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A vida no estrangeiro

DIFICULDADE INICIAL

Os estudiosos do comportamento humano sempre falam acerca de dez universais culturais encontrados em qualquer sociedade. São eles: 1) a língua; 2) a tecnologia; 3) a economia; 4) a vida social; 5) o governo e a lei;

Neill, A History of Christian Missions, p. 226.

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6) a religião; 7) as artes; 8) o conhecimento científico; 9) aspectos de saúde e lazer; 10) a educação. Apresentaremos a seguir, algumas sugestões para que a pessoa que se insere em uma nova sociedade se ajuste a estes aspectos.

1. A língua. Mesmo se uma pessoa for permanecer apenas por pouco tempo em determinado país, ela pode aprender frases para saudações e despedidas, que a tornarão bem aceita pelos nacionais. Certa secretária da Embaixada Americana no Afeganistão, que há quase dois anos se encontrava naquele país, ainda não sabia que a saudação local era “salam”.

As agências missionárias normalmente possuem bons cursos de idiomas e, desta forma, podem oferecer uma grande ajuda nesta área.

No momento em que a pessoa já consegue verbalizar e compreender um pouco da língua, ela pode passar para o aprendizado da leitura e da escrita, como já foi mencionado, através da utilização das Escrituras no idioma local. Já existem traduções de porções bíblicas para idiomas que são compreendidos por 97% das pessoas do mundo. A ajuda de um nacional no estudo das Escrituras também pode ser uma oportunidade para que o Senhor abra o seu coração para o conhecimento da verdade. O jovem que ajudou a mim e a minha esposa a estudar sua língua quando estávamos no exterior tornou-se um crente nascido de novo, através deste estudo do Novo Testamento.

2. A Tecnologia. Em todo o mundo, as pessoas desenvolvem habilidades tecnológicas, especialmente relacionadas às necessidades do seu dia-a-dia. O ritmo de vida na maioria dos países do Terceiro Mundo, contudo, é mais lento que no Ocidente. Geralmente, há uma atitude muito mais tranqüila em relação ao tempo, e a pressa não é considerada uma virtude. Por esta razão, uma pessoa que vive neste contexto precisa reduzir a velocidade de vida para acompanhar o passo do povo local. Como disse Rudyard Kipling: “Aqui jaz o homem que tentou apressar o Oriente” — é possível se conseguir muito mais com paciência e perseverança. Acerca de alguns técnicos especialistas ocidentais que partem para o exterior, é feito o seguinte comentário: “eles aparecem, perdem a paciência e vão embora.”

3. A Economia. A maioria das pessoas que trabalham em outro país recebem salários mais altos que em sua própria terra; isso, contudo, nem sempre é verdade. Um casal que atualmente leciona na África, recebe salário do governo, e o que ganha é o suficiente apenas para a sua subsistência, o que não lhe permite qualquer tipo de reserva financeira. A filiação a uma agência missionária pode oferecer este benefício. Ela pode ajudar nos períodos de licença e em questões financeiras essenciais que não são previstas em alguns contratos.

Em diversos lugares do mundo, a barganha é considerada uma prática generalizada, que a pessoa que deseja ser culturalmente aceita precisa saber exercitar. Além disso, em vários lugares, é natural que se pergunte quanto uma pessoa recebe. Isso permite que se conheça o seu nível econômico, o que é uma informação culturalmente necessária. Normalmente, é possível

responder a esta pergunta de uma maneira gentil, sem declarar o valor do salário. Pode-se dizer que o que se ganha é um pouco superior ou inferior ao valor do que se recebe em seu próprio país pelo exercício de uma atividade semelhante, ou que é muito complicado estipular a quantia recebida, visto que ela é paga em outra moeda e inclui viagens, ordenados, bônus, etc. Ou pode-se mencionar que o empregador deseja que esta informação seja mantida em sigilo. Apesar disso, os nacionais geralmente descobrem quanto a pessoa recebe, especialmente quando ela trabalha para o governo local.

Após descobrir qual é a sua situação financeira, os nacionais muitas vezes lhe pedirão empréstimo. Nós adotávamos a política de nunca emprestar dinheiro a pessoa alguma. Se alguém estivesse realmente em necessidade e se tivéssemos os recursos, nós ofereceríamos o dinheiro como um presente do Senhor. Se, por outro lado, eles quisessem devolver-nos a quantia, nós recomendaríamos que o fizessem através de uma agência bancária. Também citávamos um provérbio do Oriente Médio que diz que emprestar dinheiro é semelhante a pegar uma tesoura e cortar os laços de amizade.

O trabalho do fazedor de tendas deve ser da mais alta qualidade. Um investimento foi realizado, quer tenha sido por uma empresa ou um país;

espera-se, portanto, um bom retorno. Como dizem as Escrituras: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças...” (Ec 9.10).

4. A Vida Social. É importante que os costumes de cortesia mais freqüentes sejam aprendidos o mais rápido possível. O Sr. Kenneth Grubb declara: “Encontramos pessoas demais no estrangeiro que deixaram suas boas maneiras em casa.” Além disso, o relacionamento familiar geralmente é muito importante em outras culturas. Se for possível manter registros sobre a rede de relacionamenteos, eles poderão ajudar muito.

Também é fundamental manter um relacionamento com a comunidade internacional. Nela, há pessoas com grandes necessidades espirituais e em outras áreas. Minha esposa e eu jamais nos sentimos pressionados a ingerir bebidas alcóolicas durante as reuniões sociais que freqüentamos no Afeganistão; pelo contrário, tais ocasiões nos proporcionavam oportunidades para ministrar a esses amigos. Quando perguntavam o que gostaríamos de beber, respondíamos: “Alguma coisa leve, por favor”. Eles sempre tinham suco de frutas ou bebidas leves disponíveis.

É necessário que o cristão decida onde irá desenvolver seu ministério.

Facilmente uma pessoa pode se envolver completamente com a comunidade internacional. Por outro lado, a fim de que os nacionais sejam alcançados transculturalmente, é preciso que haja dedicação a este ministério. Isso não significa, contudo, que não seja possível ministrar a ambos os grupos.

5. O Governo e a Lei. Quando uma pessoa deixa seu país, ela se torna um hóspede em outra nação. Como tal, deve procurar ser fiel às leis do país

Grubb, “Layman Abroad”, p. 236.

em que se encontra, exceto quando elas se chocam com os mandamentos de Deus, que são prioritários. Nosso Senhor estabeleceu este princípio quando disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21). As Escrituras também nos advertem a orar por “todos os que se acham investidos de autoridade” (1 Tm 2.2). Muitas vezes, enquanto aguardava para falar com uma pessoa importante, ao invés de ficar irritado com a demora, descobri que esses períodos eram oportunidades para orar pela pessoa a quem eu iria visitar, e também pelas demais que se encontravam naquele escritório. Em seguida, era emocionante ver, no momento da entrevista, como Deus havia respondido à oração e havia preparado os corações.

Ao lidar com autoridades, é prudente não colocá-las em uma posição em que tenham que dizer sim ou não. Muitos têm receio de assinar qualquer documento. Normalmente, é suficiente que sejam simplesmente informados acerca do que você gostaria de fazer e, no âmbito de sua autoridade, de que autorização necessita. Você pode escrever uma carta de agradecimento, na qual conste o assunto tratado; a cópia em seu poder, na maioria dos casos, é uma evidência de autorização suficiente.

Uma boa maneira para se sair bem quando é necessário fazer uma solicitação oficial, é através da elaboração de um esboço que será levado pessoalmente à autoridade competente. Isso lhe permitirá fazer modificações e correções antes que a cópia definitiva seja apresentada.

Desta forma, o documento terá sido de fato aprovado, antes mesmo de receber a assinatura final.

Recentemente, temos ouvido muitos relatos de suborno da parte de companhias internacionais que atuam no estrangeiro. Algumas pessoas dizem que é preciso fazer isso para que haja um ajustamento à cultura local.

Mas o apóstolo Paulo recusou-se a tomar esta atitude (At 24.26,27). A Escritura também nos diz que: “...o suborno corrompe o coração” (Ec 7.7).

Aos olhos de Deus, tanto o que oferece quanto o que recebe o suborno são culpados. As Escrituras atestam claramente que não existem ocasiões em que é permitido fazer o que é errado. Embora nosso Senhor tenha vivido em uma das sociedades mais corruptas da história, ele não cometeu pecado.

Um oficial na Ásia Central chamou-me, reservadamente, e disse que se eu lhe desse alguma propina, que, fazendo uso de um eufemismo, chamou de “um doce”, ele reduziria em muito o imposto sobre o meu automóvel. Ao recusar, tive que pagar a quantia total. As Escrituras declaram: “Pagai a todos o que lhes é devido...” (Rm 13.7). Algumas pessoas dizem que é impossível viver em certos países sem fazer uso do suborno. Isso não é verdade. Além de ir contra os princípios bíblicos, uma vez que uma pessoa ou empresa adota esta prática, a notícia se espalha e as pessoas estendem suas mãos e atrapalham a realização das transações enquanto não recebem algum dinheiro. O fato de alguém não subornar também pode servir como um testemunho de honestidade cristã, que é muito necessário em todo o mundo.

Viver em um ambiente estranho significará estar sujeito a cometer algum tipo de gafe. Como o Sr. Kenneth Grubb já falou acerca dos fazedores de tendas: “Eles cometerão erros, mas, se não os cometessem, não haveria necessidade de existir o céu." Além disso, em muitos lugares, pedir perdão a alguém é um acontecimento tão incomum que faz com que eles parem e se perguntem a razão de você ser diferente.

6. A Religião. Para que alguém consiga testemunhar com eficácia, é fundamental que tenha alguma compreensão acerca da religião local. Esse conhecimento pode ser adquirido não apenas por meio da leitura, mas também através da amizade com líderes religiosos, que normalmente se sentem felizes em compartilhar sua fé. Desta forma, o indivíduo também tem a oportunidade de descobrir as “analogias redentoras” que podem ser utilizadas para explicar as verdades cristãs de uma forma significativa dentro do contexto local.

7. As Artes. Ao estudar a literatura, a poesia, a música, o drama e várias expressões artísticas, a pessoa torna-se capaz de apreciar a cultura local.

Além disso, tais manifestações podem ser usadas para a glória de Deus. No mundo inteiro, as pessoas amam sua própria música. Quando as músicas cristãs são compostas dentro dos padrões poéticos e melódicos locais, elas sensibilizam seus corações. Isso também faz com que eles percebam que o Cristianismo não é uma coisa estrangeira, mas se ajusta às suas peculiaridades culturais, o que faz com eles se sintam identificados com Cristo.

Embora até os anos 50 não houvessem cristãos nacionais no Afeganistão, os tapetes exibiam cruzes Nestorianas em sua padronagem.

Estas gravuras remontam da época em que havia cristãos naquela região da Ásia Central. Esta expressão artística pode ser usada como tema para uma conversa durante uma visita a uma residência afegã. Isso vai gerar uma oportunidade para um esclarecimento sobre o significado da cruz e sobre o fato de que muitos de seus ancestrais tinham conhecimento do assunto, como fica evidente em sua própria arte.

8. O Conhecimento Científico. Quando conhecemos suas teorias sobre a cosmologia e a astronomia, somos capazes de explicar com mais detalhes as maravilhas do universo. E assim, então, com naturalidade, podemos conduzir a conversa através de considerações como: os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1).

Se aprendermos o máximo possível da história, geologia, flora e fauna do país, teremos mais condições de fazer analogias que despertarão a apreciação do povo.

9. Questões de Saúde e Lazer. Visto que o corpo físico dos crentes é templo do Espírito Santo, Deus deseja que o seu povo cuide dele de uma maneira apropriada. Devido à contaminação de boa parte da água em todo o mundo, é prudente bebê-la depois de tratada, ingerindo café ou chá, ou

Ibid., p. 238.

mesmo pura, desde que seja fervida e fresca. Em muitos lugares do mundo, os fazendeiros fazem uso de adubo humano. Portanto, os legumes devem ser bem cozidos e as saladas cruas devem ser evitadas. Normalmente é seguro comer frutas que são cuidadosamente lavadas, já que elas não crescem no solo.

Além destas precauções, é importante tomar as vacinas que são recomendadas. Em certa ocasião, em Kabul, houve mais de trinta casos de hepatite na comunidade americana. Os dois médicos da embaixada, que eram fazedores de tendas, aplicaram gamaglobulina em todas as pessoas sob seus cuidados. Depois disto, não houve registro de qualquer outro caso de doença entre aqueles que mantiveram o tratamento. Estes mesmos médicos descobriram que uma das causas da desinteria provocada pela ameba era o fato de que as pessoas que preparavam as refeições não lavavam as mãos. Diante disso, eles organizaram um curso para cozinheiros. Com o auxílio do microscópio, mostraram-lhes estes germes, que provinham de suas próprias unhas. Muitas das pessoas pensavam anteriormente que os germes, por serem invisíveis, não passavam de uma superstição estrangeira. Os participantes do curso ficaram tão impressionados com o que aprenderam que passaram a se escovar, do mesmo modo que os médicos fazem, antes de manusear os alimentos.

Na maioria das culturas, é muito importante comer com outras pessoas, visto que isso implica em participar do pacto do sal, ou de amizade. Eles reconhecem que a comida, e até a água, contêm sal e, portanto, comer e beber juntos é considerado um fato muito importante. Durante uma visita à casa de um nacional, pode-se comer coisas que tenham sido bem cozidas e líquidos que tenham passado por uma fervura. Quando oferecem saladas e outra comida que possa ser prejudicial, pode-se explicar que, embora desejasse comer daquele alimento, seu sensível aparelho digestivo não o permite. Em geral, eles compreendem esse problema, pois também adoecem com freqüência.

Muitos cristãos têm participado de pescarias, esportes, ou outras formas de lazer apreciadas pelos nacionais. Isso lhes possibilita conhecê-los de perto em situações agradáveis. Também é importante planejar férias regulares e passeios. Nosso Senhor disse aos seus discípulos: “Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto” (Mc 6.31). Todos nós precisamos de um repouso espiritual, mental e físico.

10. A Educação. Esta é uma área na qual os cristãos têm prestado um grande serviço a pessoas em todo o mundo. Ao invés de insistir em estabelecer o sistema europeu ou o americano, é melhor adaptar o ensino à realidade local.

Os nacionais não são os únicos que precisam de instrução, mas também as crianças da comunidade internacional. Durante o período em que meus pais atuaram como missionários no nordeste do Irã, não havia escolas disponíveis e, por isso, quando éramos crianças, eles e outros missionários nos ensinavam em casa, utilizando o método da Calvert Correspodence

School (Escola por Correspondência Calvert). No Afeganistão, alguns fazedores de tendas criaram a Ahlmom Academy para seus filhos. Esta instituição é cristã e ensina a Bíblia em todas as séries. Ela não apenas ajudou seus filhos em sua formação intelectual e espiritual, mas também tem sido um instrumento para levar outras pessoas ao conhecimento salvador de Cristo.

Eu creio que é importante manter as crianças com suas famílias ao invés de mandá-las para a escola. A Bíblia diz que se não cuidamos de nossas próprias famílias, somos piores que o incrédulo (1 Tm 5.8). Eu creio que as Escrituras ensinam que Deus vem em primeiro lugar, nossa família em segundo, e o ministério em terceiro. Nós conseguimos manter conosco os nossos 3 filhos durante o período em que cursavam a escola secundária.

Algumas das famílias no Afeganistão que se encontravam em localidades remotas educavam seus filhos através da Divisão de Extensão da Universidade de Nebraska. Eles ofereciam cursos por correspondência para as séries que vão de 9-12.

Apesar das desvantagens apresentadas por uma educação no exterior, as crianças podem ser beneficiadas grandemente com as viagens e com a rica bagagem obtida pelo contato com várias culturas. É importante que elas aprendam não apenas a falar e compreender a língua local, mas que, além disso, saibam ler e escrever nessa língua. Por serem jovens, têm capacidade de dominá-la com facilidade e rapidez. Posteriormente, em sua educação, podem desejar especializar-se neste idioma ou pesquisá-lo. Se não for possível ter acesso ao material educacional adequado, acredito que toda a família deveria mudar-se para um lugar onde pudessem conseguí-lo.

Também é importante que os pais decidam se querem que seus filhos se considerem pertencentes ao país onde estão crescendo ou à sua terra de origem. Quando permanecem em um país durante todos os seus anos de formação, eles desenvolvem uma lealdade que futuramente pode gerar dificuldades à sua adaptação.

É possível prevenir a rebeldia da adolescência através da realização de atividades das quais a família participe unida, seja lavando pratos ou fazendo uma viagem, pois os jovens se sentem parte integrante da família e o seu senso de lealdade é mais forte que o desejo de se rebelar.