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1 – SOBRE A IMAGEM CORPORAL

1.1 – O QUE SÃO IMAGENS E COMO SE FORMAM

Ao pensarmos na palavra "imagem" provavelmente uma das primeiras significações que nos vem em mente é a de imagem visual, isto é, imagem no sentido de desenho, foto, pintura, visualização de algo. Assim, ao falarmos em imagem corporal pode acontecer de pensarmos principalmente no aspecto visual, da aparência do corpo.

No entanto, as imagens não são apenas visuais e a imagem do corpo inclui muitos fatores além daquele da aparência.

Segundo Achterberg (1996), imaginação é "o processo de pensamento que invoca e usa os sentidos: visão, audição, olfato, paladar, sentidos do movimento, posição e tato. É o mecanismo de comunicação entre percepção, emoção e mudança corporal" (p.9).

Assad (2000) afirma que "... o Imaginário foi assumindo cada vez mais um estatuto corporal, tendo como conseqüência a função de estabelecer o elo do sujeito com o mundo" (p.96).

Overby (1990) refere-se a Paivio4 para definir imagem como "uma representação não verbal de uma memória de fatos e objetos concretos ou modos de pensamento não verbal (e.g. imaginação) nos quais tais representações são ativamente geradas e manipuladas pelo indivíduo" (Overby, 1990, p.174; tradução nossa).

As imagens não ocorrem necessariamente como memórias ou imaginações de situações, são também representações de sensações e processos de pensamento que estamos tendo no presente. Segundo Damásio (1996), é principalmente através de imagens que constantemente apreendemos informações sobre o meio e sobre o corpo. Formamos imagens visuais, imagens sonoras, imagens olfativas, imagens de palavras, de ações, de esquemas relacionais, imagens somatossensoriais, imagens de equações matemáticas e assim por diante.

"Refiro-me ao termo imagens como padrões mentais com uma estrutura construída com os sinais provenientes de cada uma das modalidades sensoriais – visual, auditiva, olfativa, gustatória e sômato-sensitiva. A modalidade sômato-sensitiva [...] inclui várias formas de percepção: tato, temperatura, dor, e muscular, visceral e vestibular" (Damásio, 2000, p.402).

Geralmente combinamos diversos tipos de imagem ao fazermos uma representação. Quando comemos algo, por exemplo, existe a representação visual da comida, sua cor, forma,

tamanho, o cheiro da comida, sua consistência quando a mordemos ou cortamos, o som da comida se desfazendo quando mastigamos, o gosto da comida, e poderíamos ainda acrescentar outras imagens que nos seriam dadas nesse aparentemente simples ato de comer.

Essas imagens que formamos a partir de informações sensoriais vindas do meio externo ou do interior do corpo são chamadas por Damásio de "imagens perceptivas", mesmo surgindo a partir de informações que estamos recebendo do meio externo ou do corpo "no presente", existe também uma participação de nossa memória do passado na formação destas imagens. Uma segunda categoria de imagens é a das "imagens evocadas". Estas se formam quando recordamos algo do passado, fazemos planos para o futuro ou simplesmente fantasiamos uma situação.

A seguir, descreveremos sinteticamente alguns dos processos envolvidos na formação de imagens, tendo como fundamentação a concepção de Damásio (1996) sobre o assunto.

Formação de imagens

Segundo Damásio, desempenham papel importante na formação das imagens as áreas sensitivas primárias do córtex cerebral, são elas: área somestésica, área visual, área auditiva, área vestibular, área olfatória e área gustativa. O autor destaca que cada uma destas áreas é um conjunto de pequenas "sub-áreas" que se relacionam entre si e com outras áreas intimamente relacionadas a elas. Estes setores intimamente relacionados atuam de maneira sincrônica e concertada formando representações topograficamente organizadas que são a base para nossas imagens mentais.

Para Damásio, os córtices sensoriais primários constituem a "via anatômica de introduzir informação sensorial complexa no córtex de associação" (p.135). Assim, o autor considera que o "conhecimento factual necessário para o raciocínio e para a tomada de decisões chega à mente sob a forma de imagens" (p.123).

Quando vemos um objeto, por exemplo, sinais emitidos pelos receptores da visão (cones e bastonetes) localizados na retina, são transportados pelos neurônios ao longo de seus axônios que através das sinapses eletroquímicas se conectam a outros neurônios, e assim por diante, até chegarem ao cérebro, aos córtices visuais primários localizados na parte posterior do cérebro, no lobo occipital. No caso de sentirmos uma dor em uma articulação, os sinais partem de receptores localizados nos ligamentos e cápsula articular e chegam, através dos neurônios, axônios e sinapses, até os córtices sensoriais primários, localizados nas regiões parietal e insular. Em cada um desses casos temos um conjunto de áreas envolvidas. Cada área é complexa em si e as conexões que fazem umas com as outras são ainda mais complexas. É a partir da ação coordenada das várias áreas que formamos as imagens do que vemos, sentimos e assim por diante.

Damásio ressalta que as representações neurais topograficamente organizadas não são suficientes por si só para a ocorrência de imagens na consciência. Elas precisam estar correlacionadas com aquelas que constituem a base neural para o "eu", do contrário, não poderíamos estar conscientes da existência destas imagens, não saberíamos que elas são "nossas" imagens. Assim, na formação das nossas imagens perceptivas, também têm um papel importante nossas vivências anteriores e nosso estado emocional do momento. Segundo o autor, a subjetividade é o elemento chave da consciência. Damásio demonstra uma preocupação semelhante à de Shontz (1977), ao enfatizar que o "eu" não é "uma pequena criatura no interior do cérebro que apreende e pensa nas imagens que o cérebro vai formando"

(Damásio, 1996, p.127). Prossegue dizendo que o "eu" neural pode ser considerado "um estado neurológico perpetuamente recriado" (p.127).

Sobre o armazenamento das imagens, deixa claro que as imagens não são armazenadas em forma de "fotos", "fitas de música" ou "filmes" de cenas de nossa vida. As imagens são reconstruídas a cada vez que nos lembramos de algo.

Damásio acredita que as imagens que formamos através da evocação de recordações (imagens evocadas) são tentativas de réplica que fazemos dos padrões neurais que ocorreram nos córtices sensoriais primários quando experienciamos a imagem a primeira vez. Estes padrões são aprendidos e passam a existir como padrões potenciais de atividade neural, formando representações dispositivas. Estas representações dispositivas existem em pequenos núcleos de neurônios chamados de zonas de convergência e localizam-se em várias partes das áreas de associação de alto nível (nas regiões frontal, temporal, parietal e occipital) e nos gânglios basais e estruturas límbicas.

A imagem se forma quando essas representações dispositivas disparam "para trás", voltando em direção aos córtices sensoriais primários, fazendo com que os disparos neurais ocorram basicamente nos mesmos córtices sensoriais primários onde os padrões de disparo correspondentes às imagens perceptivas ocorreram outrora, desta forma, experienciamos novamente, no presente, sensação semelhante a que tivemos quando ocorreu o fato original. No entanto, uma imagem evocada dificilmente tem a vivacidade de uma imagem perceptiva. Isto depende das circunstâncias em que as imagens foram assimiladas e das circunstâncias nas quais elas estão sendo lembradas. Além disso, quando vamos reconstruir uma imagem, dificilmente conseguimos trazer de uma vez todos os componentes que estavam presentes na imagem perceptiva: cor, claridade, temperatura, cheiro, som e outros. Estes elementos não existem todos armazenados em nosso cérebro em um único lugar.

Conseguimos ter uma imagem "completa" de algo quando sincronizamos o funcionamento de todos estes córtices sensoriais primários de forma a ativá-los conjuntamente em uma única "janela de tempo". Por outro lado, como já vimos, existe um papel importante da nossa subjetividade. A cada vez que criamos uma imagem, seja perceptiva ou evocada, fará parte de sua construção o significado que esta imagem tem para nós, fazem parte nossa memória, nossa emoção e nossa cognição. Assim, a cada vez que imaginamos algo, criamos a imagem no presente, dando-lhe a nossa interpretação atual do fato que ocorreu. Nossas lembranças vão se modificando junto com o nosso desenvolvimento.

Temos assim que as imagens são criadas e recriadas a cada momento em que percebemos algo ou recordamos algo ou ainda fazemos planos para o futuro. São construções momentâneas que fazemos a partir da ativação sincrônica de diversos padrões de disparo neural, ligados tanto à percepção, quanto á memória e ao raciocínio. A formação de uma imagem será diferente a cada vez, de acordo com as diferentes interpretações e significados que damos às situações, modificados pela nossa experiência e pelas diferentes circunstâncias que vivenciamos.

Damásio ressalta que as imagens de cada indivíduo são exclusivas dele. Cada ser humano possui uma forma única de vivenciar o mundo. "Essas diversas imagens [...] são construções do cérebro. Tudo o que se pode saber ao certo é que são reais para nós próprios e que há outros seres que constroem imagens do mesmo tipo. [...] Não sabemos, e é improvável que alguma vez venhamos a saber, o que é a realidade 'absoluta'" (p.124).

As imagens que fazemos do mundo exterior, não se diferem na sua qualidade das imagens que fazemos de nós mesmos. Em ambos os casos, as imagens ocorrem dentro de nós, de acordo com nossas referências individuais. Neste sentido, o mundo externo só existe na medida em que cada um de nós existe nele. Seja na nossa representação de nós mesmos,

seja na representação dos acontecimentos externos, as imagens se formam em relação a um "eu" que constitui um eixo de referência para o modo como a realidade é apreendida. Nesta perspectiva, o mundo externo torna-se parte de nós, os limites do corpo tornam-se mutáveis de acordo com nossas atitudes, nossa atenção, nossa motivação, nossos desejos.

Entendendo esta dimensão do que são as imagens, temos uma visão mais aprofundada do que seria uma imagem do nosso corpo. Vários fatores explicados em termos neurológicos por Damásio já estavam presentes nos estudos de Schilder. Embora na época das pesquisas de Schilder a neurologia ainda não tivesse desenvolvido todos os conhecimentos que seriam estruturados mais tarde, Schilder já antevia as várias dimensões envolvidas na estruturação da imagem corporal.