Inserida no rol dos direitos fundamentais apresentados anteriormente, consta a dignidade da pessoa humana, a qual possui primordial relevância para a compreensão do presente trabalho.
Por essa razão, destaca-se primeiramente que, segundo Antônio Fernando Pires (2016, p. 192), a dignidade da pessoa humana é o princípio máximo dos direitos fundamentais.
Por essa razão, salienta-se que foi concedido aos princípios fundamentais5 “a qualidade de normas embasadoras e informativas de toda a ordem
constitucional, inclusive dos direitos fundamentais, que também integram aquilo que se pode denominar de núcleo essencial da Constituição material” (SARLET, 2004, p. 109).
Dessa forma, completa, ainda, Ricardo Castilhos (2015, p. 256) que é “um principio orientador, inclusive, de todos os demais princípios presentes no ordenamento. Poderíamos dizer, então, que se trata de um supraprincípio”.
Nesse sentido, compreende-se que a dignidade possui:
Um valor intrínseco, reconhecido a todos e a cada um dos indivíduos, dotado de autonomia ética, tendo como fundação o dever geral de respeito a pessoa, consubstanciado num grupo de direitos e deveres que guardam relação uns com os outros. E mais, ela é o centro de todo ordenamento jurídico, posto que norma principiológica a qual informa sobre os direitos e garantias fundamentais insculpidos na CRFB/88 (SOARES, 2016, p. 55).
5 Direitos fundamentais são disposições inseridas em determinado ordenamento jurídico que reconhecem e garantem o mínimo existencial do ser humano, rechaçando desta forma os abusos perpetrados pelas autoridades públicas, limitando o poder do Estado. Já os princípios definem as regras no âmbito jurídico, compondo as noções em que o Direito se estrutura (PEREIRA, 2016, p. 44).
Logo, por ser considerada como o centro do sistema jurídico, a dignidade possui grande importância para a compreensão da matéria constitucional, em razão de ser norteadora dos direitos e garantias fundamentais.
Por conseguinte, deve-se ponderar que os direitos fundamentais devem servir como direção para a elaboração, interpretação e aplicação do conjunto das normas legais, para a decisão de casos concretos e, principalmente, o sistema de direitos fundamentais (NOVELINO, 2014).
Isto posto, nota-se que a dignidade encontra-se inserida nos fundamentos do “Estado Democrático de Direito (art. 1o, III6), e também de nossa ordem
econômica (art. 170, caput7), além de figurar como um dos direitos expressamente
assegurados às crianças (art. 227, caput8) e aos idosos (art. 230, caput9)”
(CASTILHO, 2015, p. 255).
Destaca-se ainda o entendimento de Cecília Cardoso Magalhães Resende (2012), a qual define que esses direitos também foram regulamentados através da:
Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, trás em seu artigo I que “todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”. Logo, presume-se evidente a sua importância para a compreensão e aplicação do sistema jurídico, em razão de estar inserida nos direitos fundamentais da Constituição Federal (BRASIL, 1988), assim como da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
6 Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
III - a dignidade da pessoa humana (BRASIL, 1988).
7 Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios (BRASIL, 1988).
8 Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).
9 Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas,
assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo- lhes o direito à vida (BRASIL, 1988).
Por essa razão, cumpre salientar ainda que a dignidade da pessoa humana “não é um direito, mas uma qualidade intrínseca a todo ser humano, independentemente de sua origem, sexo, idade, condição social ou qualquer outro requisito. Nesse sentido, não pode ser considerada como algo relativo” (NOVELINO, 2014).
Segundo Rizzatto Nunes (2010, p. 61), a dignidade humana surgiu visando um bem maior, com o fim de afastar as atrocidades que ocorreram na história da humanidade, como torturas e mortes em nome da cor da pele, da religião, da ciência ou outro motivo.
Em vista disso, Walber de Moura Agra (2014), afirma que não existe um conceito definido ao longo do tempo para a dignidade da pessoa humana, em vista de ser fruto de um conjunto de circunstâncias ocorridas ao longo dos anos.
Dessa forma, continua o doutrinador, ao lecionar que é um conjunto de normas inerentes à pessoa, sem as quais se tornaria coisa, por essa razão assegura "direitos como a vida, lazer, saúde, educação, trabalho e cultura que devem ser propiciados pelo Estado [...] para densificar e fortalecer os direitos da pessoa humana, configurando-se como centro fundante da ordem jurídica” (AGRA, 2014).
Logo, é possível observar que a dignidade da pessoa humana diz respeito à vida do homem, a qual deve ser respeitada pelo Estado, mediante a concessão de direitos mínimos.
Portanto, tendo por base do presente trabalho o conflito entre a identidade genética e o anonimato do doador, tem-se que ambos os direitos encontram-se amparados na dignidade da pessoa, em razão de dizerem respeito às condições de vida, de saúde, de privacidade e intimidade do doador e da pessoa concebida.
Em vista disso, apresenta-se então as dimensões acerca da identidade genética e do anonimato para melhor compreensão da influência da dignidade nos dois casos.