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6.2 ANALISANDO OS RESULTADOS

6.2.2 Dimensão Social

Como tornar a maricultura catarinense mais sustentável, garantindo os ganhos de produtividade aquícolas atuais? Esta parece

constituir uma questão de peso, sobre a qual todos interessados no desenvolvimento devem se debruçar.

Para se entender os aspectos da dimensão social associada às políticas públicas, é importante discorrer sobre os significados dessas palavras, e seus desdobramentos na comunidade.

Conforme Sorrentino et al. (2005), a palavra política origina-se do grego e significa limite. Dava-se o nome de polis ao muro que delimitava a cidade do campo; só depois se passou a designar polis o que estava contido no interior dos limites do muro. O resgate desse significado, como limite, talvez nos ajude a entender o verdadeiro significado da política, que é a arte de definir os limites, ou seja, o que é o bem comum (GONÇALVES, 2002). Para Arendt (2000), a política tem por função a conciliação entre pluralidade e igualdade. Quando entendemos política a partir da origem do termo, como limite, não falamos de regulação sobre a sociedade, mas de uma regulação dialética sociedade-Estado que favoreça a pluralidade e a igualdade social e política.

A noção de desenvolvimento não se impõe somente como evidente, mas também como universal. O desenvolvimento é um bem para todos os lugares. As originalidades se exprimem e se fortificam, aparecendo as características singulares dos povos e das culturas (ALMEIDA, 1997).

Como comenta Veiga (1996), há de se notar que, em qualquer sociedade ‘dividida’ a arena social é determinada por múltiplos conflitos internos que refletem profundos interesses divergentes. Portanto, estudar a comunidade é estudar o universo das práticas sociais localizadas (VEIGA, 2003). Com o estudo da organização social é possível entender a lógica da família no funcionamento agrícola e na tomada de decisão. Segundo Carmo (20--) o funcionamento de uma exploração familiar passa necessariamente pela família enquanto elemento básico de gestão financeira e do trabalho total disponível internamente na unidade do conjunto familiar. Os aspectos sociais contribuem para a transformação do meio, ressalta o saber fazer, as informações e experiências, contingentes importantes para o estabelecimento e evolução da comunidade.

Pode-se pontuar que, mais do que oferecer serviços sociais, as ações públicas, articuladas com as demandas da sociedade, devem se voltar para a construção de direitos sociais (HÖFLING, 2001).

Para Bartle (2009), não se trata de realizar pesquisas sobre sua organização social que visem somente ao conhecimento. É preciso saber quais aspectos da comunidade influem na escolha da estratégia de

desenvolvimento, e, portanto, no resultado final do trabalho. Na pesquisa buscou-se observar os aspectos do funcionamento da organização social, e quais estruturas sociais, padrões e processos a constituem.

É importante ressalvar que políticas públicas são aqui entendidas como o “Estado em ação” (Höfling, 2001, citando Gobert; Müller, 1987); é o Estado implantando um projeto de governo, através de programas, de ações voltadas para setores específicos da sociedade.

Segundo Trigo et al. (1994), os aspectos sociais dentro de uma comunidade implicam uma perspectiva, um critério geral no que se refere às relações básicas da organização social, mais do que um conjunto concreto e específico de ações a serem empreendidas por indivíduos ou organizações públicas e privadas de uma sociedade em particular.

Para Assad e Almeida (2004), tem-se que considerar a capacidade da agricultura, e da aquicultura, de gerar empregos diretos e indiretos, e de contribuir para a contenção de fluxos migratórios, que favorecem a urbanização acelerada e desorganizada. Encontra-se, portanto, o desafio em adotar sistemas de produção que assegurem geração de renda para o trabalhador rural e que ele disponha de condições dignas de trabalho com remuneração compatível com sua importância no processo de produção. Considera-se que, o contexto social não é uma externalidade de curto prazo do processo produtivo e, portanto, do desenvolvimento, sendo necessário construir novos padrões de organização social da produção por meio da implantação de reformas compatíveis com as necessidades locais e da gestação de novas formas de estruturas produtivas.

Acredita-se que, ao lado da dimensão ecológica, a dimensão social represente precisamente um dos pilares básicos da sustentabilidade, uma vez que a preservação ambiental e a conservação dos recursos naturais somente adquirem significado e relevância quando o produto gerado nos agroecossistemas, em bases renováveis, também possa ser equitativamente apropriado e usufruído pelos diversos segmentos da sociedade (COSTABEBER; CAPORAL, 2003).

Já conforme Chambers e Conway (1992), para se fazer completa, a sustentabilidade ambiental tem que ser complementada pela sustentabilidade social. Sustentabilidade social, de acordo com esses autores, se refere não somente ao que o ser humano pode ganhar, mas à maneira como pode ser mantida decentemente sua qualidade de vida.

Nessa perspectiva, na dimensão social foram considerados cinco aspectos/variáveis: a) Saneamento básico; b) Acesso as mídias de

comunicação; c) Qualificação profissional; d) Associativismo; e) Condições de trabalho; verificou-se uma diferença considerável entre as diferentes visões: o Indicador de Condições Sociais (ICS) com 0,43, que denota a opinião do técnico/especialista sobre as propriedades pesquisadas, e o Indicador de Satisfação Social (ISS) igual a 0,60, apontando o julgamento dos maricultores sobre sua situação social.

Atribuindo-se significância à diferença, destacar-se-ia novamente um olhar mais crítico do técnico em relação à realidade social vivenciada pelo maricultor, comparada àquela que os maricultores percebem. Nessa dimensão destacam-se vários pontos importantes como, o saneamento básico. Um ponto muito positivo, que mostra a preocupação dos produtores com as águas de cultivo é que todos os maricultores possuem fossas sépticas no tratamento do esgoto doméstico nas quais são feitas a separação e a transformação físico-química da matéria sólida contida no esgoto. É uma maneira simples e barata de disposição dos esgotos. Todavia, o baixo índice de tratamento dos dejetos é uma esfera negativa para o estado de Santa Catarina de maneira geral, já que Florianópolis apresenta um índice baixo de rede de esgoto, de 45,14%, (ESGOTO..., 2008) em pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas em parceria com o Instituto Trata Brasil e Ministério das Cidades.

Nesse momento, procurou-se observar os principais aspectos da tecnologia da comunidade. Como cada variável tecnológica afeta a comunidade e sua capacidade de ser auto-suficiente. Uma vez que, Bartle (2009), relata que é fundamental observar se é fácil ou difícil introduzir novas tecnologias na comunidade, levando-se em conta também, em que ritmo elas se modificam, que ferramentas são utilizadas pela comunidade. Cabe notar ainda quais recursos dispõe a comunidade. Se há telefones, celulares, internet, rádio, televisão, e, que parte da população estudada tem acesso a cada um deles.

Outro aspecto relevante foi quanto ao acesso às mídias de comunicação. Os entrevistados disseram estar satisfeitos com o serviço de telefonia fixa e telefonia móvel, porém mostraram-se insatisfeitos quanto ao serviço de internet, pois na região do Ribeirão da Ilha a banda larga não está disponível e só há internet discada, o que torna o acesso muito lento. Os maricultores gostariam de poder acessar com mais facilidade a internet para pesquisar a previsão do tempo, as condições das marés e os laudos técnicos das áreas de cultivo disponibilizados também no site da EPAGRI.

No aspecto qualificação profissional, os maricultores mostram-se interessados em participar de mais cursos, para manterem-se

atualizados. Os técnicos da EPAGRI disponibilizam cursos, mas conforme relato dos entrevistados esses eventos vem tornando-se cada vez mais escassos. Quanto as habilitações para trabalho, variável também social, dos 21 entrevistados, apenas 12 possuem carteira de pescador, e menor ainda é o número de maricultores que tem carteira de habilitação para navegação, apenas 4.

Os entrevistados gostariam que houvessem cursos mais atualizados, principalmente de administração de microempresas, assim como os que apresentassem mais inovações de mercado e cursos que oferecessem habilitação para navegação. Pode-se observar que os maricultores enaltecem a troca de informações com outros produtores, e a aprendizagem com as experiências vivenciadas ao longo dos anos, isto é, valoriza-se o saber fazer.

Todavia, os produtores de ostras mostram criatividade no manejo da criação e na maneira de produzir. Um dos produtores acrescenta vinagre nas fases iniciais de cultivo, ou seja, nas sementes, para que quando em fase adulta, as conchas tenham aspecto mais branco, com menos impurezas. Outro exemplo de capacidade de criar é de um produtor que arquitetou uma embarcação diferente, que se constitui em uma plataforma motorizada, que facilita a retirada das lanternas das fazendas de cultivo, por não apresentar beiradas, similar a uma balsa.

Aqui cabe mencionar o impacto das políticas numa determinada comunidade, como elucida Höfling (2001) as políticas sociais se referem a ações que determinam o padrão de proteção social implementado pelo Estado, voltadas, em princípio, para a redistribuição dos benefícios sociais visando à diminuição das desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico.

Outro ponto muito significante na dimensão social diz respeito à variável associativismo. Todos os entrevistados exprimiram querer mudanças nas associações hoje existentes. Acreditam que há alguns anos atrás, cerca de 10 anos, as associações eram melhor administradas e mais articuladas, por isso atualmente houve uma diminuição no número de associados.

Mesmo existindo contornos organizacionais na forma de associativismo como a Cooperilha e AMASI (Associação dos Maricultores do Sul da Ilha) da qual a maioria é participante, 16 dos 21 entrevistados. Os maricultores almejam que cada vez mais o movimento associativista ganhe expansão, sendo considerada uma mais valia no desenvolvimento da comunidade do Ribeirão da Ilha. Por um lado, isso reflete o comportamento social dominante nas próprias comunidades, mas principalmente o anseio dos entrevistados é que o associativismo da

localidade seja visto como uma forma de juntar interesses comuns, defendendo pontos de vista de forma global.

Segundo relato dos produtores a AMAQUARI (Associação de Maricultores do Ribeirão) tem se mostrado mais atuante do que a AMASI, uma vez que há desentendimentos entre os maricultores associados. A Federação das Empresas de Aquicultura (FEAQ), também se mostra bem participativa, porém são associados à federação os produtores que possuem empresa ou micro empresa registradas. Na pesquisa foram atribuídas boas notas para os participantes de mais de uma associação. A maioria dos entrevistados, 14 maricultores, proferiu notas ruins e muito ruins, expondo que querem mudanças nas associações.

Por fim, a variável condições de trabalho também se torna um ponto importante a ser considerado. Todos os maricultores entrevistados usam macacões, luvas e botas para o trabalho cotidiano, porém nem todos os EPI’s são utilizados. Não foi constatado uso de coletes salva vidas, nem preocupação com requisitos ergonômicos. Dos 21 entrevistados nenhum relatou que já teve acidentes no mar, porém 10 já sofreram ou sofrem por dores provocadas por lesões possivelmente causadas por LER/DORT, gerada pelo esforço feito no manejo das lanternas das ostras na fase final. Essas lanternas tem cerca de 5 andares, e tem de 40 a 50 ostras por andar.

Estudando os aspectos sociais, que influem diretamente na comunidade, e, a partir de uma visão agroecológica, percebemos que cada organismo se desenvolve dentro do contexto de um sistema maior em desenvolvimento; uma vez que se podem interpretar sistemas complexos que foram desenvolvidos com pessoas fazendo parte do processo e não como máquinas com características universais que operam à parte de pessoas, vendo assim os seres como parte dos sistemas locais em desenvolvimento (ALTIERI, 1989).

Assim, os aspectos na dimensão social foram analisados a partir do acesso aos bens duráveis, e ao cotidiano de trabalho, que são importantes como indicadores de progresso material e nas melhorias das residências, por levarem a uma melhor condição para se viver.