3. Metodologia
3.4 Análise dos dados
3.4.1 Dimensões, categorias e subcategorias
I – Indivíduo
Neste factor incluem-se as características pessoais, pensamentos, sentimentos, comportamentos e atitudes enunciadas pelos sujeitos entrevistados relativas aos diferentes períodos das suas trajectórias de vida (antes, durante, após o acolhimento e período actual). O
balanço e avaliação acerca das decisões que foram tomando ao longo do seu percurso de vida, a forma como se sentem actualmente com a sua vida em geral, assim como os sentimentos que experienciaram durante a entrevista são igualmente inseridos nesta dimensão.
A análise das narrativas dos entrevistados permitiu definir quatro grandes categorias temáticas: 1. Representações de si próprio;
2. Balanço sobre o passado;
3. Condições de vida e bem-estar actual;
4. Sentimento ao realizar a entrevista;
1. Representações de si próprio – engloba as referências dos sujeitos centradas em si próprios, nomeadamente as menções às suas características físicas e psicológicas, às relações interpessoais que desenvolveram ao longo do tempo e às aprendizagens que realizaram.
Mais especificamente, diferencia-se nas seguintes subcategorias:
1.1. Características físicas e auto-imagem – aparência, forma de vestir, cor da pele, apresentação, etc.
ex.: “ (…) Eu fui para lá pequenino, era o único negro pequenito (...) era dos miúdos que sabia me vestir porque as minhas tias me moíam muito a cabeça, quando ia para Lisboa (...)” (Suj. C)
1.2. Aspectos psicológicos – características pessoais, sentimentos e emoções, aspectos atitudinais;
ex.: “ (...) Eu quando entrei na instituição estava muito revoltado (...) Os primeiros dias foram estranhos; foi uma mudança radical, andava triste, queria fugir (risos) para ir para o pé da família, era miúdo na altura e foi um bocado...custou a primeira semana (...)” (Suj.B)
1.3. Aspectos de relacionamento interpessoal – descrições da forma como iniciaram e estabeleceram relações de iguais durante o período de acolhimento, percepções dos sujeitos sobre a visão que os outros tinham de si e do relacionamento com os seus pares, bem como sobre as mudanças individuais e condições de desenvolvimento pessoal que destas resultaram;
ex. “ (...) como havia jovens de várias idades facilmente nos integrámos, conhecemos outros rapazes e começamos nas brincadeiras normais, no ambiente normal (...)” (Suj.F)
1.4. Competências e recursos pessoais – descrições, interpretações, e valorizações expressas pelos sujeitos acerca das suas capacidades, habilidades, competências;
ex.: “ (...) Sim, sentia-me preparado para sair, até foi bom para eu aplicar aquilo que eu tenho vindo a aprender ao longo dos anos que estive na instituição (...)” (Suj.D)
2. Balanço sobre o passado – avaliações dos seus itinerários de vida, das suas decisões, comportamentos e consequências.
ex. “ (…) Tenho alguns arrependimentos de não ter acabado o curso, como devia, de ter andado na ramboia do que estudar mas faz parte. Acho que se andei na ramboia é porque também acabei de socializar com outras pessoas, conhecer outras pessoas e enriquecer-me noutras áreas que não a formação escolar. O único arrependimento que tenho é esse, mas não é nada que não se consiga fazer ainda e que seja um obstáculo (...)” (Suj.F)
3. Condições de vida e bem-estar actual –percepções e avaliações dos sujeitos sobre as suas condições actuais de vida, sentimentos de satisfação e realização pessoal.
ex.: “ (...) Agora sou uma mulher feliz (...) Estou com o meu marido há 12 anos, temos uma filha com cinco anos. Sou feliz (...) Sinto-me bem, sinto-me com força (...) é muito bom, acho que não tem explicação, acho que só a pessoa que é mãe, que passa por uma sensação dessas de ser mãe é que sente (...) ela é tudo o que me faltou, é ela agora (...)” (Suj.H)
4. Sentimentos ao realizar a entrevista – descrição, interpretação e avaliação dos sujeitos sobre as emoções suscitadas pela entrevista.
ex.: “ (...) Senti-me a viver assim uns anos para trás mas já regressei ao actual (risos). Não, comoveu-me mais porque há muito tempo que já não falava disto (…) desde que eu casei e depois do meu marido saber a história toda, contada por mim, parece que toda a gente sabia e já não precisava de contar a mais ninguém e agora estar a relembrar outra vez o passado, foi estar a mexer em tudo outra vez. Não é, não é desagradável, mas também não é fácil. Nunca é desagradável (…) acho que faz bem falar. Uma pessoa quando está com problemas acho que se meter cá para fora que fica muito mais aliviada do que se ficar a sofrer sozinha, acho que é um alívio (…) Só que custa falar e revelar certos pormenores que foram mais marcantes e menos bons na nossa vida (...)” (Suj.J)
Algumas subcategorias acima enunciadas foram ainda classificadas em três tipos, de acordo com a apreciação expressa pelos sujeitos relativamente à questão analisada:
• Positiva – exprime uma apreciação predominantemente favorável;
ex.: “ (...) Acho que ainda não me arrependi de nenhuma escolha que fiz, se tivesse sido só eu a decidir talvez mas cada escolha que eu faço tenho alguém sempre que me orienta e acho que isso ajuda-me muito (...)” (Suj.E)
• Negativa – exprime uma apreciação predominantemente desfavorável;
ex.: “ (...) ainda estou a viver com a minha mãe e com o meu padrasto, eles atiram-me tudo à cara. Mas eu também não posso, por mais que queira neste momento ajudá-los e eles atiram-me tudo à cara (...) a minha mãe não tem, não sabe realmente ser mãe. Então o meu padrasto e ela...é um bocado difícil conviver com eles (...) eu contento-me com muito pouco, ter paz de espírito, concluir os meus objectivos (...)” (Suj.I)
• Ambivalente/Complexa – não é facilmente identificável uma apreciação dominante, registando-se contradições no discurso dos sujeitos relativamente ao mesmo conteúdo;
ex.: “ (...) Não tenho razão de queixa. Não tenho razão de queixa. Eu acho que as coisas não estão a correr como eu quero, estão a correr de uma forma normal e não tenho razões de queixa, também não se pode ter tudo bom senão a vida não tinha interesse. E eu não sou uma excepção (...)” (Suj.D)
• Neutro/Não se aplica – não é identificável no discurso do sujeito qualquer valoração, positiva ou negativa, sobre o assunto em análise;
II – Instituição
Na dimensão institucional inserem-se os processos de atribuição de significado dos sujeitos sobre a sua experiência de vida em regime institucional, as suas produções relativas à dinâmica, forma de organização e funcionamento da instituição, incluindo as apreciações que fazem acerca do relacionamento estabelecido com o Lar e a interpretação que fazem sobre o apoio que este proporcionou no período pós-institucional, a iniciativa de sair da instituição, a apreciação acerca da experiência vivenciada na instituição e a importância que esta teve nas suas vidas, a forma como entendem hoje a instituição e as sugestões de mudança que fazem relativamente ao seu funcionamento e organização.
A análise do discurso dos entrevistados permitiu definir oito grandes categorias temáticas:
1. Adaptação à vida institucional – inclui as produções dos sujeitos relativas à sua entrada na instituição, sentimentos, emoções, pensamentos que experienciaram, descrição e avaliação das vivências pessoais, mudanças registadas, recursos pessoais mobilizados para adaptação e integração à vida institucional;
ex.: “ (…) ao longo dos anos, apercebi-me que as coisas cá fora não são perfeitas e lá dentro também não podiam ser perfeitas. E ao longo do tempo acalmei mais um bocado, tirei aquele espírito de revolução de achar que o sistema está mal e de tentar mudá-lo. Não passei a ser indiferente mas não dei muita importância e foi isso o que me fez acalmar um bocado a nível pessoal e profissional (...) depois como tudo na vida a gente habitua-se e habituei-me (...) uma pessoa começou a se habituar (...)” (Suj.B)
2. Organização da vida diária –engloba as referências dos sujeitos no que se refere à ocupação do seu dia-a-dia na instituição.
2.1 Actividades e rotinas – descrição da forma como era vivenciado o quotidiano na instituição, ocupação de tempos livres, iniciativas e acções dinamizadas pela instituição e/ou pelos próprios sujeitos;
Mais especificamente diferencia-se nas seguintes subcategorias:
• Lazer/Cultura – actividades desportivas, recreativas e culturais, hobbies individuais, etc.
ex. :“ (...) tínhamos dança (...) pelos escuteiros, arranjámos uma equipa e eu estava a jogar futebol de
cinco (...) fiz ténis, fiz atletismo federado. A minha paixão foi o atletismo, ainda ganhei umas medalhas, também fiz esgrima, aeróbica (...) ajuda no desenvolvimento das pessoas, no relacionamento com as pessoas, ajuda a crescer, fica-se a conhecer as coisas. A gente ia sempre passear. Eu, uma vez, estava em duas coisas ao mesmo tempo, andava no futebol e no ténis (...)” (Suj.H)
• Escola/Formação – aulas, trabalhos e deveres da escola acompanhados por monitores, reuniões para prevenção de comportamentos de risco na adolescência, reuniões anuais sobre o desempenho escolar;
ex.: “ (…) Íamos para a escola (...) depois vínhamos (…) Havia uma sala de estudoa partir das 5h talvez,
começavam a chegar, uns da primária, outros do ciclo, outros do liceu, essa sala era orientada por monitores (…) ajudavam-nos nos trabalhos de casa (...) ” (Suj.G)
• Intercâmbio internacional – participação em projectos de voluntariado internacional;
ex.: “ (...) no verão que tínhamos sempre aqueles campos de férias, intercâmbios com franceses, nós passávamos 15 dias espectaculares porque íamos um dia para cada lado (...) ” (Suj.H)
• Outras – reuniões conjuntas (técnicos, crianças, jovens) para balanço da semana, definição de grupos e estabelecimento de regras de natureza doméstica;
ex.:“ (…) Tínhamos uma vida muito intensa na comunidade com reuniões de toda a casa, havia sempre
reuniões com a irmã Teresa para definir tarefas, havia grupos para tudo (...) reuniões com toda a gente, pequeninos e grandes (...) onde eram definidas regras, feito o balanço da semana, eram feitos grupos diversos porque grande parte do trabalho de casa era feito por nós (...)” (Suj.G)
3. Filosofia de funcionamento – inclui as representações dos sujeitos sobre aspectos organizacionais do quotidiano da instituição, o ambiente e espaço envolvente, as regras da casa, os recursos humanos, assim como a percepção acerca da relação estabelecida com alguns adultos da instituição.
Mais especificamente, diferencia-se nas seguintes subcategorias 3.1 Papel dos mais velhos
• Gestão quotidiana da casa – descrição das tarefas domésticas que ficavam a cargo dos mais velhos;
ex.: “ (…) Era responsável de casa, ou seja, tinha de preparar as refeições (...) Aos fins-de-semana nós é
que cozinhávamos, fazíamos a fachina, lavávamos a loiça, tínhamos de arrumar o quarto, ou seja, qualquer problema nós é que comunicávamos à directora (...)” (Suj.B)
• Educação dos mais novos – enunciação das tarefas educativas e disciplinares que ficavam a cargo dos mais velhos;
ex.: “ (…)Os mais velhos, muitos deles é que organizavam os miúdos; mesmo a pouca organização que os
mais velhos tinham era importante e é hoje importante lá (...) Eles é que faziam as leis: às nove horas os desta idade vão para a cama, às dez e meia vão os outros, às onze vão os mais velhos até aos quinze, os quinze para cima podem fazer o que quiserem (...) alguns estavam-se nas tintas se os miúdos tomavam banho ou não tomavam banho mas eles andavam arrumados e o quarto arrumado, tinham de andar (...) ”
3.2 Clima/ambiente do Lar
• Relação adulto - criança – descrição e avaliação do relacionamento, atitudes, comportamentos e formas de actuação dos profissionais com as crianças e jovens do Lar;
ex.: “ (…) Houve algumas que aconteceram realmente, pelo tempo que passei vi muitas pessoas que foram mandadas embora injustamente só porque a directora não gostava da pessoa. Funciona assim, a [directora] é assim e nós temos de aceitar como ela é. Se ela for com a cara de uma pessoa, vai com a cara da pessoa, se ela não for com a cara da pessoa, mesmo que ela estude, não roube ou se porte bem não há volta a dar. Isso foi uma coisa que realmente fez-me pensar: uma pessoa porta-se bem, faz a coisas segundo os critérios todos e é injustiçada; enquanto que outras são os diabinhos de lá e eram sempre os beneficiados. Nas primeiras vezes, em parte, sentia-me frustrado mas depois eu comecei, pessoalmente, a ignorar isso e realmente percebi o que estava ali a fazer e continuei em frente, a tirar um curso, a arranjar a minha vida para sair dali (...) ” (Suj.B)
• Relações entre pares – descrição e avaliação das relações de iguais estabelecidas entre as crianças e jovens decorrentes do funcionamento e da organização do Lar; ex.: “ (…) tínhamos bons amigos e era isso que fazia a nossa família, estávamos todos no mesmo barco (...) Eu cresci num meio onde tinha muitos amigos. No colégio nós éramos uma família e acho que foi um dos factores que minimizou a nossa passagem por lá porque nós tínhamos amigos (...) ” (Suj.B)
• Espaço físico – descrição e avaliação do espaço exterior que caracterizava a instituição;
ex.: “ (…) aquilo era um espaço agradável (...) Eu gostava da vida de lá porque eu gostava muito da natureza (...) tinha muitos vales e muitos montes e muitos prados e eu apreciava muito a natureza e ainda hoje continuo a apreciar (...) é um lugar onde a pessoa está junto da natureza e se sente bem (...) ” (Suj.M)
3.3 Recursos humanos
• Motivação e envolvimento –descrição e avaliação dos sujeitos relativas à dedicação, preocupação, sensibilidade, tolerância, gosto por trabalhar com crianças e jovens dos profissionais do Lar;
ex.: “ (...) a Psicóloga, a.... Eu desabafava muito com ela e tive sempre o apoio muito importante dela (...)
Há a [directora], ainda hoje penso na [directora], como é que ela aguenta, é uma pessoa que eu admiro, para a [directora] acho que nada é impossível (...) Lembro-me da preocupação da [directora] para nós não estarmos tristes, o desejo dela é para que ninguém fique sozinho e está sempre a lutar para as pessoas serem um bocadinho felizes, é isso o que eu admiro mais na [directora] mas ela é humana também erra (...) ” (Suj.J)
• Gestão de recursos humanos – descrição e avaliação relativas ao número de funcionários existente no Lar, turnos e período de funcionamento;
ex.: “ (…) Não havia técnicos suficientes para que pudessem ajudar essas crianças com diversos problemas (...)” (Suj.I)
3.4 Regras da casa
• Restrições/castigos – percepção dos sujeitos sobre as formas de punição aplicadas às crianças e jovens acolhidos.
ex.: “ (...) se eu tirasse uma negativa a mais ficava logo de castigo, ponham-me logo de castigo a lavar a
loiça não sei quantas semanas, ficava sem poder ir para lado nenhum. Na altura eram castigos dolorosos para uma criança (risos), um jovem de 14 anos queria era passear e mais no verão que tínhamos sempre aqueles campos de férias (...) Cortar umas férias era doloroso (risos) por isso eu tinha de me atinar (risos) “ (Suj.H)
• Flexibilidade/liberdade – percepção dos entrevistados sobre as regras, os horários, organização e controlo das entradas e saídas da instituição, sobre a supervisão e acompanhamento das crianças e jovens do Lar;
ex.: “ (...) Enquanto lá estive entrávamos e saíamos e não havia problema nenhum (...) havia aquelas meninas que saíam à noite para as discotecas e apareciam de manhã, muitas vezes estava eu a ir para as aulas de manhã e estavam elas a entrar e a directora nem sabia. Era um à vontade, entrávamos e saíamos, aquilo não era fechado (...) Eu acho que a regra da Comunidade é assim: se vocês querem ser alguém, têm de fazer por isso e lutar por isso (…) mas está mal. Está mal porque chega-se a uma idade, eles querem lá saber, eu faço o que quero, deixam-nos andar (...) Havia casas, que eram aquelas regras e era aquilo mesmo, chegava aquela hora, mais ninguém sai, enquanto que havia casas, estavam lá na rua, a fazer barulho às tantas a manhã. Eu acho que é assim, na Comunidade é cada um por si e pronto (…)” (Suj.O)
3.5 Outros – descrição e avaliação de atitudes e comportamentos de jovens do Lar, nomeadamente, consumo de drogas e estupefacientes e relacionamento sexual, entre outros.
ex.: “ (…) Havia certas coisas lá que se passavam que eu não achava correcto, desde passarem droga, haver relações sexuais lá dentro, essas coisas todas e não eram vistas, não eram castigadas (…) Contei isso à [uma] senhora e a directora depois veio a saber (...) Eu não queria sujar o nome da instituição, mas automaticamente eu estava a sujar, eu não queria (...) ” (Suj.I)
4. Relação com a instituição e apoio no período pós-institucional – esta categoria refere-se ao relacionamento estabelecido pelos entrevistados com a instituição após a saída, incluindo os contactos e visitas pontuais ou regulares a pares, a adultos ou a familiares que tenham permanecido ou entrado para a instituição posteriormente à sua saída.
• Relação – contactos e visitas com a instituição depois da saída;
ex.: “ (…) Com a instituição não. Mantinha antes, enquanto o meu irmão estava lá (...) Mas a minha relação com a instituição acabou a partir do momento em que eu saí de lá (...) ” (Suj.F)
• Apoio –ajuda (s) prestadas pela instituição após a saída;
ex.: “ (...) Não houve apoio nenhum, até para eu trazer os meus pertences de lá para cá tive de pagar muito caro (…) pedi uma carrinha emprestada para trazer a coisas, obrigaram-me a pagar 100 euros (…) nesse aspecto houve ajuda que eu achei uma coisa impressionante. Eu não tinha dinheiro para pagar, quem pagou foram os meus familiares. Mas achei um absurdo porque eu estava a dar-lhe uma vaga para poderem acolher outra criança, eu não ia trazer as minhas coisas no comboio, as coisas de uma vida
inteira, as recordações, as roupas, livros, no fundo quem consegue trazer isso tudo no comboio ou numa camioneta? (…) até isso tive de pagar para usufruir. Lá está as diferenças porque há outras pessoas que não só não tiveram de pagar como, mensalmente, recebiam ajuda da própria Comunidade. Vinham de propósito aqui a Lisboa, trazer alimentos, dinheiro; lá está as diferenças são tão grandes, há uns que são escolhidos outros que são excluídos (risos) (...)” (Suj.M)
5. Iniciativa de saída da instituição – descrição e avaliação dos sujeitos sobre as circunstâncias da sua saída e a responsabilidade desta decisão.
• Individual – decisão tomada pelo próprio;
ex.: “ (…) Eu saí porque eu quis, acho que a Comunidade não podia fazer mais nada, eu já tinha 20 anos (...) Foi uma opção minha e do meu marido (…)” (Suj.H)
• Lar – decisão tomada pelo Lar;
ex.: “ (...) Não. Eu fui convidado a sair (risos) (…)” (Suj.B)
6. Percepção actual dos sujeitos sobre a instituição – esta categoria refere-se aos comentários, observações e apreciações dos sujeitos sobre o estado actual da instituição
ex.: “ (...) Se hoje for lá, os quartos estão desarrumados; depois das empregadas irem embora os quartos, a casa fica destruída até ao outro dia quando as empregadas chegam. Enquanto que antigamente, os mais velhos é que organizavam uma casa (…) Eu acho que foi um exagero essas mudanças que fizeram, um exagero mesmo (...)” (Suj.C)
7. Propostas de mudança sobre a instituição – esta categoria integra as opiniões e sugestões dos entrevistados sobre aspectos que deveriam mudar no período de acolhimento e também no processo de transição e autonomização dos jovens para a vida independente.
7.1 Acolhimento – esta categoria diz respeito às referências dos sujeitos acerca de aspectos formais e organizacionais, de protecção, de segurança e aos aspectos educacionais que devem ser objecto de mudança no período de acolhimento.
Mais especificamente, diferencia-se nas seguintes subcategorias •
• •
• Aspectos organizacionais – diz respeito a mudanças formais como a transitoriedade do acolhimento, regime/ acolhimento não misto, funcionamento 24 horas;
ex.: “ (...) À noite não fica ninguém, não se vêem se as crianças são deitadas a horas, se fazem os trabalhos de casa ou não fazem, se precisam de alguma coisa ou não precisam, se falta um cobertor senão falta. Ninguém vê nada disso, ninguém (...) devia ser alguém destacado de forma e não era auxiliares aquelas de limpeza, como estão lá das 9h às 5h da tarde (…)” (Suj.J)
• • •
• Protecção e segurança – refere-se a mudanças relativas à supervisão e controlo do acesso e circulação de pessoas;
ex.: “ (…) Como instituição de crianças que é deveria ter um bocadinho mais de segurança. Ter lá um portão grande, aberto à distância e identificar as pessoas (...) ” (Suj.H)
• • •
• Aspectos educacionais – inclui considerações sobre mudanças na filosofia de funcionamento e sobre a qualidade pedagógica e educativa que deve ser proporcionada pela instituição às crianças e jovens acolhidos;
ex.: (...) Não se deve, em certas situações, só ver as pessoas, é preciso dar-se mérito às pessoas que lá
estão pelas atitudes que têm e não pela cara delas. Não é correcto que uma pessoa que chumba sete anos seja mais privilegiado do que aquela pessoa que nunca chumbou no seu percurso escolar. Acho que isso tem de mudar definitivamente (...) ” (Suj.B)
• • •
• Recursos humanos – referências a mudanças relativas à direcção e aos funcionários do Lar;
ex.: “ (…) Em primeiro lugar o que devia mudar – eu sei que isso não vai acontecer – era a direcção porque a [directora] tem de admitir – foi uma excelente pessoa, foi uma grande mulher, apesar dos defeitos que todos temos, ela não é perfeita como nós também não somos mas foi uma grande mulher ao ter criado a instituição, a vida que ela passou, é uma heroína! – tem de sentar e admitir que já não tem cabeça mais para aquilo, não tem mão, não tem pulso, não tem nada. E quando não há mão, não há pulso as coisas abandalham-se um bocadinho, é isso que, neste momento, está acontecer (…) ela é a directora máxima, é directora vitalícia, ou seja, só quando ela morrer é que passa para outro e, pelo que eu vejo, se é a pessoa que na altura estava prevista, ainda vai ser pior (…)” (Suj.J)
7.2 Transição e autonomização – referências dos entrevistados aos recursos que deveriam ser mobilizados para apoiar os jovens na transição do Lar para a sua vida independente. Mais especificamente, diferencia-se nas seguintes subcategorias
• Apoio habitacional – espaço residencial de curta duração;
ex.: “ (...) não tinha casa (...) foi assim um bocado...A certa altura a [directora] virou-se para mim e disse que eu tinha de arranjar um quarto e eu pensei: mas como, como é que eu vou arranjar um quarto? Não tenho emprego, não tenho casa (...) Porque eu acho que não faz sentido os tribunais, o sistema de segurança social, as assistentes sociais tirarem as crianças à família e depois daí a uns anos saem e voltam para lá. Não faz nexo, não tem lógica; é o que acontece muitas vezes (...) ou então mandá-las embora e subsidiar uma casa entre seis ou quatro meses até arranjarem emprego (...)” (Suj.B)
• Apoio financeiro – comparticipação monetária para assegurar despesas básicas, nomeadamente, alimentação, vestuário, educação, etc.
ex.: “ (...) na parte financeira, como é óbvio, que é uma das principais dificuldades que se passa nesta fase
de transição quando se sai da instituição e se passa a viver por conta própria (...) Eu acho que a principal é