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2. O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E O

2.2 Direito Internacional dos Direitos humanos

O Direito Internacional dos Direitos Humanos é uma disciplina autônoma320 do Direito Internacional Público que visa a proteger e promover a dignidade humana em caráter universal e integral, ou seja, sem distinção de qualquer espécie e abrangendo todos os valores que a evolução histórica e

social estabeleceram como relevantes para a vida humana,

independentemente do Estado sob cuja jurisdição o indivíduo se encontre e da circunstância que esteja vivendo.

Thomas Buergenthal define o Direito Internacional dos Direitos Humanos como o “Direito que trata tanto da proteção de indivíduos e grupos contra a violação, por parte dos Governos, de seus direitos internacionalmente garantidos, como da proteção desses direitos”321. Nesse sentido, o autor

identifica o Direito Internacional dos Direitos Humanos com o sistema de Proteção Internacional dos Direitos Humanos, ou seja, entende que esse ramo do Direito abrange não só um conjunto de normas, como também mecanismos para a promoção da eficácia dessas normas.

Nasce o Direito Internacional dos Direitos Humanos a partir da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, a qual, por sua vez, é fruto do interesse da comunidade internacional, reunida ao redor da Organização das Nações Unidas (ONU), cuja criação é resultado direito da II Guerra Mundial e cujo principal objetivo é promover e manter a paz. Aliás, é princípio adotado pela ONU o de que a paz tem relação direta com o respeito à dignidade humana, visão que é referendada por parte da doutrina quanto ao tema, como bem expressa Bobbio, que afirma a indissociabilidade entre a paz e a solução do problema dos direitos humanos, afirmando que existe uma

320Para Carlos Ayala Corao, a autonomia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é fruto da projeção que o tema dos direitos humanos alcançou no cenário internacional. Nesse sentido, afirma o autor: “Mientras que en el Derecho Internacional Público, el tema de los

derechos humanos ha adquirido una proyección tal que su evolución há permitido consolidar la formación de una nueva rama denominada el ‘Derecho Internacional de los Derechos Humanos”. AYALA CORAO, Carlos M. Las consecuencias de la jerarquía constitucional de los tratados de derechos humanosIn: LEÃO, Renato Zerbini Ribeiro (coord.). Os rumos do direito internacional dos direitos humanos: estudos em homenagem a Antônio Augusto Cançado

Trindade, Tomo V, p. 86.

321BUERGENTHAL, Thomas. International human rights. Minnesota: West Publishing, 1988, p. 1. Apud PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional, p. 8.

“estreitíssima conexão entre o tema da paz e o tema da proteção dos direitos do homem”322.

A doutrina, aliás, registra que o estabelecimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos, não obstante ser o resultado de uma longa evolução histórica, tem relação direta com os grandes conflitos vividos pela humanidade no século XX. Exemplo dessa tese é externado por Hernán Salgado Pesantes:

Para superar la barbarie de la primera y segunda guerras mundiales, la comunidad internacional consideró que no podía permanecer impasible frente a la violación de los derechos de la persona por parte de un Estado y buscó construir un sistema de protección de las libertades y derechos.323

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é, como afirma Lindgren Alves, o “marco normativo fundamental”324do início da construção do sistema de proteção internacional dos direitos humanos, formado por tratados internacionais que consagram esses direitos e que implicam em obrigações jurídicas para as partes e por mecanismos de monitoramento da eficácia e de implementação desses direitos, que, eventualmente, podem atuar para aplicar sanções por seu descumprimento. Como afirma Bobbio: “Depois da Declaração Universal, a proteção dos direitos humanos passou a ter ao mesmo tempo eficácia jurídica e valor universal”325, materializada por meio de uma série de

tratados que vão consagrar esses direitos e por uma estrutura organizacional voltada a promover a eficácia concreta dos direitos humanos na vida mundial, a qual inclui, inclusive, órgãos jurisdicionais.

322BOBBIO, Norberto. Teoria geral da política, p. 486.

323SALGADO PESANTES, Hernán. La constitución y los derechos humanos In: LEÃO, Renato Zerbini Ribeiro (coord.). Os rumos do direito internacional dos direitos humanos: estudos em homenagem a Antônio Augusto Cançado Trindade, Tomo V, p. 70. No mesmo sentido, Carlos Ayala Corrao, que afirma: “El impacto de los crímenes ocurridos en la pré-guerra y durante la

Segunda Guerra Mundial va a llevar al reconocimiento expreso por los Estados integrantes de la comunidade internacional de los Derechos Humanos”. AYALA CORAO, Carlos M. Las consecuencias de la jerarquía constitucional de los tratados de derechos humanos. In: LEÃO,

Renato Zerbini Ribeiro (coord.). Os rumos do direito internacional dos direitos humanos: estudos em homenagem a Antônio Augusto Cançado Trindade, Tomo V, p. 88.

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ALVES, José Augusto Lindgren. O sistema de proteção das Nações Unidas aos direitos

humanos e as dificuldades brasileiras.In: CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto (editor). A incorporação das normas internacionais de direitos humanos no direito brasileiro, p. 239.

É também a Declaração Universal, e por conseguinte todo o Direito Internacional dos Direitos Humanos um marco no início do processo de reavaliação do universo jurídico, voltado à valorização da pessoa e à relativização da soberania nacional e do positivismo exacerbado, que normalmente se encontram em patamar de maior importância no pensamento e na práticas jurídicas, que ocorreu, lembramos, em reação a diversas atrocidades que ocorreram na história da humanidade. A respeito, afirma Cançado Trindade:

Tais atrocidades despertaram a consciência jurídica universal para a necessidade de reconceitualizar as próprias bases do ordenamento internacional. Já não se sustentava o monopólio estatal da titularidade de direitos, que abandonava os indivíduos à intermediação discricionária dos Estados nacionais para a proteção de seus direitos. Já não se sustentavam os excessos de um positivismo jurídico degenerado, que excluiu do ordenamento jurídico internacional o destinatário último das normas jurídicas: o ser humano. Impunha-se restituir ao ser humano a posição central – como sujeito de direito, tanto interno como internacional – de onde havia sido alijado, com as conseqüências desastrosas já assinaladas.326

A Declaração compreende a proclamação de direitos considerados inerentes a toda a espécie humana sem distinção de qualquer espécie e entendidos como fundamentais para que a vida humana se desenvolva na dignidade e que, em última instância, se alcance uma paz duradoura. A propósito do conteúdo protetivo da Declaração, Lindgren Alves afirma:

Em seus 30 artigos, a Declaração consagrou, pela primeira vez em nível internacional, os direitos humanos – civis, políticos, econômicos, sociais e culturais – até então constantes, quando tanto, de documentos e declarações esparsas existentes apenas nas esferas nacionais.327

O Direito Internacional dos Direitos Humanos proclama e visa a proteger e promover um conjunto de padrões mínimos de comportamento e de proteção da dignidade da pessoa humana que deve ser observado universalmente, ou seja, sem distinção de qualquer espécie, nos termos definidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que estabelece, em seu artigo II, que “Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie,

326

CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos

humanos, v. 2. p. 414.

seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”328.

É o Direito Internacional dos Direitos Humanos o resultado daquilo que Cançado Trindade chama de “jurisdicionalização”329 dos direitos humanos. Com efeito, o Direito Internacional dos Direitos Humanos compreende uma série de tratados internacionais que consagram aqueles direitos considerados inerentes à pessoa humana e fundamentais para que se realize a sua dignidade, tornando juridicamente obrigatória a observância desses direitos e abrindo a possibilidade de sanções por seu descumprimento. Ao mesmo tempo, Thomas Buergenthal assinala que o Direito Internacional dos Direitos Humanos vem procedendo à humanização do Direito Internacional, fazendo com que este ramo do universo jurídico se preocupe com a proteção de direitos do ser humano, e à internacionalização dos direitos humanos, impondo regras de comportamento a diferentes Estados, voltadas à promoção e proteção da dignidade humana. Com tudo isso, o Direito Internacional dos Direitos Humanos contribuirá para a formação de um contexto internacional que, no dizer de Valério Mazzuoli, será “marcadamente humanizante e protetivo”330.

Visa também o Direito Internacional dos Direitos Humanos, Antônio Augusto Cançado Trindade, a oferecer, a título de propósito básico, “proteção integral”331 ao indivíduo não importa onde se encontre e em que condição viva. Nesse sentido, pretende esse ramo do Direito cuidar da promoção da dignidade humana em todos os aspectos considerados relevantes para a vida da pessoa, naquilo que Cançado Trindade chama de “concepção necessariamente integral dos direitos humanos”332, pela qual estes devem se preocupar com todos os tipos de direitos da pessoa (civis, políticos, econômicos, sociais, culturais etc.). Ainda nesse mesmo sentido, pretende o

328A propósito, Flávia Piovesan afirma que, com o Direito Internacional dos Direitos Humanos, são criados “parâmetros globais de ação estatal, que compõem um código comum de ação, ao qual os Estados devem se conformar, no que diz respeito à promoção e proteção dos direitos humanos”. PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional, p. 5. 329 CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos

humanos, v. 1, p. 30.

330MAZZUOLI, Valério de Oliveira. O novo §3º do art. 5º da Constituição e sua eficácia. Revista

Forense, volume 378 (março/abril), Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 90.

331 CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos

humanos, v. 1, p. 30.

Direito Internacional dos Direitos Humanos cuidar da proteção e promoção da dignidade humana sem compartimentalizar os direitos humanos em categorias ou gerações, a serem realizadas de modo diferenciado, preconizando que todas as categorias de direitos devam ser igualmente objeto de preservação, remetendo ao caráter uno e indivisível desses direitos.

É o que afirma Cançado Trindade, nos seguintes termos:

O Direito Internacional dos Direitos Humanos se insurge contra a seletividade discricionária, seja no tocante aos destinatários de suas normas, seja em relação às condições de aplicação das mesmas. Quanto aos primeiros, sustenta que os direitos humanos se impõem de igual modo, consoante os mesmos critérios, a todos os países. Quanto às segundas, não admite que se “escolham” determinados direitos a promover e proteger à exclusão dos demais, adiando a realização destes a um futuro indefinido, geralmente sob o pretexto da alegada falta de recursos materiais.333

Ainda sobre o caráter eminentemente protetivo do Direito Internacional dos Direitos Humanos, Cançado Trindade chama este ramo da Ciência Jurídica de “direito de proteção”, sustentando que:

O Direito Internacional dos Direitos Humanos afirma-se em nossos dias, com inegável vigor, como um ramo autônomo da ciência jurídica contemporânea, dotado de especificidade própria. Trata-se essencialmente de um direito de proteção, marcado por uma lógica própria, e voltado à salvaguarda dos direitos dos seres humanos, e não dos Estados.334

É objeto desse ramo do Direito tutelar aquilo que Alexandre de Moraes chama “bens da vida primordiais”335, como “a vida, a liberdade e a segurança”336, para o que, cabe ressaltar, o próprio Direito Internacional dos Direitos Humanos também contempla instrumentos políticos e jurídicos voltados a garantir a efetiva implementação dos direitos consagrados nos tratados internacionais, formando aquilo que se pode chamar de “Sistema de Proteção Internacional dos Direitos Humanos”.

Flávia Piovesan também destacará esse caráter de instrumento de proteção de que se reveste o Direito Internacional dos Direitos Humanos,

333CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Op. cit., p. 25.

334Id. p. 20. A menção ao termo “direito de proteção” aparece ainda no volume 2 da obra. Ver: CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos

humanos, v. 2, p. 122.

335MORAES, Alexandre de. Direitos humanos fundamentais, p. 17. 336Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo III.

voltado à consagração de “parâmetros protetivos mínimos de defesa da dignidade”337. Em outras palavras, afirma a autora:

Saliente-se, ademais, que os tratados de direitos humanos contemplam parâmetros protetivos mínimos, buscando resguardar um “mínimo ético irredutível” concernente à defesa da dignidade humana.338

O caráter protetivo do Direito Internacional dos Direitos Humanos implica em que os tratados na área se revestem de uma índole especial. Com efeito, enquanto o Direito Internacional tradicional preocupa-se com a regulação das relações que envolvam Estados e organizações internacionais, o Direito Internacional dos Direitos Humanos se preocupará com a relação entre os Estados e as pessoas submetidas a sua jurisdição, às quais são reconhecidos direitos que a entidade estatal se compromete a assegurar, seja nas relações Estado-indivíduo, seja nas relações privadas.

Nesse sentido, Edmundo Vargas Carreño apresenta o teor de parecer da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que externa a natureza especial dos tratados que consagram esses direitos:

Los tratados modernos sobre derechos humanos, en general, y, en particular, la Convención Americana, no son tratados multilaterales de tipo tradicional, concluídos en función de un intercambio recíproco de derechos, para el beneficio mutuo de los Estados contratantes. Su objeto y fin son la protección de los derechos fundamentales de los seres humanos, independientemente de su nacionalidad, tanto frente a su propio Estado como frente a los otros Estados contratantes. Al aprobar estos tratados sobre derechos humanos, los Estados se someten a un orden legal dentro del cual ellos por el bien comun, asumen varias obligaciones, no en relación con otros Estados, sino hacia los individuos bajo su jurisdicción.339

Cançado Trindade também lembra que o Direito Internacional clássico não pode ser identificado com o Direito Internacional dos Direitos Humanos, visto que, enquanto aquele estabelece regras de convivência entre os Estados e organizações internacionais que pactuam internacionalmente,

337PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional, p. XXII.

338 PIOVESAN, Flávia. Reforma do Judiciário e direitos humanos. In: ALARCON, Pietro de Jesus Lora; LENZA, Pedro; TAVARES, André Ramos. Reforma do Judiciário: analisada e comentada, p. 71.

339 VARGAS CARREÑO, Edmundo. Los tratados de derechos humanos en el derecho

internacional y constitucional contemporâneo. In: LEÃO, Renato Zerbini Ribeiro (coord.). Os rumos do direito internacional dos direitos humanos: estudos em homenagem a Antônio

Augusto Cançado Trindade, Tomo V, p. 16. O parecer listado é o O.C. 2/1982. Série A Nº 2. Par. 29.

este se preocupa com considerações de interesse geral, que vão além dos meros interesses das partes contratantes, voltados à proteção dos direitos inerentes à pessoa. Têm os tratados de direitos humanos, portanto, caráter especial, por conta de seu objeto específico, que é o de reconhecer e proteger a dignidade inerente ao ser humano, que se reveste de interesse coletivo da comunidade internacional. Nesse sentido, afirma o autor:

Os tratados de direitos humanos são claramente distintos dos tratados do tipo clássico, que estabelecem ou regulamentam direitos subjetivos, ou concessões ou vantagens recíprocas, para as Partes Contratantes. Os tratados de direitos humanos, em contrapartida, prescrevem obrigações de caráter essencialmente objetivo, a serem garantidas ou implementadas coletivamente, e enfatizam a predominância de considerações de interesse geral ou ordre public, que transcendem os interesses individuais das Partes Contratantes. 340

O caráter peculiar dos tratados de diretos humanos, voltado a proteger os direitos essenciais da pessoa humana tanto frente aos Estados como, acrescentamos, aos demais membros da sociedade, é destacado pela própria Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual também faz menção a entendimento similar, adotado pela Comissão Européia de Direitos Humanos:

La Corte debe enfatizar, sin embargo, que los tratados modernos sobre derechos humanos, en general y, en particular, la Convención Americana, no son tratados multilaterales de tipo tradicional, concluidos en función de um intercambio recíproco de derechos, para el benefício mutuo de los Estados contratantes. Su objeto y fin son la protección de los derechos fundamentales de los seres humanos, independientemente de su nacionalidad, tanto frente a su próprio Estado como frente a los otros Estados contratantes. Al aprobar estos tratados sobre derechos humanos, los Estados se someten a un orden legal dentro del cual ellos, por el bien comun, asumen varias obligaciones, no en relación con otros Estados, sino hacia los individuos bajo su jurisdicción. El carácter especial de estos tratados ha sido reconocido, entre otros, por la Comisión Europea de Derechos Humanos, cuando declaró que las obligaciones asumidas por las Altas Partes Contratantes en la Convención (Europea) son esencialmente de carácter objetivo, diseñadas para proteger los derechos fundamentales de los seres humanos de violaciones de parte de las Altas Partes Contratantes en vez de crear derechos subjetivos y recíprocos entre las Altas Partes Contratantes ("Austria vs. Italy", Application No. 788/60, European Yearbook of Human Rights, (1961), vol. 4, pág. 140).341

340 CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos

humanos, v. 2, p. 29-30.

341 CorteIDH, Parecer Consultivo Nº 2, 24/09/1982. Apud AYALA CORAO, Carlos M. Las

O fundamento do Direito Internacional dos Direitos Humanos é o valor da dignidade humana, inerente à pessoa onde quer que se encontre, não importando qualquer condição de que se reveste, a qual será necessariamente secundária em vista dessa dignidade intrínseca.

Ao analisar a noção de dignidade humana, Canotilho entende esta como a idéia de que o indivíduo é “conformador de si próprio e da sua vida segundo seu próprio projeto espiritual”342 ou o reconhecimento de que a pessoa é “limite e fundamento do domínio político”343 do Estado, devendo este

servir ao indivíduo, e não este ao aparelho estatal. A respeito da dignidade humana, escreve Fábio Konder Comparato:

O que se conta, nestas páginas, é a parte mais bela e importante de toda a História: a revelação de que todos os seres humanos, apesar das inúmeras diferenças biológicas e culturais que os distinguem entre si, merecem igual respeito, como únicos entes no mundo capazes de amar, de descobrir a verdade e criar a beleza. É o reconhecimento universal de que, em razão dessa radical igualdade, ninguém – nenhum indivíduo, gênero, etnia, classe social, grupo ou nação – pode afirmar-se superior aos demais.344

Nasce o Direito Internacional dos Direitos Humanos da necessidade primordial de oferecer proteção efetiva aos direitos humanos em nível internacional diante de tantos episódios históricos que, nos termos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “ultrajaram a consciência da Humanidade”345, configurando assim novo e importante momento de

preocupação com os direitos inalienáveis e inerentes da pessoa humana. Entretanto, este novo ramo do Direito é resultado de uma longa evolução histórica e social, como afirmou o então Secretário-Geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, citado por Cançado Trindade, nos seguintes termos:

A idéia de direitos humanos é, assim, tão antiga como a própria história das civilizações, tendo logo se manifestado, em distintas culturas e momentos históricos sucessivos, na afirmação da dignidade da pessoa humana, na luta contra todas as formas de dominação e exclusão e opressão, e em prol da salvaguarda contra Renato Zerbini Ribeiro (coord.). Os rumos do direito internacional dos direitos humanos: estudos em homenagem a Antônio Augusto Cançado Trindade, Tomo V, p. 94-95.

342CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição, p. 225. 343Id. p. 225.

344COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos, p. 1.

345Em suas consideranda, a Declaração Universal dos Direitos Humanos registra que “que o desprezo e o desrespeito pelos direitos do homem resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade”

o despotismo e a arbitrariedade, e na asserção da participação na vida comunitária e do princípio da legitimidade”.346

Dentre os fatos que mais contribuíram para a formatação do Direito Internacional dos Direitos Humanos, destaca-se a II Guerra Mundial, que levou a que a humanidade, no dizer de Flávia Piovesan, passasse a “reconhecer que a proteção dos direitos humanos constitui tema de legítimo interesse e preocupação internacional”347, passando o tema da promoção e proteção da

dignidade humana a constituir tema da agenda de cooperação internacional, transcendendo, portanto, os limites da soberania estatal. É nesse sentido que Louis Henkin afirma:

O emergente Direito Internacional dos Direitos Humanos institui obrigações aos Estados para com todas as pessoas humanas, e não apenas para com estrangeiros. Esse Direito reflete a aceitação geral de que todo indivíduo deve ter direitos, os quais todos os Estados devem respeitar e proteger. Logo, a observância dos direitos