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CAPÍTULO I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1. A Teoria da Atividade

1.1.3. O trabalho alienado

Segundo Leontiev (2004, p.128), com o desenvolvimento da sociedade de classes, a

massa dos produtores separou-se dos meios de produção e as relações entre os homens transformaram-se cada vez mais em puras relações entre as coisas que se separam (“se alienam”) do próprio homem. Como resultado, a sua própria atividade deixa de ser para o

homem o que ela é verdadeiramente. Embasado nas idéias de Marx, Leontiev afirma que essa alienação é criada pelo desenvolvimento das formas de propriedade e das relações de troca, pois originalmente, o trabalho do homem não estava separado das suas condições materiais, isto é, o homem encontrava-se em perfeita relação de unidade natural com as condições objetivamente necessárias à sua vida. Porém, o processo de produção inaugurado com a propriedade privada desagregou esta relação. Tal processo é marcado pelo empobrecimento extremo da maioria dos homens em relação às possibilidades criadas pelo desenvolvimento humano. Para viver, para satisfazer as suas necessidades vitais, o homem vê-se coagido a vender a sua força de trabalho, a alienar o seu trabalho. Com isso, mesmo sendo o trabalho o

6 De acordo com Asbahr (2005b), quando Leontiev refere-se à contraposição entre significado social e sentido pessoal como alienação, ele se apóia no conceito de alienação de Marx, encontrado nos Manuscritos econômicos filosóficos, estendendo, porém, sua explicação às formas como essa alienação ganha contornos psicológicos. Dessa maneira, assim como Asbahr, quando nos referirmos ao conceito de alienação, estaremos nos referindo ao conceito de alienação psicológica proposto por Leontiev.

conteúdo mais essencial da vida, devem [os homens] alienar o conteúdo da sua própria vida

(LEONTIEV, 2004, p.129).

As relações objetivas geradas pelo desenvolvimento da propriedade privada determinam as propriedades da consciência humana nas condições da sociedade de classes. Desse modo, na sociedade capitalista, o conteúdo das ações dos trabalhadores e o motivo pelo qual agem são contraditórios, passando a consciência humana a ser fragmentada, desintegrada. Em muitas situações de divisão do trabalho, o sujeito participa de atividades, mas não se reconhece no produto do seu trabalho, devido às situações impostas pelas próprias condições desse trabalho. Assim, o trabalho se torna alienado, uma vez que a ação do sujeito passa a ser mecânica e não propicia oportunidades de transformação em sua consciência.

Leontiev (2004, p.130) argumenta que a atividade do batedor, no exemplo da caça primitiva7, é subjetivamente motivada pela parte da presa que lhe caberá e que corresponde

às suas necessidades. Assim, a presa é o resultado objetivo da sua atividade, no contexto da

atividade coletiva. Da mesma maneira, na produção capitalista, o operário assalariado procura, subjetivamente, por meio de sua atividade, a satisfação das suas necessidades de alimento, vestuário, habitação, entre outros, mas o produto objetivo de sua atividade é distinto: pode ser o minério que extrai, o palácio que constrói (LEONTIEV, 2004, p.130). Portanto,

o que ele produz para si mesmo não é a seda que tece, não é o ouro que extrai da mina, não é o palácio que constrói. O que produz para si próprio é o salário – e a seda, o ouro, o palácio reduzem-se para ele a uma quantidade determinada de meios de subsistência, talvez a uma camisola de algodão, ao papel de crédito e a um alojamento numa cave. [...] Nas condições da sociedade capitalista, o operário sabe o que é a fiação ou a tecelagem? Possui ele os conhecimentos e as significações correspondentes? Naturalmente que possui estas significações; em todo o caso só na medida em que isso é necessário para tecer, fiar, furar racionalmente – numa palavra, para efetuar as operações de trabalho que constituem o conteúdo do seu trabalho. Todavia, nas condições consideradas, a tecelagem não tem para ele o sentido subjetivo de tecelagem, fiação ou de furação. As doze horas de trabalho não têm, de modo algum, para ele, o sentido de tecer, de fiar, de furar, etc., mas sim o de ganhar aquilo que lhe permita sentar-se a mesa, dormir na cama. (LEONTIEV, 2004, p.130-131 – grifos no original)

7 Conferir p.25.

Em outras palavras, podemos então considerar que o operário, ao fiar e tecer, conhece o significado da sua ação, embora o motivo que o leva a agir não seja suprir as necessidades de fio e tecido da sociedade, e sim garantir a sua sobrevivência, ou seja, o sentido da sua ação é dado pelo salário. Dessa forma, com a divisão social do trabalho, o sujeito que executa a atividade não participa mais do planejamento da mesma. Tal sujeito não realiza uma atividade que adquire sentido no produto que se configura ao final dela e que responde às suas necessidades. Ao contrário, o produto de seu trabalho lhe é indiferente, pois pertence ao capital:

As tarefas que o trabalhador executa só adquirem sentido no panorama mais amplo onde seu trabalho é trocado por um salário através do qual o trabalhador compra os produtos que respondem às suas necessidades. Ou seja, o processo de trabalho deixa de responder a uma necessidade individual ou coletiva do trabalhador para responder às necessidades do capital. Nestas condições, o homem trabalha por um motivo que apenas indiretamente tem a ver com sua ação: o salário é o motivo que o leva a agir e não o produto do seu trabalho. Suas necessidades são satisfeitas indiretamente, enquanto sua atividade se torna um meio de satisfazer necessidades que lhe são estranhas. [...] Seu trabalho torna-se apenas um meio de vida [...]. (MELLO, 1996, p.24-25)

Desse modo, na sociedade capitalista, caracterizada pela divisão social do trabalho e da divisão em classes, há a ruptura da integração entre o significado e o sentido da ação, pois o sentido pessoal da ação não corresponde mais ao seu significado social, ou seja, ao sentido dado pela sociedade. Portanto, as relações sociais na sociedade dividida em classes levam à separação da atividade do homem e seu produto: a força de trabalho e o produto do trabalho tornam-se mercadorias, originando a possibilidade de separação entre significado e sentido, pois o motivo que incita o indivíduo a agir não corresponde ao fim da sua ação. Nas palavras de Leontiev (2004, p.130),

a sua atividade de trabalho transforma-se, para ele, em qualquer coisa de diferente daquilo que ela é. Doravante, o seu sentido para o operário não coincide com a sua significação objetiva.

Assim organizado, o processo de trabalho apenas envelhece o corpo e esgota o espírito, ao invés de ser uma forma de exercício das forças humanas físicas e espirituais

(MELLO, 1996, p.25). Em outras palavras, a alienação do trabalho – da atividade humana vital – é o elemento determinante do processo geral da alienação que toma a vida do homem. Com a divisão social do trabalho ocorre, também, a separação entre trabalho intelectual e trabalho físico, sendo que o trabalho intelectual, como qualquer outro trabalho, passa a ser submetido às condições gerais da produção, ou seja, transforma-se num meio de vida, passando a ser remunerado, assalariado. Dessa forma, a atividade intelectual também perde seu sentido e torna-se, primordialmente, forma de obter um salário. Leontiev (2004, p.294) observa que assim, enquanto globalmente a atividade do homem se enriquece e se

diversifica, a de cada indivíduo tomado à parte estreita-se e empobrece. (grifos no original)

Basso (1994) estende essa análise para a atividade docente e argumenta que ela será alienada quando o sentido pessoal não corresponder ao significado efetivo atribuído a essa atividade socialmente:

Se o sentido do trabalho docente atribuído pelo professor que o realiza for, apenas, o de garantir a sua sobrevivência, trabalhando só pelo salário, haverá a cisão com o significado fixado socialmente, entendido como função mediadora entre o aluno e os instrumentos culturais que serão apropriados, visando ampliar e sistematizar a compreensão da realidade, e possibilitar objetivações em esferas não cotidianas. Neste caso, o trabalho alienado do docente pode descaracterizar a prática educativa escolar. (BASSO, 1994, p.38-39)

Dessa forma, a pesquisadora considera que a ruptura entre o significado e o sentido da atividade docente compromete o produto do trabalho do professor, interferindo diretamente na qualidade de ensino e gerando nele sentimentos de desânimo e frustração.

A alienação da vida do homem tem por conseqüência a discordância entre o resultado objetivo da atividade humana e o seu motivo, ou seja, o conteúdo objetivo da atividade não coincide com o seu conteúdo subjetivo, com aquilo que ela é para o próprio homem. Tal situação confere traços psicológicos particulares à consciência. De acordo com Leontiev (2004), o processo de luta interior ocasionado pela tomada de consciência do sentido da realidade, ou seja, da ruptura entre significações e sentido pessoal é denominado de

O fato do sentido e as significações serem estranhas umas às outras é dissimulado ao homem na sua consciência, não existe para a sua introspecção. Revela-se-lhe todavia, mas sob a forma de processo de luta interior, aquilo a que se chama correntemente as contradições da

consciência, ou melhor, os problemas de consciência. São eles os

processos de tomada de consciência do sentido da realidade, os processos de estabelecimento do sentido pessoal nas significações. (LEONTIEV, 2004, p.52 – grifos nossos)

Apoiada em Leontiev, Asbahr (2005b) alerta para o fato de que tais contradições podem acarretar grandes sofrimentos psíquicos nos indivíduos e, no limite, o adoecimento psicológico. Porém, os problemas ou contradições da consciência

podem também impulsionar a tomada de consciência das relações de exploração e o engajamento em lutas pela superação da sociedade de classes e construção da sociedade socialista. Somente com o fim da propriedade privada e das relações sociais de exploração é que podemos vislumbrar uma nova estruturação da consciência humana, uma consciência mais integral, não alienada, em que a atividade humana seja verdadeiramente humanizadora. (ASBAHR, 2005b, p.54-55)

Considerando os pressupostos da Teoria da Atividade, os conceitos de significado social, sentido pessoal, motivo e alienação da atividade, perguntamo-nos quais poderiam ser as contribuições da Teoria da Atividade para a pesquisa sobre a atividade docente: quais seriam os significados sociais vinculados à figura do professor de inglês e à atividade docente na realidade atual do ensino público? Qual seria o sentido pessoal atribuído pelo professor ao seu trabalho, ao seu fazer pedagógico? Que motivos pessoais estariam subjacentes ao desenvolvimento das atividades pedagógicas dos professores? Que relações se estabelecem entre o significado social e o sentido pessoal da atividade docente?

Procuraremos responder tais questionamentos nas considerações finais deste trabalho, apoiando-nos na fundamentação teórica apresentada e nos dados obtidos.