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DINÂMICAS DE TRABALHO: GÊNERO, SOCIABILIDADES E SOLIDARIEDADE

2 NA ESFERA DO TRABALHO: RELAÇÕES DE GÊNERO, MATERNALISMOS E USOS DO TEMPO

2.1 DINÂMICAS DE TRABALHO: GÊNERO, SOCIABILIDADES E SOLIDARIEDADE

As dinâmicas de trabalho no universo rural maranhense foram convencionalmente definidas por uma visão dos papeis sociais atribuídos a homens e mulheres, portanto, por um padrão regulado a partir das relações de gênero. Entre os agroextrativistasconvencionou-se atribuir a quebra do coco babaçu a um trabalho feminino, enquanto que o cultivo da roça tem sido frequentemente facultado aos homens. Essas atribuições têm uma história longa e foram estabelecidas não somente entre os camponeses, mas acabaram se tornando reconhecidas também entre a sociedade em geral, de tal modo que ao se referirà quebra do babaçu no Maranhão automaticamente se associa essa prática ao universo do trabalho feminino.Do mesmo modo, comentar sobre o trabalho na roça, embora não de maneira tão predominante como no caso anterior, implica em fazer uma associação com umtrabalhador masculino.

Certo é que esta radical divisão sexual do trabalho é, em grande medida, muito mais discursiva do que efetivamente prática, posto que, dependendo da época e das circunstâncias, homens e mulheres podem envolver-se tanto com a produção agrícola quanto com a extração completa do babaçu (coleta e quebra). De qualquer modo, a divisão de trabalho por gênero é demarcada com base nos padrões costumeiros historicamente construídos no mundo camponês.

É dado consensual entre as comunidades que a coleta do coco é trabalho comum aos dois gêneros, sendo assim, constantemente os homens fazem a apanha do coco, embora tendam, na grande maioria das vezes, a negar qualquer tipo de envolvimento com a quebra do babaçu.

Crianças (meninos e meninas), bem como as mulheres, têm estado diretamente envolvidas com o trabalho de quebra do coco e esse envolvimento aparece entre os trabalhadores como algo legítimo. A extração do babaçu consiste numa prática continuamente transmitida de uma geração a outra, ou seja, as mulheres quebradeiras de coco tendem a

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socializar seus filhos no ambiente extrativista, ensinando-os desde o trabalho de coleta do babaçu ao manejo do machado para a quebra do coco. E, sem dúvida, o “processo de socialização das crianças, nas atividades de extração dos produtos do babaçu, passa pela divisão sexual do trabalho, em torno da qual são construídas, organizadas e mantidas as representações sobre o uso do corpo para o trabalho, implicando a definição de atividades próprias ou não para cada sexo” (CASTRO, 2001, p. 21).

É comum se ouvir dizer, em algumas comunidades da microrregião do Médio Mearim, que “homem que quebra coco a bunda cresce”. Desse modo, o trabalho de quebra do babaçu parece estar diretamente relacionado a um imaginário sobre o exercício do corpo, no qual a prática de extração da amêndoa envolve irremediavelmente a modelagem corporal do trabalhador que a pratica. Na mesma interpretação, fica claro então que, entre os agroextrativistas, o corpo feminino estaria biologicamente adaptado para o ofício da quebra do coco, ao mesmo tempo em que também seria modelado por ele. Nesse discurso, afinal, ter quadris avantajados é um atributo corporal necessário às mulheres, desnecessário, portanto, aos homens.

De acordo com Laura Duque-Arrazola (2010, p. 2), “o tempo do corpo é representado e ‘naturalizado’ como um tempo do cotidiano feminino, associado a maternidade, a reprodução ou produção da vida, ao trabalho doméstico”. Nessa perspectiva, vê-se que o “tempo do coco” consistiria essencialmente num “tempo de mulher”.

Além disso, é importante considerar, como demonstrara Edward Thompson (1998) ao analisar o mundo dos costumes na Inglaterra do século XVIII e início do século XIX, que o que se poderia denominar de “costumes” ou, numa linguagem mais recente, “cultura”, no caso, “cultura popular”, consiste num vocabulário completo de discurso, de legitimação e de expectativa, e num território, ao mesmo tempo, conservador, tradicional, e transformador, rebelde. Os costumes e as culturas têm sua função racional, como, por exemplo, ao organizar as rotinas do trabalho diário e semanal de um dado grupo social. Longe de exibir a permanência sugerida pela palavra “tradição”, o costume e a cultura consistem em campos privilegiados para a observação da mudança e da disputa, uma arena na qual interesses opostos apresentam reivindicações conflitantes. Nessa perspectiva, “homem que quebra coco a bunda cresce” pode ser interpretado como uma anedota integrante do universo da cultura camponesa, que estipula certos lugares ao feminino e ao masculino, universo este também profundamente hierarquizado e desigual. Se, historicamente, em contato com outros setores sociais, mulheres e homens camponeses entraram em conflito agudo com aqueles setores, notadamente contra aqueles que lhes tentavam impedir de acessar as terras e as palmeiras (ver

capítulo 3), ao mesmo tempo, havia padrões similares, particularmente quando se atenta para as relações de gênero, entre a sociedade camponesa e outros setores sociais.

Acompanhando as atribuições naquelas comunidades, observa-se ainda que a idade tem funcionado como o indicativo para o envolvimento ou não de pessoas do sexo masculino na quebra do babaçu. Em se tratando das crianças do sexo masculino, a atividade tem sido incentivada e assumida como fundamental para a reprodução familiar. Nessa divisão sexual e etária, há também uma simbologia que associa o trabalho de quebra do babaçu aos homens de acordo com seu período de reprodução, portanto, com a questão do apogeu ou não da masculinidade, a exemplo do que Lucimeire Castro (2001) identificou claramente no povoado Ludovico, no município de Lago do Junco. Em virtude disso, parece comum, e pouco mal visto, que homens já idosos se dediquem ao trabalho extrativista em todas as suas etapas.

Porém, independentemente das representações de gênero em torno do trabalho, e das questões geracionais a elas implicadas, na prática, o processo de socialização de crianças na quebra do babaçu tem, em algum sentido, permitido um deslocamento nas noções “lugar de homem” e “lugar de mulher”. Isto porque não só as meninas, como também os meninos, apre(e)ndem o ofício como mais uma atividade importante na labuta cotidiana camponesa e, portanto, legítima no conjunto das atividades necessárias à sua sobrevivência.

Com base em bibliografia e depoimentos de trabalhadores, pode-se sugerir que, muito embora já associada ao universo das mulheres, a quebra do coco foi sendo fortalecida como uma atividade exclusivamente feminina na medida em que foi perdendo o seu valor no mercado de exportação. Além disso, tudo indica que antes que a amêndoa do babaçu assumisse importância no mercado nacional e internacional, a sua extração, como para autoconsumo, ficava ao encargo das mulheres. E, por consequência do investimento estatal e privado em uma economia do babaçu, esta mesma atividade passara a merecer atenção produtiva dos homens das comunidades rurais, declinando em interesse por parte destes apenas quando, no último quartel do século XX, outros produtos começaram a competir com o babaçu, quando se instaurou a chamada crise da economia babaçueira.

Questionada sobre por quem era feita a quebra do babaçu em sua comunidade, se somente mulheres se envolviam nessa atividadeem São José dos Mouras (Lima Campos), a quebradeira de coco Antonia de Sousa, atual presidente da ASSEMA, respondeu: “Não! Homens e mulheres, mas são bem poucos os homens. Mas quase todos os homens daqui hoje

sabem quebrar coco e teve uma época que eles quebravam mais. Hoje eles não quebram mais coco, os homens, são poucos” (informação verbal)73.

Aquela liderança reforçara que “antes dos conflitos [...] era quando eles quebravam mais, aí depois dos conflitos eles largaram, quase nenhum homem mais gosta de quebrar coco”. Nesse sentido, outra explicação para a diminuição do emprego dos homens no trabalho de quebra do coco é estabelecida por uma ruptura entre um período pré-conflitos e um período pós-conflitos de terra nas comunidades. De qualquer maneira, atestou Antonia, que houve um tempo em que os homens se dedicavam mais sistematicamente ao extrativismo.

Em entrevista realizada em 2005, Raimunda de Sousa, senhora de quase 70 anos, assegurou que em Monte Alegre (São Luís Gonzaga do Maranhão) homem “quebrava, mas não quebra mais por causa do projeto da banana, tirou muito homem do coco”. Segundo ela, em tempos anteriores, “quem mais quebrava coco aqui era homem, menino” (informação verbal)74. Maria de Jesus Bringelo, liderança e moradora da mesma comunidade, também afirmou que “os jovens é que mais têm essa história de dizer que não quebram coco, mas os homens quebravam, e muito, o pessoal mais velho [...]. Aqui os homens quebram coco, os que não quebram hoje, já quebraram muito” (informação verbal)75. Josefa de Miranda, piauiense que aprendeu a quebrar coco no Maranhão, também confirmou essa versão acrescentando que “hoje os homem não quebra, mas junta, e as filha todas quebram” (informação verbal)76.

O depoimento de Oclécio Lima, também morador de Monte Alegre e sócio do sindicato, na época com 55 anos de idade, foi naquela mesma direção: “eu quebrava, mas tá com uns tempo que a gente não quebra” (informação verbal)77. O fato é que, mais recentemente, quem quebra coco são “mais as mulheres, os homens não gostam muito não; é difícil, nunca nem vi, depois que eu me entendi nunca vi um homem pegar o machado pra quebrar coco”, disse Maria das Neves dos Santos de 41 anos de idade e quebradeira de coco desde os 14 (informação verbal)78.

Constata-se, portanto, que a quebra do coco deixou de ser atividade de interesse masculino, o que pode se explicar por diversos fatores, como pela ampliação de horizontes de trabalho ou mesmo pelo desenvolvimento de projetos outros que envolvam o trabalho masculino na agricultura.

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Entrevista concedida em 19/11/2011, Lima Campos-MA. 74

Entrevista concedida em 04/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 75

Entrevista concedida em 05/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 76

Entrevista concedida em 03/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 77

Entrevista concedida em 04/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 78

Na tentativa de dar uma explicação a respeito dessa questão, a liderança comunitária de 58 anos de idade, Antonia de Sousa destacou:

Eu não sei se é porque depois do conflito, da conquista da terra [...] da entrada, da inserção de várias pessoas da comunidade no movimento social, de ter garantido, de ter brigado por algumas políticas, de ter conseguido, melhorou muito a qualidade de vida e de renda das pessoas na comunidade também. Eu acho que na época em que os homens quebravam mais coco, é porque eles não tinham outra fonte de renda também, hoje já tem outras coisas que eles conseguem fazer. Tem homem aqui que tem a roça dele, trabalha na roça e é moto táxi, na hora que tu precisas de uma moto, diz assim “chama ali fulano que ele tá disposto”.Já comprou uma moto, já ganha um dinheirinho a mais, aí ele, ele invés de tá indo pro mato quebrar coco, ele tá aí nas estradas vendo quem é que passa, quem precisa fazer uma viagem. (informação verbal)79

Além disso, em fenômeno mais recente, a inserção de benefícios oriundos de projetos sociais, como o Programa Bolsa Família (PBF)80, tem feito diminuir a atuação dos homens na quebra do coco. “Olha, essa quebra de coco mais intensiva eu acho que ela diminuiu mais depois dos programas sociais aí, que não faz muitos anos”, elucidou Maria de Jesus Bringelo, liderança associada ao MIQCB e à ASSEMA (informação verbal)81.

De qualquer modo, o declínio da representatividade do produto no cenário econômico também explica esse desinteresse dos homens pela atividade extrativa. As mulheres e crianças parecem ter sido alçadas à categoria de representativas da atividade de quebra do babaçu quando o extrativismo passou a ser associado meramente a uma economia de subsistência e, desse modo, cada vez mais visto como uma atividade indicativa da pobreza e do universo privado. Como argumenta Suely Costa (2007, p. 6; 13), não é incomum, em muitos contextos brasileiros, que a execução de certas atividades que, marcadas pelo não assalariamento ou pelo assalariamento precário, conferem marcas singulares ao avanço das relações capitalistas de produção sejam baseadas no amplo e árduo trabalho das mulheres.

É comum a associação das mulheres a atividades menos rentáveis, com pouco ou nenhum valor simbólico agregado. Mas, ainda que quebrar coco seja visto como “coisa de mulher”, são patentes as contradições nos discursos dos camponeses e as práticas sociais também têm sinalizado para uma maior complexidade na aparente perfeita e bem delimitada divisão sexual do trabalho entre os agroextrativistas.

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Entrevista concedida em 19/11/2011, Lima Campos-MA. 80

O BolsaFamília é um programa de transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza em todo o Brasil. Esseprograma integra o Plano Brasil Sem Miséria (BSM), que tem como foco de atuação os 16 milhões de brasileiros com renda familiar per capita inferior a R$ 70 mensais, e está baseado na garantia de renda, inclusão produtiva e no acesso aos serviços públicos. Ver http://www.mds.gov.br/bolsafamilia.

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Há homens que realizam a quebra do babaçu por opção ou por interesses bastante específicos. De acordo com Maria Cecília de Jesus, o seu marido, Luís Cruz, sempre dizia “que quebrava quando ele era solteiro ainda dentro de casa, que ele ia pro mato com os amigos pra comprar roupa pra ir pra festa” (informação verbal)82. Interessante notar que, neste depoimento, a quebra do coco só seria efetuada por seu marido no início da juventude, antes de contrair matrimônio, o que parece sugerir que quebrar coco nessas comunidades não tem sido vista como função de um homem casado. Além disso, a quebra, neste caso, não visa o sustento familiar, mas se apresenta no campo daquilo que não é essencialmente necessário: compra de roupa para participar de festas.

A quebra do coco também tem sido muito comum entre homens de maior idade e que passaram por período de maior dificuldade financeira. Adão Santos, homem negro e na época com 73 anos de idade, confirmou trabalhar na quebra do coco e rememorou sobre como aprendeu o ofício: “Aprendi com meus criadores que me criaram, papai e mamãe. Quem quebrava mais coco era mamãe, papai quebrava, mas mamãe quebrava mais” (informação verbal)83. O seu depoimento traz à tona três elementos importantes para a análise. Primeiramente, parece sinalizar, como prevê certa documentação escrita, que entre trabalhadores mais antigos de sua região a quebra do coco era sistematicamente realizada por homens e mulheres, portanto, sem distinção de gênero. Em segundo lugar, demonstra que o aprendizado da prática tanto podia ser ensinado pela mãe quanto também pelo pai, embora geralmente associado à figura feminina. E, por fim, sugere que as mulheres apresentam maior destreza com a prática porque possivelmente estariam, mais do que os homens, envolvidas com ela.

Algumas mulheres também afirmaram ser historicamente comum que homens e mulheres quebrem coco. Como apontoua aposentada e mãe de dez filhos Maria da Conceição Araújo, em Monte Alegre “todo mundo quebra coco, homem e mulher, porque aqui ninguém tem condição, aqui nesse lugar eu ando de ponta a outra não vi um que não pegue o machado pra quebrar coco, tô cansada de ir pro mato tem um monte de homem no mato quebrando coco” (informação verbal)84. Lindalva Cruz, mulher negra, católica, viúva e mãe de onze filhos, em seus quase 50 anos de idade, também acentuou que “homem, mulher, menino,

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Entrevista concedida em 04/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 83

Entrevista concedida em 04/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 84

rapazinho, não é todos que vão, mas aqui acolá vai. O ofício daqui é esse. Todo mundo vai quebrar, não tem outro ganho” (informação verbal)85.

Entretanto, na grande maioria das vezes, os homens tendem a negar ou mesmo justificar seu possível envolvimento com a quebra do babaçu. Manoel dos Santos, casado com uma mulher que se afirmou convictamente como quebradeira de coco, questionado se realizava a quebra do coco, foi enfático: “Não, não vou dizer que eu quebro, eu já quebrei, não vou dizer que eu quebro, mas a gente ajunta pra fazer carvão, de tudo a gente faz” (informação verbal)86.

Normalmente, os discursos dos homens convergem para a quebra do coco por eles realizada apenas quando crianças, o que foi identificado na fala do agricultor José de Ribamar Santos: “agora quebrar coco não quebro. Só quebrei foi por 1982 [...] quando era criança quebrei [...] mas não era por atrevimento de quebrar direto não, todo dia não”. Justificou a prática da atividade dizendo: “Às vezes a gente quebrava porque precisava das coisas pra comprar que nessa época aqui era muito difícil e tinha que ajudar pra manutenção da família” (informação verbal)87.

Em contrapartida, as mulheres comentam que em momentos de dificuldade os homens iam quebrar coco no lugar de suas esposas/companheiras para garantir a alimentação, como afirmou uma das moradoras: “[...] ele não quebra, mas já quebrou, porque quando as crianças eram pequenas a gente tinha precisão, às vezes elas adoeciam e [...] sempre a mãe tem mais cuidado e ele ia no meu lugar” (informação verbal)88. Ao mencionar que seu companheiro quebrava coco em seu lugar quando seus filhos adoeciam, essa mesma moradora contraria o depoimento do seu marido que afirmara não ter quebrado coco depois de contrair matrimônio, como se observa no depoimento dele, abaixo destacado:

Porque eu não vou dizer que eu quebrei muito, mas eu já tive assim umas vezes que eu quebrava, às vezes quando eu era mais pequeno, novinho, aí junto mais com a minha mãe, tinha precisão [...]só que não foi por muito porque logo com idade de dezesseis anos eu deixei de estudar [...] aí fui pros garimpos bem novinho [...] de lá pra cá não quebrei mais. Aí depois que eu vim eu me casei, que eu me casei bem

novinho, aí fui logo morar aqui, mas nunca quebrei, mas sempre ajunto e tenho botado pra mulher quebrar. (informação verbal, grifo meu)89

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Entrevista concedida em 04/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 86

Entrevista concedida em 03/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 87

Entrevista concedida em 03/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 88

Maria Raimunda dos Santos em entrevista concedida em 03/2005, São Luís Gonzaga do Maranhão-MA. 89

Sem dúvida, é comum que os homens afirmem terem quebrado cocojustificando que o fizeram em período de grande dificuldade, no “tempo da precisão”,e/ou que só praticaram a atividade quando crianças, deixando claro que atuam somente na coleta do coco para que suas esposas e/ou filhas realizem a quebra do vegetal.

Nessa perspectiva, a quebra do coco por homens parece se configurar como uma atividade exercida em tempos de pobreza e muita privação. Há homens que afirmam terem quebrado coco para sobreviver, é como se tivessem que praticar a atividade somente por não terem alternativa. Assim, quando assumem ter quebrado coco quando adultos geralmente acionam discursos justificados pela necessidade ou pela precisão. Em seu relato, José de Aguiar afirmou: “foi todo dia quebrando coco. Eu já quebrei foi muitas vezes, porque tinha precisão, necessidade. O coco era quebrado quando estava devagar, serviço mais pouco...” (informação verbal)90.

Outro camponês, Floriano da Silva, também garantiu que quebrava coco “porque tinha necessidade grande, os anos que tinha legume bem, outros anos não tinha, e nesse tempo não tinha quem vendesse arroz pra gente como tem hoje” (informação verbal)91.

O que parece estar subjacente àqueles depoimentos é que a pobreza e a responsabilidade com a família estariam além do que os homens realmente concebiam como papeis masculinos e femininos, posto que o mais importante seria conseguir recursos para a reprodução familiar, ainda que para isso tivessem de atuar em espaços que socialmente não correspondiam à sua condição de homem (CASTRO, 2001, p. 67).

A quebra do babaçu realizada por homens, além de aparecer em condições de extrema necessidade financeira, também é associada a situações que envolvem a imobilização da força de trabalho dos camponeses. Alguns registros permitem inferir que durante os conflitos agrários localizados em várias regiões do Maranhão foi comum que os homens, sem espaço ou condiçõespara plantar, começassem a trabalhar na quebra do coco como meio de sobrevivência e como forma de aumentar a produção familiar.

O depoimento de uma liderança feminina asseverou que, em São José dos Mouras, comunidade do município de Lima Campos, os homens quebravam coco em maior quantidade quando o trabalho de roça se tornava dificultado pelos antagonistas que espoliavam a terra e ameaçavam os trabalhadores a fim de que não cultivassem seus produtos