IV Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho o desafio que urge vencer
4.2. Directiva-Quadro 89/391/CEE pré-requisitos e fundamentos
O quadro normativo consubstanciado nesta Directiva espelha o reconhecimento do mérito da comunidade científica que se tem dedicado ao estudo e à intervenção no mundo do trabalho, uma vez que acolhe as suas propostas de concepção do desenvolvimento e produção de competências, assentes na valorização dos saberes adquiridos na acção e na experiência detida pelos sujeitos que são mobilizados face às situações inéditas, imprevistas ou sujeitas a uma mudança.
De facto, como salientou Ginsbourger (1992, In Clot, 1995, p.21), «o trabalho não é só consumidor de competências, mas também seu gerador», na medida em que, como explica Malglaive (1990 In Clot, 1995, p.38), «a tomada de consciência das ferramentas cognitivas utilizadas de forma implícita nas actividades práticas permite a sua mobilização quando confrontados com situações desconhecidas».
Neste contexto, este novo modelo de prevenção estabelece, como ponto de partida, a
a adoptar, num quadro de princípios gerais de prevenção, conformadas à filosofia que lhe está subjacente.
Justifica-se, por isso, à semelhança do que fizeram outros colegas (Vasconcelos, R., 2000; Valverde, C, 2000) enunciá-los aqui, apoiando-nos no Livro Branco dos Serviços
de Prevenção das Empresas (IDICT, 1999):
• Evitar os riscos;
• Avaliar os riscos que não podem ser evitados; • Combater os riscos na origem;
• Adaptar o trabalho ao homem, agindo sobre a concepção, a organização e os métodos de trabalho e produção;
• Realizar estes objectivos tendo em conta o estádio da evolução da técnica; • De uma maneira geral, substituir tudo o que é perigoso pelo que é isento
de perigo ou menos perigoso;
• Integrar a prevenção dos riscos num sistema coerente que abranja a produção, a organização, as condições de trabalho e o diálogo social; • Adoptar prioritariamente as medidas de protecção colectiva, recorrendo às
medidas de protecção individual unicamente no caso de a situação impossibilitar qualquer outra alternativa;
• Formar e informar os trabalhadores e demais intervenientes na prevenção.
Como se pode constatar, a avaliação dos riscos é agora um momento essencial que implica um completo conhecimento do contexto de trabalho e que deve traduzir-se, num primeiro momento, pela eliminação dos próprios riscos e, num segundo, pelo seu combate na origem.
Tal como anteriormente acentuámos, está definitivamente afastada a abordagem anterior de intervenção a partir da constatação de danos e da exposição a riscos presentes, privilegiando-se, no actual quadro conceptual, uma prevenção primária, que só excepcionalmente deve recorrer à protecção, o que pressupõe, não é demais repeti-lo, a
capacidade de analisar a situação global de trabalho e pôr em evidência os aspectos susceptíveis de envolver ou gerar riscos, no âmbito do processo de trabalho privilegiado.
A filosofia subjacente à Directiva-Quadro, que foi transposta para o nosso ordenamento jurídico pelo Decreto-Lei n.Q 441/91, de 14 de Novembro, implica uma mudança radical no modo de encarar e compreender a prevenção, implicando, por esse facto, uma mudança profunda na orientação dos conhecimentos e das práticas de intervenção nos locais de trabalho.
A Segurança e a Saúde no trabalho deixaram de ser uma ilha isolada onde predomina a busca de soluções técnicas e médicas, passando a ser objecto de uma visão mais ampla e holística.
Visão confirmada pelo Tribunal de Justiça das CE quando, em Acórdão de Novembro de 1996, estabelece que: «...o conceito de ambiente de trabalho abrange todos os factores que dizem respeito ao trabalhador no seu trabalho.
(...) A protecção da saúde e da segurança não se limita aos efeitos dos agentes físicos e químicos, devendo abordar-se a saúde num sentido amplo, isto é, como "um estado completo de bem estar físico, mental e social, que não se traduz apenas numa ausência de doenças ou de enfermidades"».
Donde se conclui que a saúde não é mais entendida como um estado natural mas sim como um constructo social, a exigir uma abordagem interdisciplinar e articulada.
É o acolhimento, no âmbito do Direito do Trabalho, do conceito de saúde expresso pela Organização Mundial de Saúde há 40 anos.
Sistematizando os princípios subjacentes a esta abordagem do trabalho em termos de bem estar, Maggi (1997) caracteriza a filosofia de prevenção acolhida nesta Directiva como: primária (prioriza a prevenção relativamente à protecção - evitar, avaliar,
combater) ; programada (deve ser pensada, planeada e concebida de forma antecipada) ; abrangente (deve ter em conta a globalidade dos processos de trabalho mas também a
interactividade dos diferentes elementos e processos que a caracterizam, isto é, nenhum aspecto da situação de trabalho deve escapar à avaliação em termos de prevenção) e
participada (no sentido em que os trabalhadores passam a ser actores fundamentais
tanto na análise do trabalho como na compreensão e avaliação de riscos, deixando de ser simples destinatários de opções feitas por terceiros).
Neste quadro, acrescenta Maggi, a. formação é parte integrante dos processos de análise, avaliação e concepção.
E conclui (1997, p. 4): «Tudo isto pressupõe uma análise e uma intervenção sobre a
situação de trabalho, tendo em vista o controle da saúde e da segurança dos trabalhadores. Nesse sentido, pode falar-se de uma obrigação de analisar o trabalho, introduzida pela lei, sobre a qual convém reflectir».
Deste modo, o D.L. n.2 441/91, de 14 de Novembro, ao transpor para o ordenamento jurídico português este novo olhar a saúde e a segurança nos locais de trabalho, estabeleceu o dever e o direito colectivos de (a) uma prevenção primária, programada,
abrangente e participada, assente numa avaliação de riscos exaustiva e global, baseada
em critérios objectivos e articulados a vários níveis o que significa, como anteriormente
salientámos, uma efectiva articulação entre prevenção, análise do trabalho e formação, cujo êxito pressupõe, necessariamente, o envolvimento e a participação dos trabalhadores.
Esta problemática e a busca de compreensão de fenómenos colectivos que com ela se prendem e aos quais é necessário responder, tendo em conta a realidade do tecido empresarial português - «um terço dos empresários da indústria têm o ensino
secundário incompleto, 58% das empresas industriais são do tipo familiar, isto é, pertencem a um grupo unido por laços familiares; 78% são geridas apenas pelos proprietários sem apoios de gestores ou técnicos; 29% dos empresários foram,
anteriormente, trabalhadores da produção e 65% dos trabalhadores da indústria transformadora têm menos que a escolaridade básica, aqui considerada como seis anos
e não como os nove actualmente em vigor» (Lança, I. S., 1998) - modelou e orientou o
nosso trabalho empírico.