2.1 DIALOGISMO
Este capítulo tratará do dialogismo e da intertextualidade de acordo com os estudos e reflexões de Bakhtin e os princípios teóricos da Linguística Textual. Segundo Fiorin (2008, p.18) “O teórico russo enuncia esse princípio e, em sua obra, examina-o em seus diferentes ângulos e estuda detidamente suas diferentes manifestações”. Pontuaremos alguns desses diferentes ângulos no decorrer deste capítulo.
Diferentes posições teóricas possibilitam distintos olhares sobre o mesmo objeto de estudo, desse modo, é necessário expressar nosso entendimento acerca do tema escolhido, destacando o lugar teórico de onde se fala e consequentemente, nosso ponto de vista.
Dialogia não é uma teoria científica, mas sim uma filosofia, um conjunto de conceitos. Segundo Fiorin (2008) Bakhtin (2006) também não é um teórico do diálogo face-a-face, interessa-lhe pouco o diálogo tal como é tradicionalmente conhecido. Ele chega mesmo a dizer que essa forma composicional do discurso é uma concepção estreita do dialogismo.
As relações dialógicas que se estabelecem entre dois enunciados quaisquer postos em contato é o que lhe interessa. A lógica das relações dialógicas não é, portanto, de natureza linguística stricto sensu, o que nela ocorre é a defrontação. O termo diálogo em Bakhtin (2006) designa a grande metáfora conceitual que organiza sua filosofia; é o nome para o simpósio universal que define o existir humano e não para uma forma específica de interação face-a-face e menos ainda para uma forma composicional do texto:
a vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, com os lábios, com as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal. (BAKHTIN, 2006, p.348)
Para Bakhtin (2006) a língua é na essência dialógica; todo enunciado propõe uma atitude responsiva. Por atitude responsiva podemos entender a relação entre o homem habitado pelo signo e ideologicamente marcado pelas estruturas sociais e o mundo habitado por ele. É nessa relação que se cria a perspectiva de diálogo que gera a possibilidade de modificação recíproca. Na concepção bakhtiniana o diálogo não se limita à comunicação face a face, mas abrange todo o processo de comunicação verbal e não verbal, incluindo o texto falado ou escrito. O discurso é, portanto, um espaço marcado por diversas vozes vindas de outros discursos. A responsividade pode ser ativa ou passiva. Afirma Bakhtin (p. 271, 2006) que:
...o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso ocupa simultaneamente em relação a ele uma atitude responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente, a partir da primeira palavra do falante. Toda compreensão da fala viva, do enunciado vivo é de natureza ativamente responsiva (embora o grau desse ativismo seja bastante diverso); toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante.
Uma atitude responsiva ativa implica uma ação concreta dotada de intencionalidade voluntária praticada por alguém, responder a alguém ou a alguma coisa. Nesse caso, há uma ruptura com as idéias de assujeitamento ou sujeito-fonte trazidas pelo dialogismo. Bakhtin (2006) explica que a linguagem nunca está completa, ela é uma tarefa, um projeto sempre em construção, sempre inacabado. O discurso está ligado à vida em si e não pode ser separado dela sem perder sua significação. A palavra pode, então, tornar-se prioritária nos estudos sócio-históricos somente se a analisarmos e analisarmos seus signos isoladamente. Como a palavra está inserida num contexto, num conjunto de valores ou fatores que a fará tornar-se enunciado, a resposta ao discurso se dará de diversas maneiras.
O ato responsivo deve ser entendido, portanto, como aquele realizado por um sujeito social em interação com um ou mais sujeitos, e pode ser executado de maneira verbal ou através de gestos. Se for uma comunicação verbal ou escrita, podemos chamar essa atitude de responsiva ativa. Para Bakhtin (2006), o falante está decidido, ele não espera uma compreensão passiva, por assim dizer, que duble seu pensamento em voz alheia, mas uma resposta, uma concordância ou até uma participação. A atitude responsiva, para Bakhtin (2006) está ligada à questão de formação do sujeito, na sua consciência, revelada por sua forma de pensar e agir.
Para Fiorin (2008) o primeiro conceito de dialogismo é aquele que se funda em contradição, réplicas de vozes sociais que divergem. Essas vozes podem ser individuais ou sociais, incluindo grandes discussões filosóficas ou diálogos do dia a dia. De acordo com Fiorin (2008, p. 27):
ao tomar em consideração tanto o social como o individual, a proposta bakhtiniana permite examinar, do ponto de vista das relações dialógicas, não apenas as grandes polêmicas filosóficas, políticas, estéticas, econômicas (...) mas também fenômenos da fala cotidiana, como a modelagem do enunciado pela opinião do interlocutor imediato ou reprodução da fala de outro com uma entonação distinta da que foi utilizada, admirativa, zombeteira (...). Todos os fenômenos presentes na comunicação real podem ser analisados à luz das relações dialógicas que os constituem.
O segundo conceito de dialogismo é o que traz uma forma composicional ao mesmo, mostrando visivelmente vozes distintas nos discursos. Bakhtin chama essa forma de composição estreita de dialogismo. Conforme Fiorin (2008, p. 33), “com esse adjetivo, o que o filósofo pretende mostrar é que o dialogismo vai além dessas formas composicionais, ele é o modo de funcionamento real da linguagem, é o próprio modo de constituição do enunciado”.
Bakhtin (apud Fiorin 2008) coloca duas maneiras de inserir o discurso do outro no enunciado: o discurso objetivado e o discurso bivocal. O primeiro é o discurso citado e mostrado em que se usam o discurso direto e indireto; aspas; negação; e o segundo, internamente dialogizado, em que não há separação nítida entre quem cita e quem enuncia, nesse aparecem as paródias, a estilização e a polêmica. Bakhtin (2006, p. 275) explica ainda que:
Todo enunciado – da réplica sucinta (monovocal) do diálogo cotidiano ao grande romance ou tratado científico – tem, por assim dizer, um princípio absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, os enunciados de outros; depois do seu término, os enunciados responsivos de outros ou amo menos uma compreensão ativamente responsiva silenciosa do outro ou, por último, uma ação responsiva baseada nessa compreensão.
O terceiro conceito de dialogismo está ligado diretamente ao sujeito que professa o discurso. Para Bakhtin não existe o assujeitamento, mas o sujeito não é, também, autônomo em relação à sociedade. Fiorin (2008, p. 55) menciona que:
o sujeito não é assujeitado, ou seja, submisso às estruturas sociais, nem é uma subjetividade autônoma em relação à sociedade. O princípio geral do agir é que o sujeito age em relação aos outros; o indivíduo constitui-se em relação ao outro. Isso significa que o dialogismo é o princípio de constituição do indivíduo e o seu princípio de ação.
O princípio básico dessa ideia é que o ser humano está em constante transformação, constituindo-se de vozes sociais que o formam e que o formarão, construindo o seu arsenal de ações e discursos. Não há indivíduo acabado, e não recebemos de uma só voz social, mas de muitas. Somos e estamos integrados num contexto de ações e reações. Temos atitudes responsivas diante dos fatos e das falas, respondemos a isso o tempo todo. Portanto, o indivíduo é totalmente dialógico. Há diferentes tipos de vozes: a de autoridade e as vozes persuasivas. Quanto mais nossa consciência for formada por essas vozes de autoridade, explica Fiorin (2008), mais ela será monológica ou ptolomaica. Quanto mais for constituída de vozes persuasivas, mais ela será dialógica ou galileana. Esses dois tipos de vozes se debatem e aí acontece a inter-relação das diferentes vozes que nos constituem. Segundo Fiorin (2008, p. 56):
Bakhtin qualifica de ptolomaica a consciência mais rígida, mais organizada em torno de um centro fixo, como era o sistema planetário de Ptolomeu, em que a Terra era fixa. Já a galineana é a consciência mais aberta, mas móvel, não organizada em torno de um centro fixo, como é o sistema de Galileu, em que a Terra de move. Segundo Fiorin (2008, p.19) nos enunciados “existe uma dialogização interna da palavra, que é perpassada sempre pela palavra do outro, é sempre e inevitavelmente também a palavra do outro”. Portanto, os textos são sempre ecos de outros textos, e os discursos de outros discursos. Ainda em Fiorin (2008, p.19):
Não há nenhum objeto que não apareça cercado, envolto, embebido em outros discursos. Por isso, todo discurso que fale de qualquer objeto não está voltado para a realidade em si, mas para os discursos que o circundam. Por conseguinte, toda palavra dialoga com outras palavras, constitui-se a partir de outras palavras, está rodeada de outras palavras.
Na filosofia bakhtiniana há diferenças entre a unicidade do ser e do evento, distinguindo-os em unidades da língua e enunciados. Os enunciados se caracterizam dialógicos, não existem fora das relações dialógicas, pois são unidades reais de comunicação, irrepetíveis, estão ligados ao evento, pois têm um acento, uma apreciação e entonação própria. Podemos dizer que os enunciados revelam um posicionamento, pois têm um autor, são completos e aceitam uma resposta; além disso, os enunciados têm um destinatário, portanto estão carregados de juízo de valor e possuem sentido. Segundo Brait (2008, p. 63):
O enunciado, nessa perspectiva é concebido como unidade de comunicação, como unidade de significação, necessariamente contextualizado. Uma mesma “frase” realiza-se em um número infinito de enunciados, uma vez que esses são únicos, dentro de situações e contextos específicos, o que significa que a frase ganhará sentido diferente nessas realizações “enunciativas”.
Por sua vez, as unidades da língua, que são os sons, as palavras e as frases, podem ser repetidas e não se caracterizam como dialógicos. Estão ligadas às relações semânticas e têm significação. Segundo Fiorin (2008, p. 21), num enunciado “estão presentes ecos e lembranças de outros enunciados, com que ele conta, que ele refuta, confirma, completa, pressupõe e assim por diante. Um enunciado ocupa sempre uma posição numa esfera de comunicação sobre um dado problema”.
As consciências centrípetas não se deixam influenciar por discursos abertos às novas possibilidades. No nosso mundo interior há o debate dessas vozes sociais, heterogêneas que vão se colocando ideologicamente para nós. O sujeito não é assujeitado, pois ele participa desse diálogo de vozes sociais colocando-se como ser singular. A realidade é centrífuga porque os sujeitos vão se constituindo não organizadamente em torno de um centro único, mas sim em várias direções.
Se numa sociedade há vários enunciados que ocupam seu lugar, incitando respostas, ou atitudes responsivas, nesses enunciados atuam forças centrípetas e centrífugas. As primeiras querem uma centralização do discurso, enquanto a outra se sujeita à dispersão dele mesmo. “Com os conceitos de forças centrípetas e forças centrífugas, Bakhtin (2006) desvela o fato de que a circulação das vozes numa formação social está submetida ao poder” (FIORIN, 2008, p. 31). As vozes estão confinadas a esse exercício, e quando se fala em dialogismo constitutivo os enunciados são anteriores, do passado. O dialogismo classifica-se, então, na esfera das relações entre os enunciados, não se revelando claramente no fio do discurso.
Afirma Brait (2008, p. 106) que “como princípio geral do agir – só se age em relação de contraste com relação a outros atos de outros sujeitos: o vir-a-ser, do indivíduo e do sentido, está fundado na diferença”. Brait (2008) esclarece que Bakhtin empregou ao dialogismo três sentidos, e a primeira implicação foi citada acima.
É importante esclarecer que “o problema do diálogo começa a chamar cada vez mais a atenção dos linguistas e, algumas vezes, torna-se o centro das preocupações em linguística” (BAKHTIN, 1981, p. 145). Explica ainda Bakhtin (2006) que a unidade real da língua é realizada na fala, “não é a enunciação monológica da fala individual e isolada, mas a interação de pelo menos duas enunciações, isto é o diálogo” (BAKHTIN, 1981, p. 146).
Sobre a presença de outros no discurso, Bakhtin (1981, p.144) afirma:
o discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre a enunciação (...) o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso e na sua construção sintática, por assim dizer „em pessoa‟, mas uma unidade integral em construção. Assim, o discurso citado conserva sua autonomia estrutural e semântica sem por isso alterar a trama linguística do contexto que o integrou.
Marchezan (2006, p.117) afirma que “o verdadeiro diálogo, o diálogo “real”, concreto, não é aquele que já se fez letra morta, decorada mecanicamente, repetida sem razão e sem vontade. Diálogo e enunciado são assim, dois conceitos interdependentes”. Ela ainda menciona que em um diálogo, sempre há a perspectiva da réplica, numa “alternância de vozes”. Como também lembra a autora e faz-se necessário registrar “a reflexão bakhtiniana reúne sujeito, tempo e espaço – e o diálogo o mostra de maneira modelar -, mas, diferentemente de outras perspectivas, lhes conserva e revela a constituição histórica, social e cultural, também explorada por meio de conceito de cronótopo”13
(MARCHEZAN, 2006, p.117).
Com relação à presença ou ausência do outro, Bakhtin fala em sua obra do espelho gerando a imagem que faço de mim mesmo. Quando eu olho no espelho, não me vejo, mas vejo a imagem que faço do meu externo. Essa definição também é importante, pois sabemos que é pela linguagem e pelo outro que nos constituímos. Bakhtin desenvolveu também, dentro da teoria do romance, a diferença entre autor criador e autor pessoa, distinguindo as vozes nesses contextos. Portanto, para Bakhtin (1998) a segunda voz que fala em meu nome é o autor criador. Não há julgamentos das vozes que se expressam. Nesse contexto chamamos de autor-contemplador, o leitor.
Para Bakhtin o romance é inconcluso, assim como a vida e a linguagem. Da vinculação às filosofias da existência também decorre o fato de que o pensamento de Bakhtin é radicalmente histórico e hermenêutico. Para Bakhtin viver é posicionar-se diante de valores. Nós nos constituímos e agimos sempre num universo de valores. Viver para Bakhtin é responder, é assumir, a cada momento, uma posição diante de valores, viver é participar desse diálogo inconcluso que constitui a vida humana. A dialogia é, portanto fundante do nosso ser no mundo e da nossa própria consciência, conviver é assumir posição de valores e responder
13
Cronótopo – “Cronótopo e exotopia são dois termos que falam da relação tempo-espaço. O primeiro foi concebido no campo restrito do texto literário; o segundo se refere à atividade criadora em geral” (BRAIT, 2006, p. 95).
ao mundo, ter uma atitude responsiva (apud Pernambuco, 2009)14. “Ser significa ser para o outro, e através dele, para si. O homem não tem um território interior soberano, está todo e sempre na fronteira, olhando para dentro de si, ele olha o outro nos olhos ou com os olhos do outro”. (BAHKTIN, 2006, p.341)
A expressão consciência individual é, na concepção bakhtiniana, uma contradicto in adjecto, porque a consciência é sempre plural, no sentido de que é povoada por diversas vozes sociais que ali estão como efeito do nosso existir no diálogo. Uma resposta ao outro ou uma resposta a mim mesmo: heteroglossia, plurivocalidade. Mas a consciência de cada um não é um mero repositório dessas vozes, um tesouro acumulado. A consciência é um universo em movimento contínuo, na medida em que funciona sob o comando da dialogia. A consciência é então plurivocal (heteroglóssica) porque a sociedade em que ela se constitui e vive é plurivocal (heteroglóssica).
Para Bakhtin (2006) não interessa a língua no seu estatuto, isto é como gramática, sistema de signos (ou sistema de signos), embora ele a reconheça como relevante. Ele deixa-a para os linguistas. Interessa-lhe as manifestações verbais concretas (ora chamadas de enunciados, ora chamadas de texto, na costumeira variabilidade terminológica característica desse pensador e mesmo por ele reconhecida).
As vozes sociais são complexos verbo-axiológicos (completos de valores) cuja existência decorre do fato inescapável de que as nossas relações com o mundo ao mesmo tempo em que o refletem, o refratam. Nossa cognição é necessariamente historicizada e semioticizada. Em conjunto com essas vozes sociais há uma heterogeneidade axiológica. Definem-se como dialogização essas vozes sociais, pela boca dos falantes. São contatos contínuos e múltiplos na imensa teia dialógica (heteroglossia dialogizada).
Em cada uma de suas manifestações verbais, ele se coloca diante da necessidade de se orientar ativamente nessa rede plurivocal, de ocupar uma posição, de eleger uma voz social, de construir relações dialógicas, de orquestrar dialogicamente a plurivocalidade social. Mesmo quando selecionamos palavras, estruturas sintáticas, recursos coesivos, não o fazemos tendo como referência o estoque da língua, mas os valores que impregnam estes elementos linguísticos no contexto em que estamos. São o que chamamos de forças centrípetas e centrífugas. Como a consciência linguística é plurivocal e sua atividade verbal depende, a cada vez, de um posicionamento diante da heterogeneidade, o autor do texto
14 Anotações feitas em aulas do curso O Texto em Perspectiva Dialógica ministrado por PERNAMBUCO, Juscelino no ano de 2008-2009, na Universidade de Franca no curso de Mestrado em Linguística.
não se confunde com a pessoa física que o enuncia, mas é entendido como uma função interna do texto, como o elemento ordenador da totalidade de sentido do texto. Para se transformar em autor, a pessoa física tem de assumir sempre uma posição axiológica, fruto de uma escolha entre as muitas que transitam em sua consciência, isto é, tem de assumir uma voz social. A partir dela, construirá seu produto verbal, mobilizando enunciados heterogêneos vindos de diferentes vozes sociais que ressoarão explicitamente e/ou implicitamente no texto. Organizará esses enunciados e responderá a eles de diferentes modos15.
Todo texto é então, marcado pela bivocalidade, isto é, pela voz que o ordena e pelas vozes mobilizadas que ali ressoam:
minha última palavra carece de todas as energias conclusivas e positivamente afirmativas, é esteticamente improdutiva. Nela eu me volto para fora de mim e me entrego ao perdão do outro (é o sentido da confissão da hora da morte). Sei que também há no outro a mesma loucura da não-coincidência de princípio consigo mesmo, esse mesmo inacabamento da vida, mas para mim esta não é a última palavra dele, não é para mim que ela soa: eu estou situado fora dele, e a palavra última e conclusiva me pertence. Essa palavra é condicionada e exigida pela minha distância concreta e plena com relação ao outro, pela distância no tempo, no espaço e no sentido com relação à vida do outro em seu todo, à sua diretriz axiológica e sua responsabilidade (BAKHTIN, 2006, p. 117).
Para Bakhtin (2006) a língua é uma visão de mundo e se realiza efetivamente no discurso.
A enunciação é definida como o ato de manifestação, a posição do enunciador diante do enunciado. A voz que enuncia e o contexto social no qual é enunciado, o extra verbal é importante para Bakhtin, pois segundo ele não podemos analisar um texto fora do contexto verbal e não-verbal no qual ele foi proferido.
Os pressupostos teóricos abordados neste capítulo servirão de base para a análise proposta do corpus desta pesquisa. A teoria será aplicada à medida que se fizer necessária a aplicação dos pressupostos desenvolvidos e estudados nos primeiros capítulos desta dissertação.
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Anotações feitas em aulas do curso O Texto em Perspectiva Dialógica ministrado por PERNAMBUCO, Juscelino no ano de 2008-2009, na Universidade de Franca no curso de Mestrado em Linguística.
2.2 INTERTEXTUALIDADE
Pretendemos mostrar na peça A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos a intertextualidade com a tragédia Grega e com passagens bíblicas. Daí a importância de tratarmos a intertextualidade com fundamentação na Linguística Textual.
Afirma Koch (2008, p.11) que:
se pretendemos lançar um olhar sobre o fenômeno da intertextualidade, faz-se necessário ter claro em mente o conceito de texto sobre o qual iremos debruçar, já que esse conceito não é de consenso não só entre as diferentes disciplinas teóricas que o tomam como objeto, mas, inclusive no interior da Linguistica Textual, pelo fato de, nas várias etapas de seu desenvolvimento, ter ele passado por uma série de transformações, conforme a perspectiva adotada em cada momento.
Retomando as considerações finais do item anterior, ainda se faz necessário distinguir termos como a intertextualidade e a intratextualidade. Bakhtin (apud Fiorin, 2008, p. 52) pontua que “há relações entre textos e dentro dos textos”. Portanto, quando há o uso de discurso direto, indireto e indireto livre, não devemos falar em intertextualidade:
Intertextualidade deveria ser a denominação de um tipo composicional de dialogismo: aquele em que há no interior do texto o encontro de duas materialidades