
vazio por onde entra um espaço exterior dentro de outro espaço, o interior, este, onde está o meu corpo; (2) a ausência de matéria por onde escapam os olhos, a ausência por onde entram os sons dessas imagens que não vejo através das paredes.
A presença da matéria, adição e subtração, texturas e cores dos materiais que desenham o espaço, a minha presença neste mesmo espaço, traz-me a consciência de um outro, transversal a toda a minha experiência: o traz-meu corpo, a casa dos sentidos. Este corpo-espaço que habito, com o qual deambulo todos os dias, onde nunca entrei porque só aqui sou, e de onde nunca saí, mas onde deixo sempre as portas e janelas abertas para deixar entrar nele todos os espaços onde me encontro, que vejo, ouço, sinto, saboreio, cheiro. Esta casa onde, muitas vezes, confundo os sentidos.
No quotidiano, o espaço é multiplicado por todos os lugares que habito, onde permaneço, por onde passo. Mas há algo em comum em todos eles: o corpo que o define, que o lê, o meu corpo. Então, vou-me deixar andar por esses lugares, sem olhos, sem texturas, sem sabor, sem aromas. Mas senti-los na pele, no toque, no passo, nas mãos. Grandes, pequenos, cheios, vazios, assim os sinto conforme eu-espaço entre neles. Ou uma casa dos sentidos: minha referência, meu porto seguro, armadura da alma, protege-me do ar que enche o espaço no espaço, protege-me dos cheios e vazios, este corpo onde moro, e que me leva com ele por aí, que levo comigo por aí.
Nas palavras de Marc Augé, “o efeito mágico de construção espacial, o facto de o próprio corpo humano ser concebido como uma proporção de espaço, com suas fronteiras, seus centros vitais (…) pelo menos no espaço da
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imaginação, o corpo é um espaço composto e hierarquizado (…)”19. Ou seja, o diálogo entre espaço e o corpo confere-lhe qualidade e características, leituras e percepção. Existem também nessa relação espacial um posicionamento e perspetiva do mesmo: estar dentro do espaço, estar fora, vê-lo da plateia ou habitá-lo, transformá-lo com o decorrer da experiência do corpo no espaço, ou fora dele. Estar fora é estar dentro também, com outra experiência. A escala, a proporção do corpo em relação ao espaço, a leitura as características do espaço pela nossa experiência, e a sensação de liberdade num horizonte infinito ou prisão como uma Alice gigante numa sala pequena demais, são experiência. E a experiência atribui qualidade a um espaço. Pisar o seu chão, ultrapassar com os olhos os tetos, ouvir o que está para além das paredes. Vivê-lo, desenhá-lo, criá-lo, modificá-lo.
Em Quad I+II20, peça criada para televisão, Samuel Beckett desenha espaço através do movimento: um gesto contínuo como um riscar que se intensifica. Um espaço onde o corpo é o lápis e o chão, a folha. Quanto maior a intensidade das linhas na folha, mais movimento regista, mais intenso fica o espaço, ganha mais experiência, mais densidade.
O que vive entre o espaço físico e o espaço mental? Rykner21 explora uma dimensão espacial que existe na “interação (…) entre o espaço de cena, espaço mental”; mas será espaço também o que descrevemos em palavras? Talvez outra dimensão, onde o espaço se constrói com materiais cuja engenharia só depende da imaginação; livre, capaz de ultrapassar os limites do corpo.
Também eu sou espaço, mutante, a matéria altera-se em si, altera-se no espaço, percorre, é sensível, tem um crescente campo de ação desde a gestação, ao mundo que posso percorrer com os meus próprios pés. E, à medida que vou desenlaçando a corda, perco a noção do espaço percorrido, dos passos que nunca contei.”
Lisboa, 6 de Maio de 2017
Outro momento que faz parte deste diário é uma memória sobre uma outra memória. Numa conversa sobre temas diversos, há um momento em que o discurso vai ao encontro à
19AUGÉ, Marc, Não Lugares - Introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Ed. Letra Livre, Lisboa 2012, p. 55.
20 QUAD I + II, peça para televisão, transmitida pela primeira vez na Alemanha a 8 de Outubro de 1981. LINK:
https://www.youtube.com/watch?v=4ZDRfnICq9M&t=58s [2021.03.19]
21RYKNER, Arnaud, O Reverso do teatro – Dramaturgia do silêncio da idade clássica a Maeterlinck, Fundação Caloustre Gulbenkian, Lisboa 2004, p. 288.
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primeira memória do espaço da minha casa nas palavras de alguém que, agora, faz parte de muitas das memórias que tenho deste espaço. Transcrevo um excerto dessa conversa, Acho que
nem falámos nesse dia, entre outras notas:
“(...) são as perspetivas que tens de alguma coisa e que te dão sempre uma imagem da pessoa. ...a ideia que tens da pessoa. É como trincares uma maçã verde. Imagino-te sempre que vejo uma maçã verde. ...nem sei porquê, associo-te a maçãs. A cena de trincar a maçã, sabes? (risos)
- As maçãs verdes arrepiam-me. Mas sim...
- São cenários que criamos para as pessoas. Associas... (silêncio) Gosto de te ver à janela. (silêncio). Houve uma vez qualquer que vim aqui, já há uns meses, a gente nem se conhecia praticamente. Foi a primeira vez que vim à tua casa. Foi uma sensação “muito fora”. (a casa) parecia vazia, entraste, e nem não ligaste a luz. E eu vi-te no fundo do corredor, tudo às escuras e tu voltaste-te para trás com a luz que vinha do quarto a fazer um recorvoltaste-te... Não voltaste-tens noção... mas foi uma sensação... não sei explicar. Primeiro tudo era novidade, mas esta imagem não me sai da cabeça. Senti-me a entrar num poço, sabes? Um silêncio aqui, e não ouvia nada... Acho que nem falámos nesse dia.”
Diário, 4 de Novembro de 2015
Notas soltas:
Pela janela ouço e vejo o que não se vê. Vejo o que não se vê.
Vejo árvores e pássaros alegres.
Lisboa, 21 de Novembro de 2016
Eu sou espaço. Sou mutante.
O corpo altera-se em si, altera-se no espaço.
Percorro; sinto; desde a barriga a mãe até aos passos que dou com os meus próprios pés.
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À medida que vou desenlaçando a corda, perco a noção dos espaços percorridos, dos passos que nunca contei.
Espaço são todos os lugares. Espaço é o corpo que habito.
Lisboa, 3 de Agosto de 2016
A casa tem um núcleo; funciona como uma órbita, em círculos, apesar de os ângulos serem retos.
O centro isola-se. O círculo à volta do núcleo central funciona como um canal onde passa o vento; passam as conversas. Esse círculo à volta do núcleo distribui informação pela casa; nesse círculo existem várias portas e essas portas vão dar a mundos diferentes. Cada quarto é um mundo diferente. Desse círculo para dentro, no núcleo, mal de ouve um assobio.
A cozinha é o fogo, o coração. Na cozinha há sempre burburinho. A cozinha é fria e quente ao mesmo tempo. É chuva e sol ao mesmo tempo. A cozinha é uma confusão. Reúne todas as memórias que, como um sabor agridoce, se desvanecem.
Pela cozinha entram os vizinhos, o cão, os carros. Na cozinha ouço a conversa dos amigos, dos vizinhos do 3º direito e do 2º esquerdo. Na cozinho ouço sempre os pássaros mesmo quando está mau tempo.
Na cozinha lembro-me de várias coisas e de nada em particular. As melhores conversas são na cozinha, as mais ruidosas. Mas as conversas que ficam, são as mais silenciosas, as que respiram.
Ouço o respirar entre as palavras destas conversas. Profundas e silenciosas, são segredos.
O “relógico” da cozinha, partiu-se. Parti-o
Já não há “relógico” propriamente mas continua pendurado e parado nas 17:34.
Lisboa, 4 de Setembro de 2016
Há uma brincadeira que costumava fazer para entreter a minha prima mais nova, “Vejo, vejo...”, consiste em olhar à nossa volta e, à vez, descrever algo que estejamos a ver na paisagem sem nunca repetir a mesma coisa e a outra pessoa tem de adivinhar o que é (objetos, situações,
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pessoas). Este “Ouço, ouço...” é uma versão alternativa da brincadeira onde, em vez de olhar, escutamos a paisagem. Não é mais do que um desenho, onde a informação mais imediata e mais superficial se vai esgotando e onde é preciso estar atento aos elementos mais discretos e ir aprofundando e descobrindo coisas novas.
Fiz isto vezes sem conta e, de olhos fechados, ia registrando o que ouvia, sem olhar. Às vezes tinha curiosidade de “confirmar”, outras vezes conseguia resistir e ficava com a imagem mental. Guardei os papéis e, passados meses, voltei a ler as imagens sonoras que tinha ouvido e a verdade é que verifiquei que alguns sons se alteraram não fazendo depois parte da paisagem (pelo menos, não da mesma forma) como o cantar dos pássaros ou o vento.
Se antes o vento se fazia ouvir nas folhas das árvores, passou a ser apenas um assobio; o ruído da rua, das conversas, dos carros ficaram mais intensos dentro de casa, tudo porque as árvores foram podadas. A densidade da folhagem não é a mesma e isso alterou, e muito, o ambiente sonoro da casa. Talvez de outra forma não tivesse dado por isso:
“Ouço, ouço...
Passos de salto alto no andar de cima, chaves a cair no chão, a porta a bater
Gritos de criança. Um assobio Ouço um divórcio.
Arrastar de pés, ouço a porta a ranger. Cadeira de madeira a chiar.
Interruptor. Ventoinha. Tosse.
Zumbido de um máquina, mas não percebo qual...
Parece aspirador mas é demasiado constante, não se move.
Uma cama de casal.
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Os carros passam de vez em quando. Ouço corpos nos lençóis do andar de cima.
A madeira estala, parece arder. A casa envelhece.
Este ambiente é uma entrada para um ambiente meio louco. Estou a ouvir-me respirar enquanto estou de olhos fechados. Está tudo tão silencioso; o lápis grita quando risca o papel.”
Diário, 6 de Setembro de 2016
“Ouço, ouço...
o chuveiro, a água cai sobre o poliban. Alguém entra no chuveiro. A água cai ora suave ora agreste. Cai uma embalagem no chuveiro. Alguém lava o cabelo, cabelo longo. A água cai, ouve-se o cano, o contador. A torneira fecha. Cortina. Cai a água do cabelo. “
Diário, 7 de Setembro de 2016
“A música da Hindi Zahara também mora aqui.”
Diário, 29 de Outubro de 2016
“Com o vento, o chicotear das roupas na parede.
Ranger do portão da garagem do prédio das traseiras. A porta vibra, é de metal.
Ventilação do café das traseiras.
Conversa ao telefone do funcionário do café; voz jovem, masculina, tique verbal, gagueja e não sabe as horas.”
Diário, 6 de Novembro de 2016
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Bater de asas; cantar de pássaros. Vento nas folhas.”
Diário 9 de Novembro de 2016
“Martelar das obras, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar,
martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar, martelar
Não se ouvem os pássaros.”
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