1. AJUDA HUMANITÁRIA INTERNACIONAL: BASES
2.6. INDIVÍDUOS
No contexto de interdependência entre os autores internacionais e a realidade circundante da globalização, os representantes não estatais assumem crescente importância nas Relações Internacionais. No entanto, o cenário de fortalecimento das instituições e regimes de governança admite também o crescente protagonismo dos Indivíduos, semelhantemente atingidos pela expansão da mobilidade física e da estrutura informacional, verificadas nas últimas décadas.
Os Indivíduos ganham um destaque importante como novos atores humanitários, em um esquema de coordenação internacional que os permite serem agentes locais em uma política global.
Primeiramente há que se destacar que a ação do Indivíduo, influenciando a Política Internacional, não é algo recente. O que é recente é o reconhecimento, pelo meio político internacional, de que os Indivíduos avançam nesta área, em medida ainda não consensuada pelos estudiosos do tema. (SEITENFUS, 2004)
Há que se ressaltar que, o Indivíduo ainda não se inscreve, de maneira consensual, como um sujeito de personalidade jurídica no Direito Internacional Público.138 No entanto, e ressalvada a existência de controvérsias, no contexto de construção das bases da proteção e assistência humanitária, a pessoa humana ganha relevo, sendo cingida não só de direitos e deveres perante a sociedade internacional, mas também de instâncias institucionais para sua melhor expressão. De fato, e ainda que a valorização jurídica da pessoa humana continue em maturação, o que se observa é que, nas esferas institucionais, principalmente nas incorporadas no formato de Organizações Não
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Autores como Flávia Piovesan e Antonio Augusto Cançado Trindade reconhecem o status de sujeito do Direito Internacional Público ao Indivíduo.
Governamentais, o protagonismo do Individuo é evidente e relevante. De modo semelhante, é crescente a sua participação em outras instâncias, ainda que não de modo formal.(EDWUARDS; GAVENTA, 2001)
Assim, a operação do Indivíduo acontece nas várias esferas do cotidiano internacional, partindo desde o local até o global. A globalização e o desenvolvimento galopante de tecnologias de transporte e telecomunicações favorecem a maior mobilidade e participação na vida social internacional com o mais rápido intercâmbio de suas demandas, opiniões e contribuições.
Castro defende que "os atores individuais exercem capacidade de influência, mesmo não tendo nenhum vínculo direto com o Estado." Os que o fazem, em escala global, assim empreendem através de ação planejada e por história pessoal, quase sempre convictos da necessidade de responsabilidade social, de consciência ecológica e de respeito aos direitos fundamentais do homem.139 (2012, p.440-441) O autor menciona os laureados pelo Prêmio Nobel, exemplificando neles os expoentes individuais internacionais que se dedicam, de alguma forma, ao bem comum.140 Este tipo de Indivíduo, também coincide parcialmente com a classificação de Seitenfus sobre os Indivíduos que intervêm na Política Internacional.
Seitenfus estabelece uma categorização dos Indivíduos atuantes na Política Internacional sob três grupos: o primeiro grupo é representado por especialistas e pessoas experientes em determinado tema e que participam, por exemplo, para a tomada de decisões em questões práticas e técnicas na esfera internacional. O segundo grupo é conformado por pessoas que opinam em determinados assuntos,
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Castro destaca, entre outros, os seguintes dois exemplos de indivíduos influentes na política internacional: Mahatma Gandhi e Osama Bin Laden. Este último exemplo dos que agem contra os direitos fundamentais e o Direito Internacional.
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O Prêmio Nobel é um prêmio anual concedido, desde 1901, às pessoas que prestaram grandes serviços à Humanidade, nos seguintes campos: paz ou diplomacia, literatura, química, fisiologia ou medicina e física. O Prêmio Nobel foi instituído em testamento por Alfred Nobel, movido por sua intenção de colaborar para um mundo melhor. Sua atitude derradeira tem estimulado a que novos Indivíduos se destaquem na esfera internacional através de contribuições concretas. Site oficial do Prêmio Nobel. Disponível em: <http://www.nobelprize.org/>. Acesso em 03 de abril de 2014.
baseados em suas convicções, sem mostrar-se comprometidas com legitimação ou necessidade de comprovações. No terceiro grupo estão os Indivíduos premiados por um notório saber. Neste caso, o Prêmio Nobel concede ao premiado uma isenção intelectual e moral no âmbito das Relações Internacionais, favorecendo desdobramentos políticos desvinculados dos Estados. (SEITENFUS, 2004, p.169-171)
Utilizando-se da identificação apresentada por Seitenfus, propõem-se aqui os seguintes exemplos: para o primeiro estariam os pensadores, formadores de opinião e contribuintes para o que se denomina think tanks. Os think tanks podem ser definidos como grupos de reflexão, formal ou informalmente organizados, e que, através de rica produção e difusão de conhecimentos de seus participantes, sobre aspectos objetivos e subjetivos, podem influenciar as definições estratégicas das diversas áreas da vida social, política, econômica ou científica. Notem-se as considerações de Hector Leis.
A potencialidade de um think tank se mede tanto pela pluralidade de seus membros como pela força de suas capacidades para repensar, em comum e sem preconceitos, os temas da agenda política do país e do mundo. Os membros de um think tank podem e devem ter orientações claras a favor das principais valores civilizatórios de nossa cultura – democracia, liberdade, estado de direito, economia de mercado, justiça social e ambiental etc. –, mas o que não podem é agir como militantes cegos de supostos interesses universais. [...] Por assim dizer, os think tanks devem, assumir seus valores de forma cientifica e pragmática. (LEIS, 2009) 141
Ressalta-se que os think tanks avançam em organização para esferas institucionais mais ou menos formais, e em muitos casos, passam a conformar ONGs.142 De qualquer formar, os agentes impulsionadores destes centros de conhecimento são os Indivíduos.143
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Para maiores informações ver: BOUCHER, Stephen; ROYO, Martine. Les Think Tanks: cerveaux de la guerre des idées. Paris: Editions Le Félin, 2006.
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Entre exemplos de Think tanks na área de Ajuda Humanitária Internacional, destacam-se aqui três: 1) The Sphere Project ou Projeto Esfera é uma iniciativa
voluntária que reúne, desde 1997, um amplo conhecimento de diversas agências humanitárias através da participação de 18 indivíduos, seus representantes, e que elaboram anualmente a publicação The Sphere Handbook, o Manual Esfera, ou Carta Humanitária, com princípios e normas comuns ou universais mínimas para a aplicação da ajuda humanitária. Este manual já é reconhecido e utilizado para educar e qualificar o trabalho humanitário em várias organizações internacionais, inclusive no sistema ONU. Disponível em: <http://www.sphereproject.org/>; 2) a CIVICUS: World Alliance for Citizen Participation, criada em 1991 e que conta com mais de 1.120 membros, entre organizações e indivíduos, que acreditam na causa do trabalho solidário. Disponível em:<https://civicus.org/>. Outro exemplo é; 3) a ALNAP - Active Learning Network for Accountability and Performance in Humanitarian Action. Criada em 1997, a ALNAP surgiu como um mecanismo para fornecer um fórum sobre questões de aprendizagem, prestação de contas e de desempenho para o setor humanitário. A necessidade de avaliações no caso de Ruanda (após 1994), deu início aos trabalhos da ALNAP, que consta com a participação de vários tipos de membros, que vão desde organizações ao nível regional como a EU, OIs, Agências da ONU, ONGs e iniciativa privada, até institutos de pesquisa, acadêmicos e especialistas independentes. Disponível em: <http://www.alnap.org/>. Acessos em 02 de maio de 2014.
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Julga-se apropriado destacar o que se entende por opinião pública. Ainda que não seja o foco deste trabalho, é inegável que o tema se reveste de importância, pois trata de resultante de forças privadas interagindo na esfera pública. Para Bobbio (1998, P. 842), "a existência da opinião pública é um fenômeno da época moderna: pressupõe uma sociedade civil distinta do Estado, uma sociedade livre e articulada, onde existem centros que permitam a formação de opiniões não individuais, como jornais e revistas, clubes e salões, partidos e associações, bolsa e mercado, ou seja, um público de indivíduos associados, interessado em controlar a política dos Governo, mesmo que não desenvolva uma atividade política imediata." Mas, acata-se aqui a distinção que Cristina Soreanu Pecequilo faz ao considerar a opinião pública como uma expressão da sociedade civil, parte de uma Força Transnacional. O termo "Força Transnacional", para esta autora, acomoda os atores internacionais em interação com os Estados e as OIs: as ONGs, as Companhias Multinacionais ou Transnacionais, os Grupos Diversos da Sociedade Civil e a Opinião Pública. Para ela "a Opinião Pública Internacional ainda é um movimento embrionário, mas que, com as interações cada vez mais rápidas das comunicações e transportes tem desenvolvido um perfil próprio. As manifestações globais contra Guerra do Iraque em 2003, a defesa do meio ambiente são alguns acontecimentos relacionados a esta consolidação." (PECEQUILO, 2009, p.25) Com isto, se considera que a opinião pública se assenta mais em um nível de abstração intelectual e não de engajamento ativo dos Indivíduos, embora
Para o segundo grupo pode-se indicar os expoentes das artes e celebridades como Paul David Hewson, o cantor irlandês Bono, da Banda U2. Na década de oitenta promoveu grandes eventos em prol da consciência e ao auxílio humanitário para o continente africano.144 Muitas campanhas para o auxílio humanitário associam a figura e as ações presenciais de "embaixadores", como é o caso das campanhas do UNOCHA para o Dia Mundial da Ajuda Internacional, celebrado anuamente, aos 19 de agosto.145
Já no terceiro grupo, estão diversos expoentes laureados pelo Prêmio Nobel, como: Albert Schweitzer (1953), médico, teólogo protestante, músico e filósofo, ativista humanitário, inspirador do movimento Médico Sem Fronteiras; Tawakel Karman (2011), política iemenita e ativista dos Direitos Humanos; Leymah Roberta Gbowee (2011), ativista africana para a paz e o fim à Guerra Civil da Libéria em 2003; Ellen Johnson-Sirleaf (2011), a primeira mulher a presidir um país africano, a Libéria; Albert Arnold "Al" Gore Jr. (2007) é jornalista, ecologista e político democrata nos EUA; Shirin Ebadi (2003), advogada, ex-juíza e ativista dos Direitos Humanos. Elias Wiesel (1986), um judeu escritor, sobrevivente do Holocausto; Anjezë Gonxhe Bojaxhiu ou, como é conhecida, Madre Teresa de Calcutá (1979), missionária católica e atuante na Índia; Alva Reimer Myrdal (1982), premiada pelo seu apoio aos processos de
desarmamento; Jody Williams (1997), professora e ativista
estadunidense na Campanha Internacional para a Eliminação de Minas; Liu Xiaobo (2010), intelectual e ativista pelos Direitos Humanos.146
As ênfases, acima, sugerem que o Indivíduo, com suas habilidades pessoais, mesmo agindo em escalas locais ou internacionais, é capaz de provocar movimentos e reações em alcance global, influenciando assim o meio internacional. Convém mencionar que as motivações das ações humanas, em sua menor ou maior interação com o
também seja influenciada por ele. Os think tanks, por sua vez, são engajamentos específicos, e se estabelecem de modo mais ou menos formal.
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O cantor mantém o site: http://www.bonospolitics.com/ onde disponibiliza obra sobre seu ativismo. Ver: JACKSON, Nathan. Bono's Politics: The Future of Celebrity Political Activism (Paperback). Saarbrücken: VDM Verlag, 2008.
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Maiores informações ver em: <http://worldhumanitarianday.org/>. Acesso em 10 de abril de 2014.
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Disponível em: <http://www.nobelprize.org/>. Acesso em 12 de abril de 2014.
meio internacional, são diversas, oscilando entre a solidariedade147 e o interesse egoístico.
O interesse egoístico está presente em todas as esferas da vida humana. Pode-se afirmar, no entanto, que a presença do interesse é o contraponto que permite a negociação e o avanço nas relações sociais e políticas. O interesse também se insere como ponto de ligação entre partes que decidem cooperar. Convém então questionar quais os interesses que sustentam as ações humanas, quais os que se escondem nas mesmas e qual o papel do Indivíduo neste contexto. Na Ajuda Humanitária, este ponto é sensível, pois este ator é chamado à ação voluntária e solidária.
O conceito de voluntariado difere de acordo com os contextos históricos, políticos e religiosos. Toma-se como importante, no caso da Ajuda Humanitária Internacional, a associação do voluntariado a três critérios: espontaneidade, não retribuição material e finalidade humanitária do ato. Estes critérios são utilizados, também, no âmbito da ONU. (AYRES, 2003, p.20)
De acordo com a Organização das Nações Unidas,
os termos voluntariado, voluntarismo e atividades voluntárias referem-se a uma ampla gama de atividades, incluindo as formas tradicionais de ajuda mútua e auto-ajuda, a prestação de serviços formal e outras formas de participação cívica, realizadas por livre vontade, para o bem público em geral e onde uma recompensa monetária não é o principal fator de motivação (A/RES/56/38). Dentro desta estrutura conceitual, pelo menos quatro tipos diferentes de atividade voluntária podem ser identificadas: a ajuda mútua ou auto- ajuda; o serviço aos outros; a participação ou
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Entre os que advogam um indivíduo agindo por solidariedade e altruísmo está Jeremy Rifkin. Ele defende a ideia de que a humanidade se move e progride apoiada em um potencial empático humano. Esta progressão não se desvincula do desenvolvimento tecnológico. Para ele "as sinergias criadas por um regime de energia e de comunicações facilitam o desenvolvimento de algumas organizações sociais complexas que, por sua vez, formam o quadro para uma mudança qualitativa na consciência humano." (RIFKIN, 2010, p. 246. Tradução própria).
engajamento cívico; e a advocacia ou campanha. (UNV, 2014, p.3)
Pode-se afirmar, como senso comum, que o Indivíduo voluntário é o que se empenha em causas sociais e humanitárias, visando à melhoria na qualidade de vida humana, em exercício de trabalho sem a exigência de qualquer remuneração ou aplicação de lucro.148 Arregimentar voluntários é prática comum na Ajuda Humanitária Internacional, tendo-se buscado engajar pessoas não só com vontade, mas também especializados ou profissionais das áreas envolvidas. Por vezes, as ações do Indivíduo voluntário, engajado nos diversos projetos sociais, vêm complementar uma ação pública ineficiente.
As tecnologias de comunicação têm aproximado realidades distantes e muitas vezes inimagináveis e, especialmente, desde a década de 1980 tem impulsionado a maior participação de voluntários na Ajuda Humanitária Internacional. De um modo geral, há que se ressaltar que o trabalho voluntário tem auxiliado cada vez mais no reforço dos laços sociais, das relações mais humanas e das relações de paz, apoiando-se no princípio da solidariedade em uma dimensão universal.
Importa acentuar as formulações trazidas por Vera H. Westphal sobre os diferentes matizes da solidariedade. Para a autora, a solidariedade é uma categoria moderna e sua concepção data do Século XIX, em resposta às ameaças à dignidade humana, evidenciadas na sociedade industrial. Ela também identifica uma solidariedade pré- moderna, associada ao sentido cristão, aos sentimentos de unidade entre as pessoas de algum modo diferentes. Estas duas formas são encontradas na atualidade. Discorrendo sobre seus vários conceitos e evolução, a autora evidencia o solidarismo francês. Westphal afirma que a solidariedade é a ideia nuclear do solidarismo, conceito desenvolvido na passagem do Século XIX ao XX e influente na abordagem social da filosofia, política e da doutrina católica. O entendimento do solidarismo
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O ator individual voluntário à ação humanitária não o faz somente operando fisicamente mas pode ser também compreendido como o Indivíduo que se dispõe a doar, de forma mais sistemática, recursos materiais e financeiros para as atividades do setor. Este parece ser o entendimento do CAF - Charities Aid Foundation, ao incorporar em seus levantamentos mundiais sobre o voluntáriado, a consideração de doadores financeiros individuais. (CAF - Charities Aid Foundation, 2012)
incluía uma ética-normativa de aceitação consensual e universal. Também previa uma passagem de uma solidariedade natural para uma desejada. A primeira emanando do vínculo de pertencimento social e a segunda é a que possibilita desequilíbrios e desigualdades. Como uma categoria ética ela se presta a prevenir e a preservar a liberdade e a humanidade. (WESTPHAL, 2008)
A solidariedade está ligada a valores como: moral, voluntariado, responsabilidade social e ética, em relação interessante, formulada por Francisco Xavier Alonso Arroyo. Quanto à moral, destaca-se o contraponto deste autor à tradicional relação estabelecida entre a moral e a consciência do indivíduo. Arroyo utiliza do pensamento de Escámez e Gil (2001) ao assinalar que o princípio moral não significa o respeito pela lei presente na consciência humana (autonomia), mas o exercício da responsabilidade pelos outros (heteronomia). (ARROYO, 2004, p. 17)
O princípio moral, para Arroyo, não é algo mais individual, mas está associado à responsabilidade pelos outros. Esta responsabilidade, a serviço de uma sociedade mais justa e solidária, por sua vez, possui uma dimensão alargada, social e política.
A responsabilidade social visa à criação de uma sociedade mais justa e solidária, que é realizada em três níveis de ação: em primeiro lugar, cuidar da população socialmente vulnerável; em segundo lugar, a preocupação com a promoção da integração e da coesão social através do compromisso sócio-político e, em última instância, o bem da humanidade e da sociedade do futuro, respeitando o meio ambiente, a cooperação entre as pessoas e trabalho para a paz. (ARROYO, 2004, p.40, tradução livre)
Entretanto, mesmo abarcando um horizonte vasto, o exercício da responsabilidade social se sustenta em uma disposição voluntária para a ação, partindo do Indivíduo, movido por valores internos.
Neste sentido, o conceito de responsabilidade passa e ultrapassa a conotação de retribuição, de imputação e obrigação legal. A pessoa responde livremente às exigências da realidade social, movida por alguns princípios, convicções e valores que irão impulsioná-la para a ação. Estes valores são morais, porque o seu exercício
melhora a sua vida e faz com que seja mais digna. É deste ponto de vista moral que se discute a questão da responsabilidade. (ARROYO, 2004, p. 16-17, tradução livre)
Como que fechando um circulo, é interessante notar as relações que Arroyo estabelece entre moral e ética, homem e sociedade, voluntariado e política, necessidade humana e responsabilidade social. Ele o faz utilizando-se do pensamento de J.C. Mèlich y Fernando Bárcena (1999) que situam a responsabilidade no centro da ética. Para eles a responsabilidade "[...] não começa com uma pergunta, mas sim com uma demanda de outro homem...". "[...]Não se fundamenta nem se justifica em nenhum compromisso prévio, mas é a fonte de todo pacto e de todo contrato." (Apud ARROYO, 2004, p. 17)
Com as disposições acima, resta registrar que a ação dos Indivíduos na sociedade, idealmente, melhor se assentaria na ação solidária e voluntária, movida pelo exercício de uma responsabilidade social centrada na ética. Esta ação não vem, no entanto, desprovida de interesses sociais e repercussões políticas. O reconhecimento do Indivíduo como agente capaz de influir na Política Internacional associa-se à sua capacidade de produção de conhecimento, de engajamento humanitário para além das fronteiras nacionais e como disseminador de ideias em uma rede informacional estruturada e em ascensão com a globalização. Este Indivíduo, ainda como cidadão nacional, é capaz de se inserir em uma dinâmica internacional, alimentá- la e fortalecê-la, seja por recursos materiais ou não materiais, em ações que influenciam as decisões estatais.149
A tecnologia tem apresentado novas possibilidades para o engajamento e empoderamento do Indivíduo na ação voluntária em nível global. Um exemplo de utilização da rede como instrumento de empoderamento da ação individual através da internet se observa presente nos objetivos, recursos e campo de ação da organização Cibervoluntários. Com sede em Madri, mas atuante em outras partes do globo, além da Espanha, como América Latina e Europa, esta
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É interessante assinalar o ranking dos dez países com o maior número de voluntários doadores de recursos financeiros em 2012, que revela a seguinte sequência: Índia, Estados Unidos, Indonésia, China, Tailândia, Reino Unido, Japão, Brasil, Alemanha e Iran. (CAF, 2012).
organização não está diretamente ligada à atividade de Ajuda Humanitária. 150
Edgar Gata (2011) analisa a aplicação da Teoria da Dádiva de Marcel Mauss na era digital atual, especificamente no humanitarismo através do ciber-voluntariado. Ele afirma que:
a intromissão da internet nas teorias e práticas do voluntariado traz algumas novas potencialidades evidentes. Primeiro, o voluntariado e a acção humanitária adquire, como já referi, uma nova ferramenta que é o conjunto dos novos meios tecnológicos. Segundo, permite-lhe alargar quase exponencialmente quer o âmbito de actuação quer até as novas maneiras de o praticar. Terceiro, permite às organizações de solidariedade recolher mais fundos, encontrar novas metodologias que facilitam apoios pois tudo pode girar em torno de um clic e estender-se numa rede de apoios. Por