3 ÉTICA DA ALTERIDADE E DA RESPONSABILIDADE COMO
3.1 A DIFICULDADE DO SER HUMANO EM CONVIVER COM A DIFERENÇA
A percepção da diferença e a ideia de estranhamento marcam a história da humanidade. Na tradição ocidental, é possível identificar como importante marco histórico a utilização do termo “bárbaro” pelos gregos para designar outros povos. Esse uso somente ocorreu após os gregos passarem a se identificar por meio de um nome comum, já que, em um primeiro momento, a diversidade cultural desses povos impedia essa identidade única e, por
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conseguinte, a distinção em relação àqueles que passaram a ser chamados de bárbaros. Não é possível se determinar com exatidão quando tal fato passou a ocorrer. Há indícios, contudo, de que entre o final do século VIII e começo do século VII a.C. começa a se desenvolver a ideia de unidade na Grécia262.
Inicialmente, o termo era utilizado para designar aquele que não falava o idioma grego. Com o desenvolvimento do chamado pan-helenismo e com a colonização grega no mediterrâneo, o termo adquire também um significado pejorativo. O bárbaro passa a ser identificado como selvagem, não civilizado, ou seja, como um antimodelo cultural. O termo bárbaro tem, portanto, como pressuposto, a concepção de uma superioridade grega, desenvolvida em sua política imperialista naquele momento histórico263.
Na 1ª Epístola aos Coríntios, São Paulo retoma o sentido originário do termo para relativizar o conceito de bárbaro, ao demonstrar que bastaria desconhecer a língua do outro para que se pudesse ser considerado bárbaro264. Por esse raciocínio, aquele assim designado também poderá utilizar o termo, caso perceba que o outro não domina o seu idioma.
Já no século XV, com as grandes navegações, essa vinculação entre o termo bárbaro e o sentido de inferioridade intensificou-se, como forma de justificar a exploração e escravidão de povos indígenas e africanos. Bartolomeu de Las Casas, fervoroso cristão, baseia-se nos escritos de São Paulo para chegar à conclusão de que não se podem considerar os índios como bárbaros265.
Muitos séculos transcorreram e a humanidade ainda se depara com políticas imperialistas, que utilizam o discurso de considerar determinadas culturas como associadas à barbárie, ao não civilizado, ao terror. O teor pejorativo do termo tem como pressupostos uma equivocada convicção acerca da superioridade dos valores culturais específicos daquele que a utiliza, bem como a exigência de sua universalização.
262 Nesse sentido: SANTIAGO, Rosa-Araceli. Griegos y Bárbaros: Arqueología de uma alteridad. Faventia 20/2, Barcelona: Bellaterra, p. 33-45, 1998, p. 35.
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A autora Rosa-Araceli Santiago identifica o desenvolvimento da concepção negativa a partir do desenvolvimento da propaganda imperialista de Atenas, bem como da ideologia pan-helênica. Ibid, p. 42. Essa concepção levou Aristóteles a considerar a escravidão o estado natural dos bárbaros.
264 10. Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação. 11. Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim”. In: São Paulo. 1ª Epístola aos Coríntios. Capítulo 14. Disponível em: ≤http://www.di.ubi.pt/~jpaulo/biblia/ 1Corintios.htm≥. Acesso em 29.dez. 2015. Numa versão Espanhola da Bíblia, optou-se por utilizar o termo “estrangeiro” ao invés de “bárbaro”: “10 Por muchos idiomas que haya en el mundo, cada uno tiene sus palabras, 11 pero si yo no conozco el significado de las palabras, seré un extranjero para el que habla, y el que habla será un extranjero para mi”. LA BIBLIA. Edición Revisada. Madrid: San Pablo/Editorial Verbo Divino, Nuevo Testamento, 1995, p. 296.
265 DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012 , p. 70.
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Em regra, em torno de pessoas ou grupos considerados diferentes do padrão estabelecido são criados estereótipos e preconceitos, construídos por rumores públicos que circulam na sociedade. Essas imagens e juízos prévios funcionam como pontos de referência iniciais. Os estereótipos são uma forma de racionalizar e esquematizar a diferença266 – pois oferecem uma explicação para o que é considerado distinto e permitem enfrentar a angústia diante do desconhecido – e nem sempre são negativos267.
Segundo Heidegger, a noção de identidade remete a uma relação “com”, ou seja, a uma mediação, uma síntese: a união numa unidade. Em qualquer parte onde o sujeito mantenha relação com qualquer tipo de ente, ele é interpelado pela identidade268. Dessa forma, a identidade é pensada a partir da relação, e não como algo estático.
Heidegger reconhece na expressão “comum-pertencer” dois significados essenciais para a compreensão da identidade do ser. No primeiro sentido, enfatiza o termo “comum” da
expressão para pensar o ser a partir da comunidade, ou seja, da sua unidade e com o significado de estar integrado, inserido na ordem de uma comunidade. No segundo sentido, ao ressaltar o termo “pertencer” da expressão, propõe uma mudança de perspectiva, a fim de que se experimente a comunidade como determinada a partir do pertencimento269. Para o referido filósofo, a formação da identidade do ser deve ser pensada, portanto, por meio desse processo, dessa mediação.
Aqueles que se manifestam de forma preconceituosa, discriminatória – em razão de não aceitar a diferença, a alteridade do outro – não percebem o importante papel desempenhado por aquele que é identificado como não pertencente, ou seja, pela exceção, na formação da própria ideia de pertencimento a um grupo ou à sociedade. Consoante afirma Giorgio Agamben, o exemplo e a exceção são conceitos simétricos, e ambos contribuem para a formação de todo e qualquer sistema, pois enquanto o pertencimento a uma classe só pode
266 Nesse sentido: MONNET, Nadja. Alteridad y Convivencia. La imagen del “otro” e las relaciones de convivencia em el Casc Antic de Barcelona. Fundació CIDOB de Barcelona, 1997, p. 88.
267 Como exemplo de estereótipo positivo, a autora cita o exotismo, ligado ao etnocentrismo, em que há uma supervalorização do outro, transformado em um sujeito mítico e idealizado, no qual se invertem as insatisfações e frustrações geradas pela cultura da pertinência. Para a autora, isso impede o conhecimento real do outro: “No todos los estereotipos son negativos. Así, el exotismo, ligado al etnocentrismo, es un ejemplo de estereotipo positivo. En este caso, se trata de una sobrevaloración del «Otro» y de la otra parte. El «Otro» corresponde, entonces, a un otro mítico, idealizado, elaborado por el sueño y el deseo de desorientación (paraíso perdido, alteridad radical) en el cual se invierten las insatisfacciones y las frustraciones generadas por la cultura de pertenencia. Esta actitud impide un conocimiento real del «Otro».” Ibid, p. 88).
268 E complementa: “O apelo da identidade fala desde o ser do ente”. In: HEIDEGGER, Martin. Que é isto – a
filosofia? Identidade e diferença. Trad. Ernildo Stein. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, São Paulo: Livraria Duas
Cidades, 2013, p. 39 e 40. 269
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ser identificado com um exemplo, ou seja, fora dela, o não pertencimento somente é demonstrado em seu interior, ou seja, como exceção270.
Sendo assim, é possível afirmar a diferença como elemento fundamental para a construção da própria identidade, bem como que toda forma de excluir a diferença, por meio da imposição de determinados padrões de comportamento, como, no mínimo, irracional, em razão de dificultar a identificação das características de um determinado grupo social. Para Ricardo Lorenzetti, o direito de ser diferente caracteriza a quarta geração dos direitos fundamentais, que surge “de um processo de diferenciação de um indivíduo em relação ao outro” 271
. Trata-se, todavia, de direitos que vem sendo negados, especialmente em razão de diferentes culturas serem consideradas primitivas ou bárbaras.
Todorov, após reunir as principais características e atributos historicamente relacionados ao termo “bárbaro”, constrói uma interessante definição, em que considera bárbaro aquele que nega ao outro a condição humana e o assimila aos animais, seja por consumi-los, seja por não lhes reconhecer a capacidade de refletir272. Essa postura, quando não recusa completamente ao outro o reconhecimento da sua condição humana, nega-lhe o direito à própria identidade e a ser diferente de um modelo pré-estabelecido.
A crítica à crença na superioridade de uma cultura específica e à busca por sua universalização não significa, entretanto, admitir uma relativização de tudo e aceitar todo e qualquer comportamento, pois é possível definir critérios capazes de estabelecer quais atos se aproximam da barbárie e quais conduzem a humanidade em direção à civilização.
Com o intuito de demonstrar o equívoco presente no ato de designar como bárbaro, ainda nos dias atuais, todo aquele cuja cultura se diferencia de um padrão pré-estabelecido, Todorov propõe uma interessante classificação para os países do mundo. Constata, entretanto, que se tornaram obsoletas as classificações baseadas nos regimes políticos adotados por cada país, a exemplo do que ocorreu durante a Guerra Fria, ou em divisões geográficas – era frequente a separação dos países em Norte e Sul ou em Ocidente e Oriente. Reconhece ainda que a sua proposta termina por generalizar e simplificar realidades que, ademais,
270 E prossegue: “... exceção e exemplo são conceitos correlatos, que tendem, no limite, a confundir-se e entram em jogo toda vez que se trata de definir o próprio sentido da participação dos indivíduos, do seu fazer comunidade. Tão complexa é, em todo sistema lógico como em cada sistema social, a relação entre o dentro e fora, a estranheza e a intimidade”. In: AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Trad. De Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, p. 29-30.
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E complementa: Trata-se de questões tais como o direito à homosexualidade, à troca de sexo, ao aborto, a recusar tratamentos médicos que levem à morte”. LORENZETTI, Ricardo Luis. Fundamentos do Direito
Privado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1998, p. 154.
272 TODOROV, Tzvetan. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010, p. 26.
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caracterizam-se por ser bastante mutáveis e passíveis de identificação no seio de um mesmo país273.
Consideradas todas as advertências ressaltadas pelo autor, essa classificação oferece um interessante panorama acerca das atuais relações existentes entre os diversos países, a partir das suas diferenças culturais e da forma como reagem diante dessa nova conjuntura.
O primeiro grupo é designado como grupo do apetite, composto pelos países que se sentiram descartados da distribuição da riqueza e que agora pretendem usufruir da globalização, do consumo e do lazer. Nele, podem ser identificados o Japão, o Brasil, a África do Sul e o México.
No segundo grupo, encontram-se os países marcados pelo ressentimento decorrente de uma humilhação, real ou imaginária, imposta pelos países mais ricos e poderosos, cuja população é predominantemente muçulmana. Vale pontuar que essa atitude pode ser identificada em Estados localizados em uma área compreendida entre o Marrocos e o Paquistão.
O terceiro grupo caracteriza-se pelo medo e é composto pelos países ocidentais, que dominaram o mundo por muitos séculos. O medo diz respeito à possibilidade de perder o poderio econômico para os países do grupo do apetite, assim como dos atentados terroristas oriundos dos países do ressentimento.
Há ainda um quarto grupo designado pelo termo “indecisão” e que corre o risco de ser influenciado pelo apetite ou pelo ressentimento, mas que por enquanto se encontram distanciados dessas paixões.
O autor ressalta que o medo, ao se tornar uma paixão dominante, transforma-se num sentimento perigoso, em razão de ser utilizado como justificativa para a prática de atos desumanos. Isso tem se verificado em relação ao chamado medo dos “bárbaros”, cujo efeito consiste em transformar aqueles que se sentem ameaçados em bárbaros274, pois em nome do medo vem sendo negada a muitas pessoas a condição humana, através da prática de homicídios, torturas, violações à privacidade, à intimidade, à liberdade e a muitos outros direitos humanos.
273 TODOROV, Tzvetan. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010, p. 11-13.
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“O medo dos bárbaros é o que ameaça converter-nos em bárbaros. E o sofrimento que vamos nos infligir irá superar aquele que havia provocado nosso receio. A história nos ensina: o remédio pode ser pior que a enfermidade. Os totalitarismos apresentaram-se como um recurso para sanear a sociedade burguesa de seus defeitos; e acabaram engendrando um mundo mais perigoso do que aquele que havia sido alvo do seu combate”. Ibid, p. 15.
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Para Todorov, barbárie significa negar ao outro a condição humana. Nesse sentido, entende o autor tratar-se de uma característica humana, pois nenhum povo ou sujeito está imune de praticar tais atos. Com isso, o autor não busca legitimá-los, mas alertar para o fato de que, em qualquer cultura, esses comportamentos podem se concretizar e que um dos principais objetivos da humanidade consiste em buscar constantemente evitá-los275.
Essa afirmação encontra fundamento em Sigmund Freud, que na obra “O mal estar da civilização” descreveu a existência humana como um ambiente no qual se enfrentam dois instintos: aquele relacionado à civilização e outro relacionado à barbárie, à agressão276.
O termo oposto a “bárbaro” – ou seja, “civilizado” – é utilizado para significar aquele que reconhece humanidade no outro, ou seja, que se coloca no lugar do outro. Isso se assemelha ao que Kant defende como a capacidade de proferir juízos que levem em consideração representações próprias aos demais seres humanos da terra277.
Infelizmente, essa cultura do medo vem se manifestando no Brasil, tendo em vista que já terem sido praticados atos de violência e intolerância contra refugiados de guerra, a exemplo dos haitianos278 e sírios279, que buscaram asilo no Brasil, assim como em relação aos adeptos da religião muçulmana280.
Esse quadro de desrespeito e intolerância reforça a necessidade de desenvolvimento de uma ética pautada na alteridade, no respeito à diferença e na convivência pacífica entre povos de diferentes culturas. Para tanto, faz-se necessário afastar exigências de padronização
275 TODOROV, Tzvetan. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010, p. 31-32.
276 “Mas a esse programa da cultura se opõe o instinto natural de agressão dos seres humanos, a hostilidade de um contra todos e de todos contra um. Esse instinto de agressão é o derivado e representante maior do instinto de morte, que encontramos ao lado de Eros e que partilha com ele o domínio do mundo. Agora, acredito, o sentido da evolução cultural já não é obscuro para nós. Ela nos apresenta a luta entre Eros e morte, instinto de vida e instinto de destruição, tal como se desenrola na espécie humana. Essa luta é o conteúdo essencial da vida, e por isso a evolução cultural pode ser designada, brevemente, como a luta final da espécie humana”. FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 68.
277 A respeito, confira o tópico 2.1.2. 278
Em Santa Catarina, um haitiano foi espancado até a morte por um grupo de dez jovens, tão somente por conta de sua origem. SPERB, Paula. Haitiano é agredido até a morte em Santa Catarina. Folha de São Paulo, Porto Alegre. 20 out. 2015. Disponível em: ˂http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/10/1696121-haitiano-e- agredido-ate-a-morte-em-santa-catarina.shtml˃. Acesso em: 15 dez. 2015.
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De acordo com a reportagem o preconceito está mais relacionado à origem pobre do que ao fato de estar fugindo de conflitos. FERNANDES, Sarah. Preconceito é mais forte contra migrantes vindos de países de pobres. Rede Brasil Atual, s/l, 05 nov. 2015. Disponível em: ˂http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania /2015/11/preconceito-tem-a-ver-o-fato-de-refugiados-virem-de-paises-pobres-diz-instituto-adus-8234.html˃. Acesso em 15 dez. 2015.
280 Há relatos de atos de vandalismo contra mesquitas e agressões aos praticantes dessa religião. JARDIM, Carolina. No Brasil, muçulmanos combates intolerância religiosa. O Globo, Rio de Janeiro, 25 jan. 2015. Disponível em: ˂http://oglobo.globo.com/mundo/no-brasil-muculmanos-combatem-intolerancia-religiosa- 15131063˃. Acesso em 15 dez. 2015.
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que se baseiam tão somente no preconceito e no desrespeito às diferentes crenças e culturas, a exemplo da proibição do uso do véu em escolas francesas281. No item subsequente, será analisado como esse poder disciplinar termina por negar as diferenças, ao impor um padrão de comportamento a todos os membros de uma sociedade.