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Parte I – Processo de investigação

2. Estado da Arte

2.5. Tipologia do maltrato infantil

De acordo com Barudy (1998), Azevedo & Maia (2006), Calheiros (2006) estabelecer uma tipologia de maltrato torna-se díficil porque, simultâneamente, podem ocorrer várias formas de maltrato sobre o mesmo indíviduo. Assim, por exemplo, o maltrato físico pode ter consequências psicológicas e o contrário também é possível. Ainda que se torne importante para a compreensão do maltrato uma análise cruzada das várias tipologias vamos seguir o procedimento utilizado aquando da unidade curricular e abordar de forma isolada as categorias: maltrato físico, maltrato psicológico, abuso sexual e negligência.

2.5.1. Maltrato físico

De acordo com Mainly e Crittenden (1994, cit. por Calheiros, 2006) e Azevedo &Maia (2006) o maltrato físico constitui a categoria de maltrato que melhor se identifica.

Cantón Duarte e Cortés Arboleda definem o maltrato físico como todas as agressões físicas feitas à criança por parte dos pais ou cuidadores, que possam colocar em perigo o seu desenvolvimento físico, social ou emocional.

De acordo com Calheiros (2006) as agressões pressupõem contacto físico do qual resultam danos físicos e considera relevante ter-se em linha de conta a forma como é perpetrado o maltrato físico, uma vez que há autores que consideram existir diferenças no valor atribuido ao mesmo, em função de este resultar de uma violência executada com cinto, fivela ou com a mão.

A nível operacional podem considerar-se como comportamentos físicamente abusivos a agressão física, os castigos corporais, as sevícias, as queimaduras, os envenenamentos, as asfixias ou afogamentos, golpes efectuados com pontapé, o empurrar ou atirar objectos, esbofetear, morder ou sujeitar a criança a trabalhos pesados e inadequados à sua idade, (Azevedo & Maia, 2006).

Alguns dos indicadores de agressão física, podem ser observados a olho nu, nomeadamente, hematomas, feridas, fracturas, deslocações, sinais internos de díficil diagnóstico como lesões cerebrais, traumatismos ou lesões internas abdominais.

Reis (1993, cit. por Azevedo & Maia, 2006) considera que os agressores são em regra, indivíduos provenientes de contextos sócioeconómicos desfavorecidos, desempregados, sem escolarização, com problemas de dependências a alcool ou drogas e com personalidade agressiva.

2.5.2. Negligência

De Paúl e Arruabarrena Madariaga (cit. por Azevedo & Maia, 2006, p.32) não estabelecem distinção entre negligência e abandono, porque contextualizam ambos na seguinte definição situação em que as necessidades físicas básicas do menor (alimentação,

vestuário, higiene, protecção e vigilância em situações potencilamente perigosas, educação e/ou cuidados médicos) não são atendidas temporal ou permanentemente por nenhum membro do grupo que convive com a criança.

Podemos considerar de acordo com o traduzido por Azevedo & Maia (2006), duas formas distintas de infligir actos negligentes às crianças, isto é, fazê-lo de forma consciente por parte dos pais ou cuidadores maltrantes ou de forma inconsciente por manifesta ignorância, informação ou formação. Para Martínez Roig (1993, cit. por Azevedo & Maia) o abandono é considerado uma forma de negligência extrema.

Barudy (1998) considera a negligência um tipo de maltrato passivo, porque resulta de uma postura deliberada ou extraordinariamente negligente dos pais ou cuidadores, que não fazem o necessário para satisfazer as necessidades, que já foram referidas na definição de De Paúl e Arruabarrena Madariaga.

Polansky e Chalmers (cit. por Barudy, 1998) classificam a negligência como um fenómeno silencioso e de fácil negação, daí que a sua invisibilidade leve a considerar que se trata de uma forma de maltrato grave apelando a uma maior observação e atenção para detectar os seus sinais.

Calheiros (2006) categoriza a negligência em 3 níveis: o físico, referindo aspectos relacionados com a alimentação e vestuário, o educacional ao nível da estimulação da aprendizagem e do desenvolvimento e o emocional, quando não protela um desenvolvimento emocional equilibrado, sendo que todos envolvem comportamentos inadequados de omissões dos pais e/ou cuidadores em garantir as necessidades básicas das crianças.

2.5.3. Maltrato psicológico

O maltrato psicológico é mais destruitivo no seu impacto que outras formas de maltrato e pode assumir diferentes designações como, crueldade mental, abuso emocional ou negligência, mau trato emocional, exposição à violência familiar, mau trato educacional ou moral Calheiros (2006).

Brassard (1987, cit. por Calheiros, 2006) considerou que foi a partir dos anos 80 que o termo maltrato psicológico passou a englobar todos os aspectos afectivos e cognitivos do maltrato à criança.

Azevedo & Maia (2006) considera que a par da negligência, este, é um tipo de maltrato frequente mas de difícil diagnóstico, dado que os sinais são extremamente dificeis de se tornarem visiveis, sendo que a sua invisibilidade é um dos maiores problemas à sua detecção.

Barudy (1998) considera-o um maltrato activo porque agride a criança através de palavras que a humilham, denigrem ou ameaçam e ao tempo envolve-as num ambiente familiar que suscita o isolamento e a confusão.

Burnett (1993, cit. por Figueiredo, 1998, cit. por Azevedo & Maia, 2006) refere outras formas de provocar o maltrato psicológico, tais como, a humilhação em espaços públicos, a exigência à criança de comportamentos imorais, limitar a sua liberdade, não lhes proporcionar o crescimento emocional e social adequado, agredi-la verbal e severamente, puni-la físicamente ou abandoná-la. Reparemos que segundo este autor o maltrato físico e a negligência são considerados também maltrato psicológico.

Por último, para completar esta série de variáveis causadoras de maltrato psicológico, Barudy (1998) refere, ainda, como forma de maltrato psicológico a superprotecção aos filhos, o que ele designa por mães ”intoxicantes” que impedem uma correcta autonomização no crescimento e desenvolvimento dos mesmos.

2.5.4. Abuso sexual

Strecht (2006) considera que o abuso sexual provoca uma dor incomensurável nas crianças e é a par do maltrato físico punido pelo código penal. Por se tratar de um abuso socialmente repugnável, a estigmatização que causa às vítimas é maior (Strecht, 2006).

Calheiros (2006) também se refere a este tipo de comportamento abusivo, como sendo mais condenável pela sociedade, primeiro porque existe grande unanimidade em considerá-lo socialmente desviante, segundo o acto sexual entre um adulto e um menor não tem lugar para debate na sociedade, pelo que a menos que seja consentido pelo menor, e, ainda, assim, será sempre condenado pela mesma.

Finkelhor e Hotaling (1998, cit. por Calheiros, 2006) consideram determinante, para se apurar este tipo de abuso que se tenha presente a diferença de idades entre a vítima e o abusador, a natureza do acto, o uso de força ou coação; consentimento da criança e o nível de informação que esta dispõe sobre atitudes sexuais.

De acordo com a OMS (1986, cit. por Barudy, 1998, p.161) o abuso sexual infantil implica que a criança seja vítima de um adulto, ou de uma pessoa evidentemente maior que

ela, com fins de satisfação sexual. O delito pode tomar diversas formas: chamadas telefónicas obscenas, ultraje ao pudor, exibicionismo, violação, incesto, prostituição de menores.

Os abusos sexuais podem não implicar só o contacto físico, toques intencionais em determinadas áreas do corpo ( vagina, pénis, mamilos), a exibição de fotografias ou filmes de caráter sexual, a masturbação na presença de menores ou a exibição de orgãos sexuais a menores.

Trata-se de um tipo de maltrato muito característico que encontra no silêncio e na cúmplicidade da família (por medo e vergonha) um aliado. Araújo (1997, cit. por Azevedo & Maia, 2006, p.38) considera, mesmo, existir uma síndrome do segredo onde a sua manutenção alimenta a negação, contribuindo para que as, crianças abusadas não falem com medo de serem castigadas ou maltratadas.