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ENEIDA GOMES NALINI DE OLIVEIRA

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Academic year: 2021

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ENEIDA GOMES NALINI DE OLIVEIRA

A INTERTEXTUALIDADE EM: A PECADORA QUEIMADA E OS

ANJOS HARMONIOSOS, DE CLARICE LISPECTOR.

Dissertação apresentada à Universidade de Franca, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Linguística.

Orientador: Prof. Dr. Juscelino Pernambuco

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ENEIDA GOMES NALINI DE OLIVEIRA

A INTERTEXTUALIDADE EM: A PECADORA QUEIMADA E OS ANJOS

HARMONIOSOS, DE CLARICE LISPECTOR

COMISSÃO JULGADORA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM LINGUÍSTICA

Presidente: Prof. Dr. Juscelino Pernambuco Universidade de Franca

Titular 1: Profa. Dra. Vera Lúcia Rodella Abriatta Universidade de Franca

Titular 2: Profa Dra Ana Cristina Carmelino Universidade Federal do Espírito Santo

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DEDICO às pessoas mais presentes em minha vida: minha mãe,

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AGRADECIMENTOS

As conquistas têm um começo, e eu agradeço o meu: a Deus, por todas as oportunidades,

ao meu orientador, Prof. Dr. Juscelino Pernambuco, que com palavras, indicações e rumos deu a esta pesquisa um corpo consistente,

a todos os professores do curso de Mestrado em Linguística da Unifran, por terem contribuído de forma especial em minha formação, especialmente às professoras Dras Vera Abriatta e Ana Cristina Carmelino que me ajudaram a nortear minha pesquisa em minha banca de qualificação e a minha ex professora, ex coordenadora e amiga, Maria Flávia Bollela que me apoia sempre que preciso,

à Universidade de Franca, pelos auxílios concedidos,

a Lucia Nassim, coordenadora do curso de Letras, que está sempre ao nosso lado tentando buscar conosco os melhores caminhos no nosso dia a dia,

a toda a minha família, cada um por ser insubstituível a seu modo, na figura de minha avó Maria, pelas orações constantes à minha vida e ao meu avó, José dos Santos Gomes (in memorian) que apesar de não estar de corpo presente, não se ausentou de minha vida e ao meu pai, minha irmã e minha mãe, Edena Maria Gomes, exemplo constante de luta, sapiência e solidez,

ao meu marido, Mateus Barbosa de Oliveira, incentivador de meus atos e companheiro de todas as horas e aos meus filhos, Douglas e Aurélio, pacientes com minhas ausências e essenciais nesta minha trilha,

a minha cunhada, Josiane Barbosa, pelas conversas que me abriram novos pensamentos e possibilidades,

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Meu Deus, me dê a coragem de viver 365 dias todos vazios de sua presença,

Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude... Faça com que eu seja Tua amante humilde, entrelaçada a ti em êxtase.

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RESUMO

OLIVEIRA, Eneida Gomes Nalini de. A intertextualidade em: A pecadora queimada e os

anjos harmoniosos, de Clarice Lispector. 2010. 126 f. Dissertação (Mestrado em

Linguística) – Universidade de Franca, Franca.

Esta dissertação teve como tema A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos, única peça teatral escrita e publicada por Clarice Lispector, e analisou os aspectos da intertextualidade e do dialogismo que nela se fazem presentes. A peça tem duas publicações, uma datada de 1964 e outra de 2005, e poucos estudos foram realizados acerca dessa produção. O objetivo da pesquisa foi contribuir para os estudos literários e linguísticos sobre a obra de Clarice Lispector, ao trazer para o cenário acadêmico uma peça teatral pouco analisada. A pesquisa embasou-se, nos trabalhos de Koch (1991, 1998, 1999, 2002, 2006, 2008), Bakhtin (1981, 1997, 2006) e Gomes (2006 e 2007) buscando fundamentação para verificar relações intertextuais e dialógicas com as tragédias gregas e com a Bíblia e analisar aspectos literários da peça. Justifica-se o tema pela riqueza literária deixada pela autora e pelo estudo que permeou sua obra no que concerne às Tragédias Gregas e aos textos religiosos (a Bíblia), além da importância do texto enquanto crítica sócio-política.

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ABSTRACT

OLIVEIRA, Eneida Gomes Nalini de. A intertextualidade em: A pecadora queimada e os

anjos harmoniosos, de Clarice Lispector. 2010. 126 f. Dissertação (Mestrado em

Linguística) – Universidade de Franca, Franca.

This research has as a theme the Intertextuality in The Woman Burned at the Stake and the Harmonious Angels (A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos), the only play written and published by Clarice Lispector. This is a study that focuses on Clarice Lispector as a dramatist and the usage of intertextuality and dialogism in her masterpiece. It seems interesting to promote a study about the only Clarice Lispector‟s published play because few articles or books have been published about it. As our aim is to contribute in the literary as well as linguistic area, we sustain our research in the books written by Koch (1991, 1998, 1999, 2002, 2006, 2008), Bakhtin (1981, 1997, 2006) and Gomes (2006 e 2007). We justify our theme not only for its richness and for the study of the Greek tragedies and religious texts (the Bible), but also because of the social-politic criticism that surrounds it.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Montagem da peça A Pecadora Queimada e os Anjos

Harmoniosos 69

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 10

1 A TRAJETÓRIA DO TEXTO NA LINGUÍSTICA TEXTUAL ... 12

1.1 A LINGUÍSTICA TEXTUAL NO BRASIL ... 29

2 DIALOGISMO E INTERTEXTUALIDADE ... 33 2.1 DIALOGISMO ... 33 2.2 INTERTEXTUALIDADE ... 41 3 O TEATRO E A BÍBLIA ... 48 3.1 AS TRAGÉDIAS GREGAS ... 48 3.1.1 Os seis elementos ... 53 3.1.2 As três unidades... 55 3.2 A PEÇA E A BÍBLIA ... 59

4 INTERTEXTUALIDADE E DIALOGISMO NA PEÇA TEATRAL CLARICIANA ... 64

4.1 O TEATRO DE CLARICE LISPECTOR... 64

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INTRODUÇÃO

Esta dissertação tem como objetivo a análise da peça teatral, A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos, de Clarice Lispector, com o apoio teórico da Linguística Textual e dos estudos de Bakhtin e Koch, especificamente no aspecto do dialogismo e da intertextualidade. A escolha deste tema se deve à curiosidade de desvendar alguns aspectos não explorados na obra teatral da escritora além da contribuição que esse estudo possa trazer aos meios literários e linguísticos.

Clarice Lispector destaca-se no meio literário, sobretudo, por seus romances, contos e crônicas, mas o fato de ter também escrito uma peça teatral é assunto ainda pouco explorado e estudado. Descobrir Clarice como dramaturga, além de cronista, romancista, contista, entrevistadora e tradutora ainda é uma surpresa. A autora continua merecendo a atenção dos críticos e estudiosos de literatura, pela sua sempre surpreendente qualidade artística e intelectual. Nesta pesquisa, efetuaremos uma leitura e construção de sentido de sua única peça teatral publicada. Buscaremos apoio na Linguística Textual, para verificar a intertextualidade com textos teatrais da Grécia Antiga e com a Bíblia, e nos estudos e reflexões sobre o dialogismo bakhtiniano com o objetivo de analisar o fazer dramático e o querer dizer de Clarice em A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos.

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Quanto à fundamentação teórica desta investigação, alguns autores selecionados foram: Bakhtin (1981, 1997, 2006), Fiorin (2006, 2008), Bentes (2001, 2005), Koch (1991, 1998, 2006, 2008), dentre outros. Para a análise do teatro de Clarice Lispector, Gomes (2005, 2007), Moser (2009), Aristóteles (2003), assim como a Bíblia (tradução de 1964 e Bíblia online, das editoras Ave Maria e Jerusalém).

No primeiro capítulo abordaremos os caminhos da Linguística Textual, desde os primórdios de sua concepção até os dias de hoje, conceitos e definições se farão presentes e escreveremos sobre a Linguística Textual no Brasil. Esse capítulo é importante como sustentação teórica para nosso trabalho.

No segundo capítulo discutiremos o dialogismo bakhtiniano e faremos um estudo sobre os diferentes tipos de intertextualidade, seus aspectos e conceitos.

No terceiro capítulo discursaremos sobre o teatro e a Bíblia, e faremos um estudo sobre as concepções dramáticas e sobre alguns textos, personagens e locais explorados pelas escrituras bíblicas. Clarice Lispector preocupou-se com o formato, tema e desenvolvimento de sua peça, e criou personagens fortes para seu enredo, trazendo assim, uma dramaturgia que merece nossa atenção e estudo. Investigaremos o texto de Clarice para desvendar a densidade de sua criação também como dramaturga.

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1 TRAJETÓRIA DO TEXTO NA LINGUISTICA TEXTUAL

“Não é fácil escrever; é duro como quebrar rochas.”

Clarice Lispector

O objetivo deste capítulo é tratar do trajeto do texto pelas diferentes teorias até chegar à Linguística Textual, que constituirá o embasamento teórico desta nossa pesquisa. Abordaremos o motivo do surgimento das gramáticas textuais, conceituações e brevemente as teorias que fizeram parte desta construção, auxiliando a compreensão do discurso e do texto: antiga retórica, estilística e o formalismo russo. Procuraremos embasar este trabalho também na pesquisa e busca dos linguistas que foram além dos limites do enunciado, traçando paralelos entre a linha estruturalista e gerativista.

A Linguística Textual deu seus primeiros passos na Europa, mais especificamente na Alemanha, na década de 60. Passou-se a trabalhar o texto, e não mais a palavra ou a frase, acreditando que os textos fossem uma forma da manifestação da linguagem, especificamente. A partir desta década surgem pesquisas que vão aos poucos elucidando este campo que vai se abrindo aos estudos e descobertas. Segundo Fávero e Koch (1998), o primeiro a usar o termo Linguística Textual, foi Weinrich1 (1966, 1967), embora possamos encontrar a origem do termo também em Coseriu (1955)2, mas não com suas atribuições atuais. Afirma Bentes (2005, p. 253) que “Weinrich (1971) ressalta que os textos podem ser definidos a partir de aspectos diversos: a sequência coerente e consistente de signos linguísticos, a delimitação por interrupções significativas na comunicação, o status do texto como maior unidade linguística”. O texto, neste momento, era já visto como material de pesquisa, mas não ainda em seu contexto de produção.

Percebemos, então, de acordo com a história da Linguística Textual, a necessidade de uma gramática do texto pelo fato de existirem lacunas que não são preenchidas pela falta de contexto. É relevante lembrar que de acordo com Koch (2006, p. 21) “as concepções de contexto variam consideravelmente não só no tempo, como de um autor para outro; e ocorre mesmo que um mesmo autor utilize o termo de maneira diferente, em vários momentos, sem disso se dar conta”.

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Portanto, o estudo das frases sem a contextualização fica incompleto e mecanizado, toda a gramática aplicada seria mais facilmente explicada e entendida com o uso de textos. Assim, pensa-se em construir uma gramática textual, para que se possa atender às necessidades de um estudo que fosse mais abrangente, dentro da gramática.

É importante ressaltar que o termo texto recebe e aceita diversas concepções e essa diversidade aparece em diferentes tempos na história da linguística. Nomes distintos dados à disciplina ou a tratados teóricos sobre o assunto aparecem, tais como: “análise transfrástica e gramática do texto, Textologia (Harweg), Teoria do Texto (Schimidt), Translinguistica (Barthes), Hipersintaxe (Palek), Teoria da Estrutura do Texto – Estrutura do Mundo (Petofi), etc” (FÁVERO e KOCH 1998, p. 12).

Trataremos de correntes que distinguiram estes momentos dentro da Linguística Textual, na história, buscando uma compreensão de como o texto passa a ser uma preocupação vigente dentro destes estudos. Conte3 (1977 apud FÁVERO e KOCH 1998, p. 13):

distingue três momentos fundamentais na passagem da teoria da frase para a teoria do texto (...), apresenta como primeiro momento, o da análise transfrática, que procede à análise das regularidades que transcendem os limites do enunciado; o segundo é o da construção das gramáticas textuais; o terceiro, finalmente é o da construção das teorias de texto.

Os estudiosos denominam este primeiro período, que se estendeu na década de 60 dentro dos estudos da Linguística Textual, de análise transfrástica, “(...) em que se procede à análise das regularidades que transcendem os limites do enunciado (...)” (FÁVERO e KOCH, 1998, p. 13). Bentes (2005, p. 247) observa que nesta fase da análise transfrástica “parte-se da frase para o texto” e continua explicando que:

Exatamente por estarem preocupados com as relações que se estabelecem entre as frases e os períodos, de forma que construa uma unidade de sentido, os estudiosos perceberam a existência de fenômenos que não conseguiram ser explicados pelas teorias sintáticas e/ou pelas teorias semânticas... (BENTES, 2005, p. 247).

A Linguística Textual teve como primeira preocupação descrever os fenômenos sintático-semânticos ocorrentes entre enunciados ou sequência de enunciados. Há

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também que se pensar, nesta fase, no fenômeno da correferenciação4(retomada pronominal e repetição lexical) e a conexão entre enunciados, de forma que estas frases construíssem uma unidade de sentido. Correferenciação é um termo usado em linguística, especialmente na gramática gerativa, “para indicar constituintes de uma mesma sentença que tenham a mesma referência” (DIAS, 2000, p. 70). O objetivo principal dessa fase “é o de estudar os tipos de relação que se pode estabelecer entre os diversos enunciados que compõem uma sequência significativa” (FÁVERO e KOCH, 1998, p. 13). As propriedades definidoras de um texto estariam expressas principalmente na forma de organização do material linguístico e na quantidade de elementos, o contexto era tido como “um entorno verbal ou co-texto5” (KOCH,

2006, p. 23), levando-se em consideração a coesão e a coerência, ambas vistas como qualidades ou propriedades do texto.

A coesão pode ser definida como um conceito semântico que se refere às relações de sentido existentes no interior do texto e que o definem como texto, e ainda podemos dizer que a coesão ocorre quando a interpretação de algum elemento do discurso é dependente da de outro. Um pressupõe o outro, no sentido que não pode ser efetivamente decodificado a não ser por recurso a outro.

Koch (apud BENTES 2005, p. 256), define coesão como “o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos linguísticos presentes na superfície textual encontram-se interligados, por meio de recursos também linguísticos, formando sequências veiculadoras de sentido”.

A coerência, por sua vez, de acordo com Koch (apud BENTES, 2005, p. 256) “diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm constituir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos”.

Devemos destacar que os limites na análise transfrástica também existiam, como por exemplo, necessidade de considerar, na construção do sentido global do enunciado, o conhecimento intuitivo do falante acerca das relações a serem estabelecidas entre sentenças, além do fato de nem todas as produções apresentarem o fenômeno da correferenciação.

4 No capítulo em que Koch (2006, p. 79) explica os processos de referência e referenciação no livro

Desvendando os Segredos do Texto a autora diz que “a referência passa a ser considerada como o resultado da operação que realizamos quando, para designar, representar ou sugerir algo, usamos um termo ou criamos uma situação discursiva referencial com essa finalidade: as atividades designadas são vistas como objetos- de- discurso e não como objetos- de- mundo”.

5 Co-texto: termo usado por alguns linguistas britânicos em uma tentativa de solucionar a AMBIGUIDADE da

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Preparava-se, assim, um terreno para a construção de uma gramática textual, que superasse os limites da frase.

Na fase inicial das pesquisas sobre o texto (...) o texto era conceituado como uma sequência ou combinação de frases, cuja unidade e coerência seriam obtida através da reiteração dos mesmos referentes ou do uso de elementos de relação entre segmentos maiores ou menores do texto. Paralelamente, os pragmaticistas chamavam a atenção sobre a necessidade de se considerar a situação comunicativa para a atribuição de sentido a elementos textuais como os dêiticos e as expressões indiciais de modo geral (KOCH, 2006, p. 23).

Na década de 70, o interesse em se construir uma gramática do texto começa a crescer, mas alguns ainda se sentiam comprometidos com as gramáticas estruturais ou com a gramática gerativa. Acreditando-se que um texto não é só um acumulado de frases, e que para se construir sentido são necessárias coerência e coesão, a probabilidade da construção de tratados que abrangessem tais ideias foi crescendo, pois havia a necessidade de tratar a gramática dentro de um contexto que fizesse sentido. Então, podemos afirmar que “a gramática textual surgiu com a finalidade de refletir sobre os fenômenos linguísticos explicáveis por meio de uma gramática do enunciado. O que a legitima é, pois, a descontinuidade existente entre enunciado e texto” (KOCH e FÁVERO, 1998, p.14). Nesta fase priorizou-se o texto como objeto da Linguística, buscando suas especificidades dentro dos estudos da gramática, neste momento, mas “apesar da ampliação do objeto dos estudos da ciência da linguagem, ainda se acreditava ser possível mostrar que o texto possuía propriedades que diziam respeito ao próprio sistema abstrato da língua” (BENTES, 2005, p. 249), ou seja, antes a gramática era prioridade e o texto dependia dela, agora, o que é aceitável num texto é a construção de seu corpo numa coerência, coesão e sentidos próprios. Para Koch (2006, p. 12), na segunda metade da década de 60 e primeira metade da década de 70:

Em função do conceito de texto então majoritário, a maioria dos estudiosos estava debruçada sobre a análise transfrástica e/ou construção de gramáticas de texto, de modo que o objeto privilegiado de estudo era a coesão, ou seja, a propriedade de cohere (hang together), muitas vezes equiparada à coerência (coherence), já que ambas eram vistas como qualidades ou prioridades do texto.

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para construir a coerência, deverá levar-se em conta não só os elementos linguísticos que compõem o texto, mas também seu conhecimento enciclopédico, conhecimentos e imagens mútuas, crenças, convicções, atitudes, pressuposições, intenções explícitas ou veladas, situação comunicativa imediata, contexto sociocultural e assim por diante (KOCH, 2008, p. 21).

Os autores que acreditavam em alguns postulados em comum com relação às gramáticas textuais defendiam as ideias de que: não havia continuidade entre frase e texto; devia haver a percepção de que um texto é muito mais do que uma sequência de enunciados (diferença de ordem qualitativa e quantitativa). Relatavam ainda que havia reflexões sobre os fenômenos linguísticos inexplicáveis por meio de uma gramática do enunciado, e consideravam o texto como a mais alta unidade linguística, “a partir da qual seria possível chegar, por meio de segmentação, as unidades menores a serem classificadas” (BENTES, 2005, p. 249), e, além disso, que um falante nativo possuía conhecimento acerca do que é um texto – conhecimento que não é redutível a uma análise frasal, um falante nativo tem competências com relação a um texto que vão desde parafraseá-lo até perceber se este texto atingiu sua completude ou não. Então, o falante possui uma competência textual a ser levada em conta, que vem do fato de ter regras internalizadas sobre a língua.

Houve uma influência gerativista em todo esse processo. Gerativismo ou teoria gerativa é uma tentativa de formalização dos fatos linguísticos aplicando um tratamento matemático preciso, explícito e finito às propriedades das línguas naturais. Isto é, a linguagem purista pode ser compreendida e com isso facilitar o aprendizado de idiomas. Essa teoria foi construída por Noam Chomsky em oposição ao estruturalismo bloomfieldiano. Chomsky acreditava no inatismo e nas propriedades universais da linguagem. “Para Chomsky, portanto, a linguagem é uma capacidade inata e específica da espécie, isto é, transmitida geneticamente e própria da raça humana” (PETTER, 2006, p. 15):

Amplia-se o conceito chomskyano de competência linguística para o de competência textual, capacidade que habilitaria os falantes a reconhecer textos coerentes, a resumir e parafrasear textos, a perceber os limites e a completude ou incompletude de um texto, a atribuir título a um texto, identificando seu tópico central, bem como produzir textos a partir de um título ou tema dado. (VAL, 1999, p. 2.)

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texto; identificar fatores responsáveis pela sua coerência e as condições em que se manifesta a sua textualidade, levantar critérios para a delimitação de assunto, considerando sua completude; distinguir os diferentes tipos de textos.

Porém, houve alguns limites neste processo, como por exemplo, as dificuldades em estabelecer regras capazes de descrever todos os textos possíveis em uma determinada língua natural; a preocupação em descrever a competência textual de falantes idealizados e não em investigar a constituição do texto; e finalmente o funcionamento, a produção e a compreensão dos textos em uso. Quanto aos sujeitos, os falantes, é preciso destacar suas capacidades textuais básicas, segundo Charolles (1989 apud BENTES, 2005, p. 250), que são: “a capacidade formativa, ligada à produção e a compreensão; a capacidade transformativa, ligada à habilidade de reformular ou resumir um texto, parafrasear ou avaliar; e, por último, a capacidade qualitativa, relacionada à tipificação”.

No momento seguinte a esse, defendido pelos autores que acreditavam na gramática textual, mais um passo foi dado rumo às Teorias do Texto, uma vez que se ampliavam novas conquistas com relação ao entendimento. Apesar de a ideia do uso do texto para compreensão de outras áreas ser bem parecida, a Linguística Textual apresenta muitas vertentes.

A teoria do texto envolvia uma investigação da constituição, do funcionamento, da produção e da compreensão dos textos em uso, tornando o trabalho mais investigativo com base nos textos propostos, para que se pudesse realmente estabelecer uma teoria do texto. Então, neste terceiro momento “adquire particular importância o tratamento dos textos no seu contexto pragmático: o âmbito de investigação se estende do texto ao contexto” (FAVERO e KOCH, 1998, p. 15). Isso inclui o momento de produção, as condições internas e externas, a interpretação entre outros fatores.

Fávero e Koch (1998) esclarecem ainda que para o aparecimento dessas teorias, outras foram necessárias: as dos atos da fala, a lógica das ações e a teoria lógico-matemática dos modelos. A pragmática6 também constitui disciplina importante na construção desta teoria, mas não para todos os estudiosos. Para Dressler (apud FÁVERO e KOCH, 1998, p. 15) “a pragmática constitui apenas um componente acrescentado a posteriori a um modelo pré existente de gramática textual, cabendo-lhe tão somente dar conta da situação comunicativa na qual o texto é introduzido”. Alguns outros teóricos, como Schmidt,

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acreditam na competência comunicativa, e não na competência textual, somente. “Para Schmidt, o ato de comunicação, como forma específica de interação social (...), de modo que a competência que constitui a base empírica da teoria de texto deixa de ser a competência textual, para ser a competência comunicativa” (FÁVERO e KOCH, 1998, p. 16). Ainda sobre a pragmática, é importante lembrar que ela pode definir-se como a ciência do uso linguístico, e que “estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática linguística” (FIORIN, 2008, p. 161).

As motivações para se levarem adiante esses estudos foram principalmente a percepção da realidade de se estender a investigação do texto ao contexto, de tratar o texto numa situação comunicativa e ao contexto pragmático, como citado acima. Como contexto pragmático, entenda-se conjunto de condições externas ao texto, da produção, recepção e interpretação dos textos. A investigação da constituição e do funcionamento, a produção e a compreensão dos textos em situações de uso concretas, o estudo dentro de seu contexto de produção (pragmático) e o entendimento de que o texto não é um produto acabado, mas resultado de operações comunicativas e processos linguísticos em situações sociocomunicativas são objetivos das Teorias do Texto. Os objetos de estudos são: a coerência, dentro de uma perspectiva pragmático-enunciativa, e fatores de textualidade, que são a informatividade, a situacionalidade, a intertextualidade, a intencionalidade, a aceitabilidade, a contextualização, a focalização, a consistência e a relevância.

A coerência é responsável pela unidade semântica, pelo sentido do texto, envolvendo não só aspectos lógicos e semânticos, mas também cognitivos; a coesão é a unidade formal do texto que se dá por mecanismos gramaticais e lexicais. A intencionalidade está ligada ao empenho do autor em construir um texto coerente, coeso, e que atinja o objetivo, relacionando-o com o valor ilocutório, ou seja, o que o texto pretende falar.

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A situacionalidade pode ser considerada em duas direções: da situação para o texto e vice e versa. No primeiro sentido, a situacionalidade refere-se ao conjunto de fatores que tornam um texto relevante para uma situação comunicativa em curso ou passível de ser reconstruída. Trata-se neste caso, de determinar em que medida a situação comunicativa, tendo o contexto imediato de situação, como o entorno sócio-político-cultural em que a interação está inserida, interfere na produção/recepção do texto, determinado escolhas em termos, por exemplo, de grau de formalidade, regras de polidez, variedade linguística a ser empregada, tratamento a ser dado ao tema, etc. No segundo sentido, é preciso lembrar que o texto tem reflexos importantes sobre a situação, visto que o mundo textual não é jamais idêntico ao mundo real (...) há sempre uma mediação entre o mundo real e o mundo construído pelo texto.

A informatividade, por sua vez, traz ao texto a suficiência de dados para que o texto seja aceitável e entendível. A intertextualidade concerne aos fatores que ligam a utilização de um texto dependente do conhecimento de outro(s) texto(s). Um texto constrói-se em cima do "já-dito". Aprofundando mais os conceitos que embasam essa terminologia segundo Koch (2006, p. 41) “a informatividade diz respeito, por um lado, à distribuição da informação no texto, e, por outro, ao grau de previsibilidade/redundância com que a informação nele contida é veiculada”. É preciso ainda que exista um equilíbrio entre informação dada e informação nova.

As simples incorporações dos interlocutores ao estudo dos enunciados não é o suficiente, pois os sujeitos movem-se no interior de um tabuleiro social, que tem suas regras que lhes impõem condições, limitando a ação, e como toda manifestação acontece inserida numa cultura as suas adequações devem ser respeitadas. Koch (2006) usa o termo tabuleiro social para explicar que há regras a serem seguidas quando falamos em liberdade de expressão, sabendo que essa liberdade é relativa, dentro da sociedade. Koch (2006, p. 23) diz que:

A simples incorporação, porém, ainda não se mostrou suficiente, já que eles se movem no interior de um tabuleiro social, que tem suas convenções, suas normas de conduta, que lhes impõe condições, lhe estabelece deveres e lhes limita a liberdade. Além disso, toda e qualquer manifestação de linguagem ocorre no interior de determinada cultura, cujas tradições, cujos usos e costumes, cujas rotinas devem ser obedecidas e perpetuadas.

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A antiga retórica data da antiguidade clássica e compreendia a inventio que significava achar o que dizer; a dispositio, pôr em ordem o que se encontrou; a elocutio, acrescentar o ornamento das palavras ou das figuras; a actio, tratar o discurso como um ator, utilizando-se de gestos e dicção; e a memória.

Indursky (2006, p. 35-36) explica que Quintiliano, buscando um efeito para um discurso fundador nas reflexões sobre o texto, confirma: “Adam registra que o conceito de „texto‟ começou a tomar consistência a partir das reflexões de Quintiliano”. Assim, lendo Quintiliano através de Adam e das relações que o autor estabelece com alguns teóricos, podemos ver que esta é uma preocupação que tem atravessado muitos séculos. Indursky (2006) ainda cita, para efeito de ilustração, as seguintes informações, que julgamos pertinente ressaltar:

No Livro IX da Instituição Oratória, Quintiliano associa o texto – textus e textum – a compositio, isto é a inventio (escolha de argumentos), a elocutio (colocação em palavras) e a dispositio (colocação em ordem ou plano do texto), todas reunidas. O textum (IX, 4, 17) está próximo da bela „conjunctura‟ (...) é o que reúne, junta ou organiza elementos diversos, e mesmo, díspares, o que os transforma em um todo organizado‟ (Vinaver, 1970 apud Indursky) (...) o texto, assim é definido desde a origem, tanto por sua unidade quanto por sua abertura e compete a nós não esquecer deste duplo funcionamento constitutivo. (ADAM, 1999, p. 5-6 apud INDURSKY, 2006, p. 36).

É relevante esta volta ao passado para que possamos compreender como o desenvolvimento se processa. A retórica está ligada à persuasão do outro dentro do discurso e tem um caráter pragmático. A retórica era também uma matéria que se ensinava nas escolas devido às grandes disputas jurídicas da época, “porém foi no século IV a.C. que o assunto ocupou a atenção de Aristóteles” (FÁVERO e KOCH, 1998, p. 29). Nos primórdios clássicos, a retórica compreendia as partes citadas acima: a inventio, a dispositio, a elocutio, a actio e a memória. As três primeiras eram tidas como as mais importantes. Com o passar do tempo, das cinco partes destacadas, e das três mais importantes; dentro da linguística do texto, podemos dizer que restaram duas com interferência nas construções textuais: a ordenação do pensamento – a dispositio – e a sua formulação linguística – a elocutio. Confirmam Koch e Fávero (1998, p. 28) que “A importância da retórica se torna, atualmente, visível em dois aspectos: - na definição precisa de operações linguísticas subjacentes à produção do texto (microestrutura); - na localização do texto no processo global de comunicação (macroestrutura)”.

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Linguística que estuda a língua na sua função expressiva, analisando os processos fônicos, sintáticos e a criação de significados que individualizam estilos, sua característica principal é sistematizar as propriedades inerentes à estrutura dos textos em geral, não os diferenciando em gêneros, como o faz a retórica.

Koch e Fávero (1998, p. 29) esclarecem que “a estilística, alimentada pela retórica, pela gramática e pela filosofia, surge como um segundo precursor”, complementando, ainda sobre a estilística que dentro da história das construções de estudo de texto “até pouco tempo atrás, a frase era considerada a unidade linguística mais alta e, assim, todas as relações acima do nível da frase deviam constituir objeto da estilística (...) o plano de texto ficava-lhe, pelo menos teoricamente reservado”. Entendemos, então, que a estilística veio para complementar a retórica dentro dos estudos da palavra enquanto texto, cabendo à Linguística fornecer a ela os fundamentos necessários para saber se seu uso vem da necessidade da gramática ou da escolha do autor. Tudo isso contribuindo para a formação dos estudos posteriores sobre a linguística do texto. No entanto, a Linguística Textual não limita seu campo de atuação a somente alguns tipos de textos, mas abre esse campo para analisar estruturas de textos em geral.

Os formalistas russos fundam o “Círculo Linguístico de Moscou” (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 29). Os teóricos envolvidos com os estudos linguísticos da época tentam “estudar a estrutura do texto em si e por si mesmo rejeitando toda e qualquer consideração exterior a ele em busca da literariedade7.” (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 29). Koch e Fávero (1998) citam ainda C. Levi Strauss8 e M. Bakhtin9 como importantes nomes dentro do trabalho estruturalista que antecipa alguns pressupostos da Linguística Textual.

A seguir citaremos como alguns desses importantes autores definem o texto, já que este primeiro capítulo se propõe a diferenciar e estabelecer relações entre os distintos momentos que permearam o caminho até a Linguística Textual.

Hjelmslev (1899-1965 apud FÁVERO e KOCH, 1998, p.30), define texto como “toda e qualquer manifestação da língua, curta ou longa, escrita ou falada, correspondendo, de certo modo, à parole de Saussure”. Hjelmslev não estaria fundando uma

7 “literaturnost”, termo usado para definir propriedades existentes nos textos literários que se caracterizariam por

propriedades universais no interior do texto. – literariedade.

8

Claude Levi Strauss (1908 -2009), um dos grandes pensadores do século XX, conhecido na França por seus estudos que ajudaram a desenvolver o campo da antropologia.

9 Mikhail M Bakhtin (1895-1975) “uma das figuras mais fascinantes e enigmáticas da cultura epopéia de meados

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Linguística Textual neste momento, pois descrevia “sistema linguístico subjacente a ele: a todo processo (texto) subjaz um sistema que por meio dele se manifesta. Através do texto, passível de observação imediata, pode-se chegar à descoberta do sistema, para formular uma teoria da langue” (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 30).

Jakobson, membro do Círculo Linguístico de Praga, redefine e amplia os estudos da Linguística com a definição das funções da linguagem. Segundo Barros (2006, p. 28):

Para Jakobson, na esteira de estudos sobre a informação, há na comunicação um remetente que envia uma mensagem a um destinatário, e essa mensagem, para ser eficaz requer um contexto (ou um referente) a que se refere, apreensível pelo remetente e pelo destinatário, um código, total ou parcialmente comum a ambos, e um contato, isto é, um canal físico e uma conexão psicológica, entre o remetente e o destinatário, que os capacitem a entrar e permanecer em comunicação.

As funções de linguagem resolvem em grande parte, para os estudiosos da língua, o entendimento do modo como a comunicação se processa. Embora Jakobson não tenha teorizado diretamente sobre os problemas da textualidade, sua contribuição construía os caminhos que a teoria do texto estava percorrendo. Segundo BARROS (apud Fiorin 2006, p. 32), “Jakobson mostrou que a linguagem deve ser examinada em toda a variedade de suas funções”.

Benveniste estudou o discurso e o sujeito. A subjetividade era, para ele, relevante, pois pela subjetividade, o homem se constituía, usando sua linguagem e sua comunicação. Benveniste, (apud Fávero e Koch, 1998, p. 31), assinala que “a língua combina dois modos de significação distintos: o semiótico e o semântico”, e que “... o semiótico designa o modo de significação própria do signo linguístico (...), o semântico é o modo específico de significação engendrada pelo discurso” (apud KOCH e FÁVERO, 1998, p. 31). Então, é necessário que o momento da enunciação seja levado em conta, quando da análise do discurso ou do texto. Benveniste ressalta a diferença entre emprego das formas, procurando mostrar como e quando as condições diferem em cada caso. “Visto que a enunciação supõe a „conversão individual da língua em discurso‟, processa-se uma atualização sobre o plano semântico, ou seja, a „semantização da língua‟. A partir da manifestação individual que a atualiza, é possível detectar, no interior da língua, os caracteres formais da enunciação (...)” (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 31).

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ideológica, linguística e discursiva. Também defendia a subjetividade, de natureza inconsciente ou psicanalítica juntamente com a importância das condições de produção. Para diferenciar este momento de um anterior, poderíamos ilustrar com a seguinte citação:

O conceito de condições de produção é fundamental na análise do discurso. Se, para Benveniste, o falante se apropria da língua, num movimento individual, para a análise do discurso, devido à consideração que se faz das condições de produção, o que existe é uma forma social de apropriação da linguagem, na qual se encontra refletida a ilusão de sujeito, isto é, a sua interpretação feita pela ideologia (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 32).

Podemos também citar, neste tratado sobre definições de textos por diferentes autores, outro estudioso que contribuiu para esta corrente de conceitos sobre a textualidade. Zellig Harris “foi o primeiro linguista moderno a considerar o discurso como objeto legítimo da linguística” (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 33). Para ele, o discurso está além da frase e das palavras em si, ele usou a expressão „alocuções conectadas‟ para definir como pensava o texto. Harris apresenta, pois, um modelo de análise que se define por um método de pesquisa, que ele chamou de discourse analysis, no qual o discurso inteiro entraria nesta análise.

Van Djik complementa esses estudos, com uma visão mais completa. Em seus trabalhos, principalmente nos dos de 1980, como menciona Koch (2008, p. 18), Van Djik diz que o “planejamento pragmático de um discurso (...) requer a atualização mental de um conceito de ato de fala global”, correlacionando a produção textual escrita ou falada a uma organização interna para que sua feitura seja coerente e coesiva.

Zellig Harris merece destaque, pois “foi o primeiro linguista (...) a realizar uma análise sistemática de textos (...) a linguística descritiva deve estender-se para além dos limites do enunciado e a oração não pode ser destacada da estrutura na qual está inserida...” (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 33). O autor acreditava também que a linguagem não acontece com palavras e frases isoladas, mas em „alocuções conectadas e deixa registrado o discourse analysis. Como discourse analysis entendemos a análise do texto, segmentando-o em proposições, semelhanças semânticas e ordenação de frases do texto. Porém, apesar da quase completude deste processo, Van Dijk formula algumas questões quanto à limitação desta análise:

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sintagma e morfema, ou morfema e fonema (...) a diferença entre enunciado e texto não é apenas uma diferença de nível – quantitativa – mas, sim, qualitativa, visto que se trata de unidades heterogêneas (KOCH e FÁVERO, 1998, p. 34).

Para compreender a complexidade desta terminologia, quando tratamos de tentar definir o que é um texto, vale a pena lembrar as palavras de Bentes (2005) quando reforça que Koch (1997) já havia buscado organizar estas definições do objeto da Linguística Textual. Bentes (2005, p. 255) afirma que “sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual, importando, então, escolher aquelas que compartilhem pressupostos teóricos e que sejam passíveis de serem reconhecidas como estabelecendo relações de proximidade e complementariedade”.

Quando Koch (2008) propõe um olhar para a interioridade do texto no contexto da Linguística Textual, ela explica que Isenberg (1976) descreve um método apto para descrever a geração, a interpretação e a análise de um texto “desde a estrutura pré-linguística da intenção comunicativa até a manifestação superficial, incluindo fundamentalmente as estruturas sintáticas...” (2008, p. 16) e complementa sua explicação, dizendo que, segundo Isenberg (1976), um texto pode ser encarado sob oito aspectos: “legitimidade social, funcionalidade comunicativa, semanticidade, referência à situação, intencionalidade, boa formação, boa composição e gramaticalidade” (ISENBERG apud KOCH, 2008, p. 16-17) e lembra anda que um estudo do texto deve respeitar e considerar os diferentes aspectos citados acima. Isenberg diz ainda, segundo Koch (2008, p. 17-18), que “o plano geral do texto determina as funções comunicativas que nele irão aparecer e estas, por sua vez, determinam as estruturas superficiais. A relação existente entre os elementos do texto deve-se à intenção do falante”, ou seja, o falante deve descobrir o „para quê‟ do texto. Koch (2006, p. 18-20) continua seu trabalho levantando importantes questões e definições sob outros pontos de vista acerca da definição de texto. Destacaremos algumas, por exemplo, a de Schimidt que se funda na teoria do ato verbal, a de Wunderlich que se centraliza em redescobrir o objetivo da teoria da atividade, a de Beaugrande e Dressler que falam em ações discursivas, considerando a atividade verbal como uma instância de planejamento interativo. “Por isso, incluem, entre os critérios ou padrões de textualidade, a intencionalidade/aceitabilidade”. Segundo esta afirmação, podemos entender a importância da coerência e coesão como fundamentais para a construção de sentidos. Como diz Koch (2008, p. 21):

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elementos linguísticos que compõem o texto, mas também seu conhecimento enciclopédico, conhecimentos e imagens mútuas, crenças, convicções, atitudes, pressuposições, intenções explícitas ou veladas...

Dando continuidade às diferentes concepções de textos, temos ainda Motsch & Pasch (apud KOCH, 2008, p. 21) que “concebem o texto como uma sequência hierarquicamente organizada de atividades realizadas pelos interlocutores”, o que significa dar ao leitor chances de compreensão, pistas atividades linguístico-cognitivas para que a compreensão aconteça. Koch (2008, p. 24) conclui que “na atividade de produção textual, social/individual, alteridade/subjetividade, cognitivo/discursivo coexistem e condicionam-se mutuamente...” Então, para o entendimento do texto lido/escutado, temos que desenvolver nossas habilidades para que possamos tirar deste objeto, o máximo que nos é permitido.

No início da década de 90, o vigor de uma abordagem cognitiva do texto começa a se delinear. Destacamos estudiosos como Van Dijk e Kintsch (1994). Há uma tendência sócio-cognitiva de grande expressão que perpassa as preocupações com o texto e com seus estudos. Pesquisas no campo da cognição são realizadas e pontuadas para que se possam explicar os aspectos estruturais e processuais da cognição humana. Questões relevantes foram apontadas durante esse processo, tais como: de que conhecimento do ser humano precisa dispor para poder realizar tarefas como pensar, ler, falar e agir socialmente; como este conhecimento está organizado e representado na memória; como este conhecimento é utilizado e que processos e estratégias cognitivas são postas em ação na ocasião do uso. Todas estas questões são dados que interessam à Linguística Textual em seus contextos de estudos e pesquisas. Nas teorias clássicas em Ciência Cognitiva, podemos encontrar informações que nos levam a deduzir que a cognição é baseada em modelos de informação que podem ser representados por símbolos, os quais podem ser manipulados. Confirma Schwarz, (1992 apud KOCH, 2006, p. 35) que “a preocupação central das pesquisas na área de Cognição tem sido de propor teorias empiricamente comprováveis, capazes de explicar os aspectos estruturais e processuais da cognição humana, a partir de três questionamentos básicos”.

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modo sequencial. Além disso, a mente recebe a informação, armazena-a, recupera-a, transforma-a e a transmite. Estas informações são inferências, deduções que se apresentam sob a forma de representações, conhecimentos estabilizados na memória, acompanhados de interpretações que lhe são associadas e tratamentos ou formas de processamentos da informação voltados para a compreensão e a ação.

A memória opera em três fases, como parte integrante do conhecimento: a estocagem, a retenção e a reativação. Como estocagem, entendemos “que as informações perceptivas são transformadas em representações mentais, associadas a outras” (KOCH, 2006, p. 37); a retenção refere-se ao “armazenamento das representações” (KOCH, 2006, p. 37); e por fim a reativação onde se “opera, entre outras coisas, o reconhecimento, a reprodução e o processamento textual” (KOCH, 2006, p. 37).

O desenvolvimento cada vez maior das investigações na área da cognição aumenta o interesse ao processamento do texto enquanto produção e compreensão; às formas de representações do conhecimento na memória, à ativação de tais sistemas de conhecimento por ocasião do processamento citado anteriormente; às estratégias sócio-cognitivas e interacionais nele envolvidas. Indursky (2006, p. 47) explica que:

De tudo quanto precede, pode-se afirmar que há três conceitos fundamentais formulados pelos linguistas textuais que sempre devem ser considerados inicialmente, é necessário examinar a textualidade de um texto que consiste em sua propriedade intrínseca. E para avaliá-lo é preciso analisar este texto a partir de sua coesão e coerência. Ou seja, estes três conceitos representam o cerne dos estudos textuais para esta área do conhecimento. E é através das relações internas, coesivas, que se realiza o que Ingedore Koch, estudiosa brasileira que inscreve sua reflexão sobre texto na linguística textual, chama de “processamento de texto” e, através dele, chega-se à operação semântica que determina a unidade de significação que um texto deve apresentar para ser entendido como texto, a coerência.

Os principais objetivos deste momento é o de se considerar o contexto sócio-cognitivo, buscando-se um conjunto de suposições baseadas nos saberes dos interlocutores, mobilizadas para a interpretação de um texto, e que para as pessoas se compreenderem mutuamente é preciso que seus contextos cognitivos sejam parcialmente compartilhados. Na interação os contextos se misturam causando um aparecimento de novos contextos que vão sendo criados a partir dessa colocação.

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tratamento da oralidade e da relação oralidade/escrita e os estudos de gêneros textuais ganham mais destaque com o passar do tempo.

Os estudos da Linguística Textual estão voltados para definir como o texto é um lugar de interação entre sujeitos sociais, ativos, empenhados numa atividade sociocomunicativa, que pode ser definida como um „projeto de dizer‟, e da parte do intérprete ou leitor/ouvinte uma participação ativa na construção de sentido, por meio da mobilização do contexto a partir de pistas e sinalizações que o texto oferece. A competência sociocomunicativa, como explica Koch (2006, p. 53) “dos falantes/ouvintes leva-os à percepção do que é adequado ou inadequado em cada uma das práticas sociais”. Há também uma ativação de nossos conhecimentos e sabemos reconhecer um texto como uma piada, uma notícia, entre outros. Podemos ainda averiguar se um texto tem caráter narrativo, descritivo ou expositivo.

Por essas pistas podemos desvendar o sentido e os segredos do texto.

É importante mencionar a presença dos interlocutores como produtores e interpretadores na ação da linguagem, pois mobilizam estratégias de ordem sociocognitiva, interacional e textual com vistas à produção de sentido. O interlocutor viabiliza o que dizer recorrendo a estas estratégias de organização textual e usa sinalizações textuais para isso, para a construção de possíveis sentidos.

O texto, então, é organizado estrategicamente de dada forma, em decorrência das escolhas feitas pelo produtor entre as diversas possibilidades de formulação que a língua lhe oferece, e assim, estabelecem-se limites quanto às leituras possíveis acerca do que foi dito. O leitor/ouvinte, por sua vez, precede à construção do sentido a partir do modo como o texto se encontra linguisticamente construído, das sinalizações que lhe oferece e pela mobilização do contexto relevante à interpretação. Nesse momento é indubitável que temos que levar em conta os aspectos utilizados para que a comunicação aconteça.

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O texto é considerado como uma manifestação verbal, constituída de elementos linguísticos de diversas ordens, selecionados e dispostos de acordo com as virtualidades que cada língua põe à disposição dos falantes no curso de uma atividade verbal, de modo a facultar aos interactantes não apenas a produção de sentidos, como fundear a própria interação como prática sociocultural.

De acordo com Koch (2008), registramos que “para o processamento textual contribuem três grandes sistemas de conhecimento: o linguístico, o enciclopédico e o interacional.” (cf. Heinemann & Viehweger10

).

O conhecimento linguístico abarca conhecimento de gramática e do léxico, e é o responsável pela construção relacionada ao som e ao sentido. “É ele o responsável, por exemplo, pela organização do material linguístico na superfície textual, pelo uso dos meios coesivos que a língua põe à nossa disposição para efetuar a remissão ou a sequenciação textual, pela seleção lexical adequada ao tema e/ou aos modelos cognitivos ativados”. (KOCH, 2008, p. 32). O conhecimento de mundo, chamado também de conhecimento enciclopédico é aquele que vamos construindo à medida que vamos conhecendo e construindo percepções do mundo a nossa volta. Ele pode ser declarativo, ligado aos fatos do mundo, ou episódico, modelos socioculturalmente adquiridos através da experiência. Koch (2008, p. 32) relata que:

é com base em tais modelos, por exemplo, que se levantam hipóteses, a partir de uma manchete; que se criam expectativas sobre o(s) campo(s) lexical (ais) a ser (em) explorado (s) no texto; que se produzem inferências que permitem suprir as lacunas ou incompletudes encontradas na superfície textual.

Quanto ao conhecimento sócio-interacional, dizemos que este conhecimento está relacionado às ações verbais, às inter-ações pela linguagem. Como menciona Koch (2006, p. 32) “engloba os conhecimentos do tipo ilocucional, comunicacional, metacomunicativo e superestrutural”.

Sobre as superestruturas, assim denominadas por Van Dijk (1983 apud Koch 2008), há como reconhecer por elas as sequências textuais de diversos tipos. A estrutura de um texto está diretamente conectada a seu conteúdo, podendo, portanto variar com diferentes tipos e níveis. Nesse sentido as estruturas passam a ser denominadas superestruturas que caracterizam os tipos de texto, e essa superestrutura é a forma de um texto e sua macroestrutura, o conteúdo. Van Dijk (1983 apud Koch 2008), ainda ressalta que os tipos de

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textos se distinguem entre si, não só por suas diferentes funções comunicativas, mas também por suas funções sociais, sendo que possuem tipos de construção distintos. Véron (1980 apud Koch 2008) diz que um texto tem as operações produtoras de sentido, universos discursivos diferentes e relação com outros textos.

As superestruturas mais estudadas são a narrativa, a descritiva, a injuntiva, a expositiva, a preditiva, a explicativa e a argumentativa (stricto sensu). As superestruturas podem ser representadas por três tipos de estruturas textuais: narrativa, argumentativa e institucional. Segundo Van Dijk (1992) a narrativa é a estrutura mais básica, pois se caracteriza pela comunicação cotidiana, sendo que as descrições das circunstâncias e objetos ou fatos são subordinados às ações dos sujeitos da narração contados por apenas um. A estrutura argumentativa se baseia na sequência hipótese-conclusão e atua com um diálogo persuasivo. De acordo com Van Dijk (1992) existem estruturas textuais que não são convencionais (narrativas e/ou argumentativas), mas institucionais porque se baseiam em regras/normas de uma determinada instituição social.

O conhecimento superestrutural, isto é, sobre esquemas textuais, permite reconhecer textos como exemplares adequados aos diversos eventos da vida social; envolve, também, conhecimentos sobre as macrocategorias ou unidades globais que distinguem os vários tipos de textos, sobre a sua ordenação ou sequenciação, bem como a conexão entre objetivos e estruturas textuais globais. (KOCH, 2006, p. 49).

1.1 A LINGUÍSTICA TEXTUAL NO BRASIL

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Vogt (1977) como os primeiros a publicarem suas obras sobre o assunto. Ela também registra os trabalhos de Pontes “sobre as estruturas de tópicos no português brasileiro, posteriormente coletadas nas obras Sujeito: da Sintaxe ao Discurso (São Paulo, Ed. Ática, 1986) e O Tópico no Português do Brasil (Campinas, Ed. Pontes, 1987)”.

Nos anos de 1980, esses estudos ganham força, e é publicado Linguística Textual: Introdução (Fávero e Koch, 1983) e Linguística de texto: O que é e como se faz (MARCUSCHI, 1983). Em anais e congressos trabalhos sob essas perspectivas ganham dimensão. Pesquisas sobre o texto vêm sendo desenvolvidas em universidades, cursos de extensão têm sido criados, teses de mestrados e doutorado dão margem à sedimentação dessas descobertas com relação aos estudos do texto, como será citado mais adiante.

Os aspectos mais enfatizados têm sido os padrões de textualidade propostos por Beaugrande e Dressler (1981), enfocando a coesão textual, seguindo a perspectiva de Halliday e Hasan (1976) e seguindo as propostas da escola de Praga quanto à progressão temática, à coerência textual, à intertextualidade, à tipologia de textos, aos mecanismos de conexão, à produção, à compreensão e sumarização de textos e a outros processos linguísticos que levam em conta a ótica textual como fator principal no desenvolvimento de sua teoria.

Os autores brasileiros têm contribuído sobremaneira para estudos da Linguística do Texto, pois, suas pesquisas têm aprofundado questões relacionadas à coerência dentro da textualidade. Devemos a Harald Weinrich as fundamentações sobre o emprego textual dos tempos verbais; a Van Dijk a tipologia dos textos, além do conceito desenvolvido sobre macroestrutura, descrição das estratégias de sumarização, entre outros. Importante ressaltar que a macroestrutura semântica, segundo Val (1999) está ligada à representação geral da significação do texto; enquanto na microestrutura se manifestariam relações localizadas de conexão mútua entre os enunciados.

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Em várias universidades brasileiras vão-se formando núcleos de pesquisas sobre texto. A pesquisa na área frutifica em cursos de extensão, aperfeiçoamento e especialização, ministrados em diversos pontos do país, bem como em dissertações de mestrado e teses de doutorado, cujos autores, subsequentemente, vão implantando esse tipo de enfoque em suas instituições de origem.

Num terceiro momento11, na década de 90, a perspectiva sócio-interacional começa a tomar conta dos estudos no tratamento da linguagem (Geraldi, 1991; Koch, 1992), e os estudos se voltam para as estratégias de contextualização sócio-cognitivas dentro do processamento textual, na produção e na compreensão dos textos. A linguística então serve e se serve de outras ciências, complementando sua importância e ampliando seus propósitos. Os principais objetos de pesquisa têm sido o funcionamento da memória, a representação dos conhecimentos, seu acesso, utilização, recuperação e atualização desses conhecimentos, as principais estratégias de ordem sócio-cognitiva, interacional e textual, colocadas em ação na produção e compreensão dos textos, e por último o balanço entre o implícito e o explícito. Outra tendência que se observa é a dedicação aos estudos de gêneros textuais, retomando a questão da tipologia textual. A referenciação também é outro ponto que notamos crescer, das diversas formas de remissão textual, e os recursos anafóricos e seu processamento sócio-cognitivo.

Observamos também, educadores aplicando noções da Linguística Textual em suas aulas, no processo de alfabetização e aquisição da língua, tanto materna quanto estrangeira, de modo geral. Essa forte inclinação tende para a abordagem sócio-interacional que envolve o processamento textual em termos de compreensão e produção. Marcuschi, “na metade da década anterior, havia desenvolvido um projeto sobre a produção de inferências, financiado pelo CNPq, cujos resultados, foram parcialmente divulgados, através de artigos” (KOCH, 1999, p. 171)12.

Não podemos deixar de citar a importância dos estudos e pesquisas sobre o texto falado, outra vertente relevante concernente a essa área. Marcuschi (2008, p. 25) fala em sua obra da fala para a escrita, atividades de retextualização sobre a importância da fala no processo de registro, exemplificando que “a fala seria uma forma de produção textual-discursiva para fins de comunicação na modalidade oral”.

11 Podemos verificar essa divisão nos estudos da Linguística Textual no Brasil, num primeiro momento de

1981-1985 e num segundo momento de 1989 – 1991.

12 Koch (1999) escreve um artigo sobre o desenvolvimento da Linguística Textual no Brasil, na revista DELTA

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2 DIALOGISMO E INTERTEXTUALIDADE

2.1 DIALOGISMO

Este capítulo tratará do dialogismo e da intertextualidade de acordo com os estudos e reflexões de Bakhtin e os princípios teóricos da Linguística Textual. Segundo Fiorin (2008, p.18) “O teórico russo enuncia esse princípio e, em sua obra, examina-o em seus diferentes ângulos e estuda detidamente suas diferentes manifestações”. Pontuaremos alguns desses diferentes ângulos no decorrer deste capítulo.

Diferentes posições teóricas possibilitam distintos olhares sobre o mesmo objeto de estudo, desse modo, é necessário expressar nosso entendimento acerca do tema escolhido, destacando o lugar teórico de onde se fala e consequentemente, nosso ponto de vista.

Dialogia não é uma teoria científica, mas sim uma filosofia, um conjunto de conceitos. Segundo Fiorin (2008) Bakhtin (2006) também não é um teórico do diálogo face-a-face, interessa-lhe pouco o diálogo tal como é tradicionalmente conhecido. Ele chega mesmo a dizer que essa forma composicional do discurso é uma concepção estreita do dialogismo.

As relações dialógicas que se estabelecem entre dois enunciados quaisquer postos em contato é o que lhe interessa. A lógica das relações dialógicas não é, portanto, de natureza linguística stricto sensu, o que nela ocorre é a defrontação. O termo diálogo em Bakhtin (2006) designa a grande metáfora conceitual que organiza sua filosofia; é o nome para o simpósio universal que define o existir humano e não para uma forma específica de interação face-a-face e menos ainda para uma forma composicional do texto:

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Para Bakhtin (2006) a língua é na essência dialógica; todo enunciado propõe uma atitude responsiva. Por atitude responsiva podemos entender a relação entre o homem habitado pelo signo e ideologicamente marcado pelas estruturas sociais e o mundo habitado por ele. É nessa relação que se cria a perspectiva de diálogo que gera a possibilidade de modificação recíproca. Na concepção bakhtiniana o diálogo não se limita à comunicação face a face, mas abrange todo o processo de comunicação verbal e não verbal, incluindo o texto falado ou escrito. O discurso é, portanto, um espaço marcado por diversas vozes vindas de outros discursos. A responsividade pode ser ativa ou passiva. Afirma Bakhtin (p. 271, 2006) que:

...o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso ocupa simultaneamente em relação a ele uma atitude responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente, a partir da primeira palavra do falante. Toda compreensão da fala viva, do enunciado vivo é de natureza ativamente responsiva (embora o grau desse ativismo seja bastante diverso); toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante.

Uma atitude responsiva ativa implica uma ação concreta dotada de intencionalidade voluntária praticada por alguém, responder a alguém ou a alguma coisa. Nesse caso, há uma ruptura com as idéias de assujeitamento ou sujeito-fonte trazidas pelo dialogismo. Bakhtin (2006) explica que a linguagem nunca está completa, ela é uma tarefa, um projeto sempre em construção, sempre inacabado. O discurso está ligado à vida em si e não pode ser separado dela sem perder sua significação. A palavra pode, então, tornar-se prioritária nos estudos sócio-históricos somente se a analisarmos e analisarmos seus signos isoladamente. Como a palavra está inserida num contexto, num conjunto de valores ou fatores que a fará tornar-se enunciado, a resposta ao discurso se dará de diversas maneiras.

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Para Fiorin (2008) o primeiro conceito de dialogismo é aquele que se funda em contradição, réplicas de vozes sociais que divergem. Essas vozes podem ser individuais ou sociais, incluindo grandes discussões filosóficas ou diálogos do dia a dia. De acordo com Fiorin (2008, p. 27):

ao tomar em consideração tanto o social como o individual, a proposta bakhtiniana permite examinar, do ponto de vista das relações dialógicas, não apenas as grandes polêmicas filosóficas, políticas, estéticas, econômicas (...) mas também fenômenos da fala cotidiana, como a modelagem do enunciado pela opinião do interlocutor imediato ou reprodução da fala de outro com uma entonação distinta da que foi utilizada, admirativa, zombeteira (...). Todos os fenômenos presentes na comunicação real podem ser analisados à luz das relações dialógicas que os constituem.

O segundo conceito de dialogismo é o que traz uma forma composicional ao mesmo, mostrando visivelmente vozes distintas nos discursos. Bakhtin chama essa forma de composição estreita de dialogismo. Conforme Fiorin (2008, p. 33), “com esse adjetivo, o que o filósofo pretende mostrar é que o dialogismo vai além dessas formas composicionais, ele é o modo de funcionamento real da linguagem, é o próprio modo de constituição do enunciado”.

Bakhtin (apud Fiorin 2008) coloca duas maneiras de inserir o discurso do outro no enunciado: o discurso objetivado e o discurso bivocal. O primeiro é o discurso citado e mostrado em que se usam o discurso direto e indireto; aspas; negação; e o segundo, internamente dialogizado, em que não há separação nítida entre quem cita e quem enuncia, nesse aparecem as paródias, a estilização e a polêmica. Bakhtin (2006, p. 275) explica ainda que:

Todo enunciado – da réplica sucinta (monovocal) do diálogo cotidiano ao grande romance ou tratado científico – tem, por assim dizer, um princípio absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, os enunciados de outros; depois do seu término, os enunciados responsivos de outros ou amo menos uma compreensão ativamente responsiva silenciosa do outro ou, por último, uma ação responsiva baseada nessa compreensão.

O terceiro conceito de dialogismo está ligado diretamente ao sujeito que professa o discurso. Para Bakhtin não existe o assujeitamento, mas o sujeito não é, também, autônomo em relação à sociedade. Fiorin (2008, p. 55) menciona que:

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O princípio básico dessa ideia é que o ser humano está em constante transformação, constituindo-se de vozes sociais que o formam e que o formarão, construindo o seu arsenal de ações e discursos. Não há indivíduo acabado, e não recebemos de uma só voz social, mas de muitas. Somos e estamos integrados num contexto de ações e reações. Temos atitudes responsivas diante dos fatos e das falas, respondemos a isso o tempo todo. Portanto, o indivíduo é totalmente dialógico. Há diferentes tipos de vozes: a de autoridade e as vozes persuasivas. Quanto mais nossa consciência for formada por essas vozes de autoridade, explica Fiorin (2008), mais ela será monológica ou ptolomaica. Quanto mais for constituída de vozes persuasivas, mais ela será dialógica ou galileana. Esses dois tipos de vozes se debatem e aí acontece a inter-relação das diferentes vozes que nos constituem. Segundo Fiorin (2008, p. 56):

Bakhtin qualifica de ptolomaica a consciência mais rígida, mais organizada em torno de um centro fixo, como era o sistema planetário de Ptolomeu, em que a Terra era fixa. Já a galineana é a consciência mais aberta, mas móvel, não organizada em torno de um centro fixo, como é o sistema de Galileu, em que a Terra de move. Segundo Fiorin (2008, p.19) nos enunciados “existe uma dialogização interna da palavra, que é perpassada sempre pela palavra do outro, é sempre e inevitavelmente também a palavra do outro”. Portanto, os textos são sempre ecos de outros textos, e os discursos de outros discursos. Ainda em Fiorin (2008, p.19):

Não há nenhum objeto que não apareça cercado, envolto, embebido em outros discursos. Por isso, todo discurso que fale de qualquer objeto não está voltado para a realidade em si, mas para os discursos que o circundam. Por conseguinte, toda palavra dialoga com outras palavras, constitui-se a partir de outras palavras, está rodeada de outras palavras.

Referências

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