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Direito à garantia e proteção dos direitos fundamentais

Capítulo III DIREITOS E DEVERES ADQUIRIDOS PELOS CIDADÃOS NACIONAIS COM A CDANANIA EUROPEIA

1. Direitos do cidadão decorrentes da cidadania europeia

1.7 Direito à garantia e proteção dos direitos fundamentais

Os conceitos de cidadania e direitos fundamentais do Homem foram-se alterando paulatinamente através das muitas conquistas levadas a cabo ao longo dos tempos. Isto porque, após séculos de espezinhamento do poder instituído, ora monarquias absolutas, ora ditaduras, o povo acabou por se revoltar o que deu origem à Revolução Francesa (1789) e à correspondente Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão. Foram novos direitos atribuídos ao povo, só que não durou muito tempo, porque, pouco tempo depois, surgiu a 2ª guerra mundial e em que os direitos humanos foram desprezados e desativados.

Mas, muitas vezes é das “cinzas” que renasce a consciencialização para implementação de novas medidas de forma a evitar que os mesmos resultados se voltem a repetir. Com efeito, após o conhecimento generalizado dos resultados nefastos causados a seres humanos foi fundada a Organização das Nações Unidas (ONU), em Assembleia-geral (1948), e foi proclamada a DUDH. Começou, assim, a internacionalização dos Direitos Humanos.

Posteriormente, nos anos 50, foram criadas as Comunidades Europeias para servir os objetivos económicos, mas que nada tinha a ver com os Direitos Humanos. Nem mesmo o Tratado de Roma (1957) fazia qualquer referência nesse sentido.

185 Proposta de Regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho “relativo à protecção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados (regulamento geral sobre a protecção de dados)” (COM (2012) 11 final).

No contexto das Comunidades Europeias é só com Acto Único Europeu (AUE) assinado em 17 de Fevereiro de 1986, e em vigor desde 1 de Julho de 1987, que se inscreve nos Tratados uma preocupação acrescida com a proteção dos direitos fundamentais. Nos termos do seu Preâmbulo os Estados Membros estavam “DECIDIDOS a promover conjuntamente a democracia, com base nos direitos fundamentais reconhecidos nas constituições e legislações dos Estados-membros, na Convenção de Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais e na Carta Social Europeia, nomeadamente a liberdade, a igualdade e a justiça social.”

Por outro lado, o AUE teve, também, como objetivo essencial a criação de um mercado interno sem fronteiras, de forma a “eliminar as fronteiras internas, técnicas e físicas”186

que obstassem à livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais, prevendo a concretização destas “quatro liberdades” 187

até 31 de Dezembro de 1992.

O passo seguinte foi dado com o Tratado de Maastricht (1992) que ao instituir a cidadania da União alterou o pendor socioeconómico dos direitos dos cidadãos na sua qualidade de agentes económicos, “trabalhadores”, atribuindo-lhes direitos políticos de índole constitucional estabelecendo no seu artigo B como objetivo da União “«o reforço da defesa dos direitos e dos interesses dos nacionais dos seus Estados-Membros, mediante a instituição de uma cidadania da União».”

É nos termos do artigo F, n.º 2 do Tratado de Maastricht que a União assumiu o compromisso de respeitar os direitos fundamentais “tal como os garante a Convenção Europeia de Salvaguarda dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais (…) e tal como resultam das tradições constitucionais comuns aos Estados-membros, enquanto princípios gerais do direito comunitário.” 188 Cidadania e direitos humanos tornaram-se, assim, indissociáveis.

Por seu lado, o Tratado de Amesterdão reforçou a protecção dos direitos fundamentais ao introduzir no artigo 7.º do TUE a chamada “cláusula de suspensão”, um mecanismo sancionatório que pode conduzir à imposição de sanções a um Estado-Membro que viole os

186

O Ato Único Europeu [em linha], [consultado em 20-08-2013], disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ato_%C3%9Anico_Europeu

187 Livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capital

188 Atualmente, este artigo corresponde ao artigo 6.º, n.º 3 do TUE, com a redação que lhe foi dada pelo Tratado de Lisboa.

valores fundamentais da União Europeia, incluindo o da protecção dos direitos fundamentais. No limite, o Estado-Membro que viole de forma grave e sistemática os direitos fundamentais pode ver o seu direito de voto suspenso.

Com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa (2009) e, nomeadamente, com a anexação da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia a este Tratado189 intensifica-se o respeito pelos direitos fundamentais, como princípios gerais do direito da União, nos termos do artigo 6º do TUE. Esta passou a ter força jurídica vinculativa com o mesmo valor jurídico dos Tratados, nos termos (artigo 6.º, n.º 1 do TUE), o que veio, não só, dar maior destaque e visibilidade ao conceito de cidadania europeia, como também reforçar a ação da União na garantia dos direitos fundamentais dos cidadãos.

Muitas têm sido as iniciativas para fundamentar e garantir o direito à proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos da UE. É o caso, por exemplo, da “Decisão do Conselho 2007/252/CE, de 19 de Abril de 2007, que cria, para o período de 2007 a 2013, o programa específico «Direitos fundamentais e cidadania» no âmbito do programa geral «Direitos fundamentais e justiça»”.190 Esta Decisão “tem como objectivo promover o desenvolvimento de uma sociedade europeia assente no respeito pelos direitos fundamentais, reforçar a sociedade civil e incentivar um diálogo aberto e transparente, combater o racismo o e a xenofobia.”191 Com todos estes antecedentes estão reunidas as condições, no que se refere à implementação e garantia dos direitos fundamentais a todos os cidadãos da UE sob o controlo TJUE. Contudo, cidadania e direitos humanos são direitos adquiridos e garantidos, mas não são, de modo algum, direitos perpétuos e imutáveis, porque vivendo num mundo em constante mutação nada é garantido. É necessário continuar a lutar para poder assegurá-los e mantê-los. E é isso que é dever de cada cidadão em particular e a todos no geral ser cidadãos ativos e presentes, na preservação dos Direitos do Homem.

189 Que obriga a UE a respeitar os direitos, as liberdades e os princípios enunciados na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, de 7 de Dezembro de 2000, com as adaptações introduzidas em 12 de Dezembro de 2007 e em Março de 2010.

190 Direitos Fundamentais e Cidadania (2007-2013), [em linha], [consultado em 31-08-2013], disponível em http://europa.eu/legislation_summaries/human_rights/fundamental_rights_within_european_union/l16026_pt.htm 191 Idem

Logo direitos e deveres estão equiparados e para que os cidadãos europeus passem a beneficiar dos direitos têm, também, de cumprir os deveres e as obrigações, porque os dois estão interligados. E é isso que a UE espera de todos a fim de ser possível continuar com uma UE democrática, pacífica, solidária e humanizada. Isto porque, a adesão dos Estados-Membros à UE vislumbra um conjunto de obrigações e deveres para os cidadãos nacionais, de que trataremos no ponto seguinte.