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Dinâmicas do agrupamento Olhos de Lince

Parte I – Processo de investigação

4. Diagnóstico

4.5. Dinâmicas do agrupamento Olhos de Lince

As dinâmicas que funcionam neste agrupamento são; um Clube de Dança com 60 participantes, um Clube de Música, um Banco de Voluntariado, com 12 participantes, o Clube de Saúde e Ambiente, Clube da Matemática, Clube de Jornalismo e Comunicação, clube de Teatro, Clube de Línguas, desporto escolar.

O agrupamento tem ainda duas dinâmicas importantes que se passam a referir:

A primeira é o Programa Reforço Alimentar a Famílias do Agrupamento é um projeto de natureza social e de solidariedade para com famílias carenciadas e subsidiadas em ação social escolar do agrupamento, prioritariamente famílias numerosas com crianças e jovens em idade escolar.

É um projeto integrado no âmbito do Serviço da Ação Social Escolar (adiante designada por SASE) do agrupamento, que funcionou durante o presente ano letivo, em duas etapas, que antecederam as férias de Natal e de Páscoa. Pelo que nos foi dado percecionar cobre, ainda, situações de emergência social que possam surgir ao longo do ano letivo.

Na sequência do Programa Escolar de Reforço Alimentar (PERA) com o objetivo de disponibilizar aos (às) alunos (as) em situação de carência alimentar, identificados (as) pelas escolas, uma primeira refeição do dia, a escola consolidou através do Técnico do SASE, da Assistente Social e professora do Clube de Solidariedade da escola, uma iniciativa de âmbito local, para satisfazer as necessidades básicas das famílias do agrupamento com fragilidades económicas e sociais, no sentido de suprir carências alimentares detetadas e contribuir para melhorar a qualidade de vida das famílias carenciadas. Este projeto de intervenção social direcionado para famílias em risco económico recolhe alimentos, junto dos fornecedores do bufete do agrupamento e, ainda fomenta o espírito de solidariedade, com campanhas de sensibilização junto dos alunos, famílias, pessoal docente e não docente. Apelando a, que, mensalmente, cada pessoa interessada em colaborar, traga um bem essencial (um pacote de arroz, ou de massa, ou de leite…), coloque no carro de recolha de alimentos, colocado no átrio principal, do bloco central, para cobrir carências de emergência social. Os objetivos do programa RAFA definem-se para estabelecer protocolos com fornecedores da escola para aumentar a capacidade da escola em disponibilizar géneros alimentares; satisfazer as necessidades básicas de famílias subsidiadas e carenciadas; melhorar a qualidade de vida das famílias carenciadas; promover o espírito de solidariedade e entreajuda em meio escolar, (Projeto RAFA 2012/2013).

A segunda dinâmica é o Espaço de Envolvimento de Pais e Encarregados de

Educação, este projeto tem razão de ser na elevada taxa de desemprego e nos níveis atuais de dificuldades económicas, dificuldades em pagar os compromissos mensais de grande parte de famílias, e a pobreza já instalada em muitas famílias, tem expressão direta na escola, realidade esta ampliada nas famílias numerosas, provocando a necessidade de estratégias e estabelecimento de protocolos com fornecedores dos bufetes e refeitórios escolares, para ajudar a suprir as necessidades básicas das famílias (Projeto EPEE, 2012, p.5).

Do relatório analisado sobre o Projeto EPEE podemos constatar que a escola valoriza o envolvimento dos pais por considerar que este ajuda a perceber melhor o aluno, os seus interesses, as suas potencialidades mas também os seus problemas e receios. Por objetivarem que a educação tem que ser vista como uma responsabilidade de todos, ou seja, numa dimensão que articule escola, família e sociedade, para formar cidadãos

conscientes com conhecimentos, habilidades e com capacidades de serem livres, responsáveis e respeitadores, para vivermos num mundo justo, tolerante e com princípios éticos e morais

(Projeto EPEE, 2012, p.1).

É fundamental que exista uma boa relação entre a escola e a família para a obtenção de resultados eficazes, pois que, a colaboração e interação dos pais com os professores ajuda a resolver muitos dos problemas escolares dos educandos, que vão surgindo ao longo do seu

percurso escolar e educativo. Além de contribuir para a estabilidade, a identidade pessoal e melhoria de resultados escolares dos alunos, contribui nas famílias para o equilíbrio afetivo dos seus membros. De forma mais lata e transversal contribui para uma mudança da realidade social escolar, beneficia a melhoria das relações entre toda a comunidade, e melhoria de desempenho pessoal e profissional de cada ator.

O espaço EPEE funciona uma vez por semana, em flexibilidade de horário na sala n.º 20. O espaço EPEE apoiou duas situações familiares que passamos a descrever:

Família monoparental composta por pai e filho desde Junho de 2011, altura em que a mãe foi viver para a P. S. O pai do aluno tem uma filha com mais de 40 anos de uma primeira ligação e tem 5 filhos desta segunda ligação, encontrando-se atualmente separado (…) O pai e o aluno vivem numa casa cedida pelo patrão do genro e é a filha que paga a renda de casa, a água e luz. O pai trata da casa, das roupas de ambos (pai e filho) e da alimentação. Em geral comem “sobras” que lhes são dadas pela filha que trabalha no restaurante, acontecendo comerem durante dias a mesma comida. Sobrevivem com uma pequena reforma do pai e o aluno raramente está com a mãe desde Junho 2011, e o pai tem-se esforçado para apoiar o filho quer no seu acompanhamento pessoal e afetivo mas também no seu acompanhamento escolar, reforçando que tem tido alguma dificuldade em disciplinar o filho que não tem métodos de trabalho.

O espaço EPEE detetou os seguintes problemas que se passam a enumerar; idade

avançada do pai e fumador com problemas respiratórios; instabilidade habitacional, mudanças frequentes de região, habitação e escolas, deficiente gestão do orçamento mensal; alimentação deficitária; higiene do filho pouco cuidada; falta de hábitos e métodos de estudo (não sabe estudar); pouco motivado para os estudos; apoios aos estudos sem resultados faltos de estratégias personalizadas e individualizadas (relatório EPEE).

A segunda situação familiar é descrita como sendo uma família composta por 5 pessoas, mãe e 4 filhos todos estudantes de 6, 8 14 e 18 anos e a mãe é o suporte desta família. O Pai do aluno é alcoólico sem trabalho, vive nas S. separado da família.

As crianças vivem somente dos bens alimentares da Cáritas e dos produtos hortícolas que a mãe e avó produzem na aldeia. É uma família que vive com grandes dificuldades económicas, estando a receber 250 € /mês de um Grupo de Apoio a Famílias do Porto da Rede Europeia Anti - Pobreza

Esta família também já recebeu a visita do técnico da segurança social, não existindo maus tratos nem negligência.

Como aspetos relevantes e positivos salienta-se as relações fortes entre os elementos do agregado familiar do aluno, responsável e colaborador, com a mãe na partilha de responsabilidades dos irmãos mais novos

Mãe muito preocupada com o crescimento saudável e com o rendimento escolar dos filhos e é muito colaborante com a escola (Relatório EPEE)

As ilações que a pesquisa pode retirar destas duas situações apoiadas pelo espaço EPEE, direcionam-se para uma relação que nestes casos concretos, de meios familiares que vivem em profundas crises económicas, de escassez de dinheiro, bens e vestuário, não se estabelece, relações de situações de maltrato familiar. De facto o que se verifica é que as relações afetivas entre pais e filhos saem reforçadas, pela adversidade. Até quando? Não se saberá, contudo se o que se pede à escola é que resolva os problemas sociais que afetam os meios familiares onde estão inseridos, está-se em crer, que através de ações de intervenção com outras parcerias as situações tendem a evoluir favoravelmente. Por outro lado percebe-se que os alunos em situações de adversidade ao seu desenvolvimento físico, social e psíquico, são capazes de dar respostas positivas aos pais, fortalecendo os laços de afetividade, entre si, que se desenvolvem como fatores de proteção e, que de alguma forma, impedem outras formas de risco de aqui se perpetrar.

O que se sabe também é que a escola não pode de forma transversal intervir nos problemas da exclusão social, da pobreza e das desigualdades sociais dos seus alunos, falta- lhe uma autonomia financeira, que provavelmente nunca terá e, faltam-lhe recursos humanos e meios materiais, dada a complexidade que envolve esta problemática. Resolve- se o problema da fome dando um cabaz de alimentos a uma família numerosa? Pode não se resolver, mas é provável que na procura de bens para encher esse cabaz a escola envolva parceiros, outras instituições, outras famílias e dê à problemática uma visibilidade que sai de casa das famílias para a escola, e aí encontra respostas e dispositivos de encaminhamento, para outras instituições quando a esta não pode ou não sabe dar essa resposta.

A escola tem uma nova função que é social e através dela se depositam expetativas para a resolução de problemas que emergem dos contextos de crise económica, de dimensões nacionais e internacionais e à qual não pode fugir. Os quadros de sucesso e de insucesso atribuídos aos fatores económicos têm que estar implicados na função educativa da escola quando falha a transmissão dos saberes que os alunos devem adquirir. Por outro lado a escola não está a desempenhar uma função social ao intervir naquilo que são consideradas as situações familiares de risco por ter falhado a sua função educativa? Jovens que abandonam precocemente a escola, alunos com dificuldades de aprendizagem que não se conseguem motivar para, através dela, construir um projeto de vida, de forma a

capacitarem-se para o ingresso no mercado de trabalho (Lunardi, 2004, p. 12).

Por outro lado quando a escola infere nos seus processos indicadores sobre o rendimento escolar do aluno sinalizado fá-lo porquê? Aqui podem-se abrir duas vias de reflexão: por um lado, por relacionar o contexto de carência ao fraco rendimento escolar, equacionando para isso fatores como a dificuldade de concentração, provocada pela escassez de nutrientes, e outros (Krug, Mercy, Dahlberg, 2002); mas também pode equacionar para o mesmo contexto de carência que o fraco rendimento, provem do facto de a criança estar na escola mas nunca ter entrado nela, isto é, o aluno está na escola mas não se enquadra na sua organização e desiste sem nunca ter tentado (Lunardi, 2004). Estas

questões que a pesquisa de campo suscita encontraria aqui respostas se nos processos analisados estivessem justificados esses fatores, mas de facto não estão e a dúvida não persiste, abre antes espaço a possíveis focos de investigação.

4.6. Apresentação e discussão dos casos sinalizados no agrupamento