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O PODER DISCIPLINAR E A NEGAÇÃO DA ALTERIDADE

3 ÉTICA DA ALTERIDADE E DA RESPONSABILIDADE COMO

3.2 O PODER DISCIPLINAR E A NEGAÇÃO DA ALTERIDADE

Dominações, opressões e desrespeito ao outro surgem no seio de relações sociais, caracterizadas por uma concentração de poder em um dos polos. Em toda relação interpessoal há certo grau de poder. Como não é possível existir identidade de poderes em cada polo das relações sociais, em razão das desigualdades existentes entre os seres humanos, verifica-se que há um diferencial de poder em favor de um deles282. O problema surge quando esse desequilíbrio gera dominação e opressão.

Os seres humanos organizam-se para conviver e, dessa forma, melhor atender às suas necessidades. Essa organização exige um centro de poder, pressuposto necessário à existência da sociedade. Calmon de Passos, valendo-se dos ensinamentos de Castoriadis, define o poder como “a capacidade, para qualquer instância que seja (pessoal ou impessoal) de levar alguém (ou vários) a fazer (ou não fazer), o que, entregue a si mesmo, ele não faria necessariamente (ou faria talvez) 283”.

Ao longo do século XX, passou-se a perceber como o poder disciplinar, ao fixar uma padronização, um modelo de comportamento, acabou por negar a diferença, a alteridade e a pluralidade, como características inerentes à humanidade.

Nesse sentido, Hannah Arendt defendeu a pluralidade como condição da razão humana, ao afirmar que, apesar de as pessoas serem iguais – em razão de serem humanas – , jamais alguém é igual a qualquer outro que viveu, vive ou viverá, o que traz consigo, portanto, o potencial para o surgimento do novo, do diferente. Percebeu, entretanto, que, na modernidade, a sociedade, em todos os seus níveis, passou a excluir a possibilidade de ação, pois exigiu dos seus membros certo tipo de comportamento, o que gerou uma padronização ou uma “normalização” de todos que a integram e, assim, terminou por excluir qualquer ação

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No Brasil, houve um episódio recente de uma estudante de Direito que se sentiu prejudicada ao ser interrompida duas vezes durante o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, em razão de utilizar o hijab, véu muçulmano que esconde cabelos, orelhas e pescoço das mulheres. GONÇALVES, Gabriela. Estudante muçulmana é interrompida durante o Examde da OAB por usar véu. G1, São Paulo. 17 mar. 2015. Disponível em: ˂http://g1.globo.com/educacao/oab/noticia/2015/03/estudante-muculmana-e-interrompida-durante-o-exame- da-oab-por-usar-veu.html˃. Acesso em 15 dez. 2015.

282 CALMON DE PASSOS, J.J. Direito, poder, justiça e processo: julgando os que nos julgam. Rio de Janeiro: Forense, 2000, p.47.

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espontânea ou façanha extraordinária284, eliminando, assim, as condições para a manifestação da pluralidade.

Afirmou ainda que, na sociedade de massas, o “comportamento social” converteu-se em modelo para todas as áreas da vida. Ademais, diante do individualismo, por ela designado de privatismo, em que cada um se torna prisioneiro da própria subjetividade e deixa de ouvir e ser ouvido pelo outro285, a sociedade de massas tornou-se insuportável, em razão de o mundo entre as pessoas ter perdido seu poder de congregá-las, relacioná-las e separá-las286.

Agamben identifica a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 como o momento em que se inaugura a biopolítica da modernidade, uma vez que suas normas fazem referência à vida natural – ao considerar o simples fato do nascimento como fonte de direitos – como base do ordenamento287 e, assim, como critério para a tomada de decisões políticas.

A análise desse fenômeno, bastante presente nos dias atuais, foi aprofundada por Michel Foucault, que passou a designá-lo como poder disciplinar, caracterizado por ser a forma dominante na atualidade, sendo responsável por deslocar o poder jurídico ou legal. O poder disciplinar é gerado pelo conhecimento científico produzido pelas ciências humanas e aplicado por corpos profissionais em escolas, hospitais, quartéis, prisões, família e fábricas. Para compreendê-lo, segundo Foucault, é preciso saber, como precaução metodológica, que não se deve tomá-lo como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, ou de um grupo sobre outro, mas como algo que circula e que só funciona em cadeia288.

Foucault desenvolve seu pensamento a partir da identificação de duas principais formas de poder: o jurídico, fundado na ideia de soberania, caracterizado por uma organização centralizada, por ser exercido do topo para a base e por fundamentar-se num discurso de direitos, obediência e normas; e o disciplinar, caracterizado por não ter um centro, ser

284 ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, p. 10 e 49.

285 Hannah Arendt identifica como hipótese de destruição do mundo comum quando “os homens tornam-se inteiramente privados, isto é, privados de ver e ouvir os outros e privados de ser vistos e ouvidos por eles. São todos prisioneiros da subjetividade de sua própria existência singular, que continua a ser singular ainda que a mesma experiência seja multiplicada inúmeras vezes. O mundo comum acaba quando é visto somente sob um aspecto e só se lhe permite apresentar-se em uma única perspectiva”. Ibid., p. 71.

286 Ibid., p. 64.

287AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Trad. de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, p. 134. O referido autor afirma também: “Uma das características essenciais da biopolítica moderna (que chegará ao nosso século [século XX], à exasperação) é a sua necessidade de redefinir continuamente, na vida, o limiar que articula e separa aquilo que está dentro daquilo que está fora”. Ibid., p. 137- 138.

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exercido em toda a sociedade, ser fragmentário e capilar, bem como por partir de um discurso científico de normalização e padronização. Para o referido autor, essas duas formas são incompatíveis e o poder científico e normalizador das disciplinas tornou-se a forma mais difundida na sociedade289.

Nesse ponto, Boaventura de Souza Santos discorda da separação entre os poderes jurídico e disciplinar (científico) feita por Foucault e afirma que a autonomia entre direito e ciência foi fruto de uma transformação isomórfica do primeiro em um alter ego da segunda, uma vez que a gestão científica da sociedade foi protegida contra eventuais oposições por intermédio da integração normativa e da força coercitiva do direito290. Isso pode ser constatado, na modernidade, quando são apresentadas afirmações normativas como científicas e afirmações científicas como normativas291.

Dessa forma, decisões políticas acabam por se legitimar por conta de um suposto caráter científico, assim como o científico é identificado como o melhor, o mais correto ou o mais adequado, excluindo qualquer outro conhecimento ou fundamento ético. Essa simbiose entre direito e ciência foi utilizada, dentre outras coisas, para legitimar a identificação do sujeito burguês como padrão de ser humano.

Boaventura de Souza Santos também discorda da afirmação de Foucault de que o poder está disperso, acêntrico e fragmentado. Defende que, caso o poder esteja em todo lado, não estará em lugar algum. Por conseguinte, entende ser necessário existir um princípio de estruturação e hierarquização, sob pena de não haver um enquadramento estratégico para a emancipação. Em uma teoria crítica, o conceito de poder deve se assentar na ideia de superação em relação às relações de dominação292.

Calmon de Passos, em sentido diverso, afirma inexistir convivência humana livre de relações de poder e, por isso, o escopo não seria eliminá-lo das relações humanas, mas domesticá-lo, consoante expressa Bertrand Russel, por meio de sua funcionalização da forma mais adequada possível, minimizando o negativo da pura dominação e fazendo excelente a sua dimensão de integração e solidariedade293.

289 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 28. reimp. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2010, p.187-190. 290 SANTOS, Boaventura de Souza. A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência: Para um novo senso comum: A ciência, a política e o direito na transição paradigmática. vol. 1, 6. ed., São Paulo: Cortez Editora, 2007, p.52.

291 Ibid, p. 53 e 54. 292 Ibid, p. 269.

293 CALMON DE PASSOS, J.J. Direito, poder, justiça e processo: julgando os que nos julgam. Rio de Janeiro: Forense, 2000, p. 49.

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Já para Foucault, na luta contra o poder disciplinar, não se deve marchar em direção ao que denomina de velho direito da soberania294 – ou seja, o Direito formal–, mas em direção a um novo direito antidisciplinar e, ao mesmo tempo, liberado do princípio da soberania295, tendo em vista estar este princípio vinculado à finalidade de se ocultar a dominação social.

Constata-se, portanto, que, apesar dos avanços promovidos pela ciência e pelo Direito em direção à melhoria das condições de vida dos seres humanos em muitos aspectos, ambos desenvolveram também vieses que se caracterizaram pelo excesso de disciplina e pela opressão, uma vez que, ao estabelecer padrões de comportamento, negaram as múltiplas e as diferentes identidades, marginalizando aquelas culturas que não se enquadravam no padrão preestabelecido.

O Papa Francisco, em sua Encíclica Laudato Si’, faz uma interessante relação entre a imposição de um modelo de comportamento econômico e cultural que provoca a degradação do meio ambiente e a consequente destruição dos diferentes modos de viver que compõem a identidade cultural de diferentes povos, ao afirmar que “A imposição de um estilo hegemônico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas296”. Dessa forma, procura demonstrar que não apenas o meio ambiente vem sendo destruído, mas também as diferentes culturas e modos de vida.

Diante desse quadro, é importante que se desenvolva uma cultura de resistência à imposição de um padrão de vida que nega as especificidades de cada povo, destrói identidades, além de se apresentar como insustentável, em razão de estabelecer modelos de consumo que já têm levado ao esgotamento dos recursos naturais e à destruição de muitas formas de vida no planeta Terra, representando, assim, uma grave ameaça de destruição da vida humana e do meio ambiente. Como foi visto anteriormente, essa resistência deverá ser realizada pelos povos e grupos oprimidos, cuja identidade se encontra ameaçada pelo poder disciplinar. Por meio da participação dessas coletividades poderá se desenvolver uma ética de respeito à alteridade, na linha do que se propõe na presente tese.

Dentro do paradigma da modernidade, com os postulados que a fundamentam, não é possível se pensar em convivência humana livre das relações de poder. Nesse momento de

294 “... porque soberania e disciplina, direito da soberania e mecanismos disciplinares são duas partes intrinsecamente constitutivas dos mecanismos gerais de poder em nossa sociedade”. FOUCAULT, Michel.

Microfísica do poder. 28. reimp. Rio de janeiro: Edições Graal, 2010, p.190.

295 Ibid., p. 190.

296 FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Edições Loyola, 2015, p. 89.

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transição paradigmática297, faz-se necessário, todavia, repensar as relações humanas, em busca de formas alternativas de socialidade, capazes de impedir opressões e dominações, cujo reflexo poderá ser identificado na criação de um direito plural e antidisciplinar, forjado no seio de uma sociedade multicultural.

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