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RESUMO DA PEÇA

No documento ENEIDA GOMES NALINI DE OLIVEIRA (páginas 66-70)

4 DIALOGISMO E INTERTEXTUALIDADE NA PEÇA TEATRAL CLARICIANA

4.1 O TEATRO DE CLARICE

3.3.1 RESUMO DA PEÇA

O texto é uma pequena tragédia, em um ato, vivida por uma mulher, a protagonista sem nome e sem fala, que comete adultério e por isso vai ser queimada. O Povo faz parte de seu julgamento, os Guardas a conduzem, os Anjos relatam os acontecimentos enquanto Esposo e Amante falam de sua dor, e o Sacerdote lidera a condução dos episódios, pois é o responsável pelo julgamento.

Podemos assim resumir a tragédia: uma mulher trai o marido e ele a denuncia. Essa mulher é levada a julgamento em praça pública, sob o olhar do Povo, dos Guardas, do Sacerdote e dos Anjos. O Amante diz não saber do fato de a mulher ser casada, e o Sacerdote conduz o julgamento, como observamos acima. Os Anjos preconizam o início e o fim da peça, como se fossem o coro das tragédias gregas. A presença dos Anjos é marcada com o „vir a ser‟ profetizado por eles.

No começo, os Anjos anunciam o início da peça, e preveem que o que tem que ser feito será feito, o que significa a força do destino recaindo sobre os personagens. O destino é fator relevante nas tragédias gregas e já observamos sua presença na peça de Clarice Lispector. A inevitabilidade do destino é constatada no texto.

O Sacerdote então dá sua palavra, como representante da Igreja; palavra, no entanto, que deixa dúbia interpretação, e a Pecadora entra em seguida escoltada por dois Guardas. Os personagens Povo, Criança com Sono e Mulher comentam sua entrada. Os Guardas apresentam-se como defensores da ordem e da paz e cumpridores do que terá que ser. A partir daí, Esposo, Amante, Sacerdote e Anjos que se submetem à mudança necessária para “virem a ser”, vão se colocando em seus papéis, revelando suas opiniões e desejos no julgamento da Pecadora. Somente ela se cala, não expressando, exceto por um sorriso, o que lhe vai por dentro, os seus sentimentos.

Como essa mulher que era casada pode cometer adultério? Não há detalhes sobre essa traição, apenas sabemos que ela aconteceu, porque o marido a denuncia e ela vai ser julgada. A peça toda gira em torno do julgamento da Pecadora, num lugar que Clarice Lispector denomina pátio. O motivo da traição não é esclarecido, e a Pecadora não se pronuncia verbalmente, não há falas para seu personagem. O Sacerdote toma a frente do julgamento, expressando as opiniões que lhe cabem, e a posição da igreja perante o fato. Apesar de não haver registros na história de mulheres que tenham sido queimadas por causa de traições conjugais, há fatos que nos mostram a fogueira sendo o algoz de mulheres que demonstram ter qualquer poder sobrenatural. Clarice Lispector faz uma crítica velada às instituições religiosas com sua peça, usando as incoerências de sentimentos do Sacerdote, que se revela humano acima de tudo; mostrando um Esposo que parece se arrepender de tê-la denunciado e um Amante que também se sente traído, pois não sabia que a Pecadora era casada. Ao final, a Pecadora é queimada para pagar por sua traição, segundo GOMES (2006, p. 37):

Deduz-se da tragédia de Clarice, que a traição numa relação adúltera envolve não só marido, esposa e amante, mas também aqueles que subordinados à moral cristã, consideram o ato como pecaminoso. Essa dedução pode ser confirmada pela fala da mulher do povo: “Ei-la a que errou, a que para pecar de dois homens e de um sacerdote e de um povo precisou”.

O texto mostra contradições dos personagens e um jogo de poder existente entre eles, a morte e o renascimento são apresentados pela Pecadora e pelos Anjos respectivamente.

A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos foi produzida, ao mesmo tempo em que Clarice Lispector também escreveu A cidade sitiada (maio de 1948), quando estava em Berna, na Suíça. O texto tem característica ou menções à Idade Média, talvez porque Clarice Lispector tenha sido influenciada por essas paisagens.

Essa peça traz a presença do coro, característica de textos teatrais da antiguidade grega, pois em forma de proclamação dos personagens, eles tomam o papel para si, debatendo as atitudes da Pecadora durante seu julgamento. Fitz (1997, p. 25)22 menciona que “quase totalmente desprezado no crescente corpus de estudos críticos devotados aos seus trabalhos A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos – o mais prematuro conhecido esforço de Clarice Lispector na literatura dramática – vale a pena a atenção do leitor”.

O ensaio citado acima e traduzido por nós no ano de 2009 revela uma análise profunda da peça de Clarice, que iremos citar no nosso trabalho, mas que merece leitura mais aprofundada de quem se interessar pelo tema.

Giovanni Pontiero verteu o texto para o inglês com o nome de The Burned Sinner and the Harmonious Angels. Moser (2009, p. 192) na mais recente obra sobre Clarice Lispector escreve:

Talvez tenha sido as notícias das aventuras teatrais de Lúcio23 que inspiraram Clarice, nos últimos dias dela na Suíça, a escrever “O coro dos anjos”, mais tarde publicado como “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos”. Ou a peça deve ter sido inspirada por um outro amigo, o poeta Pernambucano João Cabral de Melo Neto, que começou uma prensa na Espanha pelo seu diplomático posto, e estava ansioso para ter alguma escrita de Clarice publicada. “Eu ainda estou esperando pelo Coro dos Anjos”, ele escreveu no começo de 1949. “Você fala dele tão fabulosamente que minhas expectativas estão crescendo”. Ele nunca o publicou e

22

Earl escreve este ensaio sobre a Pecadora Queimada no ano de 1997. O ensaio está em inglês e trabalhamos em sua tradução nos meses de Abril, Maio e Junho de 2009. “Entre as escassas menções a essa tragédia clariciana, destaca-se o ensaio de Earl E. Fitz, publicado na revista Luso Brasileira Review, intitulado “A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos: Clarice Lispector as a Dramatist”. Seu autor inicia lamentando justamente o fato de que o referido texto seja quase esquecido pelos estudiosos da obra de Clarice (GOMES, 2007, p. 119).

provavelmente nunca o viu até que a peça apareceu em 1964 publicada na Legião Estrangeira. (...) esta é a única incursão de Clarice na dramaturgia. Apesar de Nicole Algranti, produzi-lo em 2006, “A Pecadora” não parece destinada aos palcos, por causa de seu tamanho (treze páginas), com um ritmo e linguagem bíblica que também são únicos em sua obra, a peça nos conta de uma mulher condenada à morte. Seu pecado é banal 24.

A montagem produzida por Nicole Algranti contou com outros textos de Clarice Lispector. Segue abaixo o cartaz da montagem produzida em 2006 por Nicole Algranti:

Disponível em http://www.jbrj.gov.br/divulga/pecadoras3.jpg

24 “Perhaps it was news of Lúcio‟s new theatrical venture that inspired Clarice, toward the end of her time in Switzerland, to write “The Choir of Angels”, later published as “The Burned Sinner and the Harmonious Angels” or the piece may have been inspired by another friend, the Pernambuco friend José Cabral de Melo Neto, who had started a small press from his diplomatic post in Spain and was eager to have something from Clarice ...” (MOSER, 2009, p. 192). Trecho traduzido também por nós no ano de 2009.

No documento ENEIDA GOMES NALINI DE OLIVEIRA (páginas 66-70)

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