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Processo de recolha e tratamento de dados

Parte I – Processo de investigação

3. Protocolo Metodológico

3.3. Processo de recolha e tratamento de dados

O processo de recolha de dados tem como finalidade explicar quais foram os instrumentos utilizados na recolha e análise dos dados obtidos. Para recolher a informação recorre-se à análise documental, à pesquisa bibliográfica, ao uso de fontes orais não escritas e à entrevista semiestruturada. Para proceder à análise e tratamento dos dados recolhidos utiliza-se a análise de conteúdo e a triangulação de dados.

3.3.1. Análise documental

A análise documental é uma das técnicas de recolha de dados que permite encontrar respostas para as questões formuladas na delimitação do problema. Silva & Grigolo (2002) consideram que a pesquisa documental fornece, na recolha de dados, materiais que não sofreram, ainda, uma análise aprofundada para selecionar, tratar e extrair informação, com sentido e valor científico, para a pesquisa que se está a desenvolver. De acordo com Gill (1999) podem definir-se documentos de 1.ª mão, documentos que nunca receberam qualquer tipo de tratamento analítico (projeto educativo, regulamento interno…) e, documentos de 2.ª mão, documentos que já foram analisados (leis, tabelas estatísticas, relatorios de pesquisa…).

Pardal & Lopes ( 2011) consideram esta técnica de recolha de dados essencial na pesquisa em investigação, e na linha da problemática em estudo, complexa e multidimensional. A análise de documentos é uma tarefa complexa e difícil que exige do investigador paciência e disciplina (p. 103). Estabelecem, ainda, regras de uso (p.103) para uma correta atuação da análise documental, a saber: definir de forma clara e objetiva o objeto de estudo, permitir uma seleção da documentação a analisar; formular devidamente a hipótese, coordenar a análise dos documentos e orientar no conteúdo a seleção da informação; detetar o nível de imparcialidade das fontes, de forma a garantir a fiabilidade dos dados recolhidos; comparar apenas o comparável, metodologias e conceitos com o mesmo conteúdo.

Para percecionarmos melhor esta explanação vamos responder a algumas questões: 1.ª Que tipo de documentos são recolhidos nesta pesquisa?

Em 1.º lugar os documentos escritos produzidos pelos territórios educativos onde se desenvolve a pesquisa, concretamente os documentos: projeto educativo, regulamento interno, fichas de caraterização dos alunos, folhetos informativos, relatórios situações sinalizadas, entre outros. Em 2.º lugar documentos escritos produzidos por outras instituições, alvo da nossa pesquisa, nomeadamente a Rede Europeia Anti-Probreza (mais adiante designado por REAPN) e a CPCJ, em 3.º lugar documentos escritos oficiais produzidos nos quadros legislativos que regulamentam medidas as medidas políticas e sociais, diretamente ligadas à problemática em estudo, leis, regulamentos, programas. Em 4.º lugar documentos audiovisuais que ilustram projetos desenvolvidos pelas instituições onde se desenrola a pesquisa, e que podem ajudar a desenhar o plano de ação.

2.ª Para que se recolhem estes documentos?

Para se atingir um dos objetivos traçados na delimitação da problemática, identificar os dispositivos utilizados pela escola para sinalizar situações de risco. Ao mesmo tempo refletir de forma crítica o tipo de intervenção que as escolas fazem para promover os direitos e a proteção das crianças. A recolha de documentos tem ainda outra função, evitar a reprodução de materiais já construídos pelos territórios da pesquisa, ou disseminar

materiais bem fundamentados, do ponto de vista teórico, como um manual ou um folheto, noutros territórios educativos.

Quivy & Campenhoudt (1998) consideram que há dados aos quais a pesquisa não consegue ter acesso se não os recolher pela via documental, para desta forma garantir a autenticidade e exatidão da informação. Contudo ressalvam um dado de relevância ética: muitos dos documentos analisados podem conter informação de caráter confidencial, no caso concreto íntimo das famílias, que obriga a investigação ao sigilo de nomes, territórios e locais, mas aos quais o investigador deve ter acesso para enquadrar e analisar a problemática, de forma a que este tipo de análise ajude a compreender a mudança social (p. 203), que se pretende operar através da promoção para a proteção dos direitos da criança, no interior das famílias.

Para Albarello & Digneffe (2005) o investigador documenta-se em função da investigação, como método de recolha e de verificação de dados constituindo-se parte integrante da heurística da investigação. Dado que a pesquisa não se vai relacionar diretamente com as famílias e as crianças, a utilização da análise documental permite estudar pessoas a quem não temos acesso físico (Neves J. L., 1996).

Nesta investigação faz-se ainda referência a fontes orais escritas (Albarello & Digneffe, 2005), credíveis, utilizadas para suprimir um handicap na recolha de dados, e o qual se reflete na avaliação do processo metodológico. São entendidos como testemunhos vivos e preciosos (Albarello & Digneffe, 2005) para se compreender a hesitação de alguns discursos produzidos, em conversa, nos territórios educativos onde decorreu a pesquisa, e, aos quais não foi possível dar o significado, a profundidade e a compreensão necessária para a reflexão da problemática. As fontes orais escritas são retiradas das notas de campo, da correspondência eletrónica e das mensagens de telemóvel, por possuirem conteúdo suscetível de provocar a discussão nos procedimentos metodológicos.

As considerações sobre a análise documental reportam-se, agora, para o campo da pesquisa bibliográfica. Gill (1999) explica que a pesquisa bibliográfica é desenvolvida tendo por suporte a produção literária já existente, que permite tomar conhecimento sobre a problemática em estudo. Com base nela se pode fazer a fundamentação teórica do estudo, se tem informações sobre estudos desenvolvidos, teses, relatórios ou artigos científicos, livros, revistas, a partir dos quais é reunida toda a informação à qual se deverá dar uma nova visão literária.

Cervo & Bervian (1983, p. 55) definem a pesquisa bibliográfica como a que explica um

problema a partir de referênciais teóricos publicados em documentos (…) para conhecer e analisar as contribuições culturais ou científicas do passado existentes sobre um determinado assunto, tema ou problema.

Outra funcionalidade da pesquisa bibliográfica e considerada uma finalidade primordial é que ela possibilita ao investigador familiarizar e apreender, através de instrumentos

intelectuais, uma linguagem sobre os problemas; isto é, uma maneira de refletir dos

conceitos que tal reflexão exige, bem como a maneira de utilizar esses conceitos (p.437).

A pesquisa bibliográfica utilizada nesta investigação enquadra-se na utilização de livros científicos, artigos e investigações produzidas, que ajudam a clarificar o objeto de estudo e a delimitar a problemática a ele inerente, alguns títulos são adquiridos pela investigação, outros por empréstimo bibliotecário, outros ainda cedidos por empréstimo, por colegas do mestrado, os artigos científicos são retirados de revistas científicas a que se acede eletronicamente.

A pesquisa bibliográfica tem, ainda, a sua utilidade no caráter comparativo de vários investigadores e suas teorias (Pardal & Lopes, 2011), a partir dos quais se conheceram outras obras e outros autores, basta para isso estar atento às citações mais referenciadas, e permite, aos investigadores, separar o que é, em termos de investigação científica, importante e referencial ao estudo do que é acessório e figurativo.

É chegado o momento de contextualizar a entrevista como instrumento de recolha de dados, de acordo com Bauer (2002, p. 189) a grande maioria das pesquisas sociais baseia-se

na entrevista, de acordo com (Pardal & Lopes, 2011), a entrevista é uma técnica de recolha

de dados de larga utilização na investigação social, que possibilita a obtenção de informação mais rica. Nesta pesquisa aplica-se a entrevista semiestruturada, aos professores e profissionais do social, tendo como referencial de perguntas o guião de entrevista organizado em 4 blocos temáticos, relacionados com os objetivos do estudo e as questões investigativas, traçadas na delimitação do objeto. De acordo com Guerra (2006) a ordem das perguntas não é importante desde que o desenrolar da mesma apele à racionalidade do ator. Por outro lado considera que a questão mais importante é a

clarificação dos objetivos e dimensões de análise que a entrevista comporta (p.53).

Nos estudos qualitativos interroga-se um número limitado de pessoas, pelo que a questão de representatividade da amostra não se coloca, o que é importante é que a amostra seja adequada ao objetivo da investigação e garanta a maior diversidade possível (Albarello & Digneffe, 2005).

Para estes autores a entrevista, como técnica de recolha de dados pressupõe que há dados importantes à pesquisa que interessa indagar, ou por outro lado há visões da problemática que interessa perceber.

Uma entrevista corresponde sempre a uma visão dos problemas diferenciada, é também nesse sentido que o investigador a aplica de forma a encontrar um sentido e uma compreensão para a problemática das situações familiares de risco. Por outro lado, o entrevistado deve aproveitar o momento para de forma inesperada se interrogar sobre si mesmo, e testemunhar (Lalanda, 1998).

Debruça-se agora a explanação sobre a análise de conteúdo, técnica utilizada como tratamento de dados, para dar significado às entrevistas semiestruturadas e à análise dos dados recolhidos nos processos de sinalização, quer nos territórios educativos, quer na CPCJ.

A análise de conteúdo trabalha os materias textuais escritos (Bauer, 2002), isto é, o seu conteúdo, a materialidade linguística através das condições empíricas do texto, que permite estabelecer categorias temáticas para se interpretar a pesquisa (Caregnato & Mutti, 2006).

Na pesquisa, em concreto, analisam-se e categorizam-se as entrevistas produzidas pelos atores nos territórios educativos, na CPCJ, e na REAPN para se poder compreender o seu pensamento acerca da problemática em estudo, e, ao mesmo tempo retirar inferências que permitam avançar para o desenho de um plano de ação. Para Pêcheux (1993, p. 65) na utilização da análise de conteúdo o que é visado no texto é justamente uma série de

significações que o codificador deteta por meio dos indicadores que lhe estão ligados. A

análise de conteúdo, enquanto instrumento utilizado para tratar os dados recolhidos na pesquisa, vai de encontro ao caráter da metodologia escolhida, por tratar a complexidade da problemática, a profundidade das informações recolhidas, e, o rigor pretendido das interpretações que darão conhecimento sobre uma problemática que é exterior ao sujeito que o produz (Quivy & Campenhoudt, 1998).

Utilizar instrumentos de investigação laboriosa de documentos (Bardin, 2011, p. 30) é estar ao lado de autores como Durkheim, Bordieu ou Bachelard que se opuseram à ilusão

da transparência dos factos sociais (Bardin, 2011, p. 30), desviando o olhar de uma leitura

simples do real. É por outro lado aceitar a construção provisória de hipóteses, que se hão- de constituir como importantes diretrizes para a análise sistemática. Esta autora considera que a análise de conteúdo assenta em duas importantes orientações, por um lado a verificação prudente das hipóteses, por outro a interpretação brilhante, que não toma como referência os seus próprios valores e representações.

De facto a utilização deste instrumento aplicado à verificação das questões de partida podem servir para reorganizar o desenho da investigação, tendo por suporte as inferências construídas. Berelson (s/d, citado por Bardin, 2011, pp.37-38) considera que se trata de

uma técnica de investigação de descrição objetiva e sistemática do conteúdo. Por sua vez

Bardin (2011, p.40) considera que a intenção da análise de conteúdo é a inferência de

conhecimentos relativos às condições de produção, possibilitando inferir sobre uma outra

realidade que não é vivida pelos atores que produzem discurso linguístico, no que a esta investigação diz respeito.

A triângulação de dados é outro instrumento utilizado para tratarmos os dados obtidos. Segundo (Maxwell, 1996)a triangulação reduz o risco de que as conclusões de um estudo se desviem do objeto de estudo permitindo conclusões mais credíveis.

A triângulação significa olhar para a mesma questão problemática, a partir de mais do que uma fonte de dados. Nesta pesquisa vai-se triângular os dados obtidos pela análise de conteúdo (entrevistas)e a análise documental (processos) de forma a enriquecer a compreensão da problemática permitindo que emergem novas ou mias profundas dimensões.