CAPÍTULO I – REVISÃO DA LITERATURA
2. Paralisia Cerebral
2.6 Dinâmica familiar do aluno com paralisia cerebral
A família, tem sido foco de estudo por várias estirpes do conhecimento humano, e por anos recebe novas contribuições, no que diz respeito a forma de análise. No Brasil, pela diversidade de modelos devido ao amplo território, com diferentes miscigenações, migrações e as diferenças socioeconômicas existentes, torna-se difícil a generalização da família brasileira. Conforme a Política Nacional de Assistência Social, pode-se afirmar:
...O novo cenário tem remetido à discussão do que seja a família, uma vez que as três dimensões clássicas de sua definição (sexualidade, procriação e convivência) já não têm o mesmo grau de imbricamento que se acreditava outrora. Nesta perspectiva, podemos dizer que estamos diante de uma família quando encontramos um conjunto de pessoas que se acham unidas por laços consangüíneos, afetivos e, ou, de solidariedade. Como resultado das modificações acima
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mencionadas, superou-se a referência de tempo e de lugar para a compreensão do conceito de família (BRASIL, 2004, p.34).
Neste sentido, considera-se a relevância da família ao desenvolvimento holístico de seus membros, pois sabe-se que o ambiente em que o sujeito é criado e educado afeta sua competência como fonte de aprendizado de habilidades sociais e como oportunidades para atuar e estar diante do mundo. Os contextos mais relevantes no desenvolvimento social do ser humano são o lar, a escola e o grupo de amigos (Arón, 1994).
Assim, considera-se necessário que a família tenha maturidade para enfrentar quaisquer situações que interfiram em seu curso normal de funcionamento, como no caso da chegada de um ente com paralisia cerebral, fato este que, comumente, pode ocasionar um abalo demasiado na capacidade emocional dos pais e irmãos, na estabilidade financeira, na estrutura local da casa, na alimentação, dentre tantos outros pormenores que são repensados quando se está diante de uma inesperada notícia – a inserção de uma pessoa com necessidade especial. Pontua-se pois que a dinâmica familiar, é um fator primordial ao desenvolvimento da pessoa com paralisia cerebral.
Os teóricos da área da educação especial pontuam que enfrentar a deficiência exposta nos filhos certamente é um fator que traz perplexidade aos pais, pois é difícil para eles aceitarem que seus filhos sejam diferentes do que eles esperavam que fossem, ou seja, diferentes do que a sociedade estabelece como normal, bonito, saudável, inteligente, como criança, adolescente, jovem ou ainda como adulto. Neste aspecto, seguindo afirmações de Amarilian (1996), no que tange ao sentimento de pais de filhos com necessidades especiais, adotando os pressupostos freudianos, pode-se dizer que cada pessoa enfrenta a realidade colocando em ação os mecanismos psíquicos de defesa que, consciente ou inconscientemente, considera capaz de atuar sobre a realidade. Do ponto de vista analítico, o conceito defesa compreende uma forma específica de lidar com a ansiedade e com o conflito doloroso.
O mecanismo de defesa mais primitivo é a negação. Entre a expectativa de um bebê sadio e a realidade de uma criança deficiente, o desvio é simplesmente desconhecido e os pais tentam acreditar que não há nada de errado com o seu filho. Recusam-se a reconhecer as limitações reais impostas pela
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deficiência e insistem em que eles podem fazer todas as coisas que as outras crianças fazem. Esta atitude coloca muitas vezes a criança em situações desnecessárias de tensão e de frustrações inevitáveis (p.49).
Outra autora ratifica que se o clima sócio-afetivo da família não for bem trabalhado, obtém mazelas significativas para o seio familiar e desenvolvimento da pessoa com necessidade especial. Sobre isso é comum encontrar afirmações que articulam a ideia, mediante Kassar (1999): “Pode-se ordenar as manifestações dos sentimentos familiares com relação a um filho deficiente partindo do extremo da rejeição e chegando, afinal, aos graus superlativos da proteção, que, em suma, não difere em essência do oposto da escala” (p.120).
Nenhuma família tem o mínimo preparo para receber um membro com qualquer tipo de deficiência, sendo que a entrada de um membro com paralisia cerebral constitui- se, a princípio, uma situação de desestabilidade, tendendo a mudar radicalmente o curso da vida e organização dos membros e os aspectos ocasionados pelo luto do membro “perfeito” precisa ser vivenciado.
Dependendo do nível de dependência da pessoa com paralisia cerebral, é comum encontrar no seio família, tanto parentes que superprotegem (principalmente a mãe, cuja, normalmente abdica suas ações fora de casa para ser cuidadora principal deste filho) ou ainda encontram-se parentes que subestimam e negligenciam os cuidados necessários ao bem-estar e saúde. Isto dependerá da intensidade vivenciada, por esta família, no luto pela perda da esperada “normalidade” do sujeito paralisia cerebral para ter de assumir e/ou aceitar a inesperada “patologia ou deficiência”.
Uma pessoa com qualquer patologia traz mudanças significativa na dinâmica de funcionamento de um lar, na chegada de uma criança com PC, quanto mais dependente fisicamente ela for mais, a família terá de dividir-se entre seus membros para dar a devida assistência implicada no caso, sejam em atividades que variam desde simples ações cotidianas, como as mais necessárias para sobrevivência, a exemplo: alimentação e higienização.
Muitas vezes quando não acontece esta divisão, um ou outro membro sobrecarrega-se e fica tendencioso ao estresse. Dada situação, é percebida pelo paralitico cerebral (dependendo do nível de comprometimento intelectual) o que torna o ambiente familiar desgastante, por ocasionar sensações de culpa, raiva, impaciência,
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insegurança sobre o futuro da pessoa com paralisia cerebral. Porém, não afirma-se que todo o ambiente familiar em que vive um paralitico cerebral é conflituoso, pois em cada casa há conflitos em menor ou maior grau, todavia, a gravidade conflitiva depende do nível de maturidade e parceria existente entre os membros do lar.
Para o progresso da pessoa com paralisia cerebral é fundamental fazer parte de outros locais sociais, além de sua dinâmica familiar, pois outros ares propiciam maturidade emocional e desenvolvimento social ao indivíduo.