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1. AJUDA HUMANITÁRIA INTERNACIONAL: BASES

1.3. BASES NORMATIVAS

1.3.1. Direito Internacional Humanitário

O Direito Internacional Humanitário era comumente conhecido como o Direito Internacional de Guerra. Pela definição de Gérard Peytrignet,

trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinária, especificamente aplicável aos conflitos armados, internacionais ou não internacionais, e que limita, por razões humanitárias, o direito das partes em conflito de

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Berenice M. Giannella e Beatriz R. Castanheira (1998, p. 170) destacam que: "Direitos assegurados à pessoa humana independem da nacionalidade dos indivíduos e se baseiam, exclusivamente, na sua posição de seres humanos. Os indivíduos, em relação a tais documentos e às instituições, órgãos ou entidades encarregadas de protegê-los, não aparecem através de seu Estado, mas sim "desnacionalizados". As pessoas passam a poder exercer direitos que a elas são atribuídos diretamente pelo direito internacional (droit des gens). Uma vez reconhecidas como titulares de direitos, num passo seguinte, foi-lhes atribuída capacidade processual perante órgãos de supervisão internacional: direito de petição individual, direito de recorrer a instâncias internacionais."

escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra, evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. (CANÇADO TRINDADE, PEYTRIGNET e SANTIAGO, 2004)

A autora Mônica Teresa Costa Souza propõe uma definição mais sintética. Para ela,

o Direito Internacional Humanitário poderia então ser definido de forma mais precisa como o ramo do Direito Internacional Público que tem por fundamento, em tempos de conflitos armados, garantir proteção aos indivíduos ou categorias de indivíduos que não participam ou que já não participam de forma ativa do conflito. (SOUZA, 2007, p.9)

A sistematização deste ramo do Direito tem sua origem no Século XIX e, como grande impulso, a iniciativa solidária e ousada do suíço Henri Dunant. Este testemunhou a tragédia humana em Junho de 1859, na batalha de Solferino, no Norte da Itália, entre as forças armadas francesa e austríaca. Propôs uma ação internacional que limitasse o sofrimento dos doentes e dos feridos nas guerras, incluindo a criação de sociedades nacionais para este fim e sem distinções entre os necessitados de ajuda. Propôs, também, a assinatura de um tratado entre as nações que reconhecesse a ação destas organizações e possibilitassem a assistência humanitária segura. Desta ideia nasceu, em 1863, o Comitê Internacional de Socorro aos Feridos que seria, desde 1880, reconhecido como o ICRC - International Committee of the Red Cross. Os movimentos de aceitação desta iniciativa culminaram na I Convenção de Genebra de 186427 que estabeleceu os fundamentos do Direito Internacional Humanitário.28

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Refere-se à "Convenção sobre o socorro aos feridos nos campos de batalha". Foi assinada aos 22 de agosto de 1864 em Genebra.

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Christophe Swinarski, a partir de apontamentos de Jean Pictet do Instituto Henry Dunant, esclarece que: "embora o ano de 1864, data da criação do primeiro instrumento multilateral do Direito Internacional Humanitário – Primeira Convenção de Genebra –, costume ser considerado como a data de nascimento deste direito, é óbvio que as normas daquele direito existiam com

Em 1868, a Declaração de São Petersburgo determinou a não utilização de armas que causassem sofrimentos inúteis como o emprego de balas explosivas. Este foi o instrumento internacional pioneiro na tentativa de regular os métodos e meios de combate.

As conferências de paz de Haia, em 1899 e 1907, adotaram convenções que definem as leis e costumes da guerra e declarações proibindo práticas como o bombardeamento de cidades indefesas, a utilização de gases tóxicos, e de balas de ponta e mola.

A primeira Convenção de Genebra foi modificada em 1906 para assegurar maior proteção às vítimas da guerra. Em 1907, suas disposições foram estendidas às guerras no mar.

As duas grandes guerras do Século XX destacaram a necessidade de aprimoramento da normatização do Direito Internacional Humanitário. Isto se deveu, principalmente, às alterações ocorridas na natureza dos conflitos, seus meios, e alcance massivo de mortes e destruição.

Assim, entre Abril e Agosto de 1949, na cidade de Genebra, a Conferência Diplomática estabeleceu as novas Convenções de Genebra, sistematizando o Direito Internacional Humanitário da seguinte forma: a Primeira Convenção de 1864, que dispõe sobre os doentes e feridos em campanha; a Segunda Convenção de 1907, dispondo sobre os doentes, feridos e náufragos no mar, a Terceira Convenção de 1929; relativa aos prisioneiros de guerra e a Quarta Convenção de 1949, que trata das vítimas de caráter civil.

Este período pós II Guerra Mundial dá lugar ao surgimento de novos tipos de conflitos. Para Gérard Peytrignet,

tal foi o caso das “guerras de libertação nacional”, “guerras de descolonização”, e “guerras revolucionárias”, nas quais o caráter “interestatal” dos enfrentamentos nem sempre aparecia, e onde a noção de forças armadas “uniformizadas” e “identificadas” era substituída pela de combatentes ou de guerrilheiros. (CANÇADO TRINDADE, PEYTRIGNET e SANTIAGO, 2004)

muita anterioridade. Mesmo fora do âmbito de regras consuetudinárias, já existia um bom número de tratados internacionais bilaterais contendo regras naturais humanitárias na mais remota Antiguidade." (2001, p. 35)

As novas características dos conflitos internacionais demandaram renovadas disposições normativas. Isto ocorreu com a Conferência Diplomática de Genebra sobre a Reafirmação e Desenvolvimento do Direito Internacional Humanitário, realizada entre 1974 a 1977, a qual adotou dois Protocolos Adicionais às Convenções de Genebra de 1949. O Protocolo I se refere aos conflitos internacionais e guerras de descolonização, e o Protocolo II se aplica aos conflitos internos mais graves.29

Observa-se, no surgimento e na construção do Direito Internacional Humanitário, o caráter subsidiário, ou seja, complementar desta normativa internacional.30 Swinarski (2001, p. 36), afirma que,"é necessário destacar este caráter subsidiário da normativa internacional, assim como o fato de que ela corresponde à vontade do próprio Estado expressada por sua adesão a um instrumento internacional, e não só a algumas preocupações setoriais ou aos interesses de alguns grupos de pressão, de caráter político, econômico e ideológico." O autor ainda enfatiza que prevalece a convicção de que o Direito Internacional, em especial no que se refere aos direitos da pessoa, acompanha os pressupostos da ordem pública internacional e os requisitos do bom funcionamento da comunidade humana.31

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A Suíça é o Estado depositário dos tratados e protocolos do Direito Internacional Humanitário e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha - CICV, com sede em Genebra, é a guardiã deste Direito.

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O caráter da subsidiaridade implica que, as ações judiciais que utilizem de um princípio do Direito Internacional Público, precisam primeiramente esgotar os recursos internos de apelação para então serem remetidas a uma instância internacional. No caso da proteção humana, os mecanismos internacionais são, neste sentido, complementares.

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Swinarski (2001, p. 36) destaca que nem sempre o Estado alcança a efetividade dos sistemas internacionais e isto por uma série de fatores interligados. Para compreender este "jogo de parâmetros", "os elementos próprios de um Estado hão de ser identificados, cada vez mais, à luz de sua estrutura jurídica, situação política, tradição para com as normas internacionais, inter-relação entre suas instituições e propriedades de funcionamento de seu aparato estatal." No entanto, a não efetivação total dos sistemas internacionais não exime os Estados inicialmente partícipes dos instrumentos internacionais, de suas responsabilidades nesta esfera. Por outro lado Catarina Araújo Silveira Woyames Pinto (2013) argumenta que os Estados não estão mais sozinhos nesta

O Diplomata Jean Marcel Fernandes (2006) destaca a presença de diferentes articuladores na esfera do Direito Internacional Humanitário e ao seu papel pacificador. Ele ressalta os esforços da Diplomacia e do Direito Internacional Humanitário na busca de metas afins utilizando diferentes métodos. A diplomacia estaria associada ao empenho dos Estados em manter a convivência pacífica no meio internacional. No âmbito do Direito Humanitário Internacional, enfatiza as ações de retorno à harmonia, empreendidas pelo ICRC. Fernandes sublinha que há uma crescente "diplomacia humanitária" que também contribui para as normas consuetudinárias. São esforços que lidam com poderes soberanos, mas priorizam a Humanidade, como também ocorre com os Direitos Humanos e dos Refugiados.32