5 – RELAÇÕES ENTRE IMAGEM CORPORAL E MOVIMENTO: IMPORTÂNCIA DOS ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO E RELAÇÕES
5.1.2 – RITMOS DE FLUXO DE TENSÃO E FATORES RELACIONADOS
RITMOS DE FLUXO DE TENSÃO
Kestenberg esclarece que por "tensão" quer dizer nível de tensão muscular.
Explica a tensão muscular como a interação entre os grupos de músculos agonistas e antagonistas. Assim, um fluxo de tensão livre, ocorre quando os agonistas não encontram a contra-ação dos antagonistas. Quando os antagonistas contraem junto com os agonistas, ocorre a detenção do movimento e o fluxo de tensão preso.
A autora acredita que os ritmos de fluxo de tensão fazem parte do aparelho fisiológico congênito que é, no início, independente da psique. Centros hipotalâmicos regulam a ritmicidade dos órgãos e sistemas. Existe uma correlação entre os ritmos secretores e motores. A psique é influenciada e exerce influência nestes processos rítmicos somáticos. A autora ressalta que tanto os sistemas musculares involuntários quanto os voluntários estão sujeitos às influências mútuas da soma e da psique. Ela exemplifica uma correspondência básica entre os ritmos motores dos músculos estriados e lisos citando a interação entre comer e as contrações gástricas.
Os ritmos do fluxo de tensão consistem em certas seqüências de qualidades de tensão que estão bem adaptadas para as necessidades biológicas, como sugar, defecar, urinar e outras. No entanto o uso destes ritmos não se restringe a estas atividades. O tipo oral de ritmo,
por exemplo, é usado no recém nascido não apenas na zona oral, mas em todo o sistema alimentar. Segundo a autora, este tipo de movimento se apresenta com mais freqüência nas extremidades do corpo, como dedos das mãos e pés, inclusive nos adultos.
A diferenciação dos ritmos no nenê se dá com o contato com o ambiente, mediado pela mãe. A pessoa que cuida do nenê irá ajudá-lo a escolher o ritmo apropriado para as diferentes atividades. Desta forma, ele começa a associar os ritmos motores com as atividades. Segundo Kestenberg, com a maturação, o nenê começa a representar as necessidades em desejos e assim vai sendo construída uma ponte entre soma e psique.
A autora considera que com o princípio do funcionamento psíquico, o aparato do fluxo da tensão é usado para a liberação das pulsões. Através do fluxo de tensão, as pulsões oral, anal, uretral e genital são expressas em padrões motores.
Kestenberg & Sossin (1979) explicam as pulsões referindo-se a Freud168 (1957). Os autores falam que segundo Freud as pulsões são as representações psíquicas das necessidades e acrescentam:
"são caracterizadas por sua origem em uma zona corporal, seu processo de descarga (que ele [Freud] chama impetus), seu objetivo e o objeto para o qual elas estão direcionadas. Pegando como um exemplo a pulsão oral, sua origem é a região do focinho; sua descarga típica procede através do uso do ritmo de fluxo de tensão 'oral' de sugar; seu objetivo é obter satisfação para necessidades de incorporar e seu objeto é o mamilo ou o dedo do nenê" (Kestenberg & Sossin, 1979, p.49; tradução nossa).
Os autores apontam a importância da prática do nenê de ficar chupando o dedo. Segundo eles, através desta prática o nenê começa a diferenciar seu dedo (que é sentido e sente), do mamilo (que é sentido mas não sente). Além disso através dessa prática é feita uma
divisão entre a total incorporação do objeto não diferenciado mamilo-leite e a incorporação incompleta e transitória do objeto, mão ou dedo.
Em vista das relações entre os ritmos de fluxo de tensão e a expressão das necessidades, Amighi et al. (1999) consideram que a observação de preferências de determinada pessoa por ritmos particulares revelam preocupações da pessoa com necessidades particulares. No entanto, ressaltam que em todos os adultos e crianças típicos, todos os ritmos estão presentes, de forma que as interpretações só podem ser feitas baseadas na freqüência relativa do uso de padrões específicos de movimento e no exame das configurações totais das preferências encontradas, de preferência analisando-se a pessoa em diferentes ambientes, incluindo-se ambientes do seu cotidiano.
ATRIBUTOS DE FLUXO TENSÃO
Além dos elementos básicos de fluxo de tensão preso e fluxo de tensão livre, Kestenberg observa outras variações nos atributos da tensão. São elas:
1 – segurar a tensão em um nível uniforme ou ajustes de níveis; 2 – alta ou baixa intensidade de tensão;
3 – mudança de tensão abrupta ou gradual.
A autora aponta que em todos os movimentos das crianças assim como dos adultos, pode ser detectada a ocorrência de uma alternância regular entre os fluxos de tensão livre e preso, assim como uma repetição de seus atributos, por exemplo: manutenção ou flutuação dos níveis, intensidade alta ou baixa, mudanças na tensão abruptas ou graduais.
A autora relaciona a regulação dos atributos de fluxo de tensão com o controle dos afetos desenvolvido posteriormente. Considera que os atributos de fluxo de tensão podem ser
divididos naqueles que ocorrem mais freqüentemente na frustração e aqueles que indicam alívio e conquista de satisfação. Os que servem como expressão e resposta à frustração são o trio: alta intensidade de tensão, desenvolvimento abrupto e manutenção da tensão em nível uniforme. Inversamente, o trio de baixa intensidade, desenvolvimento gradual e ajustes de níveis de tensão, é uma combinação que é expressão e resposta à gratificação.
Desta forma, o fluxo de tensão preso teria maior relação com sentimentos de cautela e o fluxo de tensão livre com sentimentos de despreocupação. No entanto, Kestenberg ressalta que as nuanças do afeto variam de acordo com a combinação de atributos de fluxo de tensão e outros padrões motores, sendo assim, um atributo de fluxo de tensão pode ser relacionado com uma variedade de sentimentos.
Os atributos do fluxo de tensão provêm componentes importantes na experiência, expressão e comunicação das emoções. A autora acrescenta que a regulação do fluxo de tensão contribui para a formação de defesas contra os próprios afetos. Amighi et al. (1999) colocam que os atributos do fluxo de tensão introduzem uma medida de controle ou regulação na expressão das necessidades (ritmos de fluxo de tensão).
PRECURSORES DE ESFORÇO
Kestenberg observa a existência de precursores de esforço como aparatos motores que fazem a mediação entre fluxo de tensão e esforço. São geneticamente e funcionalmente relacionados ao fluxo de tensão e são os suportes motores principais para o aprendizado e os mecanismos de defesa.
São orientados tanto para o corpo quanto para o ambiente, pois atentam aos fatores espaço, peso e tempo. A autora classifica os precursores de esforço em:
y Precursores de abordagem do espaço, são usados para manter a tensão uniforme, o que ajuda a canalizar trajetos no espaço e ajusta os níveis de tensão para conseguir flexibilidade no espaço;
y Precursores para lidar com o peso, aumentam a intensidade da tensão para produzir ações veementes quando a força falha e diminuem a tensão para expressar gentileza;
y Precursores para lidar com o tempo, mudam de tensão abruptamente para produzir ações repentinas e mudam a tensão gradualmente para expressar hesitação.
Os precursores de esforço são usados tanto no aprendizado quanto em mecanismos de defesa. Esta observação fez a autora considerar que aprender novas funções envolve o uso de mecanismos de defesa. O aprendiz tem medo de machucar-se ou de ser desaprovado pelo professor. Os precursores de esforço atuam na estabilização dos atributos do fluxo de tensão e na proteção do corpo contra perigos externos.
Segundo Amighi et al. (1999) os precursores de esforços têm funções: 1) na maturação dos atributos do fluxo de tensão para os esforços;
2) no aprendizado;
3) nas defesas contra os próprios desejos proibidos;
Estes autores acrescentam que quando a criança tem três anos de idade espera-se encontrar todos os precursores de esforços em seu repertório de movimentos e que quando os esforços se desenvolvem os pré-esforços não desaparecem, mas continuam a serem usados durante a vida
ESFORÇOS
Os esforços são elementos motores da adaptação do ego à realidade externa. São aparatos motores usados para lidar com as forças do ambiente (espaço, gravidade e tempo), que são os fatores essenciais da nossa realidade exterior. São classificados em:
y Diretos e indiretos, ligados ao espaço e ao alcance de nossa atenção; y Fortes e leves, ligados ao peso e ao grau da nossa intenção;
y Aceleração e desaceleração, ligados ao tempo e aos modos empregados nas tomadas de decisões.