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4.1 POSIÇÃO DA DOUTRINA

4.1.2 Sigilo afastado para conhecimento da ancestralidade considerada como

Para outra parte da doutrina, o direito ao conhecimento da identidade genética possui maior relevância quando comparado ao sigilo da identidade do doador de material genético.

Este entendimento é baseado no fato de que, ao negar o conhecimento da sua origem biológica, “está-se negando a uma pessoa a possibilidade de ter acesso a informações que possam auxiliar na descoberta de fatores que compõem a sua personalidade e que influenciam na sua autodeterminação” (SPODE; SILVA, 2007).

Logo, salienta-se que “o direito de conhecer a ascendência biológica não está atrelado a uma vinculação pessoal com a pessoa do doador, mas sim, a um simples fator constitutivo da identidade pessoal de um indivíduo” (ZANATTA; ENRICONE, 2010).

Guilherme Calmon Nogueira Gama (2003, p. 909) enfatiza que a importância da informação sobre a ascendência baseia-se na compreensão da própria existência. O conhecimento da verdade sobre sua origem biológica é direito fundamental que integra o conjunto de direitos da personalidade humana, sendo possível que o direito à intimidade do doador seja descaracterizado em relação ao direito à identidade pessoal e genética da pessoa concebida artificialmente.

Conforme elenca Cândido (2007), quatro são as principais hipóteses para o interesse no conhecimento da origem genética, os quais são: a falta de um pai ou mãe juridicamente estabelecido quando a técnica foi utilizada só por um genitor; a vontade de ver desconstituída a paternidade anteriormente estabelecida seja por ambição material ou por desentendimentos com aqueles que lhe criaram; a

necessidade de se analisar o material genético de seu ascendente para preservar a saúde do filho sócioafetivo; e a mera curiosidade sobre aquele que permitiu o seu nascimento.

Por essa razão, cumpre destacar primeiramente o entendimento de Maricruz de La Torre Vargas (apud Scalquette, 2010, p. 231), tendo em vista compreender que:

O conhecimento da origem biológica – saber quem é seu pai ou mãe biológica – é de grande importância, tanto para a própria identidade da pessoa como para o desenvolvimento de sua personalidade. É um direito que tem todo indivíduo pelo simples fato de nascer e, por sua vez, é parte dos direitos fundamentais amparados pela Constituição.

Dessa forma, complementando o entendimento da autora, Selma Rodrigues Petterle (2007, p. 109-110), salienta que:

Com fundamento no princípio da dignidade da pessoa humana e no direito fundamental à vida, agregando, ainda, em reforço à fundamentação, o dever de preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético e o dever de fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético [...] o direito à identidade genética é um direito fundamental implícito na ordem constitucional brasileira.

Ainda, tendo em vista o direito ao conhecimento da origem biológica consagrado pela Constituição Federal (BRASIL, 1988), o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) também expõe sobre o assunto através do artigo 27, ao definir que “o reconhecimento do estado de filiação é direito personalíssimo, indisponível e imprescritível, podendo ser exercitado contra os pais ou seus herdeiros, sem qualquer restrição, observado o segredo de Justiça”.

Logo, por possuir caráter personalíssimo, o exercício da identidade genética é exclusivo do indivíduo concebido, não sendo possível que seja impedido pelo pai ou pela mãe de realizá-lo (SPODE, SILVA, 2007, p.8).

Nessa concepção negar à pessoa o direito de investigar suas origens genéticas e históricas é negar-lhe a sua própria identidade, uma vez que o direito à identidade genética é um direito fundamental personalíssimo, portanto, insuscetível de renúncia.

Em vista disso, mesmo que os pais firmem contrato de reprodução humana assistida, aceitando o anonimato do doador de gametas, estes não

possuem o direito de reconhecimento da identidade genética da pessoa gerada, em razão de que:

O termo não vincula o filho nascido, pois o direito do reconhecimento do estado de filiação e, por consequência, do reconhecimento da origem genética, é indisponível e personalíssimo e pode ser exercido sem qualquer restrição, não podendo constituir objeto de renúncia por parte de quem não os possui. (MOREIRA FILHO, p. 5)

Portanto, mesmo que não exista fundamento legal sobre a inseminação artificial, é possível notar a similaridade entre a Constituição Federal sobre o reconhecimento da origem biológica e a definição contida na Lei nº 8.069 de 1990.

Segundo Krell, (2011, p. 165) alguns doutrinadores entendem por aplicar de forma análoga a adoção à reprodução humana assistida heteróloga, tendo em vista que o direito ao reconhecimento da origem genética é direito personalíssimo da criança, não sendo passível de obstacularização, renúncia ou disponibilidade por parte dos genitores.

Logo, é possível observar que:

O direito ao conhecimento da origem genética como decorrente do disposto no art. 227, § 6º da CF de 1988, que aduz que todos os filhos terão os mesmos direitos e qualificações. Seguindo essa linha de raciocínio, deve-se dar à criança gerada pela técnica de reprodução assistida heteróloga o direito de conhecer sua origem da mesma forma que outro indivíduo nascido de relações sexuais tem conhecimento (CABRAL; CAMARDA, 2012). Desta forma, é importante destacar também a redação do Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), o qual define:

Artigo 48. O adotado tem direito de conhecer sua origem biológica, bem como de obter acesso irrestrito ao processo no qual a medida foi aplicada e seus eventuais incidentes, após completar 18 (dezoito) anos.

Parágrafo único. O acesso ao processo de adoção poderá ser também deferido ao adotado menor de 18 (dezoito) anos, a seu pedido, assegurada orientação e assistência jurídica e psicológica.

Desse modo, assim como defende Cabral e Camarda (2012), o legislador definiu um direito personalíssimo ao adotado, fundamental para seu desenvolvimento que, mesmo convivendo na maior parte da sua vida com a família adotiva, é cristalina a participação da sua ascendência biológica para a solidificação da sua personalidade.

Dessa forma, conforme defendido por Scalquette (2010, p. 232) a partir de uma interpretação análoga da adoção, o anonimato deve ser relativizado, todavia a quebra deve ser analisada judicialmente e as razões invocadas devem ser analisadas.

Portanto, ao conceder à pessoa o direito de conhecer sua verdadeira identidade genética, está-se reconhecendo o exercício pleno de seu direito de personalidade e a possibilidade de buscar nos pais biológicos as explicações para as mais variadas dúvidas e questionamentos que surgem em sua vida.