PARTE 1 – REVISÃO DA LITERATURA
1.4 Dimensão dos usuários de AVA envolvidos no processo de
Independente da abordagem pedagógica ou do tipo de tecnologia adotada, grande parte dos cursos superiores a distância possui componentes comuns, que foram apresentados simbolicamente por Iahn (2002, p. 27) nas pontas de uma estrela, conforme figura 1.4. Esses componentes são relacionados, e com o auxílio das tecnologias, permitem que o processo educativo ocorra na EAD.
Figura 1.5 – Componentes da EAD no ensino superior Fonte: Iahn (2002)
A ilustração de Iahn aponta três sujeitos centrais que estão envolvidos diretamente no processo de ensino-aprendizagem. São eles: aluno, professor e tutor. O interesse nesta investigação é o fator humano, ou seja, a compreensão de quem são esses sujeitos, o papel que desempenham na EAD e, principalmente, suas necessidades e expectativas em relação ao AVA. Assim, neste tópico não serão discutidos os componentes avaliação e material didático, que também compõem a ilustração de Iahn.
a) Estudantes de cursos superiores a distância
O sujeito que ocupa a ponta central da estrela de Iahn é o aluno que deve ser, segundo Araújo (2011), o centro do processo educacional. A literatura sinaliza que grande parte dos estudantes envolvidos na EAD é formada por adultos que encontram nessa modalidade uma opção alternativa para ingressar no ensino superior (MOORE; KEARSLEY, 2007; MORAES, 2010; MORAN, 2009; SILVA,
2009). Dados do CensoEAD.BR 2013/2014 (2014) indicam que a idade média do estudante de um curso EAD no Brasil é de 30 anos, sendo que nos cursos regulamentados (graduação e pós-graduação) 60% das instituições participantes da pesquisa indicaram que a faixa etária média de seus estudantes está entre 31 e 40 anos, enquanto apenas 32% indicaram como predominante a faixa entre 21 e 30 anos. O documento afirma que 94% destes alunos estuda e trabalha e que 57% são mulheres. Grande parte desses alunos são casados e têm filhos. Não é à toa que Moraes (2010) indica que o ensino superior a distância é chamado por muitos de
universidade da segunda chance.
Devido ao perfil dos estudantes da EAD, a modalidade prevê a autonomia dos discentes para gerir seu processo de aprendizagem e o tempo para realizar as atividades acadêmicas. Pretti (2000) defende que a autonomia é algo inerente ao indivíduo, ou seja, é sua capacidade de agir por si mesmo, sem depender de outras pessoas. Assim, deve-se entender que o estudante da EAD, mesmo recebendo apoio de professores e tutores, deve ser visto como sujeito autônomo que é capaz de estudar, pesquisar e produzir conhecimento. Belloni (1999 e 2003) indica que a autonomia motiva, produz autoconfiança e estimula o estudante a participar e ter sucesso na EAD.
Além disso, Moore e Kearsley (2007) identificaram fatores extracurriculares que influenciam o desempenho de alunos na EAD: “O trabalho (estabilidade, responsabilidade), família, saúde e interesse e obrigações sociais podem influenciar positiva ou adversamente o aluno” (p. 185). Os autores sugerem que a formação acadêmica anterior desses alunos é um indicador de sucesso em cursos EAD. Sua afirmação está embasada nos resultados de um estudo extensivo realizado por Kember31 (1995, apud MOORE; KEARSLEY, 2007), denominado “Modelos de Conclusão”, onde os resultados apontam que quanto maior o nível de escolaridade do aluno, maior a possibilidade de completar satisfatoriamente um curso superior a distância. O índice de evasão em cursos totalmente a distância, regulamentados no Brasil em 2013, foi de 19,06% e em cursos regulamentados semipresenciais foi de 14,83% (CENSO EAD, 2014). Os principais motivos da evasão segundo os pesquisados foram a falta de tempo para estudar e participar do curso (32,1%), o
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KEMBER, D. Open Learning Courses for adults: a model for student progress. Educacional Tec. Inc.: New Jersey, 1995.
acúmulo de atividades de trabalho (21,4%) e a falta de adaptação à metodologia (19,6%).
Outros estudos sugerem que a personalidade do aluno (ou aquilo que muitas vezes é chamado de estilo de aprendizagem32) também é fator relevante quando se trata do sucesso ou fracasso na EAD. Pesquisas constataram que pessoas mais independentes (menos influenciáveis pelo ambiente ao redor) são mais bem preparadas para EAD (MOORE; KEARSLEY, 2007). Halsne e Gatta33 (2002, apud MOORE; KEARSLEY, 2007) conduziram um estudo em que pediram que alunos de graduação respondessem a um teste que identificava suas preferências por aprendizado visual, auditivo, tátil ou cinestésico, e os resultados apontaram que os alunos que optavam por cursar disciplinas online apresentavam um perfil mais visual enquanto aqueles que selecionavam disciplinas presenciais tinham um estilo de aprendizagem mais auditivo e cinestésico.
Compreender o perfil do estudante, os principais aspectos que influenciam sua opção pela EAD e principalmente, fatores psicológicos, culturais, tecnológicos e de gestão que podem favorecer seu sucesso nesta modalidade é fundamental para o planejamento e desenvolvimento do trabalho dos outros sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem: professor e tutor.
b) Professores e tutores de cursos superiores a distância
Por vários séculos o docente foi visto como aquele que ensina e torna público seus conhecimentos, entretanto, essa definição parece ser muito limitada quando aplicada à realidade de cursos a distância e aos novos paradigmas educacionais que colocam enfoque primordial na aprendizagem e não no ensino. Em sua diversidade, a EAD, no ensino superior brasileiro, tem promovido modificações na identidade docente causada pela divisão do trabalho pedagógico. Ferreira e Silveira (2009) explicam que o trabalho realizado no ensino presencial por um professor especialista e responsável por determinada área do conhecimento, na EAD, é
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Em sua teoria das Inteligências Múltiplas, Gardner (1995) sugere abordagens educacionais que se adaptam às ‘potencialidades’ individuais de cada aluno e a modalidade (constituída por estilos de aprendizagem) pela qual cada um pode aprender melhor. Gardner classifica os estilos de aprendizagem como: visual, auditivo, cinestésico, artístico e uma variedade de combinações das opções anteriores. Fonte: GARDNER, H. Inteligências múltiplas: A teoria na prática. Porto Alegre: Artmed, 1995.
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HALSNE, A. M., GATTA, L. A.. Online versus traditionally-delivered instruction: A descriptive study of learner characteristics in a community college setting. Online Journal of Distance Learning Administration, 2002, 5 (1): 1–14.
compartilhado por pessoas distintas: tutores presenciais (designados para a orientação e avaliação dos alunos nos encontros presenciais) e tutores a distância (responsáveis pelo desenvolvimento e organização do material online, e por trabalhar junto com o professor especialista na elaboração de conteúdos). Existem cursos em que a ação docente ainda é compartilhada por um número maior de sujeitos.
Antes de discutir como o ensino na EAD ocorre a partir da atuação de diversos indivíduos, cabe destacar que Gauthier (1998), divide a ação docente que ocorre em sala de aula presencial, em duas áreas: 1) funções ligadas à transmissão (ou ensino) da matéria (conteúdo, tempo, avaliação etc.); 2) funções ligadas à gestão das interações em sala de aula. Essa divisão do trabalho docente difere na EAD pois todos aqueles que estão “no lugar” docente realizam, de forma articulada, o trabalho das duas áreas propostas por Gauthier. Ferreira e Silveira (2009) chamam esse fenômeno de descentralização da ação docente e afirmam que resulta em uma rede de ações que fragmentam o trabalho pedagógico. Nesse sentido, cada sujeito envolvido no processo é responsável por tarefas específicas e deve cumpri-las a contento para garantir que o trabalho docente seja realizado em sua completude.
A ação docente na EAD configura-se como desafio, especialmente porque grande parte dos professores não recebeu capacitação para o uso de TDIC em sua formação inicial. Bentes (2009) destaca que o professor-tutor que acompanha os alunos nessa modalidade deve saber lidar com os
[...] ritmos individuais diferentes de cada aluno, apropriar-se de novas tecnologias, dominar as técnicas e instrumentos próprios de avaliação, ter habilidades de investigação, utilizar novos esquemas mentais para criar uma cultura indagadora e plena em procedimentos de criatividade e ter disponibilidade de intervir a qualquer momento (p. 167).
Por fim, Ferreira e Silveira (2009) indicam que a identidade docente na EAD tem sido construída “[...] num processo de fluidez, flexibilidade e descentramento, deslocada do sujeito individual e localizada nas fissuras que conectam os mais diversos agentes do processo de ensino e aprendizagem”. (p. 3).
Assim, é esperado que os desejos e necessidades desses três grupos de sujeitos (estudante, professor e tutor) em relação ao AVA de um curso superior na EAD sejam variados uma vez não existe uniformidade entre as características desses indivíduos no que se refere à sua trajetória acadêmica, à familiaridade no uso de recursos tecnológicos, à visão sobre o ensinar e aprender, o tipo de atividades desenvolvidas em um curso superior EAD, às ferramentas de AVA que irão utilizar, entre outros tantos aspectos que poderiam ser mencionadas.
Entretanto, mesmo reconhecendo tais diversidades, com base nas discussões tecidas neste capítulo, pode-se afirmar que existem diretrizes que vêm sendo adotadas para desenvolver AVA modelados a partir do comportamento natural do ser humano visando que as interfaces sejam mais intuitivas, fáceis de manusear e livres de erros de performance de seus usuários (OVIATT, 2006). Algumas dessas perspectivas que tradicionalmente são usadas por equipes multidisciplinares foram apresentadas neste capítulo como a aplicação dos princípios da Teoria Cognitiva da Aprendizagem Multimídia e heurísticas de navegação e usabilidade.
No próximo capítulo, será realizada uma revisão da literatura sobre componentes do design que têm sido adotados por escolas, empresas, hospitais e variados tipos de organizações para conceber produtos, processos e serviços inovadores. Esses componentes foram sistematizados e organizados pela abordagem humanista do Design Thinking. Diante disso, serão apresentados os aspectos da abordagem que foram adotados nesta pesquisa como forma alternativa para conceber interfaces de AVA centradas no ser humano.