1 – SOBRE A IMAGEM CORPORAL
1.3 – DINAMISMO DA IMAGEM CORPORAL
Schilder (1999), concebe a imagem corporal como algo extremamente fluido e mutável. Em suas palavras:
"Já frisei diversas vezes o quanto a imagem corporal é lábil e mutável. A imagem corporal pode encolher ou se expandir, pode dar partes suas para o mundo externo ou se apoderar de partes dele. Quando tocamos um objeto com a extremidade de uma vareta, a sensação é percebida na ponta da vareta. Esta se torna, realmente, parte da imagem corporal" (p.223).
No entanto, Schilder (1999), considera também a existência de "imagens corporais primárias" as quais são relativamente rígidas e tendem à cristalização. Segundo o autor, toda vez que nos movemos modificamos estas imagens, assim como quando utilizamos roupas, adereços, manuseamos objetos e de acordo com nossos diferentes estados emocionais. Mas depois tendemos a voltar a uma dessas "imagens primárias" novamente.
"Assim, o modelo do corpo está em contínua mudança, retornando às imagens primárias típicas do corpo, que são dissolvidas e logo cristalizadas de novo. Assim, a imagem do corpo tem traços característicos de toda nossa vida. Há uma mudança contínua de entidades cristalizadas e bastante rígidas para estados de dissolução e conjuntos menos estabilizados de experiências e, daí, um retorno à melhor forma e a uma entidade modificada" (Schilder, 1999, p.231).
Dessa forma, a cada vez que retornamos às nossas "imagens primárias", elas são um pouco diferentes. Se nos lembrarmos das idéias de Damásio (1996) a respeito da formação das imagens, veremos que não temos como sempre retornar a uma imagem de maneira idêntica, pois estamos sempre criando e recriando as imagens no presente.
Weiss (1999) considera este aspecto de constante mutabilidade da imagem corporal. A autora aponta que embora a imagem corporal tenda "em direção a um certo equilíbrio", ela "nunca atinge este equilíbrio de uma vez por todas" e acrescenta que a imagem corporal "deve ser entendida como uma gestalt dinâmica que está continuamente sendo construída, destruída e reconstruída em resposta a mudanças dentro do próprio corpo de uma pessoa, dos corpos das outras pessoas e/ou da situação como um todo" (p.17; tradução nossa).
Damásio (1996) também considera que existem na imagem corporal aspectos de maior mutabilidade e aspectos mais estáveis. De acordo com o autor, o cérebro apresenta um equilíbrio entre circuitos mais voláteis e outros mais resistentes à mudança. "Os circuitos que nos ajudam a reconhecer nosso rosto no espelho, hoje, sem qualquer surpresa, alteram-se sutilmente para acomodar as modificações estruturais que a passagem do tempo provoca em nossa face" (p.141). O autor aponta que se todos os circuitos neurais fossem constantemente modificados, seríamos incapazes de reconhecermos uns aos outros e à nossa própria biografia. Assim, existem alguns circuitos neurais que são remodelados inúmeras vezes ao longo de nossa vida, enquanto outros "permanecem predominantemente estáveis, formando a 'coluna vertebral' das noções que construímos sobre o mundo interior e exterior" (p.140).
Damásio acredita que temos uma constante atualização da representação do corpo no seu estado de cada momento, que o autor caracteriza metaforicamente como "on line", esta, estaria em constante mutação, e temos também uma representação do nosso corpo no que ele "tende a ser", que seria menos suscetível a mudanças e que o autor chama de "off line".
"A par dos mapas dinâmicos do corpo de acesso imediato (on line), existem mapas um pouco mais estáveis da estrutura geral do corpo [...] que constituem a base da noção de imagem do corpo. Essas representações são de acesso não imediato (off-line), ou dispositivas, mas é possível ativá-las nos córtices somatossensoriais topograficamente organizados, lado a lado com a representação on-line dos estados corporais do agora, a fim de permitir uma idéia do que nossos corpos tendem a ser e não do que são no momento presente" (p.182).
O autor destaca a importância do reconhecimento dos estados atuais do corpo para um funcionamento integrado dos processos mentais. Segundo o autor, para termos um "eu" integrado, é imprescindível que tenhamos os processos de representação do corpo em bom funcionamento.
O' Shaughnessy (1998) denomina o aspecto constantemente em mutação da imagem corporal de "imagem corporal de curto prazo" ("short-term body image" no original) e o aspecto mais estável, mais ligado à identidade de "imagem corporal de longo prazo" ("long-term body image" no original). A de longo prazo está relacionada ao que uma pessoa costuma ser, é uma imagem contra a qual ela pode contrapor os dados do momento para ter referência sobre como ela está. A de curto prazo o autor divide em "α", "β" e "γ".
A alfa é o conteúdo da propriocepção do corpo a qualquer momento. É algo que muda a cada instante e não apenas porque a postura corporal muda a cada instante, mas também porque o foco de atenção muda, seja por causa do excedente de sensações corporais que passam seja de acordo com as ocupações corporais intencionais do momento.
A beta é a propriocepção que é perceptível no momento. É a síntese da nossa atenção distribuída por todo o corpo enquanto o corpo permanece em uma dada postura. Os múltiplos achados são sintetizados em uma única imagem espacial. Uma noção do todo do nosso corpo. A gama é o que é potencialmente perceptível no momento. Ela aumenta a beta com todos os pontos e partes que poderiam em princípio vir para a consciência. Ela está relacionada às sensações táteis, à superfície e aparência do corpo.
O' Shaughnessy considera que a imagem de longo prazo também tem uma certa maleabilidade, ela se adapta às mudanças do crescimento e das experiências adquiridas.
Segundo o autor, a imagem corporal de longo prazo tem um conteúdo espacial que influencia de certa forma nas imagens corporais de curto prazo, dando-lhes regularidade, fazendo com que sejam imagens de uma mesma coisa.
Campbell (1998) remete às imagens corporais de longo e curto prazo de O' Shaughnessy. Segundo Campbell, a de longo prazo é sobre as dimensões físicas da pessoa, sobre a forma, o tamanho, as possibilidades de movimento. A de curto-prazo é sobre como uma pessoa está configurada aqui e agora.
Campbell considera que estas duas imagens corporais em conjunto descrevem para a pessoa todas as possibilidades de movimento abertas para ela. Estas representações mostram como uma postura futura é casualmente dependente da postura na qual se está agora.
Freedman (1990) aborda a imagem corporal de uma perspectiva cognitiva- comportamental. A autora escreve:
"Como um fenômeno psicológico, nós experienciamos nosso corpo através de uma coleção de construtos cognitivos multidimensionais. Estas imagens mentais não são estáticas, mas se desenvolvem como parte do processo dinâmico através do qual nós continuamente tentamos organizar e entender nossas experiências" (p.272; tradução nossa).
Por outro lado, a autora acrescenta que as imagens corporais são de alguma forma estáveis, pois variam em torno de uma mesma modalidade, dependendo de fatores internos, externos e contextuais.
Pruzinsky & Cash (1990) ressaltam o aspecto fluido da imagem corporal apresentado por Schilder (1999). Os autores apontam que a imagem corporal muda de acordo com o foco
de nossa atenção, com nosso estado emocional, com roupas, jóias e maquiagens que usamos, dentre outros.
Segundo os autores, muitos pesquisadores têm tratado a imagem corporal como um traço da personalidade ou como atributos objetivos da aparência, examinando o construto exclusivamente em termos de uma característica estável e independente das situações, uma característica consistente da personalidade. Os autores defendem uma mudança neste modo de tratar o assunto:
"Nós urgimos uma mudança neste paradigma para um paradigma da pessoa em interação de acordo com a situação, no qual os estados da imagem corporal são examinados em relação às interações dinâmicas das variáveis pessoais (e.g. atitudes e orientações da imagem corporal, foco de atenção e automonitoramento, atratividade física, fatores da personalidade etc.) e dos estímulos contextuais (i.e. informações relacionadas ao corpo e estímulos do ambiente social)" (p.342; tradução nossa).