PARTE 2 – DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS COLETADOS NA
4.1 Fase exploratória: observar, ouvir, entender, definir
a) Etapa observar do Design Thinking
Este trabalho foi desenvolvido com base na “Definição do desafio estratégico”62: o uso do Design Thinking no contexto do Curso de Licenciatura em Ciências da USP/Univesp para conceber uma solução inovadora que esteja alinhada às necessidades de sujeitos envolvidos no ensino e na aprendizagem. Em seguida, iniciou-se a fase exploratória da coleta de dados com a adoção das proposições da ferramenta “Avaliar conhecimento preexistente”63. Para tanto, foram mapeadas as
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É a frase que explica o tema e contexto de um projeto que começa a ser desenvolvido a partir do Design Thinking e irá nortear a elaboração das perguntas que serão feitas nas etapas observar, ouvir e entender.
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informações gerais sobre o CLC do ponto de vista pedagógico (estrutura curricular, materiais didáticos, avaliação da aprendizagem etc.), tecnológico (ferramentas do AVA utilizadas, suporte técnico etc.) e de gestão (organização dos polos, atendimento ao aluno, organização das equipes de trabalho etc.).
Apontados os conhecimentos prévios sobre o objeto da pesquisa, foram aplicados os preceitos da ferramenta “Mentalidade de um iniciante-principiante”64 que levaram ao levantamento da maior quantidade possível de informações sobre diversos aspectos do curso. Assim, pelo acesso ao portal do CLC, a leitura do Projeto Político Pedagógico, Guia do Aluno, Orientações para Tutor entre outros documentos, foi possível estruturar alguns dados relacionados com a organização pedagógica do curso. A seguir, o AVA do curso foi acessado e, por meio da observação não participante, foi possível entender, entre outras coisas, qual era a estrutura de navegação, as ferramentas pedagógicas, comunicacionais e administrativas do AVA que eram adotadas no CLC. Além disso, ao navegar no
Moodle do curso, foi possível identificar as características do design gráfico das
interfaces, as disciplinas oferecidas, as mídias adotadas para disponibilizar os conteúdos, os canais de comunicação entre alunos e tutores etc. O uso dos métodos e ferramentas de Design Thinking foi primordial para iniciar o desenvolvimento da pesquisa a partir da aproximação com a realidade do curso.
b) Etapa ouvir do Design Thinking
Após a análise de documentos e observação assistemática não participante do AVA, ficou evidente que seria necessário conversar com pessoas envolvidas na realidade do CLC para que o tema da pesquisa fosse refinado. Seguindo as instruções encontradas nos métodos e ferramentas “Identifique pessoas com quem conversar (os stakeholders)” / “Usuários extremos”65, “Escolha dos métodos de pesquisa”66 e “Técnicas de entrevista/Preparação para entrevista empática”67 foi decidido, ainda na fase exploratória da coleta de dados, que seria necessário conversar informalmente com alguns tutores do curso. A opção por conversar com
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Aproximação da realidade das pessoas (stakeholders) impactadas pelo desafio estratégico sem julgar o contexto, as ações, as decisões ou problemáticas encontradas.
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Levantamento de informações dos sujeitos que serão objeto de pesquisa nas fases iniciais do DT. Esses participantes devem fazer parte dos diferentes grupos de usuários ou stakeholders.
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Definição dos métodos de pesquisa que serão usados durante a coleta de dados.
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Apresentação de técnicas de entrevista que permitem uma compreensão dos pensamentos, emoções e motivações dos stakeholders.
tutores advém do papel que desempenham no CLC, tendo em vista que mantêm contato com alunos, gestores (coordenador geral e coordenador de módulo), professores, equipe multidisciplinar de produção, equipe de helpdesk entre outros. Assim, considerou-se que os tutores são stakeholders que poderiam contribuir de forma relevante nesta fase da investigação por terem uma visão holística do curso.
Em virtude disso, após a apresentação do propósito desta pesquisa, foram realizados encontros informais e individuais com duas tutoras do polo de São Paulo. Durante as conversas – gravadas para consulta posterior – foram discutidos aspectos pedagógicos, tecnológicos e de gestão relacionados ao curso.
c) Etapa definir do Design Thinking
Lançando mão das orientações encontradas nas ferramentas “Extrair principais insights”68 e “Encontrando Temas”69 ficou evidente que os dados coletados na fase exploratória apontavam para uma demanda por propor soluções relacionadas ao AVA do Curso de Licenciatura em Ciências. Tais apontamentos advinham basicamente da observação do AVA e do relato das tutoras.
d) Etapa observar do Design Thinking
Constatou-se, pela observação assistemática não participante, realizada ao navegar nas interfaces do AVA, a dificuldade em localizar algumas informações e materiais do curso devido à quantidade de links e à complexidade do curso. Era o primeiro semestre de 2012 e os alunos do Módulo 1 cursavam, concomitantemente, oito disciplinas: 1) Fundamentos da Matemática: Revisão e Cálculo, 2) Dinâmica do Movimento dos Corpos, 3) Matéria: organização e transformações, 4) Luz e ondas eletromagnéticas, 5) Céu, 6) Estrelas, 7) Evolução das Ciências, 8) Laboratório Didático.
Ainda no primeiro semestre de 2012, os alunos do Módulo 3 cursaram ao todo dez disciplinas, ministradas em dois blocos bimestrais de cinco (5) disciplinas: 1) Ser vivo características gerais: biomoléculas e funções vitais, 2) Diversidade dos organismos: grupos de animais e plantas, 3) Fungos, bactérias e vírus, 4) Ciclos da natureza; Fotossíntese e cadeia alimentar, 5) História da vida no planeta, 6) A distribuição da vida no planeta; biomas; biodiversidade, 7) Bioenergética:
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Redação das ideias e insights que surgiram durante a coleta de dados.
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Compilação das informações coletadas explorando as semelhanças, diferenças, interelações e ordenando as ideias em categorias. Esta ferramenta propõe que se busque relações entre as categorias e que agrupe e reagrupe as informações coletadas.
transformações de energia nos seres vivos, 8) Estudo de modelos matemáticos pertinentes aos assuntos tratados neste módulo, 9) Fundamentos de Estatística Descritiva, 10) Introdução aos Estudos da Educação.
e) Etapa ouvir do Design Thinking
Durante a entrevista com uma das tutoras, na fase exploratória, foram destacadas algumas dificuldades relacionadas ao AVA do CLC: a) complexidade para lançar as notas dos estudantes; b) necessidade frequente do uso de ferramentas para se comunicar com estudantes e outros tutores que estão disponíveis em páginas web externas ao AVA; c) adoção de modelos pedagógicos distintos e ferramentas tecnológicas variadas nas disciplinas do curso.
Sobre este terceiro aspecto, a tutora esclareceu que alguns professores disponibilizam videoaulas semanais para os alunos além de textos de referência e materiais complementares. Outros professores optam por não gravar videoaulas pois preferem disponibilizar somente o texto de referência. Outros seguem um modelo educacional embasado na transmissão dos conteúdos e, durante as aulas, solicitam que os estudantes realizem, basicamente, atividades individuais. Afirmou, no entanto, que alguns docentes propõem trabalhos em grupo e, para tanto, adotam ferramentas como blog, chat e wiki. Segundo a tutora, isso é positivo, pois os professores têm a possibilidade de imprimir em sua disciplina o modelo pedagógico de sua preferência, entretanto, tal prática demanda o uso de diferentes ferramentas tecnológicas e, muitas vezes, confunde os estudantes que não conhecem as especificidades de determinadas ferramentas.
A segunda tutora entrevistada destacou que também enfrenta dificuldades no uso do Moodle. Para ela, a navegação no AVA não é intuitiva e seria interessante se houvesse mais imagens no ambiente. Destacou, ainda, que enfrenta dificuldade para lançar notas no AVA pois a interface do quadro de notas do Moodle é confusa.
A fala das tutoras chamou a atenção e corroborou com algumas constatações obtidas durante a observação: dificuldade de navegar no AVA, localizar informações e encontrar alguns materiais do curso e disciplinas. Além disso, ficou evidente que as interfaces do AVA do CLC, em grande parte, seguiam um dos padrões de layout do Moodle, são fortemente embasadas na comunicação textual e contam com poucas imagens.
f) Etapa entender do Design Thinking
A literatura aponta que interfaces de AVA que atendem aos critérios estabelecidos pelos princípios da Teoria Cognitiva da Aprendizagem Multimídia (TCAM) proposta por Clark e Mayer (2008), geralmente são mais bem aceitas pelos usuários (SANTOS; TAROUCO, 2007; FILATRO, 2008; CLARK; MAYER, 2008, SANTOS, G. A., 2012). Isso ocorre porque tais interfaces ajudam no balanceamento de cargas cognitivas e possibilitam que a memória de trabalho fique livre para se concentrar na aprendizagem de conteúdos do curso (SWELLER, 2003), conforme discutido no capítulo 2.
Assim, na etapa entender do DT quatro interfaces do Moodle referentes a quatro disciplinas do CLC ofertadas nos Módulos 1, 2, 3 e 4 em 2012 foram selecionadas aleatoriamente e analisadas: a) Módulo 1 – Fundamentos da Matemática 1 – aula 1; b) Módulo 2 – Eletromagnetismo – aula 2; c) Módulo 3 – Diversidade e Evolução de Fungos e Animais Invertebrados – aula 3; d) Módulo 4 – O ser humano e o meio ambiente – aula 470. A figura 4.2, disponível a seguir, apresenta uma das interfaces analisadas nesta etapa da pesquisa a partir dos princípios da Teoria Cognitiva da Aprendizagem Multimídia.
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As interfaces selecionadas são bastante semelhantes às interfaces de outras disciplinas do CLC ofertadas no ano letivo de 2012.
Figura 4.2 – Interface padrão de uma disciplina do Módulo 3 do CLC em 2012 Fonte: AVA Moodle do CLC, 2012.
O objetivo, naquele momento, não era realizar uma análise exaustiva das quatro interfaces selecionadas, uma vez que esta pesquisa coloca seu enfoque nas
contribuições do Design Thinking para concepção de interfaces de AVA. Aqui buscava-se identificar se as interfaces do Moodle do CLC, e a forma como os conteúdos foram organizados, atendiam aos princípios da TCAM e levavam em consideração aspetos da cognição humana que a literatura aponta como relevantes para melhorar as experiências de ensino e de aprendizagem em AVA (OVIATT, 2006; SANTOS; TAROUCO, 2007; FILATRO, 2008; CLARK; MAYER, 2008; RUIZ; CHEN; OVIATT, 2011; SANTOS, 2012). A seguir estão dispostos os resultados desta análise realizada na etapa entender do Design Thinking.
Princípio da TCAM Característica Análise das interfaces do Moodle do CLC Princípio da
representação múltipla (multimídia)
Prevê a disponibilização não apenas de textos, mas também de imagens.
Em todas as interfaces ficou evidente que o uso de imagens limitava-se a um banner disponível na parte superior da interface. A cada aula um novo banner era inserido com uma imagem relacionada ao título da aula. Os links para os recursos educacionais e atividades, dispostos na parte central da interface, estão vinculados a um pequeno ícone. Em geral, as interfaces do Moodle do CLC são bastante apoiadas em linguagem textual e o uso de imagens é reduzido.
Princípio da
proximidade espacial
Prevê que a proximidade entre imagens e palavras deve ser priorizada.
Nas interfaces analisadas, as imagens existentes, sempre estavam posicionadas próximas a palavras que tinham alguma relação com a imagem. Pode-se citar, como exemplo, o banner localizado no topo da interface que apresenta o título da aula da semana.
Princípio da proximidade temporal
Prevê o uso de imagens e palavras apresentadas simultaneamente em vez de sucessivamente.
As poucas imagens que compunham as interfaces analisadas sempre eram dispostas de forma simultânea com palavras (escritas, mas nunca narradas). É o caso dos ícones posicionados ao lado dos links para recursos educacionais e atividades das disciplinas. Princípio da
coerência
Prevê a exclusão de palavras, imagens ou sons não relevantes para os conteúdos do curso.
Nas interfaces analisadas, notou-se que era possível acessar ao Menu “Navegação” disposto no canto lateral esquerdo da interface. Tal menu é bastante extenso, e
ocupa um espaço considerável da interface,. Possui links denominados “Páginas do Site”, “PLC0022” e “Relatório”. Esses nomes, inicialmente podem confundir o usuário por não deixarem claro a que se referem. O mesmo pode ser dito sobre os dois outros menus posicionados no canto superior da interface, logo abaixo do banner que contém a logomarca da USP.
Princípio da redundância
Prevê que, quando duas fontes de informação similares (texto e imagem são representações visuais) que podem ser compreendidas
separadamente, não devem ser apresentadas juntas pois isso sobrecarrega a memória de trabalho.
Nas interfaces analisadas, os pressupostos desse princípio não foram identificados, uma vez que o uso de textos vinculados a imagens era limitado, conforme indicado anteriormente.
Princípio da Personalização
Explica a importância do AVA apresentar uma linguagem
contextualizada na realidade dos sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.
A linguagem textual das interfaces analisadas é formal, porém clara e objetiva. A linguagem visual das interfaces é embasada em texto e não em imagens e possui ícones semelhantes aos encontrados em smartphones71e tablets72.
Princípio da Segmentação Prevê que os conteúdos disponibilizados no AVA sejam segmentados em
Nas interfaces analisadas, os conteúdos das disciplinas foram segmentados em pequenas unidades de aprendizagem, denominadas “aulas”.
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Smartphones são telefones celulares que contém um sistema operacional que permite que tenham funcionalidades como de um computador e de equipamentos como máquina fotográfica, filmadora entre outros. Além de receber e fazer chamadas telefônicas o usuário pode navegar na internet, tirar fotos, filmar, usar calculadora, ouvir música etc. Segundo pesquisa divulgada em 2013 pela consultoria Nielsen, 84% dos brasileiros tem um celular e 3 em cada 10 tem um smartphone. Fonte: http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/3-em-cada-10-brasileiros-sao-donos-de-smartphones
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Tablets são dispositivas tecnológicos, em formato de prancheta, que possuem as funções de um computador. Neles o usuário pode acessar a internet, assistir vídeos, tirar fotos, ler revistas, organizar sua agenda pessoal e baixar aplicativas com diversas funções.
pequenas unidades de aprendizagem.
Quadro 4.1 – Análise das interfaces do Moodle do CLC a partir dos princípios da TCAM Fonte: Autora desta investigação
Nessa análise inicial, realizada a partir da TCAM, ficou evidente que as interfaces do AVA do CLC diferiam de algumas diretrizes estabelecidas nos princípios da teoria, especialmente no que se refere a: 1) uso limitado de imagens, especialmente conjugadas a textos – narrados ou escritos; 2) grande quantidade de informações disponíveis em cada interface o que sobrecarrega a memória de trabalho (SWELLER, 2003) e dificulta a usabilidade do AVA (FILATRO, 2008; SANTOS, G.A., 2012, MATOS, 2013). Esses dados iniciais ajudaram a reforçar a hipótese que o AVA do curso poderia ser um campo relevante para condução da pesquisa pela adoção do Design Thinking.
g) Etapa definir do Design Thinking
A fase exploratória da coleta de dados foi finalizada com o uso da ferramenta
Definição do enunciado do problema73 que possibilitou definir que na pesquisa seriam concebidas, a partir da aplicação da abordagem do Design Thinking, interfaces para o AVA para CLC que fossem centradas nos seres humanos envolvidos no processo ensino-aprendizagem: estudante, professor e tutor.
Para ter certeza da relevância da proposta, foi preciso aplicar a primeira lente do Design Thinking indicada pela IDEO: desejo dos usuários. Assim, seria necessário voltar a campo para entender, observar e ouvir um número maior de
stakeholders que pudessem relatar suas necessidades e expectativas em relação ao
AVA do CLC.