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3.1 SOBRE QUALIDADE DE VIDA

3.1.1 O que é Qualidade de Vida?

Qualidade de vida e bem-estar sempre foram temas discutidos pelo ser humano, porém, com o decorrer do tempo e com as mudanças culturais que envolvem a sociedade, os termos ganharam conotações diferentes. Atualmente se sabe que essa qualidade é relativa e varia de pessoa para pessoa. Há, no entanto, um senso comum ou uma convergência que leva a esse benefício, independente da cultura, religião ou classe social.

O que é precisamente qualidade de vida, e qual seria o grau de prioridade desta discussão em um país onde milhões de pessoas não têm suas necessidades básicas atendidas? Herculano (2000) levanta outras questões pertinentes, como se a definição de qualidade de vida levaria em conta aspectos subjetivos e suas variações culturais. Ou seria a qualidade de vida algo subjetivo para que pudesse se constituir em objeto de estudo? Seria uma questão puramente adjetiva, de grau, um valor meramente subjetivo, fora, portanto, do campo científico? Seria

um luxo (como supõe a publicidade em geral, vinculando qualidade de vida a requinte e sofisticação, ao "detalhe que faz a diferença"), e, consequentemente, algo supérfluo diante de questões mais substantivas, como garantir um "patamar mínimo de dignidade e de condição humana"? Mas, qual é este patamar e como defini-lo? Como determinar as "necessidades básicas"? E quem as determina? Pressupor que o debate sobre qualidade de vida excede ao debate prioritário sobre o fim da miséria não seria mais uma discriminação que perpetuaria a desigualdade e injustiça sociais? O significante dentro de todas as discussões é que qualidade de vida não deve ser confundida com padrão de vida, uma medida que quantifica a qualidade, quantidade de bens e serviços disponíveis.

Para Nobre et al. (1994), é mais uma questão de qualidade a ser buscada dentro dos programas de qualidade total dentro das empresas. É o tempo no trânsito e as condições de tráfego, entre o local de trabalho e de moradia. É a qualidade dos serviços médico-hospitalares. É a presença de áreas verdes nas grandes cidades. É a segurança que nos protege dos criminosos. É a ausência de efeitos colaterais de medicamentos de uso crônico. É a realização profissional. É a realização financeira. É usufruir do lazer. É ter cultura e educação. É ter conforto. É morar bem. É ter saúde. É amar. É, enfim, o que cada um de nós pode considerar como importante para viver bem.

O fato é que as pessoas buscam incessantemente satisfazer-se. Ao longo da história, principalmente nas últimas décadas, o comportamento humano mostra que as relações que tem estabelecido consigo mesmo, com os outros e com o restante da natureza, na busca do prazer imediato, tem degenerado as condições para viver. Isso nos revela que não só a qualidade do viver dos indivíduos está sendo comprometida, mas também a própria sobrevivência de muitos seres. Alguns sintomas dessa degradação são poluição do ar e da água, má distribuição da renda e de outros recursos, fome, desaparecimento de etnias e de espécies animais e vegetais.

São propostas várias maneiras de se mensurar a qualidade de vida de uma determinada população. Pode-se, avaliar os recursos disponíveis, ou a capacidade efetiva de um grupo social para satisfazer suas necessidades. Podemos analisar as condições de saúde pela quantidade de leitos hospitalares e número de médicos disponíveis, por exemplo, ou analisar o grau de instrução pelo número de escolas na região, níveis de escolaridade atingidos, periódicos publicados; podemos também avaliar as condições ambientais pela quantidade de coliformes e partículas de substâncias nocivas em suspensão nas águas que abastecem a região,

pela emissão aérea de poluentes, potabilidade da água, pela quantidade de domicílios conectados às redes de abastecimento de água e de esgotamento sanitário, pela dimensão per capita de áreas verdes e espaços abertos urbanos disponíveis para amenizar a paisagem cinza do concreto e asfalto urbanos, entre outros itens.

Outro modo de estimar a qualidade de vida numa determina localidade, é avaliar as necessidades, através dos graus de satisfação e dos patamares desejados. Podemos, assim, tentar mensurar a qualidade de vida pela distância entre o que se deseja e o que se alcança, ou seja, pelos estágios de consciência a respeito dos graus de prazer ou felicidade experimentados (NUSSBAUM; SEN, 1993); ou a partir de um julgamento proposto, feito pelo próprio pesquisador, sobre o que tornaria a vida melhor.

O importante é que, em todos os aspectos, devemos considerar que a definição do que é qualidade de vida variará em razão das diferenças sociais, individuais, e culturais e pela acessibilidade às inovações tecnológicas. A diferença entre o que temos e o que queremos tende a existir sempre. A história registra exemplos de nações e governos que fecham fronteiras, impondo e contendo padrões culturais, em fórmulas ditatoriais que se revelaram causadoras de infelicidades pela desconsideração dos direitos individuais e pela imposição de limites e de padrões às individualidades.

Diener e Suh (1997) comentam que, ao nos confrontarmos com o tema qualidade de vida e seus efeitos sobre uma sociedade bem sucedida, nos deparamos com um assunto que de certa forma afronta o relativismo cultural. Se as sociedades têm diferentes conjuntos de valores, as pessoas podem considerar diferentes critérios relevantes para julgar o sucesso de sua sociedade. Em uma comunidade pode ser mais importante a prosperidade econômica, por exemplo, enquanto em outro local o amor pode ser considerado mais importante. Assim, as pessoas em várias nações podem considerar sua própria sociedade melhor que outras porque se usam critérios diferentes para determinar um bom desempenho. O conceito do relativismo cultural aponta para a necessidade de normas internas, quando julgamos sociedades; emerge a questão: são os cidadãos capazes de realizar seus objetivos e idealizar valores e, portanto, julgar as suas próprias vidas e a da comunidade para ser bem sucedido, baseado em seus próprios padrões?

Diante dessa abordagem, Diener e Suh (1997) refletem que uma cultura de sucesso é aquela que possui valores e objetivos conquistados. Porque as pessoas que não conseguem definir seus valores e atingir seus objetivos tendem a ser menos satisfeitos e felizes, é provável, portanto,

que as medidas de bem-estar subjetivo, de certa forma, representem um julgamento da cultura de uma perspectiva interna, a partir do ponto de vista dos membros da sociedade que vivenciam tal realidade. Assim, se analisarmos vários aspectos do bem-estar subjetivo, como por exemplo, se as pessoas acreditam que estão vivendo corretamente, se gostam de suas vidas, se acham que é importante viver bem, se possuem senso de realização; podemos ter um conjunto de medidas através das quais podemos comparar o sucesso das sociedades. Em outras palavras, a subjetividade do bem-estar pode representar o grau no qual as pessoas em cada sociedade estão realizando seus objetivos e alcançando os valores que prezamos.

Quanto mais aprimorada a democracia, mais ampla é a noção de qualidade de vida, o grau de bem-estar da sociedade e de igual acesso a bens materiais e culturais (MATOS, 1999). De certa forma podemos dizer que o termo qualidade de vida é uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Implica na competência de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar (MINAYO; HARTZ; BUSS, 2009).

O termo abrange muitos significados, que refletem conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e coletividades que a ele se reportam em variadas épocas, espaços e histórias diferentes, sendo, portanto uma construção social com a marca da relatividade cultural. Auquier, Simeoni e Mendizabal (1997) a qualificam como um conceito equívoco como o de inteligência, ambos dotados de um senso comum variável de um indivíduo ao outro. Já Martin e Stockler (1998) sugerem que qualidade de vida seja definida em termos da distância entre expectativas individuais e a realidade, sendo que quanto menor à distância, melhor.

A relatividade da noção, que em última instância remete ao plano individual, tem pelo menos três fóruns de referência. Conforme Minayo, Hartz e Buss (2009), o primeiro é histórico; isto é, em determinado tempo de seu desenvolvimento econômico, social e tecnológico, uma sociedade específica tem um parâmetro de qualidade de vida diferente da mesma sociedade em outra etapa histórica. O segundo seria cultural, onde os valores e necessidades são construídos e hierarquizados diferentemente pelos povos, revelando suas tradições. O terceiro e último aspecto se refere às estratificações ou classes sociais. Os estudiosos que analisam as sociedades em que as desigualdades e heterogeneidades são muito fortes mostram que os padrões e as

concepções de bem-estar são também estratificados: a ideia de qualidade de vida está relacionada ao bem-estar das camadas superiores e à passagem de um limiar a outro.

Pode-se dizer ainda, que o relativismo cultural é preconizado pelo mundo ocidental, urbanizado, rico, polarizado por certo número de valores, que poderiam ser assim resumidos: conforto, prazer, boa mesa, moda, utilidades domésticas, viagens, carro, televisão, telefone, computador, uso de tecnologias que diminuem o trabalho manual, consumo de arte e cultura, entre outras comodidades e riquezas.

Com o crescimento do movimento ambientalista em meados da década de 1970, juntaram-se à noção de conforto, bem-estar e qualidade de vida com a perspectiva da ecologia humana, que trata do ambiente biogeoquímico, no qual vivem o indivíduo e a população; e o conjunto das relações que os seres humanos estabelecem entre si e com a própria natureza. Esse conceito se apoia na ideia de excelência das condições de vida e de sustentabilidade (SEN, 2001). Questiona as condições reais e universais de manutenção de um padrão de qualidade de vida fundado no consumismo e na exploração da natureza que, pelo seu elevado grau de destruição, desdenha a situação das gerações futuras, desconhece a cumplicidade de toda a biosfera e não é replicável.

Por certa perspectiva pode-se dizer que, o objetivo do desenvolvimento de uma comunidade deve ser o de melhorar a qualidade de vida dos seres humanos, permitindo-lhes a realização de uma vida digna e satisfatória. Porto-Gonçalves (2002) expõe que há um erro epistemológico que os ambientalistas cometeram com relação aos modelos de desenvolvimento, pois abandonaram a racionalidade crítica que faziam nos anos 60, como ideias de progresso e desenvolvimento, e começaram a falar de ecodesenvolvimento e de desenvolvimento sustentável, o que trouxe graves consequências políticas.

Se o desenvolvimento que havia antes não era sustentável, para que servia então? Todo desenvolvimento nacional, para ser genuíno, deveria automaticamente ser sustentável. Ao desenvolvimento adicionaram-se adjetivos como sustentável, integral ou socioeconômico para compensar sua tradicional ênfase materialista- economicista. Adjetivos que visam recuperar o que nunca deveria ter-se perdido ou unir o que nunca deveria ter sido separado (SERRÃO, 2003, p.4)

Portanto, é importante que se faça uma análise acertada entre os aspectos políticos, ambientais, biológicos, sociais, econômicos e culturais para compreender a qualidade de vida de uma dada população; sendo esta relevante para que se possam tomar medidas que deem condições dignas de vida à população.

Segundo Troppmair, Verona e Galina (2003):

[...] o meio ambiente, conforme as prioridades dos seus elementos, produz uma qualidade ambiental que pode ser maléfica ou benéfica para a nossa vida. Assim, entendo por sadia, ou boa qualidade de vida, os parâmetros físicos, químicos, biológicos, psíquicos e sociais que permitam o desenvolvimento harmonioso, pleno e digno da vida (TROPPMAIR; VERONA; GALINA, 2003, p.95)

Mazetto (1996) ressalta que “[...] a qualidade de vida não pode estar restrita à natureza e ao ecossistema, pois engloba elementos da atividade humana com reflexos diretos na vida do homem.”

Haja vista tais considerações percebe-se que, é complexo definir qualidade de vida, bem como os seus padrões e seus indicadores, pois neles estão contidos fatores subjetivos, que levam em conta a percepção que o indivíduo tem em relação ao seu ambiente e ao seu próprio modo de vida. Além disso, existem os fatores objetivos – econômicos, sociais, políticos –, possibilitando interpretá-la de várias maneiras.

Ainda conforme Mazetto (1996), a qualidade de vida é de difícil definição, pois, muitas vezes, em relação ao fator físico ela é aceitável, não significando que no fator social ela também o seja. Além disso, esses fatores são encontrados de forma diferenciada no espaço, diversificando-a, o que gera inúmeras qualidades ambientais, que podem ser boas ou más.

Vislumbrando tais aspectos pode-se complementar que, índices podem prover dados estatísticos sobre doenças e acesso à saúde. Contudo, não demonstram que ausência de doença se traduz diretamente em bem-estar e felicidade, uma vez que a OMS (FLECK et al., 1999) descreve como saúde não apenas bem-estar fisiológico e ausência de doenças, mas uma série de condições de vida que asseguram experiências de desenvolvimento humano digno ao indivíduo. Para tentar qualificar a dignidade de um ser humano, é preciso conhecê-lo e conhecer sua cultura.