Uma questão de sensível importância para o presente trabalho é o direito de conhecimento da identidade genética, por isso torna-se imperioso salientar o seu conceito e fundamentação.
Nessa monta, cabe apresentar, primeiramente, que esta identidade diz respeito a todas as características da pessoa, seja sua história genética ou pessoal (CABRAL, CAMARDA, p. 12).
Dessa forma, é possível compreender que a identidade possui uma carga primordial para o desenvolvimento do ser humano, tendo em vista que:
O direito à identidade pessoal envolve um direito à historicidade pessoal, para que cada um possa saber como foi gerado, a identidade civil de seus progenitores e conhecer o seu primogênito genético, o que pode ser essencial para a prevenção e mesmo cura de doenças hereditárias. [...] Visto assim, a fórmula identidade genética compreenderia também o direito ao conhecimento da identidade dos progenitores (OLGA JUBERT KRELL, 2011, p. 74).
Portanto, o direito ao conhecimento da identidade genética diz respeito não somente a constatação da sua origem biológica, mas também de toda a sua ancestralidade e histórico familiar.
Por isso, Scalquette (2010, p. 230) esclarece que o direito ao conhecimento da identidade genética pode ser concedido pelas mais variadas razões:
Não só quando a saúde e vida estão ameaçadas podemos encontrar motivação para que a informação da ascendência biológica seja prestada; a questão da higidez psicológica vai além, passa pela prevenção de problemas que podem vir a se desenvolver no futuro e que podem determinar o comportamento da pessoa durante toda a sua vida.
Logo, conforme Lôbo (2011, p. 227), o direito ao conhecimento da origem genética encontra-se inserido no direito à vida, em razão do fato de, conforme as ciências biológicas têm ressaltado ao longo dos anos, a relação existente entre a ocorrência de doenças em parentes próximos, as medidas preventivas destas, assim como a integração no núcleo social, são capazes de superar a simples relação com o nome.
Porém, não somente em razão de necessidades médicas é possível à concessão do direito ao conhecimento da identidade genética, mas também quando a pessoa considera a medida necessária para encontrar respostas acerca da sua existência. Nesse sentido, Moreira Filho (p. 6), demonstra que:
Ao permitir ao filho o seu direito de conhecer e saber a sua verdadeira identidade genética, estamos reconhecendo-lhe o exercício pleno de seu
direito de personalidade e a possibilidade de buscar nos pais biológicos as explicações para as mais variadas dúvidas e questionamentos que surgem em sua vida, como, por exemplo, as explicações acerca da característica fenotípica, da índole e do comportamento social, das propensões ou resistências a certas doenças, etc.
Portanto, não é possível dizer que o direito à identidade genética visa reconhecer apenas a possibilidade da simples identidade do genitor, mas possui um conjunto de problemáticas muito maiores, que, por vezes, são de primordial importância para a vida da pessoa concebida.
Nesse sentido Resende (2012) ressalta que “o princípio da dignidade da pessoa humana, [...] garante também ao indivíduo o direito de conhecer sua origem biológica e genética, como parte integrante dos direitos da personalidade”.
Partindo deste princípio, Cabral e Camarda (p. 12) defendem que no Brasil a identidade é considerada um direito fundamental, em razão de estar inserido no rol de direitos da personalidade.
Salienta-se, primeiramente, que “esses direitos fundamentais encontram- se circunscritos em um núcleo, uma cláusula geral, de conteúdo aberto, autorizando que novos direitos fundamentais sejam estabelecidos e relacionados” (CABRAL; CAMARDA, p. 20).
Nota-se que o direito fundamental à identidade genética não está expresso na Constituição Federal (1988), porém é reconhecido e protegido através da dedução da interpretação do texto legal (REIS, 2009, p.8).
Assim, a identidade é um direito fundamental implícito na ordem jurídico- constitucional brasileira, a partir do princípio da dignidade da pessoa humana e do direito fundamental à vida, como cláusula geral das manifestações essenciais da personalidade (PETTERLE, 2007, p. 92).
É possível contatar assim que a possibilidade de conhecer a identidade dos genitores possui amparo legal, em razão de “a identidade genética da pessoa humana, base biológica da identidade pessoal, é uma dessas manifestações essenciais da complexa personalidade humana” (PETTERLE, 2007, p. 92-93).
Destaca-se, portanto, que a personalidade diz respeito ao direito subjetivo da pessoa de defender a sua integridade física como vida, alimentos e o próprio corpo, seja quando vivo ou até mesmo após a morte, assim como sua integridade intelectual, através da liberdade de pensamento, autoria científica, artística, literária
ou ainda a sua integridade moral por meio da sua honra, segredo pessoal, profissional, doméstico, imagem, identidade pessoal, social e familiar (SALDANHA).
Logo, por encontrar-se inserida no rol de direitos fundamentais, nota-se que o direito à identidade genética é essencial à pessoa, de forma que a sua vida pode ser afetada caso este seja impedido ou violado, em razão de sua indispensabilidade.
Por essa razão, salienta-se que a classificação da identidade genética se baseia no direito de “conhecer o seu verdadeiro genitor, ou seja, ter acesso à sua origem genética. O direito à identidade genética é direito fundamental de todo ser humano, caracterizando-se por ser personalíssimo, indisponível e intransferível” (SPODE; SILVA, 2007, p. 8).
Partindo desse pressuposto, é possível constatar que, ao ser definido como um direito com caráter personalíssimo, conforme defende Dias (2008, p. 163), o “direito de acesso às suas próprias informações genéticas é derivado de um forte interesse pessoal, vez que permite ao indivíduo dispor de informações importantes (particularmente sobre sua saúde) ao tomar decisões relativas à sua própria vida”.
Em vista disso, é concedida então a pessoa a liberdade de tomar algumas decisões sobre sua vida de cunho existencial ou simplesmente tomar algumas precauções (DIAS, 2008, p 163).
Nesse sentido, observa-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), estabeleceu, no que concerne à família natural - a qual seria compreendida como “a comunidade formada pelos pais, ou qualquer deles e seus descendentes” -, o direito da criança de ter reconhecida a sua filiação:
Art. 27. O reconhecimento do estado de filiação é direito personalíssimo, indisponível e imprescritível, podendo ser exercitado contra os pais ou seus herdeiros, sem qualquer restrição, observado o segredo de Justiça. (BRASIL, Lei nº 8.069, 1990)
Assim, Belmiro Pedro Welter (2003, p. 229) defende que, em qualquer caso, tanto o filho, quanto os pais, possuem o direito de investigar a paternidade, assim como de negá-la, como parte inerente do seu direito de cidadania e dignidade da pessoa humana.
Ainda, conforme defendido pelo professor José Roberto Moreira Filho, deve-se observar que “o direito ao reconhecimento da origem genética é direito
personalíssimo da criança, não sendo passível de obstaculização, renúncia ou disponibilidade por parte da mãe ou do pai” (MOREIRA FILHO, p.4).
Desse modo, cumpre ratificar o fato que, pelo direito à identidade genética possuir caráter personalíssimo, somente a pessoa gerada pode definir sobre a vontade de ter esse seu direito estabelecido, sem haver interferência dos pais neste processo.
Porém, cumpre salientar que, mesmo tendo o direito, o reconhecimento da identidade genética não é capaz de romper a possível filiação socioafetiva ou jurídica gerada antes da postulação, tendo em vista que, conforme expõe o doutrinador por último mencionado:
O direito ao reconhecimento da origem genética não importa, igualmente, em desconstituição da filiação jurídica ou socioafetiva e apenas assegura a certeza da origem genética, a qual poderá ter preponderância ímpar para a pessoa que a busca e não poderá nunca ser renunciada por quem não seja o seu titular (MOREIRA FILHO, p.5).
Portanto, mesmo que a criança tenha o desejo de ver reconhecida a sua origem genética, esta não pode ser encarada como um obstáculo para os pais já reconhecidos, em razão de que não é capaz de afetar a relação já existente.
Ainda, por possuir caráter personalíssimo, compreende-se, conforme relatado anteriormente, que apenas a pessoa gerada possui o direito de postular pelo reconhecimento da sua origem genética.
Dessa forma, cumpre demonstrar, que esse direito pode ou não ser exercido, pois não possui cunho obrigatório, assim como leciona Reinaldo Pereira Silva (2002, p.61):
O conhecimento da ascendência biológica é um verdadeiro direito, não é um dever. Em outras palavras, ninguém pode ser obrigado a conhecer sua ascendência biológica, mas todos os filhos tem o direito de conhecê-la caso o queiram, pouco importando a natureza de seus vínculos familiares (adoção tradicional, recurso às técnicas de reprodução medicamente assistida etc.).
Por essa razão, fica evidenciado que a identidade genética é um direito da pessoa concebida e apenas ela pode decidir pelo seu reconhecimento, de modo que se demonstra assim a razão pela sua primordial ponderação para o presente trabalho, devido ao fato de ser o direito da pessoa concebida em ver estabelecida a identidade daquele que contribuiu da sua concepção.
Contudo, mesmo que reconhecido o direito fundamental aplicado aquele que foi gerado, cumpre analisar as questões ligadas ao anonimato, que consiste no direito contraposto.