Elegantemente dispostos, laços e luzes e outros ornamentos festivos, próprios da época de Paz e Amor, que decorre e se festeja, entrelaçados em harmonia perfeita, criam um ambiente alegre, pacífico, distinto e acolhedor, que aquece o coração e torna o ambiente da sala, nesta noite fria do dia 24 de dezembro, particularmente agradável e aconchegante, completado pela Árvore de Natal divinamente decorada com ornamentos dourados e luzinhas piscantes, multicoloridas, a brilhar a um canto junto da lareira, onde crepita um enorme toro de madeira de castanho. Sobre a grande mesa de carvalho, ao centro da sala, estende-se uma lindíssima toalha de linho, bordada com motivos característicos desta quadra festiva e, sobre ela, ao centro, um bonito arranjo, que Teresa fez com muito carinho, enfeita esta mesa de Consoada, à volta qual irão sentar-se, dentro em pouco, os seus entes mais queridos. Os pratos são de fina porcelana Vista Alegre e estão cuidadosamente dispostos sobre a toalha e, ao lado destes, cintilam belos copos de cristal, especiais para estas ocasiões festivas; os talheres são de prata, e os guardanapos, bordados, iguais à toalha, completam a mesa festiva.
Teresa esmerou-se na ornamentação da casa e na preparação da mesa de Consoada, e fez desta sala um santuário de luz, cor e Amor. Pôs no seu arranjo todo o carinho que sempre se põe nas coisas que fazemos para as pessoas amadas: as duas filhas, os netos e os genros virão Consoar consigo nesta noite especial, comemorativa do nascimento de Jesus; noite dedicada a família.
Excedera-se na preparação da mesa e da casa para os receber. Quer que tudo esteja perfeito; mas o seu coração sangra. E o seu pensamento afasta-se dali por momentos e parte à procura desse filho, que partiu há tanto tempo e nunca mais deu qualquer notícia que acalmasse o seu coração rasgado pela dor. Imagina-o em alguma parte desse mundo afora e vê-o no rosto de qualquer arrumador de carros que dela se aproxime.
Não sabe onde está. Não sabe se é vivo ou se é morto. Procura-o naquelas vielas de Lisboa, tantas vezes focadas pela televisão, na ânsia de reconhecê-lo no rosto de algum dos desgraçados que por lá aparecem.
“Que é feito de ti, meu filho? Onde estás? Terás pelo menos um prato de sopa quente para comeres nesta Noite de Natal?”- Verbaliza surdamente.
Sentado, sozinho, num banco de um jardim de Lisboa, um jovem magro, quase esquelético, rosto macilento e doentio, com a roupa em farrapos, diz para consigo: “que fiz da minha vida? Eu tinha tudo e vivo nesta miséria, abandonado, sujo, sem ninguém que enxugue as minhas lágrimas, receba a minha cabeça cansada em seu ombro, ou cuide do meu corpo doente. Em minha casa havia fartura, alegria e paz, e tudo abandonei. Tudo deixei para trás, arrastado por este vício maldito que me consome. Destrói-me o corpo e rouba-me todo o ânimo para reagir. E aqui estou, desesperado, sozinho, faminto e enregelado, nesta noite de Natal.
Como deve estar bonita e acolhedora a minha casa!
Daqui a algumas horas todos estarão em volta da mesa recheada com os deliciosos pratos tradicionais desta época, que a minha mãe sempre prepara com tanto gosto e saber, enquanto na lareira o fogo crepita. E haverá alegria, muita alegria em volta daquela mesa! Depois, à meia-noite, partirão para a Igreja para assistirem à Missa do Galo. E eu… na solidão deste parque. Sem um agasalho.
Sem uma palavra amiga…
Como eu gostava do Natal! Como eu gostava do calor, do aconchego, da alegria com que era vivido o Natal em minha casa!
Se eu tivesse forças para voltar!... Se eu tivesse coragem de voltar!...
Tenho de arranjar ânimo; tenho de arranjar coragem para fazer frente a este vício maldito que tomou conta de mim e me domina. Domina o meu corpo e a minha alma e destruiu a minha vida. “Sou novo! Sou forte! Vou vencer-te, heroína maldita!” – Disse em voz sonora.
“Vou pedir ajuda. Vou regressar. Os meus pais ajudar-me-ão. Apesar do muito que os fiz sofrer, ajudar-me-ão. Quero tratar-me. Quero ser um jovem como os outros, enfrentar a vida, produzir. Eu vou conseguir. Eu vou conseguir!”
Este jovem é Carlos, o filho mais novo de Teresa. Tem apenas vinte e sete anos. Era um bom rapaz. Fora bom estudante, bom filho, muito meigo e afectuoso. Mas começou a deixar-se envolver por más companhias, a experimentar coisas… e nem Teresa, nem o marido se aperceberam do que estava a acontecer. Notaram o seu baixo rendimento escolar, mas atribuíram-no a uma crise passageira, proveniente da idade.
Só muito mais tarde compreenderam o que estava a acontecer, e já era demasiado tarde. Tudo fez para que fizesse um tratamento de recuperação:
pediram, ameaçaram, ordenaram que fosse internado para se tratar. Porém de nada valeu. Não queria tratar-se. Houve uma grande discussão e saiu de casa.
Tinha então dezoito anos.
Desde essa altura que Teresa não sabe do filho e vive em constante desassossego, em permanente ansiedade, desesperada, com o filho no coração e na cabeça, atenta a todos os programas de televisão, a todas as noticias que
falem de toxicodependentes, esperando, a cada momento, reconhecer o filho num desses desgraçados que neles aparecem.
Mas hoje é dia de festa. E quer que seja uma festa bonita para os seus netinhos e para todos os seus entes queridos. Tem de mostrar-se alegre.
Ninguém pode aperceber-se da tristeza que lhe corrói a alma, da dor que faz sangrar o seu coração de mãe, onde existe, ainda que vaga, a esperança de que ele, o seu filho, apareça, e possa apertá-lo em seus braços.
Em cada quadra natalícia que passa, espera esse milagre.
Sabe o quanto Carlos gostava do Natal. Em cada Natal renasce a esperança de vê-lo chegar.
- Vó, Vó, tago uma penda bonita pa ti. A mamã compou.
É Cláudia, a netinha mais nova que acaba de entrar. Ainda não tem três anos.
- Oh! Minha querida, já chegaste? Dá cá um beijo muito grande à vovó.
Então trazes uma prenda para mim? Que bom! Que bom! Vou receber uma prenda da minha Princesa adorada! - E pegando-lhe ao colo, abraça-a e recebe o seu beijo e o seu abraço carinhosos.
A casa começa a encher-se de risos e gritos.
Os netos, três rapazes e duas meninas, já estão todos, e não param quietos, nem calados. Mas Teresa gosta de vê-los assim. Gosta dessa alegria, dessa traquinice saudável, que lhe lembra o tempo em que ela, neta, chegava com os irmãos e com os pais à quinta dos avós, em Trás-os-Montes, onde se juntavam com os tios e primos para passarem a Noite de Consoada e o Dia de Natal.
A noite vai decorrendo entre os risos e as diabruras das crianças e a conversa mais ou menos animada dos adultos, que não falam do ausente, mas está presente no pensamento de todos.
Chega a meia-noite e saem para a Missa do Galo. Vão todos. Até Cláudia!
Não houve maneira de fazê-la adormecer; também quer ir “ver o Jesus”.
No fim da missa regressam a casa. As crianças mais velhas falam sem cessar.
Estão excitadíssimas. Não querem ainda ir para a cama. Não têm sono e não há quem as convença a deitarem-se.
-Meninos!... Então? Vamos todos, todos, rapidamente para a caminha, se querem ter prendas! O Pai Natal, com a luz acesa, não vem trazê-las. Enquanto vir luz, não aparece – disse Teresa.
Palavras sábias! Todos se apressaram a ir para a cama para apagarem as luzes. É importante que o Pai Natal chegue e fique à vontade para deixar as prendas junto à Árvore de Natal.
A casa ficou finalmente em silêncio e às escuras; mas a Teresa não dorme.
Não consegue adormecer. Está inquieta. O tempo passa e o filho ausente não lhe sai do pensamento: “Onde estará? Terá comido alguma coisa? Terá uma cama para dormir?
Ó meu Jesus, trazei-me o meu filho de volta!”- Clama.
É já de madrugada e Teresa continua acordada. Não pregara olho.
Está ansiosa, agitada...
“Terrim... Terrim...”
-A campainha! A esta hora?! Quem será?!
Olha o relógio: cinco da madrugada. Levanta-se com o coração em sobressalto, aos pulos. Parece querer saltar-lhe do peito:
“Quem poderá ser? A esta hora?!”.
- Quem é? – Pergunta.
- Mãe! Mãe! Sou eu!
- Carlos!!! Meu filho! És tu?!
Corre para a porta e, abrindo-a nervosamente, estende os braços para o filho, que cai neles extenuado e com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces macilentas.
Abraçam-se demoradamente, com força, como se quisessem fundir-se um no outro, deixando que as lágrimas se misturem e lhes alivie a dor que cada um traz trancada em seu coração, e ceda lugar a alegria do momento.
- Meu filho!... Meu filho!...
Ó meu Menino Jesus… Ouviste o meu pedido!
E, olhando em direção ao céu, diz: “Obrigada, meu Menino Jesus, pela prenda maravilhosa, que me trouxeste neste Natal!”