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Dificuldades sentidas no seu percurso escolar

4. Apresentação e discussão dos resultados

4.4 Escola/Trabalho

4.4.1 Situação escolar e profissional

4.4.1.2 Dificuldades sentidas no seu percurso escolar

Quando pedimos aos sujeitos para identificarem as principais dificuldades que sentiram no seu percurso escolar, conseguimos destacar seis tipos de dificuldades relacionadas com escola e

formação, trabalho e estudo, relações interpessoais, psicológicas e saúde(cf. anexos 4 e 6).

formação (oferta formativa escassa, repetição de ano, ausência de orientação escolar e profissional, saída da escola por imposição do progenitor):

“ (...) fui tirar um curso, no centro de emprego, de reparação de viaturas; bate chapas. Só que era de nove meses, não serve para nada, tinha de ser três anos, mas era o que havia e eu sujeitei-me aquele (...) ” (Suj.A).

“ (...) falhei uma vez no exame nacional e automaticamente fui convidado a sair, tirando isso a comunidade não corta as asas a ninguém para quem quiser estudar (...) ” (Suj.B).

“ (...) Quando vim tinha passado para o 8.º ano (...) só que na altura a Guiné estava em guerra, nunca mais sabia o resultado, acabei por fazer o 7.º ano (...)” (Suj.D).

“ (...) vim com o 6.º ano mas depois tive de repetir (...) ” (Suj.E).

“ (...) em Inglês, era primeiro ano (...) eu não sabia nada, sabia contar os números até dez e mal...a professora então ela explicava-me, tive aulas de apoio com ela...mas o inglês para mim era...igual a zero (...) ” (Suj.O).

“ (...) estava no 11.ºano (...) Senti-me um bocado desorientada porque estava no secundário e não sabia se havia de ir para a escola de hotelaria ou se havia de continuar. Foi a única dúvida que tive (...) ” (Suj.L). “ (...) senti muita falta de perguntarem como foi o meu dia na escola, senti muita falta disso, de chegar e perguntarem: então como correu? nunca nem perguntavam estão os trabalhos de casa feitos? (...) a gente faltava à escola (...) ninguém na instituição nunca me incentivou (...)” (Suj.N).

“ (...) saí da escola aos 9 anos (...)” (Suj.P).

Seguidamente, destacam-se as dificuldades ao nível das relações interpessoais (6), (ser o mais novo da turma, ser a velha da turma, sentimentos de discriminação) que foram significativas marcando alguns jovens durante o período escolar:

(...) Tive o azar de ser sempre o mais novo da minha turma. No 5.º ano eu tinha dez/onze anos mas a maior parte da minha turma tinha dezassete/dezoito anos; eu era o mais novo. E, às vezes, uma pessoa ao querer dar-se com os mais velhos e fazer as coisas que eles faziam, não foi o melhor para mim (...) ” (Suj.A).

“ (...) Às vezes estava sozinha por opção, era a mas velha da turma, já tinha outra idade, estava a entrar na idade da adolescência, os meus colegas eram mais novos, não me misturava com eles porque já tinha outras ideias, mais maduras (...) ” (Suj.I).

“ (...) Quando cheguei fui para o ciclo (...) os miúdos olhavam para nós como se fossemos... sei lá... não sei (...) Éramos um bocadinho diferenciados mas havia muitos do Colégio e não ligávamos a isso. Mas as pessoas olhavam para nós com um bocado de discriminação, pouco, mas olhavam, pela maneira como a gente se vestia porque a Comunidade não tinha posses (...) ” (Suj.B).

“ (...) Recordo-me de ter a experiência de ir à escola mas como tinha dificuldades em ler para o quadro não fui bem aceite (...) Não sei...não me recordo... (risos) realmente não sei...é um período que já não tenho (...) ” (Suj.G).

“ (...) na escola havia coisas que eu não queria ver; só depois de começar a ver ganhei uma certa maturidade. Havia pequenas coisas que dependem da sociedade não tem nada a ver com o Colégio (...) Assim que me chamavam negro eu reagia logo, era agressivo logo nessas coisas (...) ” (Suj.C).

As dificuldades ao nível do trabalho foram sentidas por cinco sujeitos no período pós-institucional. Esta experiência implicou muito esforço individual por parte dos sujeitos uma vez que dependiam de si próprios para assegurar a sua subsistência e pagar os estudos. Alguns destes

sujeitos acabaram por abandonar os estudos pela dificuldade em conciliar ambos (Suj.B, Suj.C, Suj.M):

“ (...) a maior parte das vezes é complicado nós temos de pagar renda e quem está a trabalhar não pode ter bolsa, quem não tem bolsa tem de pagar propinas (...) Tive que desistir; automaticamente desisti (...)” (Suj.B).

“ (...) trabalhava e estudava (...) era um trabalho que ocupava o dia todo. Eu saía às oito do trabalho e ia directamente para a escola, depois chegava à uma da manhã ao Barreiro (...) tinha de acordar outra vez às seis (...) Esta era a minha rotina. Acabei ficando mal do estômago porque alimentava-me mal, uma série de stress, de mês a mês tinha de vir aqui a Coimbra, arranjava quatro dias e ficava com a minha filha. Andei assim um ano, depois perdi a cabeça e deixei a escola, deixei o trabalho (...) ” (Suj.C).

“ (...) Não foi especialmente fácil. Eu vim para a Universidade, entrei em Eng.ª Informática no ISEL (...) comecei a trabalhar (...) Se tivesse tido apoio se calhar as coisas seriam bastante diferentes, não teria necessidade de ter ido trabalhar. O rendimento seria superior, não teria de trabalhar, não teria de fazer noites de sextas e sábados à noite, não me obrigaria a faltar às aulas segunda-feira de manhã porque me deitava tarde no domingo e tinha o horário trocado (...)” (Suj.F).

“ (...) para estar a horas no trabalho tinha de faltar algumas horas à escola e, às vezes, para estar na escola não podia estar no trabalho. Vi que aquilo não ia resultar, estava a ser uma situação demasiado stressante (...) era demasiado difícil trabalhar de manhã e estudar à noite. A minha filha ficava com os meus tios eu praticamente não a via durante o dia, ela chegava a casa dava-lhe o banho, ela jantava ou às vezes já jantava nos meus tios, ia pô-la dormir depois eu ia para a escola, só saía às 23, 24h, não tinha carro (...) tinha de esperar uma hora pelos transportes, era muito fatigante, stressante, às vezes, estava frio (...) dessa vez não terminei, acabei por desistir (...) ” (Suj.M).

“ (...) Ainda tentei prosseguir os estudos, já estava eu a trabalhar, no meu primeiro emprego ainda me inscrevi para ir estudar à noite, só que trabalhar e estudar não dava. Por que é assim as aulas começavam às sete da noite e eu saía às dez e meia da noite, não dava para ir estudar. Inscrevi-me na José Falcão mas não dava...era para continuar o 7.º ano, continuar a estudar (...) trabalhar e estudar não dava (...) ” (Suj.N).

A vida escolar de quatro sujeitos foi também marcada por dificuldades ao nível psicológico, ou seja, por questões ligadas ao seu estado emocional (solidão, baixa auto-estima, falta de confiança, fragilidade emocional) que parecem ter interferido no desempenho e concretização das suas expectativas escolares:

“ (...) senti-me mesmo muito sozinho (...) sentia aquela necessidade de ter um amigo, bastava ter um amigo meu (...) Eu senti-me lá muito sozinho, muito mal; é uma fase que acho que deixo logo, não digo que apago da minha memória porque nada apaga. Estive uns três meses, fugi mesmo, vim embora (...) Penso que se calhar foi isso que me safou senão tinha entrado em depressão e andava aí mesmo feito um doidinho (...) ” (Suj.C).

“ (...) eu pus na minha cabeça, que estava a ficar velho que não tinha tempo nem capacidades para entrar para a universidade (...) Depois do 9.ºano fui tirar um curso profissional em Mortágua, o curso em sistemas de informação (...)” (Suj.D).

“ (...) supostamente, fiquei traumatizada dos meus pais se terem separado, dos maus-tratos que a minha mãe levava por parte do meu pai (...) ” (Suj.I).

“ (...) eu a matemática sabia e explicava às minhas colegas e houve uma vez um teste que eu sabia a matéria toda, expliquei às minhas colegas antes de entrarmos para o teste, elas tiraram positiva eu cheguei ao teste e não fiz nada. E isto é uma revolta muito grande...porque uma pessoa sabe mas não sai (...) só me apetecia chorar. E uma vez a geografia foi a Geografia que também me aconteceu (...) ” (Suj.O).

São também merecedoras de destaque as dificuldades mencionadas por dois sujeitos (Suj.O e Suj.H) ao nível de problemas de saúde que revelam ter dificultado a sua vida enquanto estudantes:

“ (...) apanhei meningite (...) eu perdi um ano, não sei se foi um ou dois (...) eu nunca tinha chumbado (...) ” (Suj.O).

“ (...) Cada ano tínhamos um estágio, no 1.º ano fui para Oliveira de Azeméis, tive uma paralisia facial e vim para Coimbra (...) ” (Suj.H).