O sol, em sua melhor forma, se exibia no céu, enquanto o menino Pedro Henrique, sentado na sombra de uma mangueira, observava o galinheiro. Era de se admirar como aquele cenário o deixava entretido. Reparava com afinco o vai e vem das transeuntes, ora no milho, ora na água, ora sem saber aonde ir.
Impressionava-se com a facilidade que as galinhas tinham para evacuar os seus dejetos. Sentiu inveja delas. Não precisavam tomar aqueles remedinhos que a mamãe sempre dizia ser bom para liberar a flora intestinal, muito menos ter a sensação de que estavam sendo sempre monitoradas, na expectativa da ida ao banheiro ao menos uma vez no dia. E quando isto acontecesse, não seria como o menino sentado no vaso, que sentia do lado de fora, as respirações ofegantes dos pais e de quem estivesse em casa, na torcida pelo êxito da sua evacuação.
Até Marley, o cachorro, parecia juntar-se à turma. Sentado ali, de frente ao galinheiro, o pequeno Pedrinho, apreciando a liberdade das galinhas, desejou ser uma delas.
As férias no interior eram recheadas de novidades, sabores, aromas e até maus cheiros que não faziam parte da rotina na cidade. Pedrinho sabia que voltaria para casa cheio de histórias em seu repertório. Andara de jegue, ordenhara vaca, chupara manga e araçá, colhidas diretamente do pé. Sem falar no visgo da jaca, que o divertia colando seus lábios. Não entendia porque a mãe
sempre insistia para ele optar pela jaca mole, embora preferisse a jaca dura. De todas as novidades, nenhuma o fascinara tanto quanto a vida no galinheiro.
No início permanecia à distância, apenas observava, hesitando o contato direto com as galinhas. Com o passar do tempo foi se sentindo mais seguro para entrar naquele habitat. Até que um dia, lá dentro, ouviu algo que lhe parecia familiar. A galinha cacarejou outra vez, e outra vez. O menino fechou os olhos espremendo-se, fazendo uma trajetória na sua memória auditiva. Como aquela sonoridade lhe parecia familiar. A galinha cacarejou novamente e ele lembrou.
Dona Francisca. Algo naquele cacarejo o remetia a voz da sua vizinha. Os moradores mais antigos do bairro diziam que a mulher possuía uma voz estranha de nascença. Outros diziam que a voz dela teria ficado assim, depois que o marido contara que tinha acertado os números da loteria. A vizinhança toda ouviu os gritos de felicidade dela, que se estenderam, modificando bruscamente a entonação de sua voz, depois que o marido a informara ter perdido o bilhete premiado. Ainda havia a versão da espinha de peixe, sustentando a tese que a voz teria modificado após Francisca ter se entalado.
Eram tantas especulações que Pedrinho não sabia em qual acreditar, muito embora tivesse uma leve inclinação pela versão da espinha do peixe, imaginando a confusão formada, uma vez que, supostamente, o episódio tenha ocorrido em um jantar de gala. O fato é que a voz da vizinha era estranha mesmo.
Lembrando-se da mulher, Pedrinho batizou a galinha de Chica, em homenagem a dona Francisca. Os dias que procederam ao batismo da estimada ave, serviram para firmar uma amizade genuína entre o menino e a galinha.
Certa manhã, o menino deu de cara com o tio Bené, que vinha da direção do galinheiro. Ambos pararam. Pedrinho, estatelado, com as bolas dos olhos parecendo querer saltar das órbitas oculares, viu o que o homem trazia consigo.
O tio munia-se de uma faca suja de um caldo enegrecido em uma das mãos, e na outra, uma galinha, ou ao menos os restos mortais dela. Segurava a galinha pelas asas, o pescoço, na maioria das vezes hiperativo, agora molenga, pendulava sobre o corpo sem vida. O homem olhou de um lado a outro, buscando algum apoio para a situação instaurada.
- Chi... Chica?! – perguntou o menino quase que sem voz.
Era ela sim. Jamais Pedrinho deixaria de reconhecer a amiga que ouviu as mais atrozes das suas intimidades. Como quando sentiu vontade de passar cola na cadeira da professora que o chamara a atenção só porque contava ao colega as aventuras do final de semana na praia, no meio da aula de matemática.
Somando-se o fato de Chica ser a mais gorda do galinheiro, não tinha como haver confusão. Era ela sim!
- Mas por que ela? O que ela te fez? – indagou o garoto, com lágrimas nos olhos.
O tio pigarreou, e aproveitou-se da sua pouca audição para ganhar tempo, embora já estivesse feito a leitura labial a respeito do questionamento do sobrinho:
- O que você disse, meu fi?!
- Por que você matou a Chica? – respondeu Pedrinho buscando um sentido para tal circunstância.
- A galinha?! É a galinha...– limpando a garganta – ô meu fi, eu sinto muito!
Eu também tô sentido. Era a galinha mais véa do nosso galinheiro. Não sei quem teria corage de fazer mal a pobrezinha.
As palavras do tio causaram transformação instantânea no semblante do menino, fazendo a fúria perder lugar para a confusão.
- O causo é – o tio prosseguiu dando um tom de suspense na voz – que tava eu, caminhando perto do galinheiro, quando avistei a defunta estirada no chão e do ladinho dela tava essa faca aqui, ó. Corri meia légua pra tentar pegar o assassino, mas não vi nem rastro do dito cujo.
“Que história mais sem pé nem cabeça!” Pensou o menino. Não se lembrava de já ter ouvido, ou ao menos conhecesse alguém que ouvira a história de um homicida de galinhas. Mas o fato é que Pedrinho parou para pensar e lembrou que Chica andava um tanto estranha nos dois últimos dias. Não parecia dar a mesma atenção às prosas do amigo como em outrora. Estava comendo menos do que o comum, adotara uma suspeita preferência pelos cantos do galinheiro, sempre a margem das companheiras de estadia. No que se refere a isso, o menino suspeitava que a amiga fosse mais uma vítima do tão falado na escola: o bullying, visto a notoriedade do sobrepeso da galinha, sem contar aquelas penas de um dourado que certamente causaria inveja a qualquer uma de suas camaradas. Talvez as outras se sentissem incomodadas, entrando em um consenso para deixar a pobre gorduchinha à parte. Nesse contexto, a história que o tio acabara de contar esclarecia toda a estranheza no comportamento de Chica.
Era essa coisa de pressentimento que a mamãe sempre falava. Claro! A pobre Chica estava pressentido que algo de ruim lhe aconteceria.
– Pobre Chica! - choramingou Pedrinho, enxugando uma lágrima.
– Oh, meu menino, se aperreie não, ela cumpriu a sentença, né mesmo?! Foi uma galinha de grande valia! Penso que vai tá assegurada seja lá pr’onde ela tenha ido, fi! Agora preciso levar ela. Sua tia tem de prerpará o armoço.
Tio Bené apressou-se na tentativa de sair das vistas do sobrinho, na esperança de por um fim na situação, mas o menino pôs-se a sua frente. No fundo, no fundo, ele sabia que não conseguiria escapar da pergunta que viria em seguida. Sentindo o suor escorrer pelas costeletas possuía uma intuitiva certeza de que não saberia como se safar. Agora lascou-se. Estava tudo perdido. O menino iria descobrir que ele era o assassino, que a esposa, tia Margarida, era
sua cúmplice e o pior, pretendiam servir a galinha no almoço. – Pra onde vai levá-la? – Pedro Henrique questionou agora um pouco mais conformado.
Tio Bené não sabia se respirava aliviado pelo sobrinho não ter notado os indícios que incriminavam o casal, ou se sentia aflição por não saber responder a pergunta que acabara de lhe flechar. “Se mataram, mataram alguém. Se mataram alguém é porque teve morte. Se teve morte e morreram, tem que enterrar, ué.” Pensou o tio, achando uma resposta
– Há de se providenciar o enterro da galinha, fi.
Quando terminou de falar, esgotou-se. Jamais em todas as quase seis décadas de vida tinham exigido dele tamanho raciocino lógico, em tão pouco tempo. Apesar do esforço, pôde contemplar um sorriso de contentamento no pequeno Pedrinho, como se a galinha fosse digna de tamanha honraria.
Certamente, aquela seria a primeira galinha a ser enterrada. Dando-se conta disso, por um momento houve um ar de lisonjeio da parte do tio Bené, afinal de contas era nas terras dele que aquele feito inédito aconteceria.
–Agora vá se ajeitiá que eu vou arranjar uma caixa que sirva de caixão pra galinha Chica. Daqui a pouco tu me encontra lá perto do pé de acerola, atrás do curral – o tio deu as coordenadas.
Após tanger o menino para dentro de casa, saboreou um pouco do alivio momentâneo. Momentâneo mesmo, pois não sabia que rumo tomaria esse acontecido. Ou melhor, até que ele sabia. “Vou ter que enterrar a diaba da galinha” cochichou consigo mesmo. Não tinha escolha, já tinha chegado até ali, teria que por um ponto final.
Meia hora depois estavam os dois no local marcado. O menino todo de preto, como no único enterro que já assistira. Foi o da donzela, enamorada do mocinho de um filme de faroeste que o papai assistiu. A cena que antecedeu o enterro foi uma épica perseguição de cavalos que culminou com a morte da donzela. Aquela cena foi reproduzida pelo menino durante algumas semanas, até que em uma tarde, perdera o controle do seu mangalarga, a vassoura de casa, derrubando um dos lustres favoritos da mamãe.
Tio Bené, suando feito um cuscuz, descansava sobre o cabo da pá usada para abrir a cova. A galinha estava lacrada na caixa-caixão. Com pesar, o menino se aproximou e pegou a caixa, depositando-a na cova rasa. Balbuciou meia dúzia de palavras e foi-se embora do cemitério improvisado. O tio, grato pela rapidez da cerimônia, apressou-se em tapar o buraco, afinal de contas não podia correr o risco de alguém ver aquela cena. Se isso acontecesse, pensou em como explicaria o enterro de uma galinha. Cansou de pensar e parou.
Na hora do almoço estavam todos na mesa. Papai, mamãe, tio Bené, Pedrinho e alguns primos. Quando tia Margarida depositou sobre a mesa, a panela com o ensopado de galinha, tio Bené sentiu um frio na espinhela. O
menino examinou o conteúdo da panela, depois olhou todos em volta, como se estivesse à procura de alguém. Bené e Margarida se entreolharam.
Estremeceram-se. Silêncio. Pedrinho levantou o braço e apontou para panela.
Bené e Margarida sentiram-se perdidos. “O menino vai voltar pra cidade com a tar da depressão se descobrir que servimos a amiga dele no armoço” pensou Margarida.
- Mamãe, mamãe, eu quero aquele pedaço! – disparou Pedrinho.
- É todo teu, meu anjo. – tia Margarida antecipou-se. Respondeu tomando a frente para servir o sobrinho.
Com a tensão dissipada da casa, todos comiam e conversavam tranquilamente.
- O que foi que tu enterrou na caixa, homi? – cochichou Margarida.
- Tive que matar outra galinha, muié. – tio Bené caiu na risada, cochichando em resposta.
O menino fitou-os com ar de desconfiança, mas logo voltou a saborear o gordo pedaço da coxa da galinha Chica que escolhera a dedo.