3. HERMENÊUTICA JURÍDICA E LITERATURA
3.3. O “ACESSO HERMENÊUTICO” E A OITIVA DA LINGUAGEM
Parece essencial realizar uma nova espécie de justificação operatória do uso dos conceitos de “acesso hermenêutico” e “oitiva da linguagem” acima utilizados, pois são eles essenciais aos capítulos que se seguem.
A expressão “acesso hermenêutico” é de autoria do professor português José Lamego que, em sua dissertação de mestrado em ciências jurídicas, apresentada na Faculdade de Direito de Lisboa no ano de 1987, fez uma recensão crítica das formas de “recepção” das doutrinas da “Hermenêutica filosófica” no pensamento de autores variados da teoria do direito. Em seu trabalho, Lamego analisou, ainda, os distintos “níveis filosóficos” da mencionada recepção, destacando Ronald Dworkin e Arthur Kaufmann como seus maiores “receptores”355 – cada qual a seu modo.
A análise das consequências da recepção da hermenêutica filosófica, na teoria do direito, foi realizada a partir daquilo que Lamego definiu como “fractura que [...] se opera mediante a <<viragem ontológica>>, devida a HEIDEGGER e GADAMER, e a equiparação, nessa linha, por GADAMER, da Hermenêutica à filosofia prática e ao modelo aristotélico do exercício da phronesis.” Tal fractura liberta a dogmática jurídica do conceito de verdade como correspondência, lançando-a em direção à compreensão dessa “em termos hermenêuticos, como <<desocultação>> (aletheia)”356.
A atenção de Lamego estava voltada, dessa forma, a recensear as abordagens teóricas que acompanharam ou não essa viragem ontológica e, consequentemente, se superaram ou não as implicações de adoção de um método fixo (enquanto metodologia a ser estritamente seguida, como um passo-a-passo). Com isso, portanto, o professor lusitano examinou minuciosamente essa “viragem hermenêutica” na teoria do direito, tanto no nível das metodologias esboçadas quanto no nível filosófico dos modos de “recepção”357.
É necessário ressaltar que o modelo de racionalidade a guiar o trabalho aqui realizado, a saber, a Crítica Hermenêutica do Direito, que apenas tomou forma a partir de 1999 com a
354 Pois esse foi o ano de entrada em vigor do Código de Processo Penal português. 355 LAMEGO, Hermenêutica e jurisprudência, op. cit., pp. 89, 91, 98, 105 e 111. 356 Idem, ibidem, pp. 90-91.
publicação da primeira edição de Hermenêutica jurídica e(m) crise, tem suporte também – para além do já exposto no capítulo anterior – nas lições de José Lamego358.
Embora à época da publicação de Hermenêutica e Jurisprudência: análises de uma recepção, obra a partir da qual operamos com o conceito de “acesso hermenêutico”, a Crítica Hermenêutica do Direito ainda não existisse, a definição dada pelo professor lusitano a uma hermenêutica jurídica calcada no legado deixado por Heidegger e Gadamer parece descrever em termos precisos o que, uma década após a publicação de sua tese de mestrado, veio a ser a CHD. Veja-se:
Para uma Hermenêutica assente em pressuposições existenciais-ontológicas, a atitute <<interpretativa>> ou <<compreensiva>> terá que ver não com questões de <<subjectividade>> ou <<objectividade>> do sentido de algo que é <<dado>> ao intérprete, mas de um <<agir mediador>> que elabore e potencie as possibilidades projectadas no <<compreender>>, identificado este, na expressão de HEIDEGGER, com o <<ser de tal poder-ser>>.359 O excerto acima parece referir-se, com uma inegável antecedência, à tentativa da CHD em abrir uma clareira no pensar-o-direito, a partir da superação daquilo que foi identificado como o “paradigma de dupla-face”360 dominante na dogmática jurídica. Essa clareira,
entretanto, somente é possível pelo acesso hermenêutico a que Lamego se refere.
Por “oitiva da linguagem”, no entanto, aqui se faz referência aos ensinamentos do Heidegger tardio, em especial daquilo exposto no ciclo de palestras ministradas por na década de 1950, as quais foram posteriormente reunidas e publicadas no Brasil sob o título de A caminho da linguagem361.
Na exposição intitulada A linguagem, realizada em outubro de 1950 na cidade de Bühlerhöhe, em Alemanha, o filósofo afirma: “A linguagem é: linguagem. A linguagem fala. Caindo no abismo dessa frase, não nos precipitamos todavia num nada. Caímos para o alto. Essa altura entreabre uma profundidade” 362.
O espaço entreaberto na afirmação de que a linguagem fala é preenchido por Heidegger através da análise do poema Uma tarde de inverno, de autoria de Georg Trakl. Isto é, o filósofo busca falar sobre a fala da linguagem, procurando na poética do poema o próprio falar da linguagem. Isto porque, o pensador alemão sabe que o poeta, ao “poetizar”, imagina
358 STRECK, Lenio. Hermenêutica Jurídica e(m) crise: uma exploração hermenêutica da construção do direito. Livraria do Advogado. Porto Alegre. 1999. p. 155 ss.
359 LAMEGO, Hermenêutica e jurisprudência, op. cit., p. 91. 360 Ver capítulo 2, nota 67.
361 HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 7ª ed. Ed. Vozes, Petrópolis/RJ. Ed. Universitária São Francisco, Bragança Paulista. 2015.
algo que poderia existir realmente e, ao concretizar este “poetizar” pela escrita, representa numa imagem o que foi imaginado. Ciente disso, Heidegger afirma que é “a imaginação poética que se exprime na fala do poema”, a qual “nomeia uma tarde de inverno”363.
Isto significa que a fala do poema nomeia! A fala do poema, que é a concretização do poetizar do poeta, é capaz de nomear o imaginado por ele. Este nomear, por sua vez, importa em evocar o imaginado que poderia existir. Ou seja, nomear não importa em atribuir uma palavra, um nome, aos objetos conhecidos e representáveis, mas sim em evocar para a palavra aquilo que se fala.
Esse abismo entreaberto pela fala da linguagem, aproxima o que se evoca pelo nomear. Essa evocação para a palavra, entretanto, traz para a proximidade aquilo que até então não havia sido convocado para vigorar aqui e deixar de ser ausência. No entanto, alerta o filósofo que esse “vigorar aqui” não se basta no como de uma localização espacial, como algo que existe em determinado recinto, mas, sim, numa vigência que se abriga na ausência, pois vem até nós através de uma “evocação nomeadora” que a retira de seu abrigo ausente364. Categoricamente
afirma Heidegger: “A evocação convida as coisas de maneira que estas possam, como coisas, concernir aos homens”, pois ao nomear, “as coisas nomeadas são evocadas em seu fazer-se coisa”365.
Conforme visto no item 2.1.1, a analítica da existência possibilita lançar o pensamento filosófico na profundidade do lugar de onde ele – o pensamento – brota e para onde retorna, onde é capa de ir e vir ao encontro dos fenômenos na abertura originária. Eis o local onde as coisas nomeadas se manifestam pelo seu fazer-se coisa.
Esse local é o conceito de mundo Heideggeriano, que opera como condição de possibilidade para o pensamento filosófico permanecer a caminho da compreensão dos fenômenos em sentido fenomenológico. Este pensar mantém-se ciente de que “atrás” dos fenômenos da fenomenologia não há nada366. Ou melhor: não há, para trás desse âmbito em que se manifestam os fênomenos da fenomenologia, “coisas” a serem nomeadas pela evocação nomeadora para, asssim, fazer-se coisa.
Nesse conceito de mundo, portanto, está implícito algo que vai além do simples somatório de objetos, de entes existentes e subsistentes. Está aí inserida, nesse mundo, uma espécie de “recorte de materiais que são trabalhados historicamente”, cujas “construções
363 HEIDEGGER, A linguagem, op. cit., pp. 14-15. 364 Idem ibidem, p. 16.
365 Idem, ibidem, pp. 16-17. 366 Ver nota nº 54.
pressupõem um a priori, uma condição de possibilidade, uma dimensão de transcendentalidade que não é a própria delas, das construções, mas que é o universo onde elas se fundamentam”367.
Dessa forma, a afirmativa de que se busca um acesso hermenêutico à dimensão interpretativa do direito, pela oitiva da linguagem, importa na compreensão da inafastabilidade do sentido de mundo como condição de possibilidade que não limita o horizonte de compreensão à dimensão meramente empírica, por ter o tempo como o horizonte de toda e qualquer compreensão do ser. Essa ciência quanto à inserção desde sempre no mundo, é a garantia de que a explic(it)ação do compreendido neste trabalho caminha nos trilhos, nas sendas, da linguagem.
A expressão “da linguagem” nos remete à concretude do desenrolar da existência na temporalidade. Isto é, o desenvolver do princípio constitucional doravante analisado (liberdade de expressão). É uma referência à compreensão do ex-surgir da “coisa mesma”, alcançada pela oitiva da linguagem e da “nomeação” do ser na temporalidade.
É dessa forma, portanto, que o conceito de mundo Heideggeriano, exposto no item 2.1.1 está na base da construção teórica aqui proposta: ele é a sustentação da dimensão intepretativa do direito. Dimensão essa que, com apoio em Lamego e na CHD, se busca adentrar através de um “acesso hermenêutico”.
Embora pareça óbvio, não podemos nos furtar de afirmar que essa oitiva da linguagem será explicada através...da própria linguagem. Afinal, nós falamos “a partir da linguagem” e isso “só nos é possível porque já sempre pertencemos à linguagem. O que é que nela escutamos? Escutamos a fala da linguagem”368.
Em assim sendo, os conceitos aqui esclarecidos, aliados ao método delineado ao longo do segundo capítulo, correspondem às ferramentas necessárias para uma experiência com a linguagem, em busca da compreensão do desenrolar historial do direito. Tal experiência, aparentemente, há de configuar uma experiência a caminho da linguagem pública que é o direito.
Espera-se, assim, que essa tentativa de compreender o desenrolar historial das transformações do direito, tendo como objeto investigado o princípio constitucional da liberdade de expressão, através de um acesso hermenêutico à dimensão interpretativa do direito, em busca da oitiva da linguagem, proporcione aquilo que Heidegger definiu como “trazer a
367 STEIN, Mundo vivido..., op. cit., p. 163.
368 HEIDEGGER, Martin. O caminho para a linguagem. In: HEIDEGGER, A caminho da linguagem, op. cit., pp. 192-216, p. 203.
linguagem como linguagem para a linguagem”369. Dessa forma, a narrativa deste experimento há de ser uma narrativa sobre as transformações do direito.