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Direito e literatura em terras Brasileiras

3. HERMENÊUTICA JURÍDICA E LITERATURA

3.1. UM PANORAMA DO ESTUDO DIREITO E LITERATURA: NARRATIVAS QUE

3.1.3 Direito e literatura em terras Brasileiras

No Brasil, o estudo Direito e Literatura tem como propulsor de destaque André Karam Trindade, embora não tenha sido ele o primeiro a se debruçar sobre esta relação em terras Brasileiras, certamente é um dos principais contribuidores para seu crescimento e divulgação.

No ano de 2008, coordenou juntamente a Roberta Magalhães Gubert e Alfredo Copetti a publicação das obras Direito e literatura: reflexões teóricas e Direito e literatura: ensaios críticos. Em 2010, o trio de professores organizou a publicação de outra obra coletiva, denominada Direito e Literatura: discurso, imaginário, normatividade. Tais livros contém participações de pesquisadores nacionais e estrangeiros de áreas diversas, dentre os quais vale mencionar: a) Vicente de Paulo Barreto que, em 2006, ao organizar a obra Dicionário de filosofia do direito, incluiu verbete próprio para “Direito e Literatura”302; b) Carlos María

Cárcova; c) Eligio Resta; d) Joana Aguiar e Silva; e) José Calvo González; f) José Manuel Aroso Linhares; g) Maria Paola Mittica e; h) Martha Nussbaum.

A importância das iniciativas de Karam Trindade não restringe-se apenas à divulgação do D&L, mas especialmente por também configurar ponto de encontro dos trabalhos que eram desenvolvidos de maneira isolada303 por professores em seus respectivos centros de pesquisa. Isto porque, ele foi um dos membros fundadores da Rede Brasileira Direito e Literatura (RDL); do programa televisivo Direito & Literatura, no ar há uma década sob apresentação de Lenio Luiz Streck; do Colóquio Internacional de Direito e Literatura (CIDIL) e; da criação da Revista Internacional de Direito e Literatura (Anamorphosis)304, que conta com publicações de pesquisadores da área, como por exemplo, Maria Paola Mittica, Alberto Vespaziani, François Ost, Joana Aguiar e Silva, José Calvo Gonzalez e Robert Cover.

300 Idem, ibidem, pp. 51-52. 301 Idem, idibdem, p. 52.

302 BARRETO, Vicente de Paulo [coordenador]. Dicionário de Filosofia do Direito. Editora Unisinos: São Paulo; Editora Renovar: Rio de Janeiro. 2006.

303 TRINDADE, André Karam; BERNSTS, Luísa Giuliani. O estudo do direito e literatura no Brasil, op. cit., p. 237.

André Karam Trindade e Luísa Giuliani Bernsts publicaram, pela Anamorphosis, artigo intitulado O Estudo do Direito e Literatura no Brasil: Surgimento, Evolução e Expansão305, no qual apresentam o levantamento realizado a respeito dos primórdios do desenvolvimento de estudos em D&L no Brasil, bem como sua evolução desde então. Apresentaram, ainda, análise quantitativa dos artigos publicados sobre o tema em eventos do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito (CONPEDI).

Trindade e Bernsts dividem os estudos em D&L no Brasil em três fases, cujo ponto de partida deu-se na década de 50 do século passado, com publicações que buscavam explicar o direito à luz de textos literários. Inauguraram tais estudos no Brasil Aloysio de Carvalho Filho, José Gabriel Lemos Britto, Eitel Santiago de Brito Pereira e, com maior destaque ante o livre trânsito entre filosofia, psicanálise, literatura e teoria do direito, Luis Alberto Warat306.

Da década de 1990 em diante, tem início a segunda fase dos estudos Brasileiros e caracteriza-se pelo primeiro contato com as pesquisas realizadas no exterior307. Em tal fase, a

título exemplificativo, destacam-se os livros Direito e Literatura: anatomia de um desencanto – desilusão jurídica em Monteiro Lobato, que havia sido a dissertação de mestrado de Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy – autor que mantém-se presente nas pesquisas e publicações em D&L também atualmente308; O Estudo do Direito Através da Literatura, de Luiz Carlos Cancellier de Olivo; e a publicação em português da obra de F. Ost, Contar a Lei: as fontes do imaginário jurídico, em 2005. A partir de tal período, já na terceira fase, surgiram grupos de pesquisa e seminários a respeito do tema, proporcionando um significante aumento das publicações na área.

Trindade e Bernsts salientam, ainda, que de 2007 a 2016 ocorreram dezoito eventos sob o âmbito do supramencionado CONPEDI, contando com 339 artigos publicados no âmbito da área Law and the Humanities, especificamente sobre as relações entre direito e arte, literatura, cinema, culutra e música309. Entretanto, pela “inexpressiva quantidade de citações de autores nacionais e internacionais sabidamente vinculados aos estudos e pesquisas em Direito e Literatura”, pode-se afirmar que “há uma flagrante deficiência teórica”310 nas pesquisas

305 TRINDADE e BERNSTS, O estudo do direito e literatura no Brasil, op. cit. 306 Idem, ibidem, pp. 229-233.

307 Trindade e Bernsts apontam que a vertente Law in Literature, na perspectiva de Benjamin Cardozo, foi apresentada por Eliane Botelho Junqueira pela obra Literatura e direito: uma outra leitura do mundo das leis, no ano de 1998. Cfr: TRINDADE e BERNSTS, O estudo do direito e literatura no Brasil, op. cit. p. 234.

308 Posteriormente o autor publicou outras duas obras a respeito do tema: GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes.

Direito & Literatura: Anatomia de um Desencanto – Desilusão Jurídia em Monteiro Lobato. Juruá Editora.

Curitiba. 2002; Idem. Direito e Literatura: ensaio de síntese teórica. Livraria do Advogado. Porto Alegre. 2008; Idem. Direito, Literatura e Cinema: Inventário de Possibilidades. Quartier Latin. São Paulo. 2011.

309 TRINDADE e BERNSTS, O estudo do direito e literatura no Brasil, op. cit. pp. 241-243 310 Idem, ibidem, pp. 244 e 245/246.

publicadas em terras Brasileiras – muitas das quais não apresentam nem mesmo referencial teórico311.

Este quadro de ausências de preocupações metodológicas pode ser compreendido se levada em consideração a recente “aparição” do movimento direito e literatura nos estudos Brasileiros, especialmente quando comparado com o tempo de maturação dos estudos nos Estados Unidos e na Europa (cuja “definição afirmativa” ocorreu ainda na déacada de 1980, ou seja, antes ainda do contato Brasileiro com tais obras). De toda forma, os estudos Brasileiros concentram-se sobre as três principais “vertentes” do Law and Literature Movement e são realizados, em sua maioria, por pesquisadores da área do direito.

Existem, todavia, contribuições realizadas por pessoas inseridas no âmbito literário, tendo como maior exemplo, Antonio Cândido, sociólogo e literato que, no ano de 1988, publicou artigo intitulado Direito à Literatura, afirmando que é através do contato com a cultura em todos os seus níveis (folclore, lenda, mitos, “até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações”312) que ocorre o processo de humanização do

indivíduo, pela aquisição do saber e exercício da reflexão, da boa disposição para com o próximo, cultivo do humor, senso da beleza e percepção da complexidade do mundo e dos seres e afinamento das emoções313.

Antonio Candido apontou a relação umbilical existente entre (acesso à) literatura e direitos humanos, ao afirmar que “a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade”. E, assim sendo, manter parcela da sociedade privada da possibilidade de acesso a este “bem humanizador” equivale a mutilar a humanidade ali presente314.

O pensador Brasileiro tinha como pano de fundo em sua análise a grande desigualdade social existente no Brasil, que empurra certa parte da população para uma espécie de subcidadania315. Com isso, o autor defendeu que a luta por direitos humanos deve, para além de garantir os “bens incompressíveis”316 que garantem a “sobrevivência física em níveis

decentes”, como por exemplo, saúde, alimentação, moradia, vestuário, instrução, etc., devem

311 TRINDADE e BERNSTS, O estudo do direito e literatura no Brasil, op. cit. pp. 238-246.

312 CANDIDO, Antonio. O Direito à Literatua: In: CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 5ª edição. Ed. Ouro sobre Azul. Rio de Janeiro. 2011. pp. 171-193, p. 176.

313 Idem, ibidem, p. 182. 314 Idem, ibidem, p. 188.

315 A expressão “subcidadania” é utilizada pelo sociólogo Brasileiro Jessé Souza, cfr: SOUZA, Jesse. A construção

social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade periférica. Editora UFMG. Belo Horizonte.

2003. O tema é sumariamente desenvolvido no item 4.4.

316 Antonio Candido utiliza-se da distinção entre “bens compressíveis” e “bens incompressíveis”. Pertencem à primeira categoria, por exemplo, “os cosméticos, os enfeites, as roupas supérfluas”. Ver: CANDIDO, O Direito à

também ser garantidos o direito à crença, opinião, ao lazer, à arte e à literatura317. Esse acesso à arte e à literatura, segundo o A. Candido, importa em proporcionar à maior quantidade de pessoas o contato com todos os níveis da cultura – da popular à erudita.

Apesar do “Direito à Literatura” não pertencer aos âmbitos das pesquisas normalmente realizadas na área do “Direito e Literatura”, não poderíamos nos furtar em mencioná-la, pois sua tese central, a saber, a humanização pela literatura, segue na mesma linha das afirmações realizadas pelos estudiosos do Law and Literature Movement. No entanto, Antônio Cândido vai ainda mais adiante, pois afirma que a literatura não apenas humaniza o indivíduo, mas, sim, que é uma necessidade contigente à humanidade que este carrega em si. Eis a razão pela qual pugna que dentro daquilo que se denomina na área jurídica como direitos fundamentais, deve-se entender também o direito à literatura.