2.3 Ponderações importantes sobre a concretização dos Direitos Fundamentais
2.3.1 Dimensões subjetiva e objetiva dos Direitos Fundamentais
Em relação à dimensão subjetiva, mais clássica e consensual das dimensões, afirmamos que há correspondência entre o conteúdo normativo e a proteção do sujeito ao combater atuações intervencionistas do Estado no plano da liberdade privada individualizada.
Em decorrência disso, há ligação entre o ente estatal responsável por reconhecer direitos mínimos acautelatórios da dignidade humana, enquanto ao indivíduo é garantido o exercício de suas liberdades, o que gera o status negativus do Estado. (CANOTILHO, 2003, p. 1254).
Todavia, a dimensão subjetiva também configura um status positivus em relação ao Estado, ou seja, ocorre quando o indivíduo é titular de um direito e o ente público deva praticar condutas condizentes com a tutela da liberdade positiva. Assim sendo, vedada resta a omissão estatal frente aos Direitos Fundamentais, ou seja, fala-se em titulares de direitos que têm proteção em relação ao Estado ou a outro particular, donde os sujeitos detentores do direito poderão exigir uma ação ou abstenção com o intuito de preservar sua posição como pessoa privada protegida pelos núcleos Constitucionais. (idem).
Assim sendo, sob a dimensão subjetiva Canotilho ressalta:
Diz-se que uma norma garante um direito subjectivo quando o titular de um direito tem, face ao seu destinatário, o direito a um determinado acto, e este último tem o dever de, perante o primeiro, praticar esse acto. O direito subjectivo consagrado por uma norma de direito fundamental reconduz-se, assim, a uma relação trilateral entre o titutlar, o destinatário e o objecto do direito. Assim, por ex., quando a Constituição consagra, no art. 24º., o direito à vida, poder-se-á dizer que:
1. o indivíduo tem o direito perante o Estado a não ser moto por este (proibição da pena de morte legal); o Estado tem a obrigação de se abster de atentar contra a vida do indivíduo;
2. o indivíduo tem o direito à vida perante os outros indivíduos; estes devem abster-se de praticar actos (activos ou omissivos) que atentem contra a vida de alguém.
(CANOTILHO, 2003, p. 1254).
Nessa esteira de pensamento, o Art. 23110 da Constituição Federal assegura aos indígenas o exercício de alguns direitos peculiares, tais como organização social, costumes,
10Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os
direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
§ 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
crenças, tradições, demarcação de terras e proteção dos bens. Por conseguinte, imprime-se o cunho de que tais direitos merecem ser observados sob a ótica da fundamentalidade face à tutela da dignidade humana, posto que tendam a reconhecer a identidade do sujeito e a proteção de suas peculiaridades, como, por exemplo, a igualdade, liberdade, solidariedade e proteção da integridade física, moral, social e cultural. diretor constitucionalizado. Novamente, ressaltamos nossa proposta mais simplista, sem tentar afrontar a protuberância do assunto, quanto ao estudo em comento, pelo mesmo viés justificado anteriormente.
§ 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
§ 3º O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei.
§ 4º As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis.
§ 5º É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
§ 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa-fé.
§ 7º Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, §§ 3º e 4º. (BRASIL, Constituição Federal, Art.
231, 1988)
11Art. 58. Constituem crimes contra os índios e a cultura indígena:
I - escarnecer de cerimônia, rito, uso, costume ou tradição culturais indígenas, vilipendiá-los ou perturbar, de qualquer modo, a sua prática. Pena - detenção de um a três meses;
II - utilizar o índio ou comunidade indígena como objeto de propaganda turística ou de exibição para fins lucrativos. Pena - detenção de dois a seis meses;
III - propiciar, por qualquer meio, a aquisição, o uso e a disseminação de bebidas alcoólicas, nos grupos tribais ou entre índios não integrados. Pena - detenção de seis meses a dois anos.
Parágrafo único. As penas estatuídas neste artigo são agravadas de um terço, quando o crime for praticado por funcionário ou empregado do órgão de assistência ao índio. (BRASIL, Lei n. 6.001, art. 58, 1973)
Nesse cenário, a dimensão objetiva dos direitos afigura-se a partir da vertente de conteúdo axiológico do ordenamento jurídico brasileiro, ao passo que os Direitos Fundamentais devem nortear todo o funcionamento da sociedade, assim como das funções Executiva, Legislativa e Judiciária, condicionando, ainda, os particulares, independentemente da provocação por parte do titular do direito.
Pero, como antes se decía, la renovada supremacía de la constitución no se refiere sólo a este aspecto, que es de la rigidez constitucional, el del control de constitucionalidad y el de una tutela más eficaz de la esfera individual de libertad con el instrumento de la constitución como norma fundamental garantía (constituzione-garanzia). Con las constituciones democráticas de este siglo vuelve a primer plano otro aspecto, el de la constitución como norma directiva fundamental (constituzione-indirizzo), que dirige a los poderes públicos y condiciona a los particulares de tal manera que asegura la realización de los valores constitucionales.
Una materia típica de la constitución como norma directiva fundamental es, por ejemplo, el goce de los derechos sociales, así el derecho a la educación o a la subsistencia o al trabajo. (FIORAVANTI, 2009, p. 129).
De tal modo, a dimensão objetiva dos Direitos Fundamentais pressupõe a existência de normas diretivas ao poder público e aos particulares de forma que não haja a necessidade do titular do direito demandar, por exemplo, judicialmente, o dever de tutela. Consubstancia-se, assim, num mandamento máximo em plano interno, donde se depreende que todas as ações deverão ser orientadas por esses preceitos.
Nesse diapasão, o Direito Fundamental, por exemplo, à demarcação de terras indígenas, constante no Art. 231 supramencionado, é dever constante do Estado, independentemente de existirem demandas administrativas ou judiciais indígenas em que se pleiteie a realização de tal conduta. Desta feita, de acordo com a dimensão objetiva do Direito à demarcação de terras, o ente público tem o dever de promover referida implementação, vez que trata de um mandamento Constitucional inerente à fundamentalidade indigenista garantidora da dignidade humana.
Em decorrência disso, um dos mais conhecidos instrumentos públicos capazes de implementar os Direitos Fundamentais, a partir de suas dimensões, são as conhecidas políticas públicas, em que o Estado desenvolve programas de governo voltados aos particulares a fim de promover o aspecto de efetividade dos direitos materiais.