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CAPÍTULO III – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS

3.3. A atribuição de sentido à atividade docente

3.3.7. Dificuldades e desafios da atividade docente

No questionário respondido pelos professores, havia uma questão reservada para que eles pudessem apontar as dificuldades e desafios encontrados no trabalho cotidiano. Com base nas respostas obtidas, elaboramos a seguinte tabela:

Tabela 6: Dificuldades e desafios

Como podemos observar, o desinteresse e a indisciplina dos alunos são as dificuldades encontradas no cotidiano dos professores que foram citadas com maior freqüência, e conforme mencionamos anteriormente, a maioria dos professores relaciona o insucesso de suas práticas pedagógicas a esses fatores. Acreditamos que o desinteresse e a indisciplina constituem-se fatores que se encontram intimamente relacionados, sendo o interesse do aluno condição necessária para o estabelecimento de uma relação que favoreça a concretização do trabalho docente e a apropriação do saber pelo aluno. A indisciplina, por sua vez, pode significar o não estabelecimento dessa relação e pode ter como conseqüência o comprometimento da qualidade do ensino ofertado. Não nos aprofundaremos nessa questão aqui, pois retomaremos essa discussão em etapa posterior deste estudo36.

A falta de livro e de outros recursos didáticos foi o segundo fator mais mencionado depois da indisciplina e desinteresse dos alunos, como dificuldade diária sentida pelos professores, conforme podemos verificar nos depoimentos a seguir:

36 A questão do interesse e a indisciplina como fatores geradores de sentimentos negativos na prática docente será abordada no item 3.3.9.2 (p.126), quando trataremos do mal-estar do professor de inglês.

Dificuldades e desafios Freqüência

Desinteresse dos alunos 15 (58%)

Indisciplina 15 (58%)

Falta de material didático e outros recursos (xerox, TV, DVD) 14 (54%)

Número excessivo de alunos 13 (50%)

Falta de respeito 7 (27%)

Más condições da sala de aula/escola 5 (19%)

Baixo salário 4 (15%)

Descaso por parte dos governantes e secretarias de educação 4 (15%)

Progressão continuada 4 (15%)

Irresponsabilidade dos alunos 1 (4%)

Agressões em sala de aula 1 (4%)

Falta de preparo para lidar com alunos com necessidades especiais 1 (4%)

Falta de objetivo por parte dos alunos 1 (4%)

Falta de apoio dos pais 1 (4%)

Falta de trabalho coletivo 1 (4%)

Falta de tempo 1 (4%)

Excesso de falta dos alunos 1 (4%)

Trabalhar em várias escolas 1 (4%)

Sugiro o livro didático também para as aulas de inglês, já que são só duas aulas de inglês por semana, em tempo que seria aproveitado em outra atividade que não seja cópia do quadro negro. (P6)

[...] falta completa de material (só contamos com aquilo que a escola pode nos dar, da Secretaria da Educação não contamos com nada) [...]. (P24) A falta de material, principalmente um livro para que os alunos tenham um fio condutor [...]. (P26)

Ou o governo dá livros de inglês para os alunos (como faz com as outras

disciplinas), dicionários, etc. ou tira logo o inglês do currículo. (P10) Acredito que precisamos (nós e os alunos) de um material de apoio com

urgência. Não quero um material para ser seguido à risca, mas apenas um

lugar onde os alunos possam visualizar uma coerência e continuidade.

Acredito ainda que o material é o primeiro passo para que se possa fazer qualquer outra mudança. (P26)

Outro fator que compromete o trabalho pedagógico, citado por 50% dos professores, é o excessivo número de alunos. Como verificamos anteriormente, o grande número de turmas e o excesso de alunos por professor, são fatores que comprometem a atividade pedagógica .

Os professores também enunciaram como fatores que afetam seu trabalho a falta de respeito dos alunos, as agressões sofridas em sala de aula, a baixa remuneração, o descaso por parte dos governantes e secretarias da educação, e a falta de apoio dos pais. Consideramos que uma relação entre todos esses fatores pode ser estabelecida e que todos têm como origem o processo de desvalorização social que o professor da rede pública de ensino tem sofrido ao longo da história, acompanhado da falta de apoio e reconhecimento social de seu trabalho. O rebaixamento da disciplina de LE a um status inferior de relevância comparado às outras disciplinas também contribuiu para a desvalorização da importância do trabalho do professor de inglês, que é refletida, por sua vez, na falta de respeito dos alunos.

A precariedade das salas de aulas e das escolas é apontada pelos professores como outro aspecto que traz dificuldade para a realização de sua prática. Pudemos também constatar pessoalmente, no momento de nossas visitas às escolas, as condições desfavoráveis nas quais os professores desenvolvem suas atividades. Algumas poucas escolas (as que estão localizadas no centro da cidade) apresentam, aparentemente, melhores condições físicas de trabalho. Mas o quadro que presenciamos na maioria das 16 escolas visitadas foi o mesmo:

paredes com a pintura gasta; lousas deterioradas37; salas de aulas apertadas devido ao grande número de carteiras e com espaço muito pequeno para o professor se movimentar; salas dos professores minúsculas, sem espaço suficiente para todos os docentes e calor excessivo dentro das salas de aula, devido ao fato de muitas não possuírem cortinas nem ventiladores.

Vários professores criticam a progressão continuada e a vêem como mais um fator que entrava o andamento do trabalho pedagógico. Segundo eles, esse sistema de ensino, segundo o qual o aluno não deve ser reprovado e sim acompanhado individualmente em suas dificuldades, tirou do aluno a obrigação de estudar (nas palavras de P2), contribuindo assim, para o seu baixo rendimento. É o que vemos nos seguintes depoimentos:

A progressão continuada (embora tivesse a melhor das intenções) extinguiu

a consciência do aluno da necessidade que há de se estudar qualquer

disciplina. Hoje os alunos vêm já desde o Ensino Fundamental I desabituados a estudar e a interessar-se pelo conhecimento. (P22)

Não só para inglês, mas para qualquer disciplina o que falta é [...] extinção

da progressão continuada, ou seja, promoção automática, pois não estimula o aluno, já que ele não tem que se esforçar para conseguir alguma coisa, e por isso, não aprende a ter responsabilidades e nem

compromisso com sua aprendizagem. (P24)

Segundo os professores, outros elementos que interferem e condicionam a prática docente, são: a irresponsabilidade e a falta de objetivo dos alunos, a falta de preparo dos docentes para lidarem com alunos com necessidades especiais, a carência de trabalho coletivo, a falta de tempo, o excesso de ausências dos alunos, o trabalho em diferentes escolas e a dificuldade em mostrar aos alunos a importância de aprender inglês.

Abordaremos a seguir as impressões dos professores acerca da nova Proposta

Curricular do Estado de São Paulo e dos Cadernos do Professor.

3.3.8. Impressões sobre a nova Proposta Curricular e os Cadernos do Professor