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Dizeres que remetem a ethos de franqueza são recorrentes no que A enuncia sobre si mesmo, portanto, formam-se ethé ditos. O ethos de franqueza também passa pela dimensão experiencial. Levando em consideração sujeitos em idade escolar, a franqueza como caracterização sociopsicológica, remete, primeira e frequentemente, às crianças. A esse respeito, é sintomático o topos que as associa à pureza, à inocência e, consequentemente, a uma expressão franca – “criança não mente”. Em relação aos adolescentes, o estereótipo varia mais. A ideia de pureza decresce. A adolescência é, frequentemente, associada à fase de perda da inocência. Daí poder-se pensar em “adolescentes folgados”, “espertos”, “malandros”. Mas o imaginário produz, simultaneamente, imagens contrastantes que, de alguma forma, são extensão maculada da pureza atribuída à criança. Tem-se, pois, a imagem do adolescente que expressa sua opinião e, portanto, é “atrevido”, “insolente”, “orgulhoso”, mas, por ser tudo isso, é sincero.

Fora do âmbito de pesquisa, a leitura não especializada do diário de A pode estimular a ideia de franqueza como característica da personalidade do autor. Sem que tal imagem seja completamente ofuscada, o contexto da intervenção traz outra via de interpretação do ethos, por meio da qual os textos de A apresentam potencial para formar a imagem mental- discursiva do participante-escrevente que produz seu diário levando em consideração as recomendações do roteiro de leitura e outras dadas no decorrer da intervenção. Autonomia autoral é o lastro dessas recomendações; escrever/enunciar com franqueza, uma de suas consequências possíveis. Portanto, enunciados que parecem resultar do esforço para a verdade leva a pensar no participante-escrevente que, seguindo as recomendações, faz-se autônomo no

processo de autoria. Acerca da relação entre gêneros íntimos e a franqueza, Bakhtin ([2010] 1979, p. 304) discute:

Os gêneros e estilos íntimos se baseiam na máxima proximidade interior do falante com o destinatário do discurso (no limite, como que na fusão dos dois). O discurso íntimo é impregnado de uma profunda confiança no destinatário, em sua simpatia – na sensibilidade e na boa vontade de sua compreensão responsiva. Nesse clima de profunda confiança, o falante abre as suas profundezas interiores. Isso determina a expressividade específica e a franqueza interior desses estilos (diferentemente da barulhenta franqueza de rua do discurso familiar).

Provavelmente, os gêneros íntimos comentados pelo pensador russo não são escritos, mas orais, como interações verbais entre poucas pessoas. Ao mesmo tempo, o diário de leituras não seria propriamente um gênero que resguarda o mesmo nível de intimidade quanto o diário íntimo ou pessoal, por exemplo. Sobretudo, porque, em nosso caso específico, é parte de uma intervenção didática, o que talvez reduza ainda mais a atmosfera de intimidade. Ainda assim, os traços de diário íntimo, reunidos à expressão de franqueza, que se materializam no diário de leituras fazem pensar como é sintomático o que diz Bakhtin. Destacamos abaixo, em sublinhas, ethé ditos que espelham ethos de franqueza:

(26) Logo que li o título, pensei que o texto fosse exatamente o contrário do que ele é.

(27) Mas confesso que fiquei surpreso ao ler o subtítulo. “Curtir cada dia como se fosse o último é uma filosofia furada” é uma frase impactante, talvez tenha sido ela que me prendeu ao texto com tanta atenção. É muito bom e cada vez mais frequente ver textos que contradizem a opinião geral, textos que às vezes são um tapa na cara que corrige de verdade. Não preciso mais ter as mesmas opiniões dos outros, tenho senso crítico, moral e inteligência pra interpretar o mundo da maneira que eu quiser. ( [26] e [27] são recortes do texto de A sobre a reportagem Curtir cada dia como se fosse o último é uma

filosofia de vida furada).

Em (26), o autor assume um equívoco; em (27), reconhece que ficou surpreso, pontuando em que momento da leitura se enganou. Nesse mesmo enunciado, atribui qualidade ao texto lido quando admite que uma frase inicial reteve sua atenção, além de elogiá-lo por ser, em sua visão, contrário à opinião geral. Ainda em (27), ao final, fica sugerido que o texto lido, de alguma forma, influenciou A positivamente, pois o autor do diário, logo após elogiar o que leu, volta-se sobre si para reconhecer, firme e diretamente, suas qualidades pessoais e sua autonomia de interpretação e opinião. A impressão é de que a percepção positiva sobre si

próprio está relacionada à leitura da reportagem. Em síntese, assunção do equívoco e posterior concordância com o texto lido são expressões que nos fazem entrever ethos de franqueza. Devido ao traço confessional, é entonação comum em diários íntimos. Em se tratando de diários, a cena genérica é a priori plástica, o que significa que frações cenográficas exógenas podem compor os textos. No diário de leituras de A, traços cenográficos de diário íntimo são materialidades aglutinadoras do que é da ordem das cenas genérica e englobante. Como o diário íntimo é diferente do de leituras, o movimento de regularidades do primeiro para o segundo corresponde a uma relação entre gêneros. Assim, a perceptibilidade da cena genérica aumenta. Em concomitância, por se tratar de diário íntimo na relação com o de leituras, é o discurso da escrita de si que se materializa nas frações cenográficas exógenas no diário de A. Portanto, o nível cenográfico remete também à cena englobante, a do discurso. É mais um exemplo de como o diário de leituras pode ser heterogêneo.

Dizemos ‘frações’ porque observamos que, nos diários, as cenografias exógenas não necessariamente compõem os textos na íntegra. Trata-se de característica que ajuda a impedir que se confunda o diário com aquilo que é importado de outros tipos de texto, mesmo que essas frações cenográficas se configurem como passagens, que, por vezes, mesclam-se ou se intercalam com outras sequências. Assim sendo, o diário de leituras, por causa de sua fragilidade composicional, absorve, sem muitos entraves, traços enunciativos e composicionais de outros gêneros. Em especial, as diferentes modalidades de diário se interpenetram ainda mais facilmente. Isso não significa que atravessamentos manifestos de uma modalidade de diário pela outra seja consistentemente regular.

Chamamos a atenção para as avaliações e comentários sobre o texto lido. Essas sequências estão entre os poucos traços composicionais que são consistentes no gênero diário de leituras. Apesar de toda a abertura enunciativo-discursiva, não haveria por que chamá-lo diário de leituras se não fossem os textos lidos. No diário, eles são objeto do discurso. Em nossa pesquisa, um dos autores, em alguns dos escritos, sequer menciona o texto lido. Ainda assim, é possível senti-lo em função da heterogeneidade constitutiva (AUTHIER-REVUZ, 2004 [1982]) no diário: a temática da leitura migra para a escrita do diário, os comentários e avaliações sobre o conteúdo do texto lido permanecem, mesmo sem referência direta e objetiva. No caso desse mesmo autor, a dialogicidade entre diário e texto cedido à leitura se mantém, pois este se dilui naquele.

Assim sendo, as frações exógenas de diário íntimo não são as únicas sequências que se materializam como cenografia. O diário de A é do mesmo modo composto por sequências com caráter avaliativo-argumentativo, que materializam juízos de valor, críticas e comentários.

Em matéria de ethos, são estes alguns dos tipos de enunciado que contribuem para perfilar o autor do texto não só a partir da dimensão experiencial, ponto central desta seção, mas também a partir da dimensão categórica e de seus papéis discursivo e extradiscursivo: o participante- escrevente da intervenção é aquele que desempenha o papel do que avalia, analisa, julga o texto lido fornecido durante a intervenção didática. Disso decorre que A pode ser aceito como sujeito crítico e avaliador.

Em (26) e (27), os ethé ditos que remetem à franqueza, comum em diários íntimos, não são os únicos fatores de constituição cenográfica. Nesses enunciados, a cenografia é moldada, também, por sequências tendencialmente argumentativo-avaliativas. Essas sequências podem comportar juízos de posicionamento27 entrecruzados com dizeres típicos da escrita de si 28. Nos enunciados em pauta, a mesma composição enunciativa de A envolvendo franqueza agrega juízos acerca do texto lido. Um exemplo em (27) é: “Mas confesso que fiquei surpreso ao ler o subtítulo. ‘Curtir cada dia como se fosse o último é uma filosofia furada’ é uma frase impactante, talvez tenha sido ela que me prendeu ao texto com tanta atenção. É muito bom e cada vez mais frequente ver textos [...]”. Assim, é possível ter uma ideia de quão estreitamente diferentes ethé, para um só autor, podem se relacionar no diário de leituras. Nos exemplos abaixo, o acionamento da franqueza mediante o ethos dito se soma à tendência estilística capaz de produzir humor:

(28) Essa expressão significa que eu estou completando algo com coisas desnecessárias ou desimportantes. Vish, hoje não é meu dia. (Sobre a reportagem Americano vive sem dinheiro há 15

anos… e diz que nunca foi tão feliz!).

(29) Eu sei que isso não tem nada a ver com o que falava no início, mas eu estou com muita preguiça e vai ser isso aí mesmo. Poder ao povo. Vai, planeta! Adeus, mundo cruel. Sigam-me os bons. (Sobre a entrevista Ninguém precisa abandonar a tecnologia, mas é necessário experimentar momentos de

desconexão).

Em (28) e (29), o ethos dito acionado se aproxima do que Maingueneau (2016b, p.17) denomina ethos dito verbal, aquele “[...] que se refere às propriedades da própria enunciação (‘minha fala é severa’; ‘eu vos falo do fundo do meu coração’)”. É relevante apontar tais ocorrências para que se fortaleça a percepção da diversidade de ethé no diário. Do mesmo modo, cumpre observar em (28) e (29) como o sujeito, também inscrito no discurso pedagógico,

27 Seção 5.1. 28 Seção 3.1.

fornece pistas de contraposição a esse discurso. Mas não é exatamente em relação a dizeres específicos do discurso pedagógico que A marca distância. O distanciamento acontece em relação ao próprio sentido da interpelação: “Vish, hoje não é meu dia” e “Eu sei que isso não tem nada a ver com o que falava no início, mas eu estou com muita preguiça e vai ser isso aí mesmo”, de (28) e (29) respectivamente, parecem reações-resposta aos imperativos do discurso pedagógico, que, afinal, não é absolutamente anulado pelo diário, mesmo com toda a abertura enunciativa deste último. Apesar disso, é por meio do próprio diário que A indica, com os implícitos, nos enunciados, o contraste em relação à ordem do discurso pedagógico. “Vish, hoje não é meu dia” permite, por exemplo, produzir, complemento inferencial como “ de escrever nesse diário”. À parte diário e intervenção, se as relações de poder fossem menos desiguais na escola, com liberdade para o aluno expressar seus pensamentos, por que não supor situações em que seus enunciados desatassem inferências do tipo: “de fazer as atividades para casa”, “de escutar o professor”?. Seguindo esse mesmo esquema, a partir de “[...] estou com muita preguiça e vai ser isso aí mesmo” em (29), é complemento inferencial “mesmo que não tenha ficado bom”. Estendendo isso à situação escolar simulada, temos: “mesmo que o professor não goste”, “mesmo que eu seja repreendido”, entre outras inferências similares, que, no caso do diário, nutrem o ethos de franqueza do autor.