— Não quero ir! Não quero! Tem um monstro lá!
Apesar dos protestos do menino cabelo tigela com leves ondinhas, cujas lágrimas competiam entre si no cume do nariz adunco para saber qual delas vencia a gravidade, aquele papel dizia que deveria ir. Uma palavra a qual jamais procurou no dicionário, mas oscilava os ossos de tanto pavor: obedeça. Esse era o som principal que os ouvidos da criança cujo nome tornara-se “filho de uma mãe solteira” captava. Não adiantavam os berros, choros e portas batidas na cara das pessoas, o desespero que desgastava sua existência era simplesmente descartado por adultos com problemas importantes demais para serem entendidos por ele.
A burocracia iniciada antes da ideia de haver um feto faz-se mais asfixiante a medida que crescemos, ela se infiltra sem nenhuma vergonha em todos os cantos, até nos mais íntimos.
Tinha o rosto magro, olhos castanhos os quais revelavam que a imensidão dos seus desejos e sonhos era um monte de nada, um corpo o qual se fosse chamado de esquelético receberia um grande elogio e uma voz que, aparentemente, bradava para a solidão.
Todo sábado de manhã o leite corroía as entranhas e ninguém do núcleo familiar primordial entendia o porquê daquele pão comido pela metade. Aquela mistura de leite com pão meio corroído pelo desgosto revirava o estômago até se transformar em um vômito forçosamente barrado pela cavidade bucal. Sempre havia uma explicação advinda de um único motivo: manha.
E, notoriamente, tias e primos com a bola de cristal da obviedade já davam o prognóstico: “quando crescer, vai melhorar”. Pessoas com a profundidade de um pires e ideias tão consistentes quanto um dente de leão branco.
Apesar da pouca idade, ele sentia dor. Uma dor que de tanto doer, já não doía mais. A dor era parte do menino, em algum ponto da vida dele ocorreu uma fusão. E por mais que dissesse que passaria, era mentira. A Fluoxetina jamais apaga o rasgo de um espírito. Sabia que por mais que tentasse se livrar, ela sempre estaria lá, falando no ouvido dele e sempre a consolá-lo, de uma maneira que os outros não faziam. Até que a dor construiu um muro, depois um castelo
que o fez ficar distante de tudo e de todos, mesmo que, forçosamente, com um sorriso amarelado, fingisse ouvir o interlocutor. Todavia, sempre estava resmungando com a dor, afinal, chegou em um ponto que só ela o entendia.
Talvez, devido a altura do castelo construído, ninguém conseguia ouvir que havia um monstro perseguindo ele. Era um monstro grande, forte e peludo, com garras asquerosas e uma língua que parecia feita por várias ventosas. Uma vez, ele o desenhou para a mãe que apenas disse:
— Tá bom menino, tá bom….depois a gente conversa.— Após a frase de pouca complexidade, se reclinou no sofá e foi ver o celular.
O filho esperou por um depois que nunca chegou.
E lá estava ele, novamente, encarando o sábado matinal, dia em que o tal papel dizia que deveria ir com o pai. Com a voz rouca de tanto berrar sobre o monstro, só restava abaixar a cabeça e esperar o fatídico momento em que o pai chegaria.
Quando a campainha tocou, o garoto sentiu o sangue coagulado pelo medo. A mãe, obviamente, oferecia o famoso café com leite paulistano para o ex-marido, mesmo com vontade de mandar tomar outras coisas em outros lugares.
Entretanto, entre os olhares de raiva e saudades das intimidades na cama, contou ao ex sobre o que o menino falava, do tal monstro na casa do pai. Após uma breve risada de descrédito de ambos, o pai zeloso agachou e perguntou ao filho:
— Filho, que história é esta de monstro?- O pai colocava as mãos no ombro do menino e olhava firmemente nos olhos dele, demonstrando preocupação.
— Nada não pai. — respondia a criança com desânimo aterrador enquanto rabiscava o chão com os pés.
O menino já tinha certeza, não adiantava falar, ninguém acreditaria.
Mais uma vez, seria um desperdício de ptialina.
Pra quê?
— Tá vendo — a mãe batia as mãos nas coxas roliças — este menino não sabe o quê diz!
O menino cabisbaixo deu bênção para a mãe e saiu pelo mundo de mãos dadas com o pai.
Chegando na casa paterna, o ar cheirava a avós e todo mundo sabe qual o perfume desse ar: de carinho. O menino foi recepcionado com abraços sufocantes demais para caberem na palavra sufoco, tantas balas e pirulitos que, se a fortuna de Stevie Jobs fosse convertida para a medida em questão, este sairia perdendo. Os avós brincaram de pega-pega, esconde-esconde, cobra cega, momentos intercalados por fotos felizes no Facebook e Instagram.
Quando o excesso de felicidade virou cansaço, o garoto pediu licença para dormir.
Com um beijo na testa da avó, do vô e do pai, o garoto foi para o quarto dos finais de semana.
Repentinamente, naquele estágio do sono em que não lembramos mais como somos, o menino sentiu o monstro agarrar seu pé. O medo era maior que o ar nos pulmões, não conseguia respirar. Lentamente, a língua do monstro foi percorrendo todo o frágil corpo, as ventosas do músculo molenga faziam barulho enquanto desgrudavam lentamente do tecido epitelial. Lágrimas silenciosas escorriam do rosto da criança. O menino sentia os pelos do monstro peludo roçarem pra frente e pra trás, enquanto as garras fincavam os braços pueris na cama que rangia conforme a sofreguidão da angustia.
Mentalmente pedia para aquilo parar, mas o tempo e espaço haviam se comprimido a tal ponto naquele quarto que quase não existia diferença entre o começo e o fim.
Até que o monstro vira a criança meio de lado e diz:
— Boa noite filho, durma bem. — o pai se despedia com um beijo testa.
— Boa noite, te amo papai.
Limpando a mão, o pai desliga o interruptor e a infância do filho.