CAPÍTULO III – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
3.3. A atribuição de sentido à atividade docente
3.3.9. Sentimentos envolvidos na atividade docente
3.3.9.1. O mal-estar docente e a síndrome de burnout
A expressão “mal-estar docente” aparece como um conceito que pretende resumir o conjunto de reações dos professores como grupo profissional desajustado, devido a um
conjunto de fatores que revelam a pressão das mudanças sociais ocorridas nos últimos vinte anos sobre o exercício de suas funções. Ela também é usada para descrever os efeitos
permanentes de caráter negativo que afetam a personalidade do professor como resultado das condições psicológicas e sociais em que se exerce a docência (ESTEVE, 1999, p.25).
Dentre os fatores que geram o mal-estar, Esteve (1995, 1999) aponta: a escassez de recursos materiais e o depauperamento das condições de trabalho; a violência nas instituições escolares e as agressões (físicas e verbais) ao professor; o aumento das responsabilidades e exigências que se projetam sobre os educadores, oriundo da transferência, por parte da sociedade e da família, de algumas de suas responsabilidades à escola; o desenvolvimento de fontes paralelas de transmissão de informação e cultura, que modificam o papel de transmissor de conhecimento, tradicionalmente designado ao professor; o aumento de contradições na função docente; a modificação do status social do professor em relação a outras profissões, estabelecido com base no nível de renda salarial; a mudança de expectativa em relação ao sistema educativo, que difunde a idéia de que freqüentar a escola não é mais “garantia de sucesso”, culminando em uma avaliação negativa do trabalho do professor; a valoração negativa do professor como “bode expiatório” e responsável universal por todos os males do sistema, que resulta em falta de apoio e de reconhecimento social de seu trabalho; o avanço acelerado do saber, exigindo dos professores o desenvolvimento de uma série de habilidades pessoais que não podem ser reduzidas ao âmbito da acumulação do conhecimento; a mudança nas relações professor/aluno, que se tornam cada vez mais conflituosas; a contradição entre a imagem idealizada e a situação real do que é ser professor hoje em dia.
Esse conjunto de fatores, acompanhado do depauperamento das condições de trabalho do professor e da fragmentação da atividade docente, que obriga o professor a cumprir um enorme leque de funções, gera um sentimento de mal-estar, de desajustamento e de impotência, o que influencia a imagem que o professor tem de si próprio e de seu trabalho, provocando uma crise de identidade. Essa crise de identidade consiste em uma contradição entre o eu real – o que os professores são diariamente na escola – e o eu ideal – o que eles queriam ou pensam que deveriam ser – e tem como principais conseqüências: sentimentos de desajustamento e insatisfação; pedidos de transferência ou absenteísmo, como forma de fugir de situações conflituosas; desenvolvimento de esquemas de inibição; desejo manifesto (realizado ou não) de abandonar a docência; estresse; estado permanente de ansiedade;
autodepreciação e autoculpabilização perante a impossibilidade de ter sucesso no ensino; depressões e esgotamento (burnout).
De acordo com Esteve (1999), o burnout aparece como conseqüência do mal-estar docente, sendo correspondente a ele na amplitude daquilo a que se refere. O processo pelo qual os professores chegam ao burnout ocorre devido à discrepância entre o esforço despendido pelo professor e os benefícios obtidos, o que leva à perda de motivação, desânimo, desencanto e redução de esforço.
Segundo Leite (2007), a síndrome de burnout acomete principalmente profissionais idealistas e com altas expectativas em relação aos resultados de seu trabalho que, com a impossibilidade de alcançá-los, acabam decepcionados consigo mesmos e com a carreira. Os professores, segundo a autora, são bastante vulneráveis à síndrome, pois o excesso de exigências impostas, as precárias condições de trabalho, somados à falta de retribuição afetiva, expõem o docente a um desgaste emocional permanente, que gera desânimo e cansaço.
De acordo com Codo (1999), três componentes básicos abrangem a síndrome de
burnout:
• exaustão emocional – devido ao desgaste diário ao qual é submetido no relacionamento com os alunos, o docente sente-se exaurido emocionalmente, não consegue mais se doar;
• baixo envolvimento pessoal no trabalho – resulta da perda do sentido do próprio trabalho, perda esta, associada à pouca realização profissional:
Não conseguir atingir os objetivos aos quais se propõe traz ao professor um sentimento de impotência, de incapacidade pessoal para realizar algo que tanto sonhou. Este conflito tem como tendência levar a pessoa a avaliar a si própria negativamente, particularmente com respeito ao próprio trabalho com os alunos. Seu trabalho perde o sentido. (CODO, 1999, p.242 – grifos nossos)
• despersonalização – para lidar com o sofrimento, o professor se distancia emocionalmente, tanto do seu trabalho, quanto do aluno. O distanciamento aparece na forma de endurecimento afetivo e falta de empatia para com o aluno, e é a face
mais perversa do burnout, uma vez que afeta justamente aquele que deveria ser objeto de atenção e cuidado, comprometendo sua aprendizagem. Nas palavras de Codo (1999, p.242):
O professor começa a desenvolver atitudes negativas, críticas, em relação aos alunos, atribuindo-lhes o seu próprio fracasso. O trabalho passa a ser lido pelo seu valor de troca; é a “coisificação” do outro ponto da relação, ou seja, o aluno, em nosso caso específico, sendo tratado como objeto, de forma fria.
Faz-se oportuno ressaltar que Codo (1994, 1999, 2003, 2006) é autor de várias pesquisas que têm como proposta buscar compreender a saúde e doença mentais, a partir da análise do trabalho, assentado nas idéias de Marx e Leontiev acerca da relação do homem com sua atividade, a saber, o mesmo embasamento teórico que permeia nossa pesquisa. De acordo com tais pesquisas desenvolvidas pelo autor, o burnout teria como causa a ruptura da
relação trabalho-afeto, que é condição necessária para as profissões apoiadas em
relacionamentos humanos, como é o caso da docência. A tensão gerada no estabelecimento de um vínculo afetivo do trabalhador com o objeto de seu trabalho e a impossibilidade de concretizá-lo, é característica das profissões que envolvem cuidado, sendo que, de um lado, o afeto se impõe como condição e necessidade de desempenho da atividade, e por outro lado, aspectos ligados às condições objetivas e subjetivas da relação trabalho-trabalhador não favorecem o desenvolvimento desse afeto de forma satisfatória. Em outras palavras, pode-se dizer que o trabalhador que tem como objeto de trabalho o outro, sentindo-se impossibilitado de desenvolver com ele uma relação de afeto, vê-se impedido de concretizar nesse outro, suas expectativas de trabalho, chegando, assim, ao esgotamento, ao burnout. Assim, temos que
quanto mais o trabalhador se distancia do seu objeto, quanto menos imprime nele a sua marca, tanto mais difícil se torna a concretização do prazer realizador via trabalho (LEITE,
2007, p.94).
As pesquisas dirigidas por Codo (1999), em parceria com a Universidade de Brasília, nos mostram a real dimensão da síndrome de burnout entre os professores brasileiros: em pesquisa desenvolvida entre 1997 e 1998, envolvendo 52 mil professores de 1.440 escolas públicas do país, o autor constatou que 48% dos docentes apresentavam sintomas da síndrome de burnout e 25% enquadravam-se no diagnóstico completo.
Vemos a proporção abrangente desse fenômeno no ensino brasileiro como algo realmente preocupante, pois diz respeito e afeta aquilo que é crucial ao exercício da atividade docente: o envolvimento com o trabalho. Sem o envolvimento do professor, não há envolvimento do aluno, o que por sua vez, desestimula o professor a desenvolver um trabalho de qualidade, que promova resultados efetivos. Assim, pode-se afirmar que pela redução do esforço do professor chega-se a uma atuação docente cada vez menos eficaz, que acaba por produzir um ciclo vicioso, denominado por Esteve (1999) de ciclo degenerativo da eficácia
docente, que pode, entre outras conseqüências, conduzir a um sério comprometimento na
educação dos alunos.
Por observarmos nas falas e atitudes dos participantes desta pesquisa a presença de sentimentos negativos em relação à atividade docente que apontam para a presença de um mal-estar vivenciado pelos professores de inglês, e por entendermos que tal fenômeno diz respeito e afeta aquilo que é crucial ao exercício da profissão professor, ou seja, o envolvimento com o trabalho e o sentido pessoal que o professor atribui a sua atividade, passaremos a ressaltar alguns aspectos que foram encontrados nos discursos dos professores, e que apontam para o mal-estar vivenciado pelo professor de inglês da escola pública.